sábado, fevereiro 19, 2011

Manuela

Manuela era uma mulher sentada à mesa de refeitório, uma mulher sentada sem qualquer pose. Os seus olhos acompanhavam o movimento da cozinheira que despejava arroz e polvilhava o prato com salada a um ritmo alucinante. Manuela já tinha comido e afastou a travessa em silêncio pronta para sair daquele eco de cantina e luz neónica que lembrava solidões amargas. Ia apanhar o autocarro das 9 de regresso a casa. De caminho ainda comprou cigarros. Chegou a sua paragem e saiu com mais duas pessoas. Uns miúdos passaram por ela e lançaram um insulto que ela não ouviu, disse-lhe depois um senhor à frente “malcriados, andam para aí com pinta de reizinhos”. A pé os 100 metros para casa, cansada dos turnos a desoras. Mão na chave, acerta, roda, puxa, abre. O pai está a dormir, doente. Nem um aceno ao seu chegar. Manuela liga a televisão e prende-se ao canal em tons avermelhados, os actores com ares amarelos, sempre à beira do choro em caras enjoadas. Depois da novela sucedem-se musicais de rua à portuguesa, com uns rapazes a bater palmas muito alargadas, braços no ar, e o pleibeque a contribuir para a bizarria. Adormece no sofá, descalça e lívida, num desmaio de cansaço acumulado. Não faz ideia do que lhe vai acontecer durante a noite, adormece a pensar na estuporada da mulher da novela, a que roubou o marido à outra, a que anda a infernizar a vida da família do personagem principal. Manuela dorme em profundo desconhecimento da poética de Aristóteles, mas cada parte da sua vida é inseparável do todo. Durante a noite um sobressalto, o carro do vizinho dispara o alarme, alguém se encostou e deu de frosques, alguma tentativa de assalto. Manuela acorda e vai para a cama, não consegue dormir. Tem uma palpitação, vai espreitar o quarto do pai. Chega-se mais porque não ouve o respirar pesado do costume. Atenta no susto, pega na mão, pai, nada, pai, nada, verifica a testa, os pulsos, tudo o que se vê nos filmes, à espera de um sinal. Pai. A morte assim àquela hora e naquele inesperado? Manuela sozinha a gemer pela casa aos círculos, sem saber se está triste ou louca, o que se faz, o que se sente, onde está ele, para onde foi assim o pai que já não está no corpo. São 4 da manhã e deverá acordar a família que resta para a partilha do desespero. Não tem forças para isso. Vai à cozinha e come corn flakes, é o que consegue fazer. A horas estranhas de apuros fazem-se coisas banais. Antes de sofrer tudo o que lhe era devido um prato de corn flakes era o mais indicado para aguentar o torpor que aí vem. E uma lágrima vai florindo serenamente no seu olho esquerdo.

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