Quinta-feira, Julho 09, 2009

culpa

Os pais e professores são sempre culpados de pecados terríveis apenas porque são pais e professores, diz o Mishima.

metafísicas

Enquanto fazia cócó a criança confessa-me: “estou desconfiado que o mundo não existe e estamos todos no céu, somos todos imaginação.”

a atracção dos opostos

 O rapaz falava com excitação de política americana pós-Obama. A rapariga ouvia-o embevecida sem comentar, com aquele ar orgulhoso de aprender muitas coisas com o seu namorado. Depois é a vez dela falar com excitação do seu trabalho de actriz  - a dificuldade de “deitar cá para fora aquele texto” e de entrar nas personagens com convicção. O tom psicanalítico não deixa de aflorar. Porém, além dele não saber o que dizer sobre o que ela conta, fica encabulado com os seus gestos alargados e expressões intimistas.

Domingo, Julho 05, 2009

africanistas...

Os ocidentais sempre alcançaram o continente africano para o devolverem como linguagem, no processo de revelar mais sobre si próprios do que propriamente do lugar onde estão. O discurso africanista (termo de Christopher Miller, na esteira de Foucault e Said) projecta os desejos ocidentais na apreensão ilusória de uma "ardósia em branco" de África.

formação de uma consciência

Aimé Césaire explica que começou pela mesma interrogação de sempre. “Éramos atormentados pelas mesmas angústias e, acima de tudo, ficávamos deprimidos pelos mesmos problemas… a nossa juventude não era banal… Era marcada pela lancinante questão, quem sou eu? Para nós, não era uma questão de metafísica, mas de vida a viver, de uma ética a criar, e de comunidades a salvar. Tentávamos responder a esta questão. No final, a nossa resposta foi a Negritude.”

Segunda-feira, Junho 29, 2009

perspectiva




fotografias de Otávio Raposo

Portugal na UE

Das fatias azedas e da sardinha dividida por 4 irmãos até à salada com rúcula e molho de soja alguma coisa terá acontecido.

piada seca

O homem vai à farmácia e pergunta: “tem camisas destas?” (apontando para a dele). O farmacêutico abana a cabeça. “Então dê-me das outras.”

A matança do borrego


O meu tio Palminha atravessava a faca na carótida, depois de ter atado as patas do animal. Deixava o sangue escorrer num alguidar mas sem proveito. Depois abria o estômago, tirava as tripas todas que vêm num saco. Com o bicho pendurado, fazia a descasca da pele, pedacinho a pedacinho com a faca a empurrar a pele, que saía como um tapete de lã que se arranca sem deixar de ser fofinho. Para consumo próprio matava-se no quintal, galinhas e borregos. Na horta - ou monte, depende do grau de peneiras - fazia-se criação de vacas e cavalos. O tio Palminha tinha muito jeito, conhecia bem os animais, tinha ajudantes para matar o porco, mas o resto era homem para dar conta do recado. Eu ficava fascinada a olhar para aquele espectáculo em que o cheiro a sangue me subia com um misto de confiança e desolação com a aflição do animal que, contavam, apesar de tudo, era melhor ser morto assim do que com as idas para o matadouro, pois nessas eles pressentiam a morte a léguas.

era um tipo sofisticado

que gostava de whiskys velhos e mulheres jovens.

Segunda-feira, Junho 22, 2009

nome

Quando ouvimos o nosso nome na chamada das urgências no hospital parece que se referem a outra pessoa ou apenas à pessoa-corpo, pessoa-cidadão, completamente esvaziado. Estranho também quando o ouvimos em resultados de provas ou de concursos. O melhor de nós fica no nome sussurrado no quarto.

ambiente froxo

Há quem discuta a discordância e as fricções que advieram do primeiro modelo proposto ao que se realizou (sou sensível a este argumento). Resume-se a questão das eleições entre quem vota ou não. O poeta retoma os diálogos de cadáveres lembrando outros cadáveres. E alguns vultos vão chegando no meio das aporias. A artista camone grita "to shoot you against the wall". Nada de muito excitante mas eu aqui com a cerveja e o cigarro, quase morta, fico bem no retrato.

não nos calhou sequer a utopia

A energia de 2009 é a do desespero, a de 69 era da esperança e utopia. A juventude vive na precaridade mental e material enquanto à frente do Estado se desenvolve uma corrente reaccionária totalmente desinibida.

Segunda-feira, Junho 08, 2009

é demasiado

Mulheres bem-sucedidas nas suas profissões com desespero e vontade de perder-se; mulheres prisioneiras da eterna juventude, beleza, saúde perfeita, vida sexual activa, bulímicas, anoréxicas, ninfomaníacas; mulheres ansiosas, neuróticas, reformadas, desfocadas; mães distantes ou negligentes, mães obsessivas; meninas selvagens, raparigas raras; seduzidas cegamente, cheias de anseios secretos, desejos reprimidos, culpas, medos, sonhos e conflitos.
Vagos monstros de um olho só.

lógica das Greguerías

O dom das grandes revelações do que nos parecia óbvio e por isso não o víamos.

uf!

Nesse dia ele esteve quase quase para apanhar aquele avião que caiu no meio do oceano. Ainda bem que de vez em quando a campainha daquela verdade simples mas cruel nos vai soando: por muito que se tente afastar a sua iminência, a morte é uma ameaça constante.

No Retiro, em Madrid

As mães passeiam carrinhos de bébés. Depois param o carrinho num banco e lêem ou fazem croché junto a ele, com a serenidade no rosto, apenas levantando de vez em quando os olhos para dar conta da outra serenidade mais pequenina. É o quadro mais belo e verdadeiro que pode haver. Muito mais do que todas as pinturas que desfilaram no museu. Quais retratos e vanguardas.... góticos, impressionistas, fauvistas ou românticos, aquela luz e testemunho vale por tudo!

Quarta-feira, Maio 20, 2009


Namibe, fotografia de Kiluanji Kia Henda

Terça-feira, Maio 19, 2009

reconhecimento

Apesar de andar distraída com a felicidade, reconheço a incapacidade de ser plena.
E também a imbecilidade das mulheres, sempre insatisfeitas com o que lhes faz bem.

duas praias do coração

Deitada na praia da Costa, sinto-me estranha: esta não é a minha praia!
Apesar de não ser lá uma grande praia, estou habituada à ilha de Luanda. É uma praia-casa-escritório ou libertação-do-stress-da-cidade-nervosa. Uma praia de passar quase todos os dias um bocadinho.
Gosto da sensação de estar lá longe noutro continente a pensar Lisboa e as pessoas de Lisboa. E também de esquecer que este mundo do lado de cá existe.
Naquela praia não há estas ondas nem surfistas nem prédios feios atrás. É estranha a familiaridade de quando pisei as areias da Costa me sentir quase lá, de caipirinha e sandes de frango com maionese na mão, com a musicalidade do sotaque angolano e os corpos viçosos em redor. Lembro-me nitidamente de certas vozes e das conversas com gargalhadas pois ir à praia é como ir ao café, pode-se sempre surgir.
Nesta praia da Costa, em vez dos africanos, tugas, chineses, brasileiros, russos, vendedores de panos e colares, estão uns senhores barrigudos com ar de que a frequentam há muitos muitos anos e que se calhar até estiveram em África 'noutras circunstâncias'. Se calhar também nostálgicos disso, como eu, mas das 'outras circunstâncias'.
Não reconheço esta praia a não ser pelo que me transporta para a outra de Luanda. Leva-me ao calor da areia, e à água-caldo-morno, imagem do azul, sempre a nostalgia de uma costa atlântica de onde apetece partir, a solidão muitas vezes, o livro que conseguia absorver melhor, a pele que “emorenece” amante.

rituais

Gostava de ser uma pessoa mais ritualística. Sou em poucas coisas, mas bem precisas: momentos de solidão necessários, escrever no caderninho, tomar café sozinha, cozinhar alguns pratos, trabalhar muito, gostar de estórias secretas, ter pés em vários mundos.
Lembro-me daqueles prazeres simples que tinham os meus avôs quando ia lá almoçar: espremer o sumo de laranja, fazer um bolo de chocolate, bater as natas para os morangos. Durante a manhã cozinhavam os pratos do costume: empadão de carne com esparguete ou frango assado com arroz gratinado com rodelas de chouriço. Depois, se não repetisse no mínimo cinco vezes, ficavam ofendidos e achavam que eu não tinha gostado do repasto. Depois ofereciam-me uma nota (ainda em escudos), descia o elevador e cá de fora virava-me sempre para o alto daquele prédio de Benfica pois o ritual de acenar era indesculpável dispensar. A minha avó morreu, e o avô continuou a fazer isso. A falar menos, mas o prazer simples era o de me ter presente a partilhar / assistir aos seus rituais de solidão.

Quinta-feira, Maio 14, 2009

voar dentro da China

Aviões enormes cheios de chineses com óculos e os seus laptops. Jornal em chinês, grande, com as notícias da crise financeira, que ainda era só da América. Sabem bem que o mundo está a mudar e eles são agentes dessa mudança. De repente o avião para Guangzhou onde houvera um grande tufão, começa a dançar em assustadoras turbulências. Por momentos todos pensamos que vamos morrer. Sobretudo quando o rosto das hospedeiras está, cada vez menos disfarçadamente, alarmado, e o chá e a coca-cola caem no corredor do avião. A visão da morte atravessa-nos todos, brancos e horrorizados. Só queria dar as mãos suadas. A única coisa que me podia reconfortar: morrermos juntos.

“espera lá pá, tenho de escrever isto”

Coleccionar momentos. Passear por uma cidade qualquer:
uma mulher espera o autocarro e angustia-se como vai pagar as despesas escolares do filho;
um rapaz de i-pod lembra-se do campismo do verão;
uma rapariga tem um casaco vermelho e mãos nervosas, vai amanhã ser operada.
Mas eu não sou o anjo das asas do desejo!
Ouvir uma pessoa a falar e querer anotar a situação em que ela está a falar. É a situação, os gestos, não o que está a dizer, que me interessa.
O sabor da maçã é melhor do que a descrição do sabor da maçã?
Memórias adoráveis, cultivadas, para manter vivas as pessoas e os momentos. Lembrar o tempo para trás, amarrar os gestos, para que estes não sejam só acidentes de percurso e nos façam crescer. Dói-me às vezes recordar de forma tão preciosista e acumular, não deitar nada fora do que se viveu.
“A verdadeira substância de um diário não são os acontecimentos exteriores mas a evolução moral da pessoa que escreve” diz o Villa-Matas no Mal de Montano.
Posso escrever todas as banalidades, até as rachas do tecto que observo, o que interessa e depois fica é um estado momentâneo que reflecte mais do que está ali, mais do que espuma dos dias que fica grudada de uma página para a outra.
Gostava mais de coleccionar insólitos.

Quarta-feira, Maio 06, 2009

sms matinal

O Império está fechado vou para o Astro que é perto do Pão de Açúcar.

só nos resta


fotografia de Kiluanji Kia Henda

Só nos resta ser dos mais obstinados, manter a imaginação durante mais tempo, viver segundo os nossos próprios termos, tratar a realidade como um horizonte de expectativas incertas e contingentes, crescer com obstinação e resistência. Pois é da capacidade de nos recriarmos, de escrever com uma nova linguagem, abrir os braços ao presente e à curiosidade que mexe, que nasce o poeta forte.

iman

Uma declaração de guerra é como uma declaração de amor. Estamos em pé de igualdade com o inimigo, quando nos elevamos ou rebaixamos fazemo-lo em função do outro.

também podia ser ao contrário

A tua alegria é o reduto de uma triste desarticulação com a vida, é um estado constante e não um estado de graça. Preferia ver-te chorar, irritavas-me menos.

chatices

Deve ser muito constrangedor viver com um mau poeta, saber isso e não lhe poder dizer.

1973

Ano da morte de combatentes idealistas políticos. Em Portugal nesse ano os jornais diziam que a PIDE era uma invenção e a política ultramarina era um exemplo de respeito pelos direitos humanos.
Que vaidade de pensar que compreedemos as obras do tempo: ele enterra os seus mortos e guarda as chaves. Só nos sonhos e na poesia, nos jogos - acender uma vela e andar com ela pelo corredor - é que por vezes nos aproximamos daquilo que fomos, antes de ser isto que não sabemos se somos.

Julio Cortazar, O Jogo do Mundo

Observação Directa

Ama-se aquilo com que se cruza, mulher, paisagem, caminho, ou porque evoca emoções sabidas ou porque é novo e vem casar com a busca, com o que se adivinha, e é pressentido a sós, e só talvez assim.

Ruy Duarte de Carvalho

Sábado, Maio 02, 2009

jocosidade à portuguesa

Na tasca às 11h da manhã os homens trabalhadores cantarolam e pedem o primeiro favaios do dia enquanto se metem com o homem do café:
- Então Zé, sentes-te bem?
Resposta: - Só me vou sentir bem quando tiver cem anos!
- Já falta pouco Zé.
- Já não falta metade.

grandes poemas do Auto-ajuda

Sabia demais.
Mataram-no.
Sabia tudo.
Suicidou-se.


** *** **

O poeta puramente imagético
disse como se fosse um funcionário da EPAL
justificando a sua visita:
vim para contar a água.


Tiago Gomes

Quinta-feira, Abril 16, 2009

eu escrevo quando me apetece

mas há quem escreva para ajustar contas ou lavar roupa suja. 

triste sorte

Ira de Aquiles, fúria de Filotectes, sofrimento de Prometeu, invectivas de Medeia, loucura de Ájax, desespero de Electra, em nome da justiça se clama vingança e se desencadeava retaliações.

E esta minha triste sina de ser demasiado benevolente...

um dia...

Um dia vou voltar aqui à terra de todas as minhas dúvidas mas onde uma vez também soube confrontar-me e perceber que é comigo o destino e o sofrimento de todas as coisas que toco e nessa validade sofrível dos outros à minha casmurrice e impedimento não me restará nada mais a não ser a solidão profunda de uma ilha, onde o conhecimento se faz como processo vulcânico e quando jorra é fatal, destrutivo mas criador de novas vidas, nova terra feita de cinza e mistério e inóspita pois bem. 


Terça-feira, Março 31, 2009

Luanda sensorial

Ruídos. Carros e carros e carros. Vozes por entre as buzinas. Passos de chinelos.
Pessoas a falar ao telemóvel - Tás onde?
Pessoas a cumprimentar-se - Comé? Tudo fixe?
Pessoas a insultar-se – vou-lhi bater! você vai morrer hoje!
Pessoas a pedir– madrinha, arranja só 100 kwanzas pra comprar pão.
O segurança conversa com a prostituta. Ela sabe dar música. Ele sabe o que ela quer ouvir.
O semba a cantar o orgulho de ser angolano.
Carros a chiar. Motas a arranhar. Todos se comunicam pelo tubo de escape como pelos rabos os cães.
Sirenes de ambulâncias. O doce amortecedor do jeep.
Kinguilas a fazer pssst, pssst, psssssst.
É O QUÊ???
Um avião cheio de chineses a aterrar.
Um candongueiro a despistar-se. Espalha-se contra outra viatura. Já raspou. O choque faz-se ouvir na avenida inteira. Logo os insultos e as palavras à toa.
De quem é a culpa, de quem é a culpa?
A velocidade? Os buracos na estrada? O kuduro a bater?
Ou mi mata ou quêê!!!! Culpa é de um, é do outro, é do pessoal que vai dentro que não fez nada e tem sempre culpa de tudo - penando a vida inteira.

Sai a bitola a estalar, com este calor sabe sempre a pouco. Venha mais uma e outra e mais outra e mais outra ainda e… no final de tudo, não esquecer a da porta.
fim da manhã. camarada: estou fobado. Vou comer na casa da tia Júlia. No quintal o funge fumega. Devoro-o com peixe seco. Encosto-me à cadeira a dormir um cochito.
À noite na discoteca beijo a garina. O beijo sabe a estrelas cadentes.
Fico tonto e flutuo na pista.
Ao levá-la a casa como ginguba para disfarçar o nervoso.
Saboreio um cigarro depois de a ver desaparecer no portão. A 'mboa é linda, vou conquistá-la. A minha língua enrola-se com tanta emoção. A que sabe o mar?

Cinzento e castanho.
Cidade em construção. Prédios a crescer. Todos os dias mais prédios, rebentam bancos e escritórios. A cidade cresce, para cima e sobretudo para os lados.
A terra é palmilhada por casas e casinhas e musseques e coisinhas. Uma cidade em expansão. O pessoal do mundo, o mundo é uma casinha, tá a vir!!! TÁ A VIR!!!! posso falar todas as línguas na banda que alguém me vai entender.
Cores. Vejo arte contemporânea e arte da Mauritânia. O traço, o espaço, a terra que vence o alcatrão. Ano 2007. Luanda tem muito que ver. Tem muito que fazer. Ele quer participar, ele quer estar no ar.
Precisa de ver e ser visto. Dá atenção à visão.
A mulher sentada com o puto de um lado e o abacate do outro.
Os panos, as pernas sempre em movimento. MAS VÃO AONDE?
O mar é um azul que às vezes tem cor de gente. Mexe como nós, em convulsões.

Cheira-me a esturro. O mambo tá a queimar. Perdi tudo perdi tudo. A casa ardeu. O dinheiro voou ontem no boda.
Cheira-me que não vou aguentar até ao próximo fim do mês. Os meses nunca mais acabam, são longos, mas se acabassem logo a vida era muito curta.
Mano, diz só: sentiste a fragrância daquela 'mboa que passou? Perfume de alfazema. Roupa lavada ontem e estendida ao sol. Mmm. Lençóis lavados. Quem me dera dormir mil horas mas tenho de acordar às 3 da manha para vir de Viana para o trabalho.
Na rua o cheiro do esgoto. O cheiro da gasolina. O cheiro das crianças. Cheira a fritos nas escadas.
E já sentiste o cheiro do pó?

O meu corpo modela-se. Sinto a textura da pele. Pele veludo. Pele forte. Pés que conhecem a sorte. Sinto o beijo: a tua língua esconde-se e revela-se. Quer dizer coisas.
As ancas dançam tarrachinha. Encosta mais um pouco... mas deixa que eu te atarrache bem!

Sou matéria sou feita de terra como Samba e tu és feito de fogo como Maweze e foi o deus Suku-Nzambi que nos moldou. Somos desta terra. Aqui nascemos e vivemos.
Somos a matéria que temos, mas também podemos ser outras coisas.

Desequilíbrio.

Domingo, Março 29, 2009

a vida-paródia do Mindelo

Na festa de Carnaval as perucas, cuecas com gabardina, cristas cor-de-rosa e azuis, olhos com sombra prateada, brasileirada alternada com zouk, tinham um mundo próprio. Invadimos o terraço perante a perplexidade de quem acaba de chegar, largando a dançar depois de observar. Na nossa mira pessoas bonitas, crianças, adolescentes sensuais, mulheres de trinta na fúria de viver com aquela amargura canalizada para outra coisa. Ali estávamos em harmonia, numa ilha de corpo humano, longe dos mecanismos das cidades, das capitais, de onde circula o poder e a alta cultura. À nossa medida, a vida desenrolava-se apenas nas voltinhas à praça nova e ao coreto. A namorada nova do estrangeiro, os desatinos de casais com que nos envolvíamos involuntariamente, as intrigas dos meios pequenos, eram um reflexo da imensa atenção que dávamos uns aos outros. O mundo chegava-nos apenas dos filmes de Domingo no cinema Éden e de um ou outro viajante que ali estacionava mas rapidamente passava a percepcionar a sua vida naquela dimensão de ilha para e com aquelas pessoas, nada mais interessava.

o menino burguês visita o colega do bairro social

No meio dos prédios todos iguais, uma casa de minúsculas divisões, uma mãe com ar repreendedor de ignorância cheia de moralidade, um canário, um poster do Phill Colins, um pai polícia que cheira a vinho, o mundo inteiro por descobrir e não vão fazê-lo nunca. A família reúne-se para almoçar: os dois jovens rapazes de cabelo espetadinho com gel e brilhante, caras rurais com roupas urbanas, sofisticadas mas baratas. Conversas sobre o que fizeram no natal passado ou no último passeio ao shopping. Ele sente-se bem ali e pensa: "Na minha família a esta hora estava-se a discutir o estado do mundo com valentes lições de história. Que chatice!" Depos pega no entrecosto e ri-se do "bacoco", irmão mais novo do colega.

pintura de Sara Franco
As cidades ou são premeditadas ou são espontâneas, diz o Dostoievski.

Sexta-feira, Março 27, 2009

li isto algures

Um país dirigido para um futuro que não se deseja é um presente em ruínas.
(pode-se substituir país por relação e tantas outras coisas)

agir

André Malraux escreve em A Condição Humana: "a acção humana verdadeiramente à altura do estatuto ontológico do homem é o acto". Se, depois de tomar decisões e pensar nelas com calma e ponderação, não avançar para o acto estarei a trair o meu estatuto ontológico. Mas não é fácil.

Terça-feira, Março 24, 2009

confusa

Já não é o homem que faz a história mas o sistema, uma espécie de monstro que age brutalmente destruindo o que o homem levou séculos a construir. Já não são os homens como dizia marx, os agentes, mas é este (a economia de mercado ou outros semelhantes) que dispõe como um tirano da vida dos homens.
Mas no entanto há quem diga: "o futuro? pergunta ao Obama!"

Sábado, Março 21, 2009

segundo andar direito

Ele vinte anos, e ela dezoito
e há cinco dias sem trocarem palavra
lembrando as zangas que um só beijo curava
e esta história começa no instante
em que o homem empurra a porta pesada
e entra no quarto onde a mulher está deitada
a dormir de um sono ligeiro

E no quarto, às cegas,
o escuro abraça-o como que a um companheiro
que se conhece pelo tocar e pelo o cheiro
e é o ruído que o chão faz que lhe traz
o gosto ao quarto depois de uma ruptura
faz-lhe sentir que entre os dois algo ainda dura
dos dias em que um beijo bastava

E agora, da cama
vem uma voz que diz sussurrando: És tu?
e a luz acende-se sobre um braço nu
e a mulher pergunta: A que vens agora?
é que não sei se reparaste na hora
deixa dormir quem quer dormir, vai-te embora
amanhã tenho de ir trabalhar

Não fales, que o bébé ainda acorda
não grites, que o vizinho ainda acorda
e não me olhes, que o amor ainda acorda
deixa-o dormir, o nosso amor, um bocadinho mais
deixa-o dormir, que viveu dias tão brutais

E o homem de pé
parece um rapazinho a ver se compreende
e grita e diz que ele também não se vende
que quer a paz mas de outra maneira
e nem que essa noite fosse a derradeira
veio afirmar quer ela queira ou não queira
que os dois ainda têm muito que aprender
Se temos?! diz ela
mas o problema não é só de aprender
é saber a partir daí que fazer
e o homem diz: Que queres que eu responda?
Não estamos no mesmo comprimento de onda?
Tu a mandares-me esse sorriso à Gioconda
e eu com ar de filme americano

Somos tão novos, diz o homem
e agora é a vez de a mulher se impacientar
essa frase já começa a tresandar
é que não é só uma questão de identidade
é eu ou tu, seja quem for, ter vontade
de mudar ou deixar mudar

Não fales...

E assim se ouviu
pela noite fora os dois amantes falar
e o que não vi só tive que imaginar
é preciso explicar que sou eu o vizinho
e à noite vivo neste quarto sozinho
corpo cansado e cabeça em desalinho
e o prédio inteiro nos meus ouvidos

Veio a manhã e diziam
telefona ao teu patrão, diz que hoje não vais
que viveste uns dias assim tão brutais
e que precisas de convalescença
sei lá, inventa qualquer coisa, uma doença
mete um atestado ou pede licença
sem prazo nem vencimento, se preciso for
(Espero que não seja preciso, porque não
sei como é que eles vão viver sem os dois salários)

Vá fala, que o bébé está acordado
o vizinho deve estar já acordado
e o amor, pronto, também está acordado
mas tem cuidado, trata-o bem
muito bem, de mansinho
que ainda agora vai pisar outro caminho.

Sérgio Godinho

Quarta-feira, Março 18, 2009

cores fortes

Casas preto e branco, com varanda de madeira. Sempre o preto e branco igual ao das fotografias dos baleeiros. Igreja enorme e central na vila. Natureza forte entre montanha e lava. Também o preto das casas com o verde da natureza, o que faz salientar o verde, o mar e o vento.
Na mercearia da vila há um café (cujo dono é o mesmo - ou no café há uma mercearia). No café há um maxilar gigante de baleia pendurado, e ao lado do maxilar um autocolante de proibido fumar. De manhã, no café, as pessoas falam do moço bêbado a quem não podem - não devem - servir álcool. Denoto um carinho de comunidade, mas áspero e difícil.
O lado temerário desta gente de terras pequenas e combatentes, com os seus arpões de suor e medo mas imprescindível confiança.
O ar de tédio denuncia a nossa vida do ‘continente’.

sem ofensa

O rapaz do bar da praia do Almoxarife apressou-se a ligar a música rn'b aos berros. Na cacofonia com o relato da bola e a aparelhagem potentíssima, corre a exibir-me o seu Honda à frente da esplanada. E eu, impávida e serena, nem estava a perceber o código. Parece que os bens materiais são um grande troféu para o engate... coisa que infelizmente nunca resultou comigo pela minha incorrigível atracção por 'pelintras'.

Quinta-feira, Março 12, 2009

Eu vi a luz
em um país distante!
Camilo Pessanha, Clepsidra

sobrevivemos a isso tudo

11 de setembro de 2001, ao Tsunami de 2004, ao Katrina em Nova Orleães de 2005, terramoto Sishuan 2008, Mumbay 2008, aquecimento global, crise financeira.

serenidade desejada

Só as ervas balançam. Na alta relva onde brincamos com os sacos-cama estendidos, a tenda já desmontada, o muro de pedra preta rectilíneo lembra o zelo desta vila com as casas bem pintadas e em total sintonia na paisagem, assim como as pessoas.
Assim como as pessoas, também os lagartos correm a esconder-se nas fendas entre as pedras e eu angustio-me com o esconde-esconde.

Domingo, Março 08, 2009


fotografia de Nuno Martinho, 2003


sinais
A clareza das coisas, porquê hoje este assalto assim de sinais? O que é estranho é que me são dados, não os procuro, crescem nas árvores como pássaros, os sinais. Não lhes correspondo nem sei ver o seu porquê, apenas recebo. É o que sei fazer: receber, os poucos que vou dando não são interceptados. Falha na mensagem, código errado, pessoa não atenta, não merecedora, desistência. Sinais cada vez mais para dentro, o que os faz revirarem-se, interferirem uns com os outros e perderem a pontaria, são desconexos, logo não sinais.
Voltas à tua margem.
O nosso segredo é vertiginoso em sensação porque embelezamos cada história ao dar vida. Imagino: enquanto cresço, cresço, o mundo não muda muito, sempre este olhar desfocado no metro, no ruído ensurdecedor e fatalista de que alguém se vai atirar, as pessoas que passam sem se passarem, o rodopio geográfico das vidas simultâneas. Saiam dos buracos, escancarem as vossas carnes amarelecidas a este sol vibrante, evitem a solidão. Grito isto, e já está gritado!
Ana procura as imagens.
A solidão em Lisboa é o hall de um prédio antigo às escuras, uma luz que se acende num ruído seco e um velho de chapéu que desce vagarosamente o degrau da porta lá fora e lá fora, ah lá fora as escadinhas desertas e intermináveis não lhe trazem nenhuma ligação ao mundo. O velho sobe as escadinhas como se caminhasse lento para demorar a morte.
Lisboa é uma caixa vigorosa de histórias. Os passeantes nunca se cansam, há sempre um velho do restelo bêbado a gritar filhos da puta, anda cá cabrão, entre muitas frases desconexas. Há sempre um trauma de guerra na cabeça do bancário que atravessa a passadeira, há sempre uma menina de belas-artes a descer o chiado, com olhos grandes e claros presos às cores da rua, há nem sempre uma velha a espreitar, um arrumador de carros que não desejamos, e uma mulher nas ruas da amargura.
Ouve no metro as pessoas a comunicarem.
Quantas vezes é preciso afirmar “é assim” para que alguém nos ouça, e depois nada é definitivo, axiomático, mas apenas uma opinião.
O sol arde cada vez mais, queima-lhe a pele e a cabeça. Torna-se difícil pensar para além do pensar calor. Ana observa para dentro, e deita-se no verde. As miúdas vêm em bandos para a relva, falam alto e de cantigas da moda. Comem batatas fritas alternando com pastilhas. E o lago deixa de existir, o lago que fixavam os olhos dos pensadores solitários é agora um pântano de lama pegajosa que já não concede paz ao olhar e os senhores do anfiteatro viram-lhe as costas desiludidos.
Às vezes páras o que estás a fazer, olhas a atravessar o calor e o ar pesado do tempo e ficas nesse ritmo que é teu, a implorar novas forças. Como obra do desejo, a ira desajeitada contra tudo e todos menos contra a comoção das coisas.

fotografia de Nuno Martinho, 2003

daqui desta lisboa comprometida...

Ali te sentaste a contemplar a cidade do outro lado e... quão longe estamos do mundo, embora o mundo seja aqui esquecemo-nos dele e só temos estes pés inúteis para nele pousar. Estou no cú do mundo e imagino onde estará a sua cabeça, quem o pensa quem o constrói. E houve um gosto de ferro na boca, quando pousaste a mão como calando o gesto e...
olho é sangue é sangue puro do meu, detesto o sabor inédito assim na boca. Ter-me-ão dado um soco? É bem provável, um soco invisível fez-se ouvir em mim e resultou num golpe sangrento que mescla tabaco e gosto a dinheiro na boca. O sangue tem o mesmo sabor estranho e férreo do dinheiro e isto não é metafórico.
Então, pensaste, quem serão os meus inimigos, a quem devo a vingança de existir? À volta só um cão esfaimado ousou abeirar-se de ti. De repente parece que tudo morre e é assim o mundo do fim do mundo. Quiseste então desaparecer tão fugaz como o miúdo do barco, correr da mulher que o odeia, correr de todos os polícias que são a ilustração fácil do nosso ódio, correr da modernidade e da promíscua relação que nos obrigam a manter com a cidade inteira. (...)
2001

Sábado, Março 07, 2009

sincretismo

Quinta-feira, Março 05, 2009


foto de Alexander Gerner
Os resultados e comentários dos jogos de futebol são recebidos com a mesma desemoção como o são o circo da assembleia.

a cidade

A cidade é um chão de palavras pisadas a palavra criança a palavra segredo. A cidade é um céu de palavras paradas a palavra distância e a palavra medo. A cidade é um saco um pulmão que respira pela palavra água pela palavra brisa A cidade é um poro um corpo que transpira pela palavra sangue pela palavra ira. A cidade tem praças de palavras abertas como estátuas mandadas apear. A cidade tem ruas de palavras desertas como jardins mandados arrancar. A palavra sarcasmo é uma rosa rubra. A palavra silêncio é uma rosa chá. Não há céu de palavras que a cidade não cubra não há rua de sons que a palavra não corra à procura da sombra de uma luz que não há.
José Afonso/Ary dos Santos (ouvir/ver)

pastéis de nata

Já sei que o pastel de nata não me dá prazer mas continuo a pedi-lo com a bica. 'Um minuto na boca uma eternidade nas ancas’, penso nesta grande verdade que um amigo do Porto me disse, sempre que como pasteis de nata.
Quantos quilos de bolos e farinheiras, carnes suculentas, já terei ingerido?
Os erros têm de repetir-se eternamente senão parece que perdem a sua condição: que nos atrai sempre.
(mas o erro nada tem a ver com as carnes ou os pasteis de nata, pois eu, em termos mentais, estou abaixo da linha do Equador e lá nós não conhecemos o pecado)

ciclo

Para completá-lo nesta perfeita imperfeição: a utilidade que se dá aos dias, a higiene diária e os vícios de amor, a espiral da semana, as roupas mais ou menos estilosas, os lançamentos de livros, os rolos de papel higiénico para a reciclagem, as caras conhecidas, os espectáculos de Lisboa, as makas da família, queixas e exigências da mãe, o cansaço anímico do pai, os não-ciúmes do namorado, a análise do ego da amiga, o sarcasmo do amigo, perda de paciência minha, fumo em excesso do Estádio, fofoca deste, doença daquele, as conferências do X, os projectos de toda a gente, os jogos eróticos, a maternidade das amigas, o fundamentalismo da A, os preconceitos do sedentarismo e bairrismo, o snobismo dos cinéfilos e dos académicos, a incapacidade de lidar com a diferença, com o que não tem cursos, imagens, referências semelhantes, ou seja, o que não é semelhante; a doçura dos apaixonados, o deslumbramento dos estrangeiros com este à-vontade negligente, a loucura daqueloutro, a ruptura, a falta de coragem para romper, para ficar, para continuar no carrossel.

Iuglia

Iuglia é moldava, mora em lagos em frente à Meia Praia. Trabalha há 6 anos no mesmo pequeno hotel, na parte da lavandaria. Não subiu na carreira. O marido, de engenheiro na Moldávia passou a motorista. Quando chegaram não pôde deixar de reparar no egoísmo dos algarvios: levava bolachas e bolinhos para as colegas no trabalho e elas riam-se tipo a dizer que tolinha, deixa estar que aqui ninguém dá nada a ninguém. As mesmas que só falavam de comida, que tinham tanta abundância de repasto durante a semana, gabarolice de cozinhados a dar c'um pau, mas prova de paladar nem vê-la. Depois estava chocada com a falta de educação na escola do filho. Ela, a rapariga que no tempo na União Soviética viajara pela Rússia e Alemanha (de leste) por ter a abébia de um pai comunista e que nas aulas ficava em silêncio com os cotovelos e ante-braços em cima da mesa sempre atenta ao que o professor dizia, tinha agora, numa terra chamada Lagos que antes nunca sonhara existir, de aturar a ignorância arrogante dos administrativos e o desleixo dos professores. Nunca foi convidada para casa de nenhum português. Salário, nada que desse para mandar de volta aos familiares moldavos.
Entretanto, depois de me confidenciar tudo isto e muito mais enquanto ficámos internadas no hospital, decidiu que se vai pôr a andar. De Portugal já chega, mas aprendeu a língua e gosta muito do marisco “percebes”.

a esta hora para o que me havia de dar....

Despojamento, precisão do gesto, nada é deixado ao acaso. Pensar a diferença entre calma e estatismo.

Quinta-feira, Fevereiro 26, 2009

rasura

Há confrontos que nada trazem de poderoso, a não ser uma provação que passadas as primeiras curiosidades será logo ridícula. Estou a falhar na convicção dos actos. Depois de embrutecida, semente apagadora do resto, do sentir dos outros, o que pode surgir?

Palavras muito recorrentes na nova poesia portuguesa

umbrais, freixo, baldios, escopro, urdir, fímbria, sulco, pináculo, degelo, dédalo.

Verões felizes

Ainda é possível havê-los, nesse espírito antigo sempre actualizado, nas adolescências que tropeçam depois de já termos sido adultos e cumprido uma série de requisitos. Felizes mas sem certezas dos próximos tempos. Não sendo nada seguro, o conforto do presente restabelece dos conflitos anteriores e transporta-nos para dentro.

Quarta-feira, Fevereiro 25, 2009

grafitti

Tenho sono

(num spray escorregadio nas paredes de uma igreja de Queluz)

Sábado, Fevereiro 21, 2009

cartas de amor, segredos tamanhos....

Tenho uma enorme atracção pelas cartas de amor dos outros. Ao ler não deixo de emocionar-me. Como me não são dirigidas mais emocionante ainda se torna tentar descobrir quem são aquelas pessoas por detrás daqueles afectos.
Trata-se do movimento contrário: conhecê-las da intimidade para a banalidade.

pitas

A miúda tinha uma voz entre os gritos rebeldes mas folk da janis joplin e o atrevimento adolescente da bjork. Usava ganchinhos no cabelo, o que lhe dava um ar de eterna menina e era difícil imaginá-la na cama com esse ar de cordeirinho, se bem que conhecida por defender ideias radicais e com ousadia criativa.
Gosto dela por falarmos de coisas improváveis, o nível de abstracção da realidade ser elevado, surpreendendo com novas referências e estórias de outras paisagens e paradigmas de pensamento.

imperadores

Ele tinha a arrogância natural de um Bonaparte que acha que vai conquistar o mundo inteiro. E ninguém o enfrentava. Passava de moda mas a força da sua convicção residia naquela ideia de virilidade imbecil: não importa o que diz mas como finge dizer. O mais absurdo é este tipo de pessoas ser levado a sério.

Quarta-feira, Fevereiro 18, 2009

paladares

No início da refeição dá-se o mote para saber o paladar que aí vem. Saberá a fel, a memórias irrecuperáveis, a ventos turbulentos no cérebro, a cópulas interrompidas ou simplesmente a gambas com cogumelos? 

O resto da refeição, almoço, jantar ou passeio de domingo (um repasto especial) poderá ser totalmente envenenado pela simples ousadia de piadas de mau gosto, por um comentário não pesado, por uma falsidade que colámos na cabeça. 


multiculti ao jantar

Actriz argentina com artista digital colombiano, arquitecta de Viseu com programador experimental nascido no Zimbabue, cineasta do Equador com doutoranda do Porto, químico lisboeta com artista japonesa residente em paris, fotógrafo angolano com diletante lisboeta.

a luta da Madame Bovary

Também quero retratar a vida real com fidelidade, destruir o arquétipo da mulher romântica e do mundo romântico idealizado, mostrar a angústia e a fragilidade de quem é recusado pelo objecto de amor.  

obstinação

A casa dela tem livros sobre o cyberpunk e acção directa, cartazes de caveiras e t-shirts dos Dead Kennedys. A rapariga consegue trazer da adolescência o lado sofisticado porque agora já não é um simples gosto infantil, é uma forma de recusar a recordação para continuar a ser uma escolha desadequada da maioria. 

Com a idade os devaneios podem tornar-se ou muito obstinados ou muito patéticos. Acho que ela pertence à primeira categoria.  


distância

Ao pé dele nunca conseguia dizer nada de jeito, ficava como que com paralisia cerebral. Como se não soubesse sequer pensar nem lembrar-se de nenhuma referência. Com o comportamento nervoso e pueril de uma adolescente ao lado do seu ídolo de rock. Engasgada e imbecil, uma pessoa frágil que se torna desinteressante por já nem sequer deixar pressentir outras coisas para além do atrofio. Era um estranho desafio desejar estar com ele e não conseguir. Ser mesmo insuportável essa permanência, contar os dias, as horas, os minutos para acabar com aquela tortura, para voltar a partir. E depois passar o resto do tempo a contar os dias para se reencontrarem e perceberem o que sentiam. Porque a distância ajudava-lhes a saber lidar com a coisa, a dar-lhe um sentido ainda que ambos questionassem muito. À distância era possível alimentá-la, a coisa, de uma alimentação precária. Na presença era a evidência do falhanço. 

Desejava no entanto que voltassem para uma ilha em que não houvesse outras coisas importantes, nem afazeres nem pessoas, e a vida fosse apenas a decisão sobre o quê e onde se vai jantar. Era a única maneira daquilo fazer sentido, ao recusarem o compromisso, afastando-se de si próprios. 

Sexta-feira, Fevereiro 13, 2009

Maiakovski & Nós

Primeiro, eles vêm à noite, com passo furtivo, a gente não se dá conta, finge que não vê, tapa os ouvidos,aumenta o volume da tevê, finge uma ocupação absolutamente irrisória, zanza pela casa, abre a geladeira, lê o jornal e se preocupa... com conceitos que quanto mais abstratos, melhor. Depois eles chegam, arrancam uma flor, e substituimos o vaso, absolutamente seguros de que foram-se os anéis mas ficaram os dedos ou de que poderia ter sido pior porque uma flor é só uma flor e não dizemos nada. Pra que falar? Era só uma flor, uma florzinha à-toa, um tico de insignificância, um delitinho mínimo, desmerecedor de grandes preocupações. No dia seguinte, já não tomam precauções:tiram a máscara de bandidos, exibem suásticas, rufam tambores e gritam palavras de ordem (?) como Negros ImundosHomossexuais NojentosLibertários ImpurosArtistas DevassosHumanistas Panacas, Mulheres Vadias, Ecologistas de MerdaJudeus Sujos,Árabes Terroristas e outros slogans que nem o Canhoto conseguiria (nem teria estômago) criar. Sem cerimônia entram no nosso jardim, como se a casa fosse deles e tívessem sido convidados e pisam as nossas flores, mas flores são flores e são só flores e pra que fazer tanto barulho por nada? Damos uma espiadinha nos estragos no gramado, verificamos quais sementes e mudas compraremos no dia seguinte. Depois, entramos em casa, fechamos a porta e eles matam nosso cão. Só reparamos na manhã seguinte e mais uma vez fechamos os olhos , tapamos os ouvidos e costuramos a boca. Fingimos que não vimos ou soubemos que o matador (secretário de uma prefeitura perdida nos cafundós do país) chegou até a vangloriar-se num canal de tevê, exibindo - subliminarmente, é claro - uma pavorosa suástica que a plenos pulmões declarou que "cachorro é que nem criança negra, ninguém quer adotar" e empolgado pelas câmeras pomposamente afirmou que "se houvesse uma lei que permitisse matar menores de ruas, isso era um caso a se pensar"Mas que valor teriam as palavras de um secretário caipira perdido num município cravado no interior de um estado? O coitado deve ter se embananado, televisão intimida e acaba-se falando besteira , preferimos pensar e não dizemos nada.
Até que um dia o mais débil dentre eles
entra sozinho em nossa casa,
rouba nossa luz,
arranca a voz de nossa garganta
e já não podemos dizer nada.

Segunda-feira, Fevereiro 09, 2009

linda bandeirinha

Sábado de manhã fui passear.
Fui até à Bijou para tomar café. Passei pela bandeira palestiniana no Camões, mas preferi andar, andar célere, porque fazia frio, e ir parando só para desenhar. A minha cabeça, protegida por um boné marroquino, só se preocupava em captar o que a circundava. Fui descendo. Inspirei o caril e o açafrão, estive à porta da mesquita improvisada ali no Martim Moniz e no interior de São Domingos.
Regressei, subindo a gosto, para o lado de cá. Já na minha colina, descanso na esplanada da Graça. Desenhando furiosamente contra o frio, o meu olhar é desviado por uma figura no céu.
“Olhó pára-quedista!” – dizem uns. “Não. É um reclame” – outros. Houve até quem imaginasse que era alguém, um gigante certamente, a passear no tabuleiro da ponte (pura ilusão perspéctica).
Linda bandeirinha que atravessou a vista de tantos! Nesta altura sim, a minha cabeça pôs-se a pensar: e se tivesse tentado voltar para casa e a casa não existisse mais?
Tiago Lança

O charme dos marginais de Lisboa não desapareceu com a morte de César Monteiro nem se perdeu o verdadeiro linguarejar tão solto. Há uma maneira de permanecer ligado às suas dores e por isso entra na língua que mistura ansiedade e desleixo. 

Camponeza

O papel cavalinho comprado na rua do crucifixo às voltas pela baixa com uma criança pelas mãos. Os sovacos vão suando ligeiramente. Passo num café antigo, a Camponesa, que dantes era antro de hippies e alguns drogados com um casal sempre a responder mal e aos berros e a expulsar os bêbados.

Era uma espécie de família de socorro dos dias que passam sem se passar nada, a não ser umas discussões vagas de quem leu umas coisas mas muito pouco e sabe dizer nomes de meia dúzia de filósofos como Nietzsche e blá blá blá. poetas. muitos poetas, freaks da rua augusta, meninas de belas artes e marinheiros.

Era uma casa à qual se rumava todos os fins de tarde, mesmo quem vinha de outra ponta da cidade. no meu caso pelo fascínio de estar com pessoas que trocavam experiências e conversa solta. E havia umas personagens sempre presentes como L. que não estudava nem trabalhava, tinha pais ricos mas abdicara de lhes mimar as expectativas para se entregar ao ócio e bebida. 

Agora é apenas um café bonito conservado na sua aura de leitaria de outrora, meio arte nova, e muito bem localizado (ao lado do animatógrafo). 


História dos regressados

O regresso à história, a si próprio, capacidade de compreender o que aconteceu e quem somos. E diante de nós a sedução, o medo, a dificuldade de compreensão, o conflito, a alegria, o espanto ou o vazio.


desinteresse

Vais-me desculpar se eu não guardo as coisas belas e potentes que nos aconteceram juntos. Por as votar ao esquecimento e não as pôr aqui transfiguradas para trazer um pouco de ti. Porque o que tu és agora, onde andas com quem estás e o que te enche a cabeça neste momento talvez não me interesse. Nem reconheço já nada de intacto na paixão do passado, a ameaçar reviravoltas na vida e tão facilmente desistente. 

inverno triste

As pessoas das cidades de inverno enrolam-se em casacos que parecem sacos cama e têm caras brancas que parecem do norte ainda que se esteja em cidades do sul.

Sexta-feira, Janeiro 30, 2009

fotografia no hotel em Addis Abeba

A mão branca a sair da porta do quarto com notas de dólares a pagar a puta preta.

O escritor italiano misógino

Desprezo total pelas opiniões femininas, nunca inquire as mulheres sobre a vida delas. Sempre a esboçar hierarquias: os melhores escritores, cinema, tradutores, tudo é uma questão valorativa só existindo o genial e uma grande merda. Sempre a passar certidões de óbito a tudo: a literatura morreu, o cinema morreu, a Itália morreu com Berlusconi. E claro, a partir da modernidade tudo definhou. O mundo actual não interessa, porque a única coisa que vale a pena é a maneira como ele quer ver as coisas e não o que existe.
O escritor italiano misógino é um menino mimado e desajeitado que não vê os outros à frente. Foge para a literatura porque a vida dá demasiado trabalho. Fala de comprimidos porque tem pena de si próprio. Diz piadas sem graça nenhuma em que só ele ri. É actor do seu próprio fado.

nuvens e chuva

Yun Yu é metáfora com que os antigo chineses designavam o acto sexual entre homem e mulher. Nunca ligado ao pecado, como no ocidente cristão, ou à culpa, mas ao prazer individual, à família e à saúde, considerado benéfico por favorecer a longevidade e ser fruto de um instinto vital. Deste lado a idiota mania de porem na cabeça das pessoas vergonha pelas coisas da natureza...
"Qualquer um pode se arrogar proprietário daquilo que faço, e isso acho giro. Não há direitos de autor nem pode haver. No momento exacto em que o aerossol deixa de beijar a parede e uma pintura é dada por terminada, declara-se aberta a exposição. O que está na rua é de todos. O espaço público deve ser verdadeiramente público. Pertence a todos. Qualquer um pode encontrar uma maneira de intervir nesse espaço em comunicação com os outros, essa grande nação planetária povoada por seres humanos tão diversos nas suas estruturas que só podem ser diversos também nas leituras que fazem do que podem encontrar na rua, em particular objectos políticos e estéticos. É a cidadania em pleno."
Dalailama

Quinta-feira, Janeiro 29, 2009

à superfície chinesa

É uma arte muito ruidosa, diz a mexicana sobre a arte chinesa contemporânea. Dois casais urbanistas da Cidade do México, onde deixaram uma bebé de 10 meses, vieram à China para um congresso de urbanismo. Explicam-me que os chineses estão a planear as casas, que têm uma média 70m2, a longo prazo mas com a maior rapidez constroem tudo: “O que a América fez em 50 anos eles estão a fazer em 10.”
Falamos das bizarrias da comida chinesa - espetadas de escorpião, cavalo marinho, etc. Dos hábitos estranhos: cuspir, empurrar. Das coisas que nos aproximam como o gostar de gozar com tudo, num riso meio infantil (eu reconheço-me). Da noção de espaço: da maneira como atravessam a rua (aprendem agora com os Olímpicos as 'boas maneiras' para receber turistas) à memória da fome: as mulheres mais velhas servem-se à bruta no buffet do restaurante tentando aproveitar ao máximo a abundância.
Enfim, são as conversas possíveis entre forasteiros que ainda não percebemos nada do sítio onde viemos parar.

grafitti

Invadir a prisão, assaltar o banco
Ocupar o rossio e jogar outra vez.

na pastelaria bijou tecem-se grandes convicções

- Eu nunca viro, venha quem vier. Defendo aquilo que gosto. O Benfica e o partido socialista, mai’nada. Não digo mal dos outros clubes. A vida é assim e mai’nada eu não digo pelas costas.
fecha o 24 horas, engole o galão e vira as costas ao café onde deu o seu show matinal de verticalidade portuguesa.

Quarta-feira, Janeiro 28, 2009

filhos da revolução aborrecem-se

Penso nos filhos tão bem educados que somos, que tivemos aceso a tudo, que crescemos felizes sem carências, cuja educação de esquerda sonhou gente solidária e lutadora. A quem contaram, como se de uma história romântica se tratasse, as coisas dos tempos dos nossos pais como o black power, os hippies, a oposição à guerra do Vietname, o Maio de 68, a primavera de Praga e as heróicas imolações, o assassinato de Cabral, golpe de Pinochet e suicídio de Allende, os fascismos domésticos e a luta pelas Independências, o 25 de Abril, a vinda das províncias para a cidade trabalhar muito e estudar à noite, a boîte em vez de discotecas, a libertação de presos em Caxias e todas essas matérias que agora servem para fazer filmes que misturam o entretenimento e o pedagógico. É certo que por vezes as estórias têm um tom ressabiado: a geração deles é que tinha a cabeça no lugar e privações que nós hoje não iríamos aceitar, que somos tão afortunados porque eles não viveram metade da liberdade que nós agora gozamos. E na qual nos entediamos tanto.
“Existir obriga a ser... e cada um vai tentando ser como acha que sim e acabando sendo como afinal é mesmo.” Ruy Duarte de Carvalho

recomeços

Voltar a um sítio onde se foi muitas vezes, ouvir uma música que se ouviu até à exaustão, ler um texto no qual se trabalhou horas, esgota, não há senão náusea e esvaziamento da anterior capacidade de comunicar. Não me esqueço da excitação da sensação de recomeçar a vida. Aquela ilha era o cenário ou mesmo a matéria da transformação?
Jongleur, Tchalé Figueira
“o coração ficou escondido no escuro e duro como a pedra filosofal”, Paul Célan

Sexta-feira, Janeiro 23, 2009

As meninas do bar Can Can na Hang Shan Lu em Shangai

Uma mongol de vestido leve decotado - pele muito branca, como mandam as leis da atracção chinesa (brancura pura, não apanhar sol, as peles morenas são as das pessoas do campo, trabalhadores rurais, logo atrasados e pobres)– atira perguntas e respostas meio cómicas, provocantes. Outra de 16 anos não fala inglês, só se ri. Calças de ganga e colete fino preto, corte de cabelo à tigela, os olhos são um risco de riso que perfaz um rosto do tipo japonês, parece saída de uma manga. Uma delas, uma espécie de cicerone com o cabelo muito bem apanhado, pede para beber um copo comigo. Mas eu não sou cliente delas, só da cerveja. E ela desiste.
As miúdas vêm de várias partes da China para aquela cidade selvagem de dinheiro e vida. Atiram-se a um cliente ocidental que lhes paga em bebidas. Quem ganha é a casa, um proprietário chinês que nunca lá põe os pés. Elas ganham uma pequena comissão do que fizerem beber. Todas as noites no mesmo balcão as mesmas miúdas com homens diferentes.
O rapaz que serve as bebidas – único homem da casa – fica a vê-las sem reacção. As línguas despontam, os homens velhos põem-lhes as mãos nas mamas, sentam-nas ao colo, fazem conversa tonta, elas elogiam-lhes o cabelo, as mãos, a personalidade de há 5 minutos: “you’re a smart and funny guy”. São profissionais das conversas de engate. Lá em cima há uma sala de snooker e luzes mais baixas para onde levam os clientes se querem uma sessão de ‘conversa’ privada.
Ao fim da noite quando eles vão embora jogam cartas umas com as outras, comem petiscos de rua “very spicy” que fazem retorcer as caras bonitas quando mastigam. Dão risinhos infantis no seu falar chinês a gozar umas com as outras. Parecem amiguinhas de escola. Todas as noite a mesma coisa, diz o rapaz.

Segunda-feira, Junho 09, 2008

Lisboa à tarde num sábado de Inverno. Algumas mulheres velhas à janela no cimo dos prédios. Cor branca, frio, ruas desertas, obras paradas. Um homem sai sozinho do Mac Donalds onde comeu sozinho, e traz um saco de plástico. Os almoços de família prolongados até às cinco da tarde, as mesmas conversas de sempre, os mesmos conflitos de sempre, os casais novos já desgastados a ver o filme em que meteram a sua própria vida. Lisboa à tarde de sábado. Um sábado de Inverno. Os cafés molengões, a televisão nos cafés com filmes de sábado à tarde. Autocarros quase vazios. A visão do rio prolongadamente de chumbo. Os suplementos culturais, o que ver, o que dizem, as estrelas dos filmes. O estômago a dar sinais, o enjoo dos cigarros, intoxicação de cigarros da noite anterior. A memória do teu sorriso louco de fim da noite. E prometemos que nunca mais íamos sair, depois do carro que nos levou a casa como se fosse a carrinha da escola a depositar as crianças. Repetimo-nos em círculo nas memórias da noite.
(2003)

Quarta-feira, Maio 28, 2008

correspondência

Ela escrevia-lhe cartas todos os dias para o palco de guerra, ele respondia pouco com medo de morrer e de a deixar num profundo desgosto de amor.

Sexta-feira, Maio 16, 2008

coisas dos 90 que tenho saudades

entrar à pala pela porta lateral do coliseu
passar a tarde na casa do Alentejo ou na Camponesa
tocar flauta no castelo ou na rua augusta
tomar cafés em todo o lado, inclusive em bombas de gasolina
fazer jogos colectivos em jantares, como o da personagem pateta colada na testa, o psicólogo ou o da história que a pessoa inventa na projecção do seu subconsciente
lisboa começar a ser 'bué cultural'
começar a ter vontade de ir viver para fora

quase muller

No estádio de Superdome em New Orleans 30 mil refugiados aí se acolheram desesperados por água, comida e medicamentos. O cheiro pestilento traduzia o maior urinol do mundo, onde houve também lugar para tiroteios, violações e mortes.
É claro que entretanto os pássaros já devem ter regressado àquele horror.

a oeste nada de novo

Tocava txalaparta em Bilbao enquanto se perguntava se o ramon york teria vindo de nova Iorque, ou porque certas pastilhas elásticas fazem balões maiores do que outras, ou porque será o dinheiro um assunto quase ausente na literatura. Depois decidiu investigar corsários e piratas. Ainda na juventude encontrou-se a almoçar com os industriais de Carolina do Sul em fábricas tão barulhentas que não conseguia ouvir uma palavra. Deixou-se disso, enriqueceu e comprou uma casa onde nunca tinha tempo para estar. Uma casa com símbolos gloriosos das suas aventuras mas para as quais não conseguiu arranjar destino dentro de si.
O Ocidente está fodido, disse-me um amigo catalão a comer batatas fritas.

Quarta-feira, Maio 07, 2008

fotografia de Bamba

Terça-feira, Maio 06, 2008

grande Patti Smith a cantar Smell Like Teen Spirit

porrada

A miúda crioula que me trançava o cabelo pediu para desligar o disco do Bob Marley porque lhe lembrava o pai a espancar a mãe. Sempre ao som do No, woman no cry, umas estaladas para marcar território. Tal como os cães mijam, estes homens batem. Eram pais adolescentes, obsessivos, numa vida circular como o donuts. Num estranho vício de cismar, não tendo com quem implicar, viram-se para casa, para o que têm à mão.

deserto

O deserto é a metáfora das metáforas, a auto-percepção das viagens: vermo-nos a ser.
"Nas grandes solenidades cheias de personalidades, parece que há uns que estão repetidos."
"A noite está entre pestanas azuis."
"As gaivotas nasceram dos lenços que dizem adeus nos portos."
Ramon Gomes de la Serna, Greguerías

Dália

Por essa tua capacidade de inocência e maldição vou chamar-te Dália. Homenagem às mulheres que, nos anos 40, sonhavam entrar em filmes de Hollywood (ser estrelas cadentes, brilhar infinitamente na escuridão do mundo) e podiam aparecer cortadas ao meio e com sorrisos rasgados literalmente de orelha a orelha por histórias de luxúrias e de violência sofisticada, como aconteceu à Dália Negra.

autoridade

A rapariga tem que fazer, organizar, ser pragmática. A actividade de transformação da natureza, que põe os homens em relação e é produtora de valor, está inscrita na sua vida, por isso, procura os gestos certos para transformar a natureza, os telefonemas com voz decidida, tudo a encaixar, os dias a socorrerem-se uns aos outros, os papéis sociais cumpridos para produzir valor. Os afazeres entretanto muitos, como um Heraclito sem tempo para reflectir sobre o devir na margem do rio, a vida mudou e já não há descontracção nos seus passos. Não se liberta de um problema mal resolvido de autoridade projectando-a de mil maneiras, da família para o trabalho, em casa, em alguns amigos, no amor. Contra isso, a mania da conciliação - estranha defesa - como uma criança que fez algum disparate grave e quer fugir às consequências, ou que provoca até ao excesso, com a acutilante consciência do que está a fazer, mas depois retira-se para não levar com os cacos da tempestade. A todas as autoridades é rebelde mas de má consciência, mais valia que o fosse assumidamente, sem problemas, simplesmente cumprisse os seus desígnios interiores.

Quinta-feira, Abril 24, 2008

very tipical

Aquele senhor era o típico português: estava sempre a fazer piadinhas sem graça - as referências da casa portuguesa e dos evaristos tens cá disto ou, mais actualizado, dos malucos do riso; era agarrado ao dinheirinho, via televisão à tarde, não convivia por desconfiança dos vizinhos, zeloso do seu canto e dos seus rituais.
No fundo, tinha alma de coleccionador.

nova amiga

O charme dela é simultaneamente o seu universo liliputiano e global, estar desperta para as dimensões das coisas sem se assustar, encarar tudo como possibilidade. É temerária e tem muito mais piada do que as mulheres mais velhas que falam de pediatras e de sopa de espinafres.

coisas dos 80 que tenho saudades:

combinar encontros na praia ao lado da bola de nívea
chorar com o TopoGiggio
as piscinas com bolas dos Jogos Sem Fronteiras
chamar fascistas aos Heróis do Mar e aos Retornados
ir à Porfírios

Quinta-feira, Abril 10, 2008

encolher os ombros

Ele ficava muito triste quando na Europa os governos viravam à direita. “Que cena! lá vêm tempos de contenção, discursos ameaçadores e xenófobos, como se todos não fizéssemos parte da mesma família e não tivéssemos todos direito à felicidade.”
Ficava amargurado mas depois, pensando bem, concluía: “também, é tudo a mesma merda”.

fitness

estes templos para queimar gorduras são lugares de grande reflexo da sociedade. Fazer malhação com meninas exemplares faz-me sentir uma pequena baleia à deriva no Tejo. Aturar aqueles comentários é assim mais um teste à minha flexibilidade moral que em tantas alturas teve de se abrir aos impossíveis.

procuro

conexões argumentativas para as razões de sermos assim, nós-experiência própria-articulada-com-os-contextos-onde-estamos-envolvidos.
Boa sensação de, em três décadas de existência, a convicção aumentar e a dispersão também.

precaridade

Pedem-te as empresas que sejas militante. A única militância dos tempos que correm é uma militância saltitante, temporária.
- Defende os interesses desta casa, apenas hoje, mas com todo o teu suor. Amanhã podes estar na concorrência a dar a cara e a vender o cu para direccionar o capital para outros bolsos.
Sabes bem como o dinheiro é uma abstracção e atrás duma abstracção pode caminhar-se até ao infinito.

Sexta-feira, Abril 04, 2008

ou precisamente o contrário

as ideias parecem nascer do polimento da escrita como quando uma formulação inesperada nos faz ter a ideia que nunca tinha surgido, diz ulrich.

há quem diga que escrever é assim

se as ideias encaixarem o resto é só polimento.

do quê?

O artista está de pé vestido de preto, óculos escuros e braços cruzados, numa ampla galeria. No chão os destroços das suas obras, ossos, leite, sangue, formas e cores que esmorecem, são uma espécie de súbditos daquela pose austera, alucinada, proprietária. O artista quer ser deus, comporta-se como deus. Mas não é mais do que um operário do indiscernível.

ainda a comunicação

Já tive pena de nós, raparigas intimidadas em falar ao lado dos rapazes.
É um facto que eles monopolizam os assuntos e sobretudo a maneira de falar sobre eles: a comunicação masculina, competitiva, organizada por factos, com laivos de exibicionismo. O próprio tom de voz não ajuda muito, para entrarmos na conversa temos quase de gritar, chamar a atenção, falar nos termos deles. É tão cansativo que desistimos.
Agora acho que o jogo vai reverter contra eles, quando perceberem que tem muito mais graça falar de outras maneiras e se sentirem desorientados com as nossas vozes (do que as vozes dizem e como dizem).

Terça-feira, Abril 01, 2008

mutantes

“Você... precisa saber da piscina, da margarida, da carolina, da gasolina. Você precisa saber de mim. Baby baby eu sei que é assim... Tomar um sorvete na lanchonete, andar com a gente, ouvir aquela canção do roberto.”

vazio

Vivia obcecado com a maneira de fazer dinheiro suficiente para poder viver a fazer o que gosta sem ter que trabalhar para ganhar dinheiro. Arrumava a decisão mais para a frente: trabalhava muito para um dia ter o seu destino singular. Mas na convicção de que lá chegaria, ao ganhar dinheiro a fazer o que não gostava, ia-se esquecendo de fazer o que realmente gostava de fazer. E esse momento nunca chegou, e lá se perdeu mais uma pessoa a pagar facturas.

Segunda-feira, Março 31, 2008

translation

A luta pelo poder sobrepôs-se a qualquer ideologia. La lutte pour le pouvoir... traduziu-lhe ele com aquele timbre de embalar, doce e meloso da língua francesa que amolece as palavras mais duras e mal-cheirosas.

édipo

Mãe e filho vão pelo jardim. Ele faz passar a mão rente ao canteiro, cabisbaixo mas a fingir-se indiferente às graves repreensões que o indicador em riste lhe aponta de 30 em 30 segundos com o novo fôlego com que a dona do indicador se vai lembrando de coisas novas para lhe ralhar.
A raiva aumenta à medida que projecta no miúdo o monstro de si própria.

sublimado

Os escorregões da minha infância no Alentejo estão cobertos de erva entre o olival que por sua vez deixa-se captar em linhas organizadas no campo real e no campo da nossa percepção.

visões da tarde

Levantas a cabeça entre o fumo do cigarro com o Jeff Buckley nos ouvidos a pensar nas mortes e alegrias que te ocorreram (a slave of system, the sky is a landfield) e de repente compreendes os suicídios de todos os adolescentes e detestas as pessoas fortes que não praticam gestos desadequados.

condição sine quo non

Os dois casais jantavam. Falavam de preços de casas. São jovens, recém-unidos mas com vidas em sustentáculos antigos. Entre o bife umas piadas para aligeirar. Fazem queixas dos companheiros e vice-versa, o seu teatrinho privado, ali pode ter graça, em casa deve ser chato (ou será ao contrário?).
Está provado, duas pessoas juntas mais cedo ou mais tarde embatem constantemente nas pequenas irritações.

Domingo, Março 30, 2008

o logro da propriedade

Cada um no seu cantinho, agarrado às suas coisas, sentado na sua cadeira, navegando na sua música, à procura das suas ideias, escrevendo aos seus amigos com as suas piadas, a encontrar as suas palavras, a tentar esquecer-se de si.

pertencer

Estávamos deitados no jardim de barriga para cima a ver as nuvens e ele disse “estou exactamente no lugar onde queria estar”.

Sexta-feira, Março 28, 2008

polis

Onde andam os partidários do teatro da polis, um teatro não como arte decorativa do poder mas como arte reflexiva acerca das relações de poder?

entusiasmo

A rapariga faz discursos arrebatadores sobre condutas e relações amorosas. O que tu dás o que tu não dás, o que tu amas o que tu não amas. Fala com o mesmo empenho com que há umas horas o rapaz discutia a questão da propriedade, de uma perspectiva marxista.

das misérias dos ambientes subversivos

Denunciados a inoperância, paradoxo e implosão mental, que mecanismos podemos ter de contágio, de vontade colectiva, de construção plural, sem ser pelo nicho da subcultura ou pela mistura dos corpos?

ser adulto...

Saber que se não for eu a regar as plantas elas vão morrer tristes e sozinhas, abandonadas à sorte, à crueldade da sede.

Domingo, Fevereiro 17, 2008

O homem hifenizado

Às segundas e sextas, puxava o lustro à sua aparência; decorava três ou quatro frases para derreter corações, e tinha sempre uma piada na algibeira. Quando falava, qualquer ninharia ganhava importância. Recados sem nexo, apontamentos incoerentes e mnemónicas vazias.
Bem caído nas graças do mundo, às segundas e sextas, o homem-secretário lambe as botas.
Às terças recolhia-se; comia de lata e pensava no mundo cá fora sem sentido. De vez em quando, marcava pontos num mapa-múndi; das capitais dos países traçava linhas para outras capitais em triangulações imaginadas. Pronunciava palavras nessas línguas distantes enquanto mastigava.
Nas noites de terça, o homem-sozinho faz castelos no ar.
Quartas e quintas, vestia e arregaçava a camisa. Saía já compenetrado para trabalhar com mais afinco. Quase não falava para não se desconcentrar. Tirava medidas às coisas para as refazer, “errando sempre menos, errando sempre melhor”. O seu suor era tudo o que guardava quando adormecia já de madrugada.
Palmadinhas nas costas não embalavam o homem-trabalhador independente.
O acontecimento de sábado e o temor de domingo davam-lhe uma comichão que o obrigava a sair. A beber. A falar interessadamente com mulheres estrangeiras. Na sua cabeça, soava música clássica no intervalo de tais encontros. Tornava-se um ser politizado, letrado, mordaz.
No fim-de-semana, a inveja crescia ao redor do homem-boémio.
Tiago Lança

Domingo, Fevereiro 03, 2008

'm cria ser poeta

S`na mundo tem mornas e mornas dedicód
Tónt morna bô te mereçê
S`beleza ta trazê inspiração
Esse bô beleza, ê más cum belo horizonte
Infeitód cum bom pôr do sol
Ô um arco-íris mut bem d`stacód.
Amim djam cria ser poeta
Pám fazê um mar di poesia
Pám cumpará que`ss bô beleza d`natureza
Parsem nem mar, nem lua cheia
Nem sol brilhante, nem noit serena
Ta cumpará q`bô formosura e bô corpo.
Pombinha mansa di odjos meigos sem maldade
Bô corpo formoso mas sem vaidade
T`armá quess bô sorriso inocente
Sorriso doce qui ta espertá alguem ambição
Nem q`for d`box tud humilhação
`m crê comquistá bô coração.

Composição: Paulino Vieira

para o sássá

Quarta-feira, Janeiro 23, 2008

pintura de Ana Silva

Sexta-feira, Janeiro 18, 2008

leitura 1

A cara de quem lê muito tem uma angústia que não devia, de quem foi povoado pelos maiores delírios, a crueza das coisas, o lado barroco das coisas, as imensas peles que podem ser geradas na mais leve sensação, as mais prementes e estranhas questões à existência.
Há uma sombra a percorrer esses rostos. Tudo guardado como segredo profundo, na difícil relação com o lado não-partilhável da vida, numa incapacidade humilhante e tomada pelos outros como arrogância.
Não ter ninguém com quem falar sobre isso. Ou não gostar da maneira rudimentar habitual de se falar sobre isso. Como actos de intimidade que nos parecem ridículos no dia seguinte. Em que circuitos partilhar as histórias dos livros, além dos outros leitores, estudiosos ou amantes? Na terra onde quase ninguém lê o rapaz tinha um ar desajeitado a fingir naturalidade nos gestos.

leitura

Acontece um tempo morno, uma luz tórrida com cinzas a cair do resto dos incêndios do último Verão. Tempo de receber testemunhos das literaturas universais. Parar o relógio dos telejornais e deixar que cheguem as linhas de um comboio siberiano, um encontro num cemitério alemão cheio de feridas de antepassados, um dramaturgo irlandês que descreve o seu exílio espiritual, os mistérios dos dizeres portugueses, a história de um homem no meio da multidão, as deambulações por auto-estradas americanas, a poesia de cada frase isolada do contexto, as memórias revistas em absoluta claridade.
Imagino então uma vida em que me podia perder nos delírios literários sem ter que pensar o concreto, sem ter gente a cobrar participação no mundo de funções e lucros, sem ter que justificar passos. Apenas lia, não fazia mais nada, não tinha que trocar palavras indesejadas, apenas absorver as palavras certas e imaginar coisas a partir delas. As viagens por continentes e ângulos exóticos nos cantos dos livros. A vida e opiniões de...., se numa noite de inverno..., o retrato de...., a trilogia de...., o oráculo de…
Entretanto a visão dos livros a monte denuncia as leituras estancadas à quadragésima página. Denuncia a incapacidade para a recepção total, com tantas interferências. Denuncia a resistência ao assalto do sentir dos outros.
Abandonamos a vida dos livros para que não tomem o lugar da nossa.

Domingo, Janeiro 06, 2008

a comunidade

"Estendo o pé e toco com o calcanhar numa bochecha de carne macia e morna; viro-me para o lado esquerdo, de costas para a luz do candeeiro; e bafeja-me um hálito calmo e suave; faço um gesto ao acaso no escuro e a mão, involuntária tenaz de dedos, pulso, sangue latejante, descai-me sobre um seio morno nu ou numa cabecita de bebé, com um tufo de penugem preta no cocuruto da careca, a moleirinha latejante; respiramos na boca uns dos outros, trocamos pernas e braços, bafos suor uns com os outros, uns pelos outros, tão conchegados, tão embrulhados e enleados num mesmo calor como se as nossas veias e artérias transportassem o mesmo sangue girando, palpitassem, compassadamente, silenciosamente, duma igual vivificante seiva.
É um bicho poderoso, este, uma massa animal tentacular e voraz, adormecida agora, lançando em redor as suas pernas e braços, como um polvo, digo: um polvo excêntrico, sem cabeça central, sem ordenação certa (natural); um grande corpo disforme, respirando por várias bocas, repousando (abandonado) e dormindo, suspirando, gemendo. Choramingando, às vezes. Não está todo à vista, mas metido nas roupas, ou furando aos bocados fora delas. Parece (acho eu, parece) uma explosão que atingiu um grupo de gente parada e, agora, o que está ali são restos de corpos mutilados : uma pernita de criança, um braço nu sòzinho, um punho fechado (um adeus?... uma ameaça?...), um tronco mal coberto por uma camisa branca amarrotada. Ou seria, então, talvez, um desabamento súbito, uma avalanche de neve encardida, que nos cobriu a todos, ao acaso, aos bocados, e para ali ficámos, quietos e palpitando, à espera, quietos e confiantes, dum socorro improvável, cada vez mais (e as horas passam!) improvável, incerto, aguardando a luz da manhã, que chega sempre, que acaba sempre por chegar, para vivos e mortos, calados ou palrantes, ladinos ou soterrados, os que já desistiram da madrugada e os que, ainda, contra qualquer lógica, contra qualquer quantidade de esperança, confiam ainda e esperam.
Somos cinco numa cama. Para a cabeceira, eu, a rapariga, o bebé de dias; para os pés, o miúdo e a miúda mais pequena. Toco com o pé numa rosca de carne meiga e macia: é a pernita da Lina, que dorme à minha frente. Apago a luz, cansado de ler parvoíces que só em português é possível ler, e viro-me para o lado esquerdo: é um hálito levemente soprado, pedindo beijos no escuro que me embala até adormecer. Voltamo-nos, remexemos, tomados pelo medo de estarmos vivos, pela alegria dos sonhos, quem sabe!, e encontramos, chocamos carne, carne que não é nossa, que é um exagero, um a-mais do nosso corpo mas aqui, tão perto e tão quente, é como se fosse nossa carne também: agarrada (palpitante, latejando) pelos nossos dedos; calada (dormindo, confiante) encostada ao nosso suor."
Luiz Pacheco

Quarta-feira, Janeiro 02, 2008

previsões

"Jamais nascerão as árvores e o mundo desolado será uma bola de água sem fundo onde viveremos mergulhados, moldada segundo uma máscara chinesa que vi na infância, num pequeno teatro mimado, com largura para medir o universo e altura para arranhar o céu. Os homens terão uma cidade para viverem acompanhados e melancólicos, uma filosofia para a sua resignação, adolescentes para lhes partir a cara, virgens novas e ingénuas para lhes provocar o cio, o que os obrigará a fechar os olhos, onde habitam bichos, de vergonha. Terão poetas louros e académicos em holocausto à sua expiação."
António Maria Lisboa, "O amor de Isidore Ducasse"

Quinta-feira, Dezembro 27, 2007

saber esquecer

Parece que esqueci tudo. De repente dou por mim a reler os livros do liceu ou do Cambridge School e lá voltam os modal verbs e o present continuous, o humanismo e o livre arbítrio como ferramentas e conceitos redescobertos. Fomos usando tantas dessas aparentes inutilidades sem lhes lembrarmos o aspecto formal, ficaram filtradas dentro de nós, sem nomes, só pela funcionalidade. E o destino de muitas é serem esquecidas porque teorizadas e complexificadas com tantas outras questões. Por isso, diverte-me regressar ao material didáctico, ao livro organizado com esquemas e imagens tão bem pensados por equipas especializadas, que têm métodos pedagógicos para no-las prenderem ao cérebro por pouco tempo.
A aprendizagem funciona quando se lê ou ouve, memoriza-se temporariamente, e reproduz-se e questiona-se num discurso já com palavras nossas, que são também as dos outros. Partilhar com alguém o que se aprendeu é muito importante. Sempre vivi esse dilema, de sentir que só valia a pena aprender se fosse para partilhar depois. Mas na minha obsessão socializante, há depois um pudor que remete para o campo privado alguns dos elementos-chave dessa aprendizagem.
Do conhecimento que ao longo dos anos será esquecido, adulterado, substituído (já soubemos tantas coisas, tantos exames, testes e respostas. Tantas coisas coladas com cuspo que se evaporavam no dia seguinte, as frequências, os trabalhos, as teses e as defesas de tese. Pequenas metas no conhecimento, obsessões, formalidades. Tantas outras coisas que ficaram como fundadoras).
É na condição de conhecimento-teia, o processo infindo de pequenas trajectórias de aproximações às “coisas”, nunca o seu alcance, que está a frustração e a alegria momentânea. Acumulando as verdades parciais, produz-se um simples somatório de acontecimentos ou transformações radicais? Se “a dúvida é a pedra de toque da verdade, o ácido que dissolve os erros”, na perspectiva descartiana, o nosso prazer passa por estas sucessivas e recicladas interrogações.
Para depois tudo se deteriorar. Um simples acidente cerebral varrer toda a biblioteca interna, as referências mais preciosas, os poemas que sempre soubemos de coração, os mais comoventes momentos, a mais legítima dúvida.

visões do futuro

Pipelives, fotografia de KKH

caminhos fechados

"O Ela-ele contou-lhes o que acontecia quando não se iniciava na profetização da noite."
Quando começara o seu terror?
De há muito tempo para cá nada se introduz aqui no espaço que seja matéria dizível, de algum canto o silêncio irrompeu e ameaçou derrocada. As vãs palavras foram coniventes: calar o limite da dor e deixar que o empilhar de dias fechasse os caminhos como a curva da copa das árvores.
(Pesou fardos apesar da aparente ligeireza).

cerco de feras

Quando te sentas dentro do cerco, seja ele qual for, deixas de reconhecer o que cerca o cerco, é quando já nem tens consciência dessa condição e vais deixando os dias espumarem sozinhos e indefesos numa cadência enganadora. Há um momento em que vais dizer já chega, este capítulo passou. Ao vê-lo de fora essa visão será cada vez mais nítida e, em vez de te afastar completamente, faz-te sentir de perto o dentro e o fora, impõe-te a vontade de o integrar para não mais te prender.

Segunda-feira, Dezembro 24, 2007

futuros fofinhos

Abomino o fazer-se projecções para o futuro, como uma limpeza do lixo para debaixo do tapete: a partir de Janeiro vou mudar, esta é a última semana que faço isto, que vou trabalhar naquilo, deixarei de fumar no dia tal, vou viver para a Austrália a partir de março… É uma segurança assim as coisas arrumadas lá mais para a frente, não ter de revirar tudo de imediato, a ideia da coisa ir-se instalando devagarinho atrás do córtex.
Não gosto destas promessas confortáveis, as decisões devem tomar-se aqui e agora, pois devem ser imperativos.
(que tom categórico, mama mia!)

Domingo, Dezembro 23, 2007

visões do futuro

cinema do namibe, foto de KKH

monólogo 2

Imagino: se estivéssemos nesse mesmo restaurante daqui a 10 anos, nessa altura já não saberias o que dizer-me.
E eu talvez ganhasse coragem para dizer tudo o que tinha calado.
O mais provável é que não. O mais provável é não voltar a estar contigo nas próximas semanas.
Fazes gestos cavalheirescos como servir-me vinho assim que o copo se esvazia. Eu evito expressões como “interessante” ou “é isso”. Não quero que penses que estou a acompanhar-te ou a aplaudir-te. No entanto, parece que te conheço e que adivinho
tudo o que vais dizer a seguir. Mas é nessa altura que me engano e tu surpreendes-me.
Na tua simpatia queres começar a inquirir-me. São perguntas rasteiras para indagar a minha “situação de vida”.
Mas eu não quero falar de mim. Nem de ti. Gostava de falar de coisas que não fossem as nossas vidas
que são tão pouco hábeis para encaixar dentro de palavras.
Caem tão mal com o vinho.
São tão imbecis todos os “projectos” e as vontades impraticadas.
No entanto, falar de qualquer coisa do foro político, social, geográfico, artístico ou filosófico me soa a falso. Ou a curiosidade mórbida. Ou a comentário reciclado.
Tu insistes no eu e no tu.

Sexta-feira, Dezembro 21, 2007

monólogo

Tu darás azo ao teu sentimento, às tuas memórias nostálgicas da adolescência, aos teus sonhos privados de mulheres ideais.
E eu não quero saber. Vou sentir-me no papel de ampára-quedas, e penso que estamos a entrar na comunicação caixote-do-lixo. Alguém que fala fala e o outro ouve. Sentes-te bem, bebes e comes, e desbobinas os teus dramas, as tuas opiniões, as tuas questões. O meu silêncio e compreensão são a tua sensação confortável de que podes continuar por ali a fora a dar rédea solta ao teu ego. Não há contemplação possível do outro nas tuas palavras a não ser atirar-mas para que fique com elas e faça o que bem entender. Porque é que esta merda nunca é equilibrada? Eu conto-te uma história minha, logo há uma associação de ideias que te faz ligar a uma história tua que aniquila a minha, e os planos, de realidades inconciliáveis, sobrepõem-se. Quanto mais falas mais eu tenho vontade de calar. Mas não, não devia ser assim. O contágio, o entusiasmo. E entretanto já chegou o caril e interrompes o teu discurso com breves comentários à comida e aos sabores. Sabes e prezas o significado de comer bem. Mostras que conheces muitas culturas pelo prazer da carne. As coisas que nos fazem sentir vivos.

post-mortem

Gosto da ideia de um dia sermos reduzidos (ou dignificados), depois de tantas questões existenciais, à expressão “restos mortais”.

Terça-feira, Dezembro 18, 2007

la même chanson

De Elvis the pelvis a Mick Jagger the tongue, ainda há quem cante a mesma cantiga: "Vivo com uma faca enterrada nas costas ai / Vivo com a fome enterrada na garganta / Vivo com a guerra a bater à minha porta /Vivo a trabalhar nove dias por semana." SG

Segunda-feira, Dezembro 17, 2007

razões de optimismo em África

walls and politics, de Kiluanji Kia Henda
"(...)conclui o seu livro dizendo: "Não temos razão para desesperar da África." Que razões temos para ser optimistas?
Há várias razões. A primeira vai contra o filósofo francês La Beócie [séc. XVI], que dizia que, quando há dominação, os dominados estão muitas vezes de acordo. As sociedades africanas são indisciplinadas e rebeldes. O modelo africano é mais o das civilizações rurais, fundadas sobre o debate, a discussão. Há nelas um enorme e positivo potencial contra a ordem estatal. A segunda razão, julgo, é a juventude do continente (embora não saibamos para onde ela vai...). Terceira: as mulheres em África jogam um papel mais revolucionário do que os homens - são mais imaginativas, a economia são elas que a detêm, como é nelas que está a luta pelos direitos humanos, pois o caos e a violência começa sempre pela violação das mulheres. Quarta, que ficou escondida nesta cimeira: os africanos começam a olhar para a Índia e para a China."
entrevista de Adelino Gomes a Elikia M'Bokolo

amigos

Os meus amigos estão a crescer e a ficar charmosos com a idade. Nos rapazes despontam olhos mais doces e corações que se cansam e se aborrecem mais, porém, de forma desesperada, pedem sobressaltos. As raparigas ganham interesses secretos e vivem com mais maturidade a impossibilidade do amor.

da noite 1

Os faróis e ruídos dos carros lambiam os rostos naquele rumor espaçado e nocturno que nos lembra abandono e pede descanso.

Sábado, Dezembro 15, 2007

fotografia à prova de bala, de Kiluanji Kia Henda

da noite

- Eu sou da velha-guarda, do tempo da puta da confusão do Gingão. dizia com orgulho o rapaz de barbas e casaco coçado que há muitos anos caiu no buraco das noites e nunca mais de lá saiu.

displacement

No Cacém os prédios parecem todos iguais e as pessoas têm ar de pertencer a outras terras nas quais por sua vez também já não se sentem em casa.

Quinta-feira, Dezembro 13, 2007

envelhecimento - sintomas

Memórias a destruírem-se em série, células deteoram-se e oxidam, perde-se o sentido da gravidade, o corpo é puxado em direcção à terra, para o túmulo, enfraquecendo os músculos e dilatando as carnes. O pior de tudo: sobrepresença da realidade e perda progressiva da capacidade de fantasiar.

era

Uma mulher diz “o meu marido era um homem muito bonito e muito aventureiro”.
Repare-se no orgulho de "um homem" e na melancolia do pretérito imperfeito. Depreende-se que já não é. Em tempos foi uma pessoa que com todo o seu vigor a protegia, a razão do seu orgulho. Agora a recordação torna incómodo o presente, aquele homem já não é "um homem", passou a ser um objecto sem adjectivos a não ser os do triunfo daquilo que foi. A beleza é como a juventude, não se é, está-se.

a natureza tem horror ao vazio

Afoitam-se em descrever a vida, o que há de temor nesta composição sempre mutável. Estas pessoas nos cafés a desfiar lamentos, os jovens políticos e investigadores tão expeditos com piadas esclarecidas, os objectos versáteis nas suas utilidades, a rotação dos astros e as energias que atravessam a sombra dos copos, esta filha que bebe um galão com a mãe, e os empregados que não gostam de passar tantos dias das suas vidas neste estabelecimento. Da rua o cheiro e temperatura dos que acabam de entrar. Desse outro lado, onde há quem se desloque para chegar a casa, ansioso pela casa, com aquela ânsia-fim-de-trabalho, de dia inútil ou de dever cumprido. Parece pairar em muitas cabeças a dúvida sobre o que se quer fazer, o que se está a fazer, se há ou não empatia, se faz ou não sentido. Desde que se estabeleceu que podemos e devemos identificarmo-nos com o trabalho que fazemos, e num tempo em que a criatividade é oprimida pelas máquinas, a vida complicou-se muito.

Quarta-feira, Dezembro 12, 2007

quietude

Pessoas quietas à espera do dia de amanhã. Tudo parece fácil e sereno, a vida corre, corre, o trem-trem do dia a dia, a jornada de hoje, as caras de sempre, tudo parece fácil e sereno quando quietos, esperamos: o dia de hoje é tão igual ao de ontem como o de ontem e o de hoje o será ao de amanhã.
Mas a vida não se quer nem escorreita nem igual ao igual de sempre. Um encontro furtivo, uma troca de olhares, ideias discutidas à volta de uma mesa de café, de uma sala, um filme, um autor, um romance, um poema. Pequenos quase nadas que prefaciam prazeres maiores. Fazer o dia de amanhã diferente do dia de hoje é uma busca do que existe e do que ainda não se conhece. É viver viajando, deixando o corpo no minúsculo espaço geográfico onde se encontra.

don't panic


No jardim deitada olhava para cima. Entre o recorte das árvores, castanheiros de um lado, palmeiras do outro, árvores despidas e outras frondosas - e os demais adjectivos das questões botânicas. Por entre as árvores, o céu azul. Cá de baixo, sobejava o meu corpo e dele se desprendia o olhar. Um olhar que deixou de ver o corpo, e quer atingir o vazio, onde ainda assim a vida teima em intrometer-se com as suas solicitações (não desejava suspender o enfado e o bocejo nihilista, mas lá vinham os passarinhos dizer das suas liberdades ou a bola perdida de uma criança aplicada no golo).
A minha questão era simples: “haverá ainda espaços de inscrição, onde posso pensar a partir do vazio e das coisas que não me apetece fazer?” Podia pegar num spray imaginário e escrever palavras num céu anterior à penumbra. Ou com um avião usar a dança das palavras efémeras no vasto manto como um grito de alerta.
Uma artista sul-africana, Ruth Sacks, fê-lo mesmo. E eu gosto destas pessoas que levam à prática pensamentos poéticos. DON’T PANIC, escrevera nos céus de Cape Town. As letras brancas riscavam o cian, gozavam com a nossa vidinha de pequenos pânicos e contentamentos egoístas. Eram a forma possível de uma advertência: controla-te, equilibra, calibra, enfrenta o medo. Eram a voz doce de uma enfermeira para uma cidade onde se morre tanto de tuberculose. Eram o grito ao espelho do yuppie que vai debater-se com uma plateia de homens de negócios arriscados. Eram o sussurro de um amante a dizer à namorada na véspera do aborto: Don’t panic. Don’t panic.
O jardim era a minha calma possível de um dia de pânico em que o ar deixaria de circular pelos pulmões. O meu pânico privado. A vontade de sentir o vazio, o tempo que falta para contar a grande história.

Terça-feira, Dezembro 11, 2007

concurso de dor

No hospital de Santa Maria entramos para a família das desgraças. Enquanto ali estivermos temos que justificar de alguma forma a nossa pertença a essa comunidade. E não basta a troca de olhares cúmplices de sofrimento.
-Ai queria tanto ver a minha mãezinha! - gritam as ciganas. 5 mulheres altas, louras, morenas, com brincos e tranças, saias pretas. Os seus homens lá fora, de pé, em roda, partilham uns com outros episódios heróicos acerca do paciente que, ali internado, é a razão da sua presença.
-Ai que saudades da minha mãezinha! - pregão a choros e gritos de impressionar.
-Ai ai que dor, que dor! Eu morro, eu morro. – Os outros começam a sair do seu sofrimento e a pensar: “que estranha forma de sofrer”. É o concurso de dor levado a limite.
–Deus, fala comigo, não ouço a tua voz!- abafam tudo, estridência. Já ganharam.

Segunda-feira, Dezembro 10, 2007

limpeza

As operações de matança dirigidas por Mugabe foram baptizadas com nomes de limpeza. "Gukurahundi" - as primeiras chuvas que arrastam o restolho. "Murambatina" - eliminar a sujidade, ou seja, queimar casas e destruir o pequeno comércio das populações pobres das áreas urbanas.
São sempre imagens de purificação. Isto lembra-me alguma coisa...

alemanha

fotografia de Nadine Siegert
No bairro de Kreuzberg (em Berlim), a taberneira loura traz a sopa de salsicha com batatas, acompanhada por uma das mil e duzentas cervejas nacionais enquanto nós discutimos aquelas verdades vazias de que os alemães têm tanto de inteligência como de insanidade.

sinais de esquecimento 2

A terrível memória das coisas que soubemos e já não nos lembramos. É uma ameaça profunda de desmembramento do nosso património existencial.

sinais de esquecimento

Em Berlim o lugar onde Hitler e Eva Brown, Gobbels e a família se suicidarem é hoje um parque de estacionamento. Fica a dúvida: é melhor lembrar ou esquecer a História?

untouchable lines for a pacific existence

the fence of American oil camp in Cabinda-Angola, Kiluanji Kia Henda

Domingo, Dezembro 09, 2007

os “restavek”

Crianças escravas no Haiti são torturadas com cabos eléctricos.
Na casa onde foi escravo durante 4 anos, um dos miúdos conta: “a patroa acordou-me a meio da noite para me partir a cabeça”. “Tinha de lavar as cuecas com menstruação da patroa.”
O chicote chama-se a “educadora”, em nome do exemplo têm de pagar corporalmente, e trabalhar muito.
À noite chega a hora dos insultos, das violações, humilhações e toda a espécie de abusos. Por isso são conhecidas como “là pour ça”.
Crescem sem infância e quase não frequentam as escolas. São crianças zombi, mudas, submissas, que desaprenderam o riso.
No Ocidente seriam traumatizadas, ali são só tristes, ressentidas com anos acumulados de maus tratos.
(mudo de canal, onde especialistas sobre obesidade infantil debatem preocupados)

pose de escritor

Gosto do gesto de segurar a cabeça que algumas pessoas fazem regularmente. Baixam a cabeça e a mão dirige-se à testa para a afagar, por cansaço, enfastiamento ou desespero. Mas pode também ser gesto de pose de escritor em badana de livro. Quando é para tal fim essa posição exige a mão de lado quase em continência mas com o dedo esticado, a apontar para o cérebro para não nos esquecermos de quão inteligente é aquela pessoa que escreveu aquele livro.

onde andam os intelectuais?

A intelligentsia actual calou-se, já não há nada a fazer, ou fica em casa a ler, estudar, ensinar, com uma vida discreta, ou tornou-se frívola, quer intervir acerca de tudo e nada e dar uma opinião terrivelmente superficial.
É o Villa Matas que o diz numa crónica no magazine littéraire.

Terça-feira, Outubro 30, 2007

venho de um sul

Vim do leste
dimensionar a noite
em gestos largos
que inventei no sul
pastoreando mulolas e anharas
claras
como coxas recordadas em Maio.

Venho de um sul
medido claramente
em transparência de água fresca de amanhã.
De um tempo circular
liberto de estações.

De uma nação de corpos transumantes
confundidos
na cor da crosta acúlea
de um negro chão elaborado em brasa.

RUY DUARTE DE CARVALHO, Chão de oferta, 1972

Quinta-feira, Setembro 27, 2007

a impropriedade

"O sentido começa a envelhecer. Não nos demoramos muito tempo perante um quadro cuja intenção é compreensível; a peça de música de natureza perceptível com os contornos definidos, é algo que nos enfada; o poema demasiado claro, demasiado explícito parece-nos... incompreensível. O reino da evidência está a chegar ao fim: que verdade precisa valerá ainda a pena enunciar? O que se pode comunicar não merece que nos detenhamos nele. Deduzir-se-á que apenas o mistério nos deve prender?
Mas o mistério não é menos aborrecido do que a evidência. quero dizer, o mistério pleno, tal como foi concebido até ao nosso tempo. O nosso, puramente formal, não passa de um expediente de espíritos desiludidos da clareza, de uma profundidade vazia, própria desta fase da arte que já não engana ninguem e em que, na literatura, na música, na pintura, somos contemporâneos de todos os estilos. O ecletismo, se lesa a inspiração, alarga, em contrapartida, o nosso horizonte e permite-nos beneficiar de todas as tradições. Liberta o teórico, mas paralisa o criador, ao qual rasga perspectivas demasiado vastas; ora uma obra constroi-se à margem ou na ausência do saber. Se o artista de hoje se refugia no obscuro, é porque ja não pode inovar com aquilo que sabe. A massa dos seus conhecimentos fez dele um glosador, um Aristarco desenganado. Para salvaguardar a sua originalidade, resta-lhe somente a aventura do ininteligível. Renunciará, portanto, às evidências que uma época sabedora e estéril lhe inflinge. Poeta, vê-se diante de palavras, das quais nenhuma, na sua legítima acepção, se encontra carregada de futuro; se quiser torná-las viáveis, terá de quebrar o seu sentido, procurar a impropriedade.(...)"

Cioran, A Tentação de Existir

Segunda-feira, Setembro 24, 2007

disponibilidade

Os fios foram-se tecendo. Havia tardes de limpeza, de apelos para cambiar el ritmo de la vida. E sem saber como, foi criando esse espaço. Um espaço onde tudo podia encaixar e todos exigiam a sua eficácia em ser pessoa. É isso a disponibilidade para a vida? A abertura verdadeira ao que nos é reservado por merecimento, sem perder o tremor do sentir. As inutilidades seguem para sítios obscuros, a inquietação passa a ser pelos motivos certos, não só pelas emoções. Se aos 16, 17 anos tudo era arrebatador, agora instala-se uma espécie de clara crónica anunciada.

Sexta-feira, Setembro 21, 2007

espanto

Nas misteriosas coincidências a vida triunfa sobre a literatura.

a propósito de Lisboa

Já Byron interrogava Deus sobre a razão de desbaratar as belezas de Lisboa “com semelhante gente”.

destino

O rapaz agia como as moiras, fados ou parcas, esses seres poderosos que atribuem determinada porção de tempo a cada ser humano. Eu estava numa espécie de Etiópia onde a esperança de vida é de 38 anos e por isso tudo era urgente, e eu os meus feiticeiros caminhávamos para a idade da razão, das decisões. Para voltarmos a desaprender tudo e assim crescer.

Segunda-feira, Setembro 17, 2007

dedicação

Sempre admirei aquelas pessoas que se dedicam a tentar materializar os sentimentos. Ficam horas a escrever belas cartas de amor e confissões, a fazer vídeo-cartas ou cartas anónimas com letras coladas de recortes de revistas, gravam as músicas mais especiais e sentidas, e dedicam filmes inesquecíveis. Tudo para surpreender a namorada, para agarrar aquilo que no coração explode. Entretêm-se a criar os mais fantásticos objectos de recordação e de fixação desse estado em que tudo é urgência, na absoluta vontade de partilha.

Sexta-feira, Setembro 14, 2007

baixar a temperatura

Percorri a vila à hora do recorte cor-de-laranja-cor-de-rosa das igrejas, das casas, dos cabelos das mulheres, do muro da praia e depois das cadeiras da esplanada. A força de uma qualquer memória queria pousar naquela temperatura. Queria começar a descer pelas minhas veias. Essa solidão de mar ao fim da tarde consolida-se no corpo, e é uma libertação inigualável. A claridade das coisas em redor, apesar de começar a cair o mundo das brumas e da visão baça, era o reflexo do reflexo, como vozes roucas de quem cantou durante toda a noite. Nelas se pressente a alegria.

Quinta-feira, Setembro 13, 2007

Ratazanas à venda

Quer comprar o quê?
Uma ratazana,
Uma ratazana com consciência.
Uma ratazana com uma consciência permanente?
A ideia é essa.
Bem, eu tenho várias à escolha.
Esta acabou de comer Granada,
Despedaçou-a em bocados e cagou-a
Leite de limpeza American Girl.
Já começou a salivar e beliscar um bocado suculento de queijo nicaraguense.
Mas agora (já que estamos entre amigos)
Tem grandes planos para Berlim, Londres, Amsterdão, Paris,
E as mamas da Natacha em Moscovo –

Mostra-me outra.
Ok. Bem, esta é do tipo manhosa.
Come colonialismo
Para o cagar sozinha, por pura malícia.
Tentei comprá-la no Quénia
Tentei comprá-la no Malawi
Tentei comprá-la aqui mesmo
Mas sabes onde encontrei a sacana?
A jantar com os espíritos de
Malan, Verwoerd, Vorster e Botha.

Mostra-me as outras.
Bem, esta aqui esteve envolvida no Caso Aquino
Aquela era amiga do Xá e apresentou-o àquele ali chamado Ayatollah.
Aquele eclesiástico baixinho e aquela senhora gorda e grisalha…

Dambudzo Marechera

Quarta-feira, Setembro 12, 2007

Oráculo do Povo

O que ela vê é o matagal
De heróis desempregados
Que na véspera conquistaram um país
E hoje caíram na desgraça

E alguns morros incitaram-lhes a sede
Outros ao fogo e à blasfémia
Que acenam a turistas, autocarros
Soltando ruína inenarrável
Vê quilómetros de terra ressequida
de ocupantes esquálidos assolados
E de senhores obesos, soberbos e armados
Que incendeiam-lhes os incidentais abrigos
Levando ao juiz, ao tribunal da aldeia
o mais faminto e vulnerável cidadão -
Vê camiões de ajuda alimentar
Esfumarem-se entre o ponto de partida
E um destino que os aguarda –
Desesperada, encontram-na em tabernas
E botequins, na berma dos caminhos
E em bordéis: vendendo as derradeiros
Estilhaços da sua quimera amargurada.

Dambudzo Marechera

(leitura colectiva de poemas do Zimbabué hoje no espaço Ler Devagar + Eterno Retorno em Braço de Prata, a partir das 21h30)

Terça-feira, Setembro 11, 2007

abstémio

Como não bebe álcool muitas vezes é o único que está sóbrio numa festa, mas garante nunca ter visto ninguém dizer nada de brilhante sob o efeito do álcool.
A nossa inteligência já é tão pouca porque razão nos entretemos em reduzi-la ainda mais? – pergunta-se.

a situação das mulheres

mortes por apedrejamento, por motivos de honra das famílias, por aborto, mutilações genitais, guetização imigrante, tráfico de mulheres, quotidianos marcados pela violência dos homens com quem vivem, miséria extrema, analfabetismo, escravidão sexual, salários inferiores, desemprego duradouro, mais horas de trabalho por menos rendimento, discriminação na orientação sexual diferente, triplas tarefas, esterilizações forçadas, violação, escassez de participação e de acesso ao poder político.

(por aí a fora até parecer uma ladainha)

Segunda-feira, Setembro 10, 2007

a melancolia que não sai de nós não sai

Na esplanada mulheres demasiado perfeitas, perna traçada, brincos a condizer com as sandálias e o cinto, o vestido com o corte certo, nos padrões da primavera-verão de 2007. Plenamente coincidentes com o tempo que vivem. Meninos bonitos atendem às meses, cabelos espetados e dreadlocks. O rio embala tudo num azul de verão, os risos são leves e devem contar muitas piadas de alcovitice. Nenhum destes jovens parece ter dramas ou traumas antigos para resolver. Só coisas íntimas que nunca se espalharão no ambiente frequentado.
“Lisboa é uma cidade decadente”, ouve-se algures numa mesa. E por detrás o imenso rio e a imensa claridade. Toda a gente delira com Lisboa menos os lisboetas, ou melhor, eles também, mas faz parte do charme dizerem que não gostam. Uma cidade linda, barata, segura, luminosa, cheia de entretenimento, sem dramas. Só a vil tristeza.

Consequências da revolução cultural

De uma cultura puritana para hedonista
De uma cultura de poupança para uma de consumo
De uma cultura patriarcal para novos modelos de convivência doméstica
De uma cultura monolítica para uma pluralista e segmentada
De uma cultura oral e escrita para uma visual e multimédia
De uma cultura local para culturas globais
De culturas consideradas “puras” para culturas “híbridas”
De culturas presenciais para culturas virtuais

(por aí a fora até parecer um poema)

Segunda-feira, Agosto 27, 2007

o autista

Quando anda a filmar fica completamente autista, pensa que o objecto que ocupa os seus dias é a coisa mais importante do mundo. Tudo o resto deixa de existir, o quotidiano das pessoas afigura-se simples banalidade, como se parassem de sofrer, de ter preocupações e as alegrias tornam-se apenas fúteis. Fortalece-se na cápsula de intensidade de relações numa equipa, no sentido comunitarista de algibeira que é trabalhar em conjunto para o mesmo fim. Vive a ilusão temporária que se está a fazer alguma coisa e acredita que, por aqueles dias, o mundo fica de facto suspenso. Só ali está condensado o segredo para a compreensão das coisas, as emoções das personagens são mais fortes e verdadeiras do que as de qualquer pessoa de carne e osso.
Esse autismo não chega a ser desprezível, só ridículo. Não reconheço nenhuma humanidade num filme que passe por tal deturpação. Depois o frustrante resultado deixa-o angustiado, quase desiste. Mais tarde recomeçará o ciclo.

Quinta-feira, Agosto 23, 2007


fotografia Kiluanji Kia Henda

Quarta-feira, Agosto 22, 2007

dente por dente

Outros antes de nós tentaram o mesmo esforço: dente por dente: não, nunca olhar de soslaio e manter a cabeça escarlate, o vómito nos pulsos por cada noite roubada; nem um minuto para a glória da pele. Despertar de lado: olho por olho: conservar a família em respeito, a esperança à distância de todas as fomes, o corno de cada dia nos intestinos. Aos dezoito anos, aos vinte e oito, a vida posta à prova da raiva e do amor, os olhos postos à prova do nojo. Entrar de costas no festivaI das letras, abrir passagem a golpes de fígado para a saída do escarro. Se não temos saúde bastante sejamos pelo menos doentes exemplares.
Fora do meu reino toda a pobreza, toda a ascese que gane aos artelhos dos que rangem os dentes; no meu reino apenas
palavras provisórias, ódio breve e escarlate. Nem um gesto de paciência: o sonho ao nível de todos os perigos. Pelo meu relógio são horas de matar, de chamar o amor para a mesa dos sanguinários.
Dente por dente: a boca no coração do sangue: escolher a tempo a nossa morte e amá-Ia.

António José Forte, Uma Faca nos Dentes

Terça-feira, Agosto 21, 2007

abandono

O medo não se controla, é quando me sinto pequeno e impotente. O vento vem suavemente e eu não o sinto, cada som é uma ameaça, mas o vento já não o sinto, a minha cara está desertificada, não reage, estou sozinho. Têm fugido todos, nem uma só papoila para colorir a história, nem um cadáver será lembrado sequer. Nesta terra corre-se às vezes, ultrapassa-se montanhas e atravessa-se desertos e infinitas ruas entre as aldeias, olhando a medo por trás do ombro, olhando o medo pela frente e debaixo o medo que nos come como vermes. É um pecado de abandono. Continuamos o século das guerras e dos genocídios, a destruição interior, o esvaziamento de sentido que envenena o ar que inalamos.
(Ruanda, Sudão)

sem horizonte

Umas pernas a andar pela linha da água, a andar sem vontade, os olhos a cruzar paisagens que só nos pertencem pelo, às vezes pobre, elo afectivo.

a impossibilidade das ferias

Bem-estar, momento raro em que a voz da nossa cabeça fica silenciada e entramos em comunhão com o mundo.

Quarta-feira, Agosto 15, 2007

chinese connection


fotografia de Kiluanji Kia Henda

Segunda-feira, Agosto 13, 2007