Quarta-feira, Novembro 11, 2009

era a própria presença decadente daquela tropa de ocupação alheia até ao próprio núcleo colonial português e ao seu próprio produto humano, com tanto mulato que ela incluía e branco também já nascido ali, que traduzia a insustentável situação colonial em que o governo dos portugueses, contra o interesse dos próprios portugueses, mesmo daqueles que eram ali colonos, insistia em manter encalhadas as colónias a que se aplicava, para enganar os próprios portugueses, a designação eufemística bacoca de províncias...

A Terceira Metade, Ruy Duarte de Carvalho

desabafo do escritor com duas amigas numa casa de montanha em Springbok sobre a sensibilidade masculina e feminina

A minha poesia tem uma grande componente feminina, estou grávida de ideias.
O que está inscrito primeiro, o modelo ou o programa do corpo? devemos aceitar que o biológico e cultural acabam por ser uma e a mesma coisa.
Só vos invejo essa coisa de criar filhos na barriga, de resto gosto de ser homem porque é mais fácil.

Segunda-feira, Novembro 09, 2009

todas as perspectivas

Fumo um cigarro à varanda, a observar Maputo de um 19º andar e de como a cidade se combina de tantas perspectivas. A dificuldade de escolher uma faz-me pensar na pintura chinesa. Para nós, ocidentais, a perspectiva é das coisas mais importantes, para os chineses não interessa muito: se a maneira chinesa de ver o mundo inclui a perspectiva de todos porque se há-de escolher apenas uma? Na China a pintura não tem um objectivo de fruição estética mas serve para criar vazio, meditação.

Lisboa, Paris, Luanda, Moscovo, Berna, Maputo, Faro, Edimburgo 2000 e mais coisa menos coisa

É o primeiro dia do mês e tenho uma caneta nova. Não sinto qualquer desejo de novidades, não quero saber dos afazeres, são demasiado ruidosos e estão sempre a mudar. Ou da felicidade, que fica imediatamente esquecida mal se sai de dentro dela, como quando se sai do mar ou do sexo - não chega para ser memória.
Quando me vou embora, e estou sempre a ir embora, inaugura-se outra comunicação mais perene com as pessoas. Afasta-se o ruído como que por magia. As partidas permanentes fazem-me ver pelos outros ou, pelos meus olhos, ver o mar de muitos outros.
A vida anuncia-se por correspondência já que não se encontra o lugar certo para estar, afinal encontrado sempre mas sem capacidade para decidir ficar.
Nem que sejam só umas palavras, curtas e poucas, gostava de escrever uma carta uma vez por mês, para o coração saber como viver. Pode ser a continuação de um poema, garrafas cheias de dor, ciúmes, gritos e sofrimento, com música, inferno e segredo. Uma espécie de crimes contra mulheres que no entanto recusam ser vítimas. Cadelas cor-de-rosa à procura de um mapa interior.

Para onde vão as palavras quando as deixamos? Lançam-se como flores negras.
(folha de sala para porque na noite terrena sou mais fiel que um cão do Teatro do Vestido)

Sexta-feira, Novembro 06, 2009

receptáculos usados para transportar droga

Forro das malas, instrumentos musicais (guitarras, jambés), fruta (por ex. ananás), chouriço, pasta de dentes, barriga.

Quarta-feira, Novembro 04, 2009

cartaz na fronteira moçambique - áfrica do sul

 Lá porque uma pessoa se acostuma a um problema nao quer dizer que ele deixe de existir.


Terça-feira, Novembro 03, 2009

quem vê tv

Grande parte da humanidade vive fora da influência dos media e não tem qualquer razão para preocupar-se com as manipulações mediáticas ou a má influência dos meios de comunicação de massas.

Na América Latina e em África, a principal e quase única função da televisão é divertir, por isso não esperam uma interpretação séria do mundo, o que equivaleria a esperá-la de um circo.

Há televisores em quase todos os bares, restaurantes e hotéis. As pessoas têm o costume de ir ao bar para tomar um copo e ver televisão. E a ninguém ocorre a ideia de que esse meio seja sério ou que tenha uma função educativa e informativa.

Richard Kapushinski

Segunda-feira, Novembro 02, 2009

exposicão assexuada

Quem financia os videoclips da MTV só pode ser o Vaticano, não há nada mais assexuado do que aquilo. - disse o Alberto Pimenta há uns anos na RTP 2

o que doi mais?

Estou indecisa entre as expressões: “repressão" ou "violência musculada”.

a cópia original

Já no século XVIII ouvíamos a voz indignada do estrangeirado Cavaleiro de Oliveira contra o marasmo cultural em Portugal: “nada de novo lá entra que não tenha já envelhecido em outros países”. Que cansadas e velhas me soam as vozes desmoralizadas de hoje que se deixaram afectar até à medula pela contagiosa melancolia e sempre se queixam “este pais é uma merda”.
Os modelos políticos, arquitectónicos, educacionais e as próprias opiniões têm sempre um sabor a cópia sem interessar indagar de onde vem o original. Com a globalização e tão fácil reprodução de modelos, retraímo-nos cada vez mais na vontade de “fazer disparates”, ou seja, tentar inventar do nada. Retiramo-nos da jogada porque outros fazem sempre melhor que nós.
Somos receptivos e interessados no mundo dos outros porque achamos condição necessária para que alguma opinião venha a vingar em Portugal. Esta, por sua vez, deve ser aprovada na constatação da sua eficácia anterior e assim se pode encaixá-la, com algum ruído. O processo é simples e eficaz, não se tem muito trabalho em inovar porque o que há a fazer é uma adaptação, duvidosa, à nossa realidade.
Tento encontrar o mérito da circulação de influências que tem origens históricas, sendo uma das nossas peculiaridades a facilidade de recebermos e assimilarmos as dos outros. Gosto sobretudo da maneira como as podemos conjugar, como crianças que montam as peças do lego e brincam aos achados arqueológicos do que já é demasiado vulgar para ser raridade. Gosto do facto de nos movimentarmos (ainda que às vezes apenas virtualmente) e de não nos fecharmos nas nossas certezas, orgulhosos na ignorância e sós na limitação.
Para não haver uma sobreposição de modelos culturais sem cumplicidade com a nossa cultura, devíamos perceber o que vale a pena, cultivar uma sensibilidade para avaliar o que tem qualidade e recusar o que é simples lixo disfarçado de tendência e, portanto, de consumo obrigatório. Devíamos perder essa vulnerabilidade de aceitar tudo que nos dizem que é bom. E de ficarmos muito excitados com a mínima diferença cultural, o que nos permite abeirarmo-nos apenas de clichés sem fundo. Não gosto do argumento de que as coisas no estrangeiro são melhores à partida ou à chegada. Não gosto de quem vai estudar, trabalhar ou de férias lá fora e volta escandalizado a reparar em todos os pormenores de um Portugal atrasado e, com uma arrogância verdadeiramente pimba, despreza uma série de coisas interessantes pondo tudo no mesmo saco. Como se de repente tivesse acordado só por efeito da comparação. É bem certo, sei-o tão bem, que muito está por fazer a nível da seriedade e competência, a nível da formação, serviços, das imensas mentalidades que ainda sofrem de graves preconceitos, mesquinhez, pequenez e recalcamentos. Por isso mesmo é que custa que se desvie o caminho com essas mesmas insuficiências importadas sob outros rótulos. Por isso mesmo é que acho disparatado perder-se energia a divulgar e a impregnar referências culturais de tão baixo nível e desadequadas em vez de se tentar alcançar uma exigência à nossa medida, com alguma autenticidade, coisa que existe precisamente na combinação inteligente entre culturas.

a exaltacão das pequenas coisas

É preciso não desconfiar, de acordo com o desajuste dos antecedentes, de tudo o que nos deslumbrará para a frente, tocando os frágeis fios do encantamento.
Como o suave adormecer de um gato, as mãos na terra vermelha, o intenso sabor das provocações, a luz que atravessa a paisagem.
A busca de identidade é uma procura de segurança através de integração. Faz-se por sobreposição de imagens da comunidade e dos seus participantes. Mas a gente passa a vida a pretender criar uma identificação com a imagem que pretendemos de nós próprios. É por isso que a maternidade é uma forma de auto-identificação, uma busca da imagem ou de identidade com todo o sentimento de segurança que ela facilita. Não é por acaso que a maternidade e a pátria são imagens tão correspondentes.
José Cardoso Pires

Sexta-feira, Outubro 30, 2009

no hospital do Mindelo

Em Cabo Verde estive 15 dias internada no hospital. Foi uma experiência reveladora, longe de casa mas tão em casa. O ritmo do hospital é fabuloso, está tudo bem encadeado, os turnos, os antibióticos, as canjas insípidas, os soros, os ruídos e silêncios. A luz branca que acendem violentamente a meio do sono (uma vez uma enfermeira acordou-me à 1 da manhã para cravar um telefonema). É impressionante a importância do pormenor para que tudo funcione ou se aproxime do conforto. Ir compondo a mesa-de-cabeceira com os objectos devidamente necessários, tais como coisas várias de higiene, roupa, toalha, garrafas de água, livros, discos, os fones que não funcionavam, telemóvel, sumo, iogurtes, lençol. E é tudo. Tudo muito dependente do exterior e de teres alguém que cuide de ti e te vá trazendo as coisas numa reciclagem diária. Como fazem os solitários que não têm ninguém, entregues aos serviços do Estado indiferente? 

Ocupava o tempo com livros e pensamentos para que nada fosse desperdício, com a nossa velha amiga ansiedade, a tentativa de nunca perder tempo. Revolvia as memórias mais longínquas e ínfimas para me entreter, fazia cronologias e atribuía ligações aos factos e tentativas de justificação para tudo. Sentia-me quase preparada para morrer se fosse preciso. Olhava para as três crioulas do quarto que dormem o dia todo e se aborrecem sem nunca se queixarem. O arrastar dos seus rabos protuberantes. Filhas do tédio, lidam bem com a espera, o silêncio e a inacção. Que horizontes serão possíveis para elas, que nunca saíram nem vão sair da sua ilha e dos seus rituais de pobreza? Não sei bem o que é dizer do mundo senão uma coisa tão privada. 

equilíbrio difícil

O amor é como a teoria dos sistemas: se mexemos num elemento do sistema outro tem de se modificar para restabelecer o antigo equilíbrio. 

insónia

Desde criança que tenho insónias e ando sempre num estado meio zombie e extenuada, mas disfarço a fazer muitas coisas. A insónia trouxe toda uma nova perspectiva sobre a vida, nas minhas errâncias nocturnas a atacar o frigorífico, a ver a TVI e comprar porcarias no televendas, a lidar com os medos e os vazios. E a aceitar que a morte talvez me desse tréguas durante uns anos.

doméstica

Da próxima vez que tiver de assinalar a minha profissão vou responder que sou doméstica. Faço tudo em casa o que dantes fazia na rua: trabalhar, conviver, as tarefas domésticas clássicas, reuniões criativas, férias, lazer, cinema, amor. Tudo, tudo, só me falta tirar a carteira profissional. Por isso, quando vou à rua vivo um turbilhão de emoções com a exaltação do movimento, poluição, cores, ruídos, tensões.

Em quantos passos se traduz o futuro?

Os meus passos tantas vezes se atropelam e sucumbem e, como numa tragédia, sofrem reviravoltas. Acontece-me prender-me ao riso aberto e sonoro das meninas do lado, um riso que tem uma cor negra a rasgá-lo. Fico nesses instantes a achar que a vida nos trespassa com uma força voraz, que nos lança as suas garras como instrumentos que não sabemos usar. Uma alegria tonta e desajeitada como a daquele louco que aí vem a gesticular contra a lama.

criatividade e técnica

No tempo que vivemos gostava de desenvolver um sentido maior para o visual, de poder arriscá-lo assim livre e experimental, sem ter prisões académicas, teóricas ou líricas, sem este estúpido exercício das palavras que é uma higiene diária e nada mais. Gostava de ter mais sensibilidade plástica. Gostava de trazer um discurso em movimento, dominar a técnica e saber enquadrar e calibrar o potencial de força de cada imagem. A brincadeira que permite, a exibição dos outros através de nós e vice-versa, com o toque de intervenção e experimentalismo formal para ficarmos confortáveis nas leituras que farão do nosso objecto artístico. Gostava de ser capaz de experimentar, ter coisas a dizer de uma forma aberta, menos a preto e branco. Cedendo à linguagem visual - ganhar mais dimensão, gritar mais alto, mostrar, tornar enigmático. A imagem não tem de explicar, tem de agir. 

Mas sempre me quis afastar desse contacto por uma espécie de respeito a quem sabe, trabalha e discursa, usa e abusa da imagem. Num desejo de perfeccionismo ou, por outro lado, ao saber que já ninguém tolera a falta dele, qualquer coisa me paralisa. É difícil aventurar-me realmente em algo novo, continuo a apelar às técnicas tradicionais que não fazem muito ruído. Sei que um dia o mundo voltará a dar-lhes atenção. Talvez não. Talvez o domínio da imagem seja mesmo tão charmoso que é irresistível. 

Se fosse artista seria escultora para sujar as mãos, para descobrir formas no vazio de formas. A maravilha da pele ser pedra, das superfícies porosas e grosseiras, ondulantes de firmeza, de outras dimensões ainda que com peso e gravidade. Mas gostava ainda mais de ser inventora, inventar a pólvora e a bússola, inaugurar uma nova era como Guttenberg e a sua máquina de imprensa. E lá voltamos às palavras.


da produção

Quando trabalhava na Trienal de Luanda tentava perceber o processo de produção artística daqueles jovens angolanos. Era engraçado assistir ao desenvolvimento das ideias e vontades e a sua quase imediata concretização. Não se perdia muito tempo a discutir os conceitos. A força era a da perspicácia em lançá-los de forma eficaz e de leitura simples, como uma espécie de jogo para se descodificar sem muitos truques. Sempre os trocadilhos como uma fórmula batida mas funcional de fazer pensar divertindo. Há ali uma frontalidade muito interessante e criativa. 

No capitalismo, a actividade criativa enquanto produção de mercadoria e bens negociáveis, características de todas as actividades práticas e produtos, era ali, claro, de suma importância. Todo o mercado da arte leva isto ao limite, mas nunca tinha interligado os dois momentos. Foi muito importante perceber o funcionamento, o espírito deste jogo. 

Depois, o brilho sofisticado do k-line, pladur e vinil contrastava com o pessoal que passava a vender na rua. Os putos e as mulheres, autênticas lojas ambulantes, olhavam para dentro da galeria, para aqueles objectos estranhos e contemporâneos, com um certo encantamento e magia. 

E isso era ainda mais belo!

Quinta-feira, Outubro 29, 2009

high culture

A burguesia esclarecida depara-se com uma corrida sem fim, a actualização dos problemas da nação e mundo, as aquisições culturais, mas com carisma. São uma categoria plenamente identificável dentro da sua heterogeneidade e exigência de singularidade. É uma batalha ignóbil a dos egos aspirantes à inteligência ou à criatividade, estão sempre em falta, amargurados com a tamanha ambição que, sem querer, se apossa deles e os paraliza.
E depois nada comunica. O público avalia a obra de arte como nojice pretensiosa de intelectuais, e estes, por seu turno, classificam o público (o público-massa) de acéfalos intratáveis. As duas partes tornam-se reaccionárias.

há um ano na China

Thomas, um francês que vive há dez anos na China e tenta escrever sobre arte contemporânea, oferece-me um pedaço de pão nas traseiras de uma mega disco de Pequim e a conversa começa. Os artistas de Pequim andam todos a 'fazer broches', só estão interessados em vender, os de Xangai são arrogantes, e por aí afora. Em relação à Europa: está pessimista com a joke que a Itália se tornou e os bulshit antigamente revolucionários da França. Fala sobre a China mas não se coíbe de falar do mundo.
Eu penso: é o mesmo em todo o lado, são os ocidentais a darem opinião sobre os países onde vivem, sempre uma opinião filtrada.
Entramos na disco, que se chama 3.3, super estilosa e bem decorada, põe o Lux a um canto. Raparigas trajadas com vestidos brilhantes e corte clássico sentam os clientes. Parecem cavaleiras ou damas da corte. Avança-se para a pista de dança, um grupo de jovens chinesas com mini-saias e lantejoulas, penteados very trendy fazem roda para dançar. Puxam os homens para o centro e imitam o bambolear das ancas meio streep tease. A excitação é muita. A mesma excitação com que viam a exposição de arte contemporânea e tiravam fotos a todas as obras. A mesma excitação com que vão às compras e remexem na roupa. Uma avidez de consumo, seria o mais fácil de concluir, mas eu não o faço porque não sou o Thomas que pensa que sabe tudo sobre a China.

Sexta-feira, Outubro 16, 2009

as hesitações do nómada


 

Uma partida é um tempo que separa outro, que vai mudar tudo, mas é ao mesmo tempo uma continuidade. Em todas estas deslocações e turbilhões o compromisso é, ao estar num lugar, vivê-lo intensamente, tornamo-nos uma espécie de Caramuru que casa com Paraguaçu, filha de um dos chefes dos tupinambás, e passa a dominar a sua língua e costumes.

A distância é condição para pensar e agir, não um afastamento de si. Muitas vezes queria não estar aqui, queria estar junto dos meus amigos e dizer-lhes como vale a pena essa prisão. Mas as relações à distância tornam-se outra coisa diferente de relações à distância. Uma amizade carinhosa e próxima pelo teor dos afectos e ideias que se querem partilhar. Chega uma altura em que a única forma que temos de rever a pessoa é pensar nela pelos episódios que vivemos mas também pelas palavras que entretanto deram nomes a sentimentos e explicarem fenómenos que são imperceptíveis quando estamos numa cultura de nos vermos fisicamente mas em nada frontal. Sinto as pessoas a crescer à distância e gosto de imaginar e ir sabendo da forma como organizam e desfrutam a sua vida, quase que ganho mais respeito pelos seus propósitos privados.

Depois há a história dos regressados que voltam à história, a si próprios, e terão ou não a capacidade de compreender o que lhes aconteceu. E o que é mais estranho, é que aí se dá também o encontro com o Outro. A cada paragem no desejado e atribulado regresso a casa, encontra-se o diferente - nada mudou que se veja mas há desadequações incuráveis em nós. Medo, a dificuldade de compreensão, conflito, alegria, espanto, ter de conquistar. Os mesmos elementos com que nos deparamos numa terra nova. Não adianta contar nada sobre a vida noutro país, seria o mesmo de contar como é a vida noutro planeta: para as pessoas tanto faz, pode existir como pode não existir. E a grande riqueza nesse acréscimo de experiências fica, com a inutilidade de partilha, assim meio patética dentro de nós, transforma-se em sonho, alucinação, e vontade de voltar de novo a outros mundos.


bloguistas

Lembrem-se que na Idade Média podiam ir parar à fogueira por praticarem a ironia.


simpático

Lá estás tu com as tuas manobras de diversão. A produzir coisas e coisas, ideias, que depois não sabes o que fazer com elas, ou não tens tomates para lhes dar forma, forma de tarte que se atira à cara dos outros ou outra forma qualquer. Ficas-te pela vontade, pela conversa do que vais fazer, de onde gostavas de ir viver, como se isso te ocupasse espaço suficiente para depois não teres de o realizar. E assim vais lamentando por aí a fora, os anos passam, o lamento transforma-se em fracasso e, mais tarde, em amargura colada à pele. Mas não deixas de ser uma pessoa em potência, se calhar as coisas que não fizeste são tão interessantes como se as tivesses feito. 

ruminadores

Indivíduos letrados, iluminados, isentos e racionais, com a missão de ser árbitro do sistema político, corrigindo as injustiças, alertando para os problemas sociais e conformando a acção dos governantes às expectativas da população. São os que dão  e fazem opinião, os ruminadores. Os que escrevem poemas, crónicas, blogues, livros e falam na internet, rádio, televisão e conferências. E tudo lhes é acessível, desde o Iraque, o Líbano, o Hugo Pratt, Pessoa, Cimeira Europa-África, a reforma do ensino, a segurança social, o Ocidente e o kuduro.  Não suporto. 

Cada vez mais longe do conselho de Deleuze: é preciso resistir a estas forças sociais que nos forçam a falar quando não temos nada a dizer.

me engana que eu gosto

Os dois escritores amigos contavam estórias de pessoas obcecadas por eles, paixões demenciais de quem os persegue por todo o lado. Aparecem nos lançamentos, nas esquinas, mandam sms, emails, fazem promessas como se fossem os maiores amores de sempre. Dizem que os livros foram escritos de propósito para si, que são almas gémeas, etc. 

Os escritores queixam-se dos fãs e da falta de anonimato mas saíram dali a correr para ir aceitar pedidos de amizade de anónimos no facebook.  

cidade-monstro

Duzentas mil pessoas por dia deslocam-se para as cidades à procura de melhores condições de vida. Entram naquele estado meio alucinado que há nas grandes cidades, uma mistura de exaustão com conquista de liberdade, que consome as energias do indivíduo, com laivos de alienação e hipertrofia. Lutar todos os dias por um dever cumprido, adormecer muitas vezes em transportes, não ter dinheiro nem tempo para o lazer, viver em favelas ou musseques ou bairros sociais, mas pertencer à família anónima das grandes cidades. À família dos 30 milhões de Tóquio, Cidade do México, Seul, Nova Iorque e São Paulo, triste família sem destino que ostenta, no entanto, aquele ar ousado, seguro e descomprometido que há nas cidades. 

Os japoneses assalariados das empresas, guerreiros de fatos escuros que trabalham e trabalham e trabalham longas horas sem parar, e ainda vão aos bares com clientes e ao karaoke fingindo-se divertidos. Que chegam a casa tarde demais e as suas esposas angustiadas e sonhadoras olham para eles como perfeitos estranhos de quem nem conhecem o cheiro. 

Há uns anos deambulava por Paris e não gostava da sensação de viver ali. Sentia-me sempre à deriva mas não uma deriva política e literariamente interessante. Era uma deriva de perder tempo, de fugir de mim própria. A arrastar-me pelo metro, residências, idas ao cinema, a preguiça de ir para a faculdade no subúrbio e ouvir falar de flics e das turbulências da noite passada no metro logo às 8 da manhã. A odiar os operários, os turistas e umas almas penadas que andam pela rua das cidades europeias a animar a burguesia entediada. Os cantores de fanfarra, os homens-estátua, dançarinos de tango, pintores de calçada, os flautistas punks, os bonés, as barbas, as roupas coloridas, os cães e as maracas. 

Há qualquer coisa de gasto na Europa, sobretudo na ideia de conforto e no descuido com que se almeja a alegria, muito cenário, avenidas rectas e coisas que se intrometem nos gestos, supostamente para facilitar a vida. 

Os habitantes das cidades andam nostálgicos mas bem apetrechados com um telemóvel, um cartão multibanco, às vezes mochila e ténis. Parecem saber muito bem para onde vão e de onde vêm. Andam em círculos nos seus afazeres, apanha metro, muda a linha, desce escadas, pega outro transporte, ver aquilo, no fim-de-semana aqueloutro, sentar no café a ler os jornais e as opiniões alheias que farão conversa amanhã. Tudo faz parte do jogo de existir cheio de regras para cada singularidade e suas imensas vestes que camuflam esse ser solitário.  


Sexta-feira, Outubro 09, 2009

coisas a fazer

Atirar desejos ao mar, recolher águas de dois oceanos. Tomar banho com folhas nos kimbandas. Ver as gaivotas que habitam lá nos buracos.

doi doi

Quando não durmo e tenho crises de ansiedade sinto que a criança vem ao de cima. Nesta vida nómada, talvez seja para lembrar alturas de recolhimento, de carinho materno, daquela voz que sussurrava no escuro do quarto, como um milagre, quando eu gritava com dores nos ossos. A minha mãe vinha de leve e esfregava-me as pernas com álcool. Diziam-me que eram as “dores de crescimento”. E eram. E ainda são. 


desejada

Ontem caiu uma daquelas tempestades de verão: ninguém está preparado para a chuva que afinal todos desejam. 

república dos poetas

Ao contrário do que o Melo e Castro diz em Poex - que tem um antepassado que foi um grande poeta e nunca escreveu um verso - eu tenho um bisavô que escreveu milhares de versos e era mau poeta. 

Quinta-feira, Outubro 08, 2009

Sufficit


de Catarina Coelho e Tiago Lança, 2009

something to catch

Depois das paisagens áridas do Karoo profundo onde os pensamentos aquecem, a pedra, esteva, amarelo, castanho, verde. Vales imensos. Perto da costa grandes fendas na profusão da natureza e a sua violência própria. Algumas colinas andam a par, o que lhes dá um ar feminino. Insisto em ficar num albergue perto das montanhas em Springbok, terra das flores sem flores. L filma paisagens, algumas a partir do carro. Temos várias k7s com pores-do-sol. Mas nunca se filme o sol de frente que a câmara pode estoirar tal como os olhos cegar. M vai às compras. R fica no lugar do braai a fumar cigarros com o seu ar vigilante de lobo do mar. O M lava cuecas. Eu leio o Disgrace no cimo de uma rocha. O jardineiro com cara de Koikoi diz-me para ter cuidado com as cobras, que esta é a hora de dormirem. Um silêncio que os sons da tranquilidade retêm, um bater de asas, um réptil que passa, uma brisa.

alguém diz

- Mas estes gajos não têm raiva dos brancos, eu não compreendo como, não é nada comigo e tenho.

bed & breakfast

Cidadezinha Twin Peaks no interior do Free State (South Africa) cheia de boers amedontrados. Guest house que é um mausuleu das guerras anglo-boers (gostei da batalha de blood river com os zulus). Um bancário bêbado pergunta-nos, meio em afrikaans e em inglês, se estamos a falar russo. A serviçal roliça vai-se casar em Março e está muito feliz. “A minha mãe sempre disse: Vai sempre atrás do teu marido”. E ela foi e agora serve salsichas com ovos e carne agridoce a mesas de endinheirados rurais.
Ouvimos música gótica ao pequeno-almoço num café na Long Street, em Cape Town, a ver as pessoas a entrar na mesquita em frente.

depois de atravessar o deserto

Vir do interior para a costa é um movimento de encontro, fluir, desaguar.

Terça-feira, Setembro 08, 2009

a vida que nos palpita


querias....

Aula de dança acompanhada de marimbas e jambés. O pessoal salta dez vezes seguidas no mesmo lugar, saltos verdadeiramente altos com uma elasticidade brutal. Nós desistimos ainda mal tinha acabado o aquecimento e já deu para ficarmos todas partidinhas. Logo a seguir corremos a beber cerveja e a comer uma feijoada. 

dãããaãã!!!!

O actor moçambicano mostra como se deve virar o pão para baixo para não ofender as dicas e tradições dos mais velhos. Pergunto porquê e ele faz um ar perplexo. As tradições não se questionam.

Domingo, Setembro 06, 2009

equilíbrio


fotografia de Otávio Raposo

diz o Mia Couto

A maior desgraça de uma nação pobre é que, em vez de produzir riqueza, produz ricos. 

tudo coisas simples

Na baixa de Maputo entregam-me este cartão: Professor Sheik Youssouf cura diabete, hipertensão, cancro, impotência sexual, pneumonia, anemia e problemas espirituais.  Dá aulas de árabe, swahili e xadrez.

é então para isso que serve?

- Ali na aldeia não têm ídolos porque não chega a televisão.

Flaming men

Ele nem sabia o que era xenofobia mas toda a gente lhe disse que fora vítima disso.

Sábado, Setembro 05, 2009

ops!

No avião observo um casal de aposentados muito sereno. A estranha dedicação com que a mulher barra as tostas com queijo président e põe na boca do marido, depois corta o bife e volta a pôr-lhe os bocadinhos na boca e tudo o resto até à sobremesa. Já ia começar a pensar no desequilíbrio de favores e na propensão maternal que as esposas têm, quando reparo, ao se levantar, que o homem não tem braços.  


Quarta-feira, Setembro 02, 2009

fazer cinema

O realizador guineense a passar numa avenida em Maputo queixa-se:
Como podíamos iluminar esta rua? Só o dinheiro que os americanos gastam em ensaios e mariquices e nós aqui para contar as nossas estórias não há nada, temos de improvisar. A minha mãe tinha razão: nunca me devia ter metido nisto. Ela dizia devia era ser doutor e eu convencia-me de que fazer cinema era também ser doutor das almas.

leve

Há um distanciamento necessário para podermos viver em novos mundos sem nos perdermos. E sentir o centro-a-casa que pode ser o amor, onde quer que esteja.
Mas percebo que a curiosidade, esta fuga em frente, traga consequências e há quem se desoriente com os dados do jogo. Eu gostava de ser apenas uma folhinha na brisa, não pesar para ninguem, um insecto a sobreviver apenas com a violência necessária, não ter de ponderar pelos desejos e necessidades dos outros.

Segunda-feira, Agosto 31, 2009

escadas rolantes

Ela desce as escadas rolantes de uma qualquer metrópole europeia e o violino que se ouve ao fundo, provindo de um dos corredores por onde se passa sem nada fixar, aquele Bach destinado ao esquecimento imediato acorda nela um suspiro e uma certeza: não quero viver aqui! 

pacto

Ali selaram um pacto de amor entre colunas solitárias, onde desembarcara o Gungunhana, junto à praça hoje habitada por jovens a praticar street dance, turistas desnorteados e um cavaleiro esverdeado. 

De braços bem repletos um do outro, devoram-se com aquela urgência e perplexidade que raras vezes nos questiona. “O que é que nos está a acontecer?” Uma subtil hesitação antes de deslizarem para o abismo autofágico da paixão, glutão do eu, violador de certezas, caçador insaciável de novas presas de corações inocentes.

contar a dor

Ele emocionou-se a meio da entrevista. Teve de parar, desligar a máquina que registava aquele relato trágico. Era a filha de um cantor popular que contava como tinha sido dramático na vida daquela família terem assassinado o pai, crescer a ouvir barbaridades e terem de se defender, das mentiras e da memória do pai. Um grande cantor cujos temas enchem a boca de tantos intérpretes, inflamam o orgulho de tanto angolano para afinal ter sido morto na febre violenta de Maio de 77. 

Ela desfiava aquela estória e a raiva já esbatida ainda fazia mais impressão. 


um entrevistado

O coração estava cauterizado, depois da minha mãe ter morrido de doença do sono (tripanossoníases que afecta 66 milhões de pessoas), não consegui chorar com mais nenhuma das tragédias seguintes. 

o sul

Ai esse sul mítico, definidor de carácter, que vem de África, Caraíbas, Pacífico, Sudoeste Asiático, Próximo-Oriente, Península Arábica, Ásia central!

o sabor da idade: prosaico-sociológico

Como diz o MEC envelhecer é tirarem-nos o prazer das novidades para passar a ser tudo um déjà vu. 

Como diz o Bourdieu a idade é um dado biológico socialmente manipulado e manipulável.

num restaurante de domingo

A senhora comia o seu doce leite creme que deliciosamente actuava contra a solidão que sentia. O açucar a derreter-lhe nos lábios era um consolo imenso. Desejei não assistir a tamanha tristeza. 

Sábado, Julho 18, 2009

lei do ruído

Já não há vida nos bairros burgueses por causa dos vizinhos. Estórias dos vizinhos, toda a gente tem uma, e há aquela hora da noite em que se começa a contá-las, cada uma mais sinistra que a anterior. Técnicas cada vez mais apuradas de controlar a nossa vida e nos roubar a liberdade: medem os decibeis para ter um comprovativo de que se pode passar multa. É foda! 

Nos países onde ainda existe algo que se parece com uma forma descontraída de se viver, ninguém ousa meter-se nesse assunto. A lógica é bastante simples: umas vezes tu outras vezes eu. E somos felizes!


por onde começar? lição de escrita nº 1

Se uma imagem dispara ideias uma ideia dispara imagens. Deve-se trabalhar a ideia até descobrir as forças contrapostas que lá estão contidas, e cada pessoa é expressão disso. As duas pessoas devem estar em confronto mas também unidas por agum tipo de laço, forte, significativo. 

Quarta-feira, Julho 15, 2009

ainda há

Gente que faz o que pode para sobreviver sem que disponha nem das ferramentas, nem dos materiais, nem das lógicas, instituições, gramáticas, falácias que são as da ocidentalidade de quem manda, domina e dispõe.
RDC, A Terceira Metade

aqui inverno

Gosto do Verão, quando as vespas se fazem ouvir na cidade e a brisa do mar vem pelos intervalos dos prédios. As saias leves das raparigas, as peles douradas e as cabeças aéreas. Quando começa aquele borburinho nas cervejarias ao fim da tarde, entre imperiais, tremoços e chamuças, o prenúncio da bebedeira... Era quando tinhas as melhores tiradas.

Quinta-feira, Julho 09, 2009

culpa

Os pais e professores são sempre culpados de pecados terríveis apenas porque são pais e professores, diz o Mishima.

metafísicas

Enquanto fazia cócó a criança confessa-me: “estou desconfiado que o mundo não existe e estamos todos no céu, somos todos imaginação.”

a atracção dos opostos

 O rapaz falava com excitação de política americana pós-Obama. A rapariga ouvia-o embevecida sem comentar, com aquele ar orgulhoso de aprender muitas coisas com o seu namorado. Depois é a vez dela falar com excitação do seu trabalho de actriz  - a dificuldade de “deitar cá para fora aquele texto” e de entrar nas personagens com convicção. O tom psicanalítico não deixa de aflorar. Porém, além dele não saber o que dizer sobre o que ela conta, fica encabulado com os seus gestos alargados e expressões intimistas.

Domingo, Julho 05, 2009

africanistas...

Os ocidentais sempre alcançaram o continente africano para o devolverem como linguagem, no processo de revelar mais sobre si próprios do que propriamente do lugar onde estão. O discurso africanista (termo de Christopher Miller, na esteira de Foucault e Said) projecta os desejos ocidentais na apreensão ilusória de uma "ardósia em branco" de África.

formação de uma consciência

Aimé Césaire explica que começou pela mesma interrogação de sempre. “Éramos atormentados pelas mesmas angústias e, acima de tudo, ficávamos deprimidos pelos mesmos problemas… a nossa juventude não era banal… Era marcada pela lancinante questão, quem sou eu? Para nós, não era uma questão de metafísica, mas de vida a viver, de uma ética a criar, e de comunidades a salvar. Tentávamos responder a esta questão. No final, a nossa resposta foi a Negritude.”

Segunda-feira, Junho 29, 2009

perspectiva




fotografias de Otávio Raposo

Portugal na UE

Das fatias azedas e da sardinha dividida por 4 irmãos até à salada com rúcula e molho de soja alguma coisa terá acontecido.

piada seca

O homem vai à farmácia e pergunta: “tem camisas destas?” (apontando para a dele). O farmacêutico abana a cabeça. “Então dê-me das outras.”

A matança do borrego


O meu tio Palminha atravessava a faca na carótida, depois de ter atado as patas do animal. Deixava o sangue escorrer num alguidar mas sem proveito. Depois abria o estômago, tirava as tripas todas que vêm num saco. Com o bicho pendurado, fazia a descasca da pele, pedacinho a pedacinho com a faca a empurrar a pele, que saía como um tapete de lã que se arranca sem deixar de ser fofinho. Para consumo próprio matava-se no quintal, galinhas e borregos. Na horta - ou monte, depende do grau de peneiras - fazia-se criação de vacas e cavalos. O tio Palminha tinha muito jeito, conhecia bem os animais, tinha ajudantes para matar o porco, mas o resto era homem para dar conta do recado. Eu ficava fascinada a olhar para aquele espectáculo em que o cheiro a sangue me subia com um misto de confiança e desolação com a aflição do animal que, contavam, apesar de tudo, era melhor ser morto assim do que com as idas para o matadouro, pois nessas eles pressentiam a morte a léguas.

era um tipo sofisticado

que gostava de whiskys velhos e mulheres jovens.

Segunda-feira, Junho 22, 2009

nome

Quando ouvimos o nosso nome na chamada das urgências no hospital parece que se referem a outra pessoa ou apenas à pessoa-corpo, pessoa-cidadão, completamente esvaziado. Estranho também quando o ouvimos em resultados de provas ou de concursos. O melhor de nós fica no nome sussurrado no quarto.

ambiente froxo

Há quem discuta a discordância e as fricções que advieram do primeiro modelo proposto ao que se realizou (sou sensível a este argumento). Resume-se a questão das eleições entre quem vota ou não. O poeta retoma os diálogos de cadáveres lembrando outros cadáveres. E alguns vultos vão chegando no meio das aporias. A artista camone grita "to shoot you against the wall". Nada de muito excitante mas eu aqui com a cerveja e o cigarro, quase morta, fico bem no retrato.

não nos calhou sequer a utopia

A energia de 2009 é a do desespero, a de 69 era da esperança e utopia. A juventude vive na precaridade mental e material enquanto à frente do Estado se desenvolve uma corrente reaccionária totalmente desinibida.

Segunda-feira, Junho 08, 2009

é demasiado

Mulheres bem-sucedidas nas suas profissões com desespero e vontade de perder-se; mulheres prisioneiras da eterna juventude, beleza, saúde perfeita, vida sexual activa, bulímicas, anoréxicas, ninfomaníacas; mulheres ansiosas, neuróticas, reformadas, desfocadas; mães distantes ou negligentes, mães obsessivas; meninas selvagens, raparigas raras; seduzidas cegamente, cheias de anseios secretos, desejos reprimidos, culpas, medos, sonhos e conflitos.
Vagos monstros de um olho só.

lógica das Greguerías

O dom das grandes revelações do que nos parecia óbvio e por isso não o víamos.

uf!

Nesse dia ele esteve quase quase para apanhar aquele avião que caiu no meio do oceano. Ainda bem que de vez em quando a campainha daquela verdade simples mas cruel nos vai soando: por muito que se tente afastar a sua iminência, a morte é uma ameaça constante.

No Retiro, em Madrid

As mães passeiam carrinhos de bébés. Depois param o carrinho num banco e lêem ou fazem croché junto a ele, com a serenidade no rosto, apenas levantando de vez em quando os olhos para dar conta da outra serenidade mais pequenina. É o quadro mais belo e verdadeiro que pode haver. Muito mais do que todas as pinturas que desfilaram no museu. Quais retratos e vanguardas.... góticos, impressionistas, fauvistas ou românticos, aquela luz e testemunho vale por tudo!

Quarta-feira, Maio 20, 2009


Namibe, fotografia de Kiluanji Kia Henda

Terça-feira, Maio 19, 2009

reconhecimento

Apesar de andar distraída com a felicidade, reconheço a incapacidade de ser plena.
E também a imbecilidade das mulheres, sempre insatisfeitas com o que lhes faz bem.

duas praias do coração

Deitada na praia da Costa, sinto-me estranha: esta não é a minha praia!
Apesar de não ser lá uma grande praia, estou habituada à ilha de Luanda. É uma praia-casa-escritório ou libertação-do-stress-da-cidade-nervosa. Uma praia de passar quase todos os dias um bocadinho.
Gosto da sensação de estar lá longe noutro continente a pensar Lisboa e as pessoas de Lisboa. E também de esquecer que este mundo do lado de cá existe.
Naquela praia não há estas ondas nem surfistas nem prédios feios atrás. É estranha a familiaridade de quando pisei as areias da Costa me sentir quase lá, de caipirinha e sandes de frango com maionese na mão, com a musicalidade do sotaque angolano e os corpos viçosos em redor. Lembro-me nitidamente de certas vozes e das conversas com gargalhadas pois ir à praia é como ir ao café, pode-se sempre surgir.
Nesta praia da Costa, em vez dos africanos, tugas, chineses, brasileiros, russos, vendedores de panos e colares, estão uns senhores barrigudos com ar de que a frequentam há muitos muitos anos e que se calhar até estiveram em África 'noutras circunstâncias'. Se calhar também nostálgicos disso, como eu, mas das 'outras circunstâncias'.
Não reconheço esta praia a não ser pelo que me transporta para a outra de Luanda. Leva-me ao calor da areia, e à água-caldo-morno, imagem do azul, sempre a nostalgia de uma costa atlântica de onde apetece partir, a solidão muitas vezes, o livro que conseguia absorver melhor, a pele que “emorenece” amante.

rituais

Gostava de ser uma pessoa mais ritualística. Sou em poucas coisas, mas bem precisas: momentos de solidão necessários, escrever no caderninho, tomar café sozinha, cozinhar alguns pratos, trabalhar muito, gostar de estórias secretas, ter pés em vários mundos.
Lembro-me daqueles prazeres simples que tinham os meus avôs quando ia lá almoçar: espremer o sumo de laranja, fazer um bolo de chocolate, bater as natas para os morangos. Durante a manhã cozinhavam os pratos do costume: empadão de carne com esparguete ou frango assado com arroz gratinado com rodelas de chouriço. Depois, se não repetisse no mínimo cinco vezes, ficavam ofendidos e achavam que eu não tinha gostado do repasto. Depois ofereciam-me uma nota (ainda em escudos), descia o elevador e cá de fora virava-me sempre para o alto daquele prédio de Benfica pois o ritual de acenar era indesculpável dispensar. A minha avó morreu, e o avô continuou a fazer isso. A falar menos, mas o prazer simples era o de me ter presente a partilhar / assistir aos seus rituais de solidão.

Quinta-feira, Maio 14, 2009

voar dentro da China

Aviões enormes cheios de chineses com óculos e os seus laptops. Jornal em chinês, grande, com as notícias da crise financeira, que ainda era só da América. Sabem bem que o mundo está a mudar e eles são agentes dessa mudança. De repente o avião para Guangzhou onde houvera um grande tufão, começa a dançar em assustadoras turbulências. Por momentos todos pensamos que vamos morrer. Sobretudo quando o rosto das hospedeiras está, cada vez menos disfarçadamente, alarmado, e o chá e a coca-cola caem no corredor do avião. A visão da morte atravessa-nos todos, brancos e horrorizados. Só queria dar as mãos suadas. A única coisa que me podia reconfortar: morrermos juntos.

“espera lá pá, tenho de escrever isto”

Coleccionar momentos. Passear por uma cidade qualquer:
uma mulher espera o autocarro e angustia-se como vai pagar as despesas escolares do filho;
um rapaz de i-pod lembra-se do campismo do verão;
uma rapariga tem um casaco vermelho e mãos nervosas, vai amanhã ser operada.
Mas eu não sou o anjo das asas do desejo!
Ouvir uma pessoa a falar e querer anotar a situação em que ela está a falar. É a situação, os gestos, não o que está a dizer, que me interessa.
O sabor da maçã é melhor do que a descrição do sabor da maçã?
Memórias adoráveis, cultivadas, para manter vivas as pessoas e os momentos. Lembrar o tempo para trás, amarrar os gestos, para que estes não sejam só acidentes de percurso e nos façam crescer. Dói-me às vezes recordar de forma tão preciosista e acumular, não deitar nada fora do que se viveu.
“A verdadeira substância de um diário não são os acontecimentos exteriores mas a evolução moral da pessoa que escreve” diz o Villa-Matas no Mal de Montano.
Posso escrever todas as banalidades, até as rachas do tecto que observo, o que interessa e depois fica é um estado momentâneo que reflecte mais do que está ali, mais do que espuma dos dias que fica grudada de uma página para a outra.
Gostava mais de coleccionar insólitos.

Quarta-feira, Maio 06, 2009

sms matinal

O Império está fechado vou para o Astro que é perto do Pão de Açúcar.

só nos resta


fotografia de Kiluanji Kia Henda

Só nos resta ser dos mais obstinados, manter a imaginação durante mais tempo, viver segundo os nossos próprios termos, tratar a realidade como um horizonte de expectativas incertas e contingentes, crescer com obstinação e resistência. Pois é da capacidade de nos recriarmos, de escrever com uma nova linguagem, abrir os braços ao presente e à curiosidade que mexe, que nasce o poeta forte.

iman

Uma declaração de guerra é como uma declaração de amor. Estamos em pé de igualdade com o inimigo, quando nos elevamos ou rebaixamos fazemo-lo em função do outro.

também podia ser ao contrário

A tua alegria é o reduto de uma triste desarticulação com a vida, é um estado constante e não um estado de graça. Preferia ver-te chorar, irritavas-me menos.

chatices

Deve ser muito constrangedor viver com um mau poeta, saber isso e não lhe poder dizer.

1973

Ano da morte de combatentes idealistas políticos. Em Portugal nesse ano os jornais diziam que a PIDE era uma invenção e a política ultramarina era um exemplo de respeito pelos direitos humanos.
Que vaidade de pensar que compreedemos as obras do tempo: ele enterra os seus mortos e guarda as chaves. Só nos sonhos e na poesia, nos jogos - acender uma vela e andar com ela pelo corredor - é que por vezes nos aproximamos daquilo que fomos, antes de ser isto que não sabemos se somos.

Julio Cortazar, O Jogo do Mundo

Observação Directa

Ama-se aquilo com que se cruza, mulher, paisagem, caminho, ou porque evoca emoções sabidas ou porque é novo e vem casar com a busca, com o que se adivinha, e é pressentido a sós, e só talvez assim.

Ruy Duarte de Carvalho

Sábado, Maio 02, 2009

jocosidade à portuguesa

Na tasca às 11h da manhã os homens trabalhadores cantarolam e pedem o primeiro favaios do dia enquanto se metem com o homem do café:
- Então Zé, sentes-te bem?
Resposta: - Só me vou sentir bem quando tiver cem anos!
- Já falta pouco Zé.
- Já não falta metade.

grandes poemas do Auto-ajuda

Sabia demais.
Mataram-no.
Sabia tudo.
Suicidou-se.


** *** **

O poeta puramente imagético
disse como se fosse um funcionário da EPAL
justificando a sua visita:
vim para contar a água.


Tiago Gomes

Quinta-feira, Abril 16, 2009

eu escrevo quando me apetece

mas há quem escreva para ajustar contas ou lavar roupa suja. 

triste sorte

Ira de Aquiles, fúria de Filotectes, sofrimento de Prometeu, invectivas de Medeia, loucura de Ájax, desespero de Electra, em nome da justiça se clama vingança e se desencadeava retaliações.

E esta minha triste sina de ser demasiado benevolente...

um dia...

Um dia vou voltar aqui à terra de todas as minhas dúvidas mas onde uma vez também soube confrontar-me e perceber que é comigo o destino e o sofrimento de todas as coisas que toco e nessa validade sofrível dos outros à minha casmurrice e impedimento não me restará nada mais a não ser a solidão profunda de uma ilha, onde o conhecimento se faz como processo vulcânico e quando jorra é fatal, destrutivo mas criador de novas vidas, nova terra feita de cinza e mistério e inóspita pois bem. 


Terça-feira, Março 31, 2009

Luanda sensorial

Ruídos. Carros e carros e carros. Vozes por entre as buzinas. Passos de chinelos.
Pessoas a falar ao telemóvel - Tás onde?
Pessoas a cumprimentar-se - Comé? Tudo fixe?
Pessoas a insultar-se – vou-lhi bater! você vai morrer hoje!
Pessoas a pedir– madrinha, arranja só 100 kwanzas pra comprar pão.
O segurança conversa com a prostituta. Ela sabe dar música. Ele sabe o que ela quer ouvir.
O semba a cantar o orgulho de ser angolano.
Carros a chiar. Motas a arranhar. Todos se comunicam pelo tubo de escape como pelos rabos os cães.
Sirenes de ambulâncias. O doce amortecedor do jeep.
Kinguilas a fazer pssst, pssst, psssssst.
É O QUÊ???
Um avião cheio de chineses a aterrar.
Um candongueiro a despistar-se. Espalha-se contra outra viatura. Já raspou. O choque faz-se ouvir na avenida inteira. Logo os insultos e as palavras à toa.
De quem é a culpa, de quem é a culpa?
A velocidade? Os buracos na estrada? O kuduro a bater?
Ou mi mata ou quêê!!!! Culpa é de um, é do outro, é do pessoal que vai dentro que não fez nada e tem sempre culpa de tudo - penando a vida inteira.

Sai a bitola a estalar, com este calor sabe sempre a pouco. Venha mais uma e outra e mais outra e mais outra ainda e… no final de tudo, não esquecer a da porta.
fim da manhã. camarada: estou fobado. Vou comer na casa da tia Júlia. No quintal o funge fumega. Devoro-o com peixe seco. Encosto-me à cadeira a dormir um cochito.
À noite na discoteca beijo a garina. O beijo sabe a estrelas cadentes.
Fico tonto e flutuo na pista.
Ao levá-la a casa como ginguba para disfarçar o nervoso.
Saboreio um cigarro depois de a ver desaparecer no portão. A 'mboa é linda, vou conquistá-la. A minha língua enrola-se com tanta emoção. A que sabe o mar?

Cinzento e castanho.
Cidade em construção. Prédios a crescer. Todos os dias mais prédios, rebentam bancos e escritórios. A cidade cresce, para cima e sobretudo para os lados.
A terra é palmilhada por casas e casinhas e musseques e coisinhas. Uma cidade em expansão. O pessoal do mundo, o mundo é uma casinha, tá a vir!!! TÁ A VIR!!!! posso falar todas as línguas na banda que alguém me vai entender.
Cores. Vejo arte contemporânea e arte da Mauritânia. O traço, o espaço, a terra que vence o alcatrão. Ano 2007. Luanda tem muito que ver. Tem muito que fazer. Ele quer participar, ele quer estar no ar.
Precisa de ver e ser visto. Dá atenção à visão.
A mulher sentada com o puto de um lado e o abacate do outro.
Os panos, as pernas sempre em movimento. MAS VÃO AONDE?
O mar é um azul que às vezes tem cor de gente. Mexe como nós, em convulsões.

Cheira-me a esturro. O mambo tá a queimar. Perdi tudo perdi tudo. A casa ardeu. O dinheiro voou ontem no boda.
Cheira-me que não vou aguentar até ao próximo fim do mês. Os meses nunca mais acabam, são longos, mas se acabassem logo a vida era muito curta.
Mano, diz só: sentiste a fragrância daquela 'mboa que passou? Perfume de alfazema. Roupa lavada ontem e estendida ao sol. Mmm. Lençóis lavados. Quem me dera dormir mil horas mas tenho de acordar às 3 da manha para vir de Viana para o trabalho.
Na rua o cheiro do esgoto. O cheiro da gasolina. O cheiro das crianças. Cheira a fritos nas escadas.
E já sentiste o cheiro do pó?

O meu corpo modela-se. Sinto a textura da pele. Pele veludo. Pele forte. Pés que conhecem a sorte. Sinto o beijo: a tua língua esconde-se e revela-se. Quer dizer coisas.
As ancas dançam tarrachinha. Encosta mais um pouco... mas deixa que eu te atarrache bem!

Sou matéria sou feita de terra como Samba e tu és feito de fogo como Maweze e foi o deus Suku-Nzambi que nos moldou. Somos desta terra. Aqui nascemos e vivemos.
Somos a matéria que temos, mas também podemos ser outras coisas.

Desequilíbrio.

Domingo, Março 29, 2009

a vida-paródia do Mindelo

Na festa de Carnaval as perucas, cuecas com gabardina, cristas cor-de-rosa e azuis, olhos com sombra prateada, brasileirada alternada com zouk, tinham um mundo próprio. Invadimos o terraço perante a perplexidade de quem acaba de chegar, largando a dançar depois de observar. Na nossa mira pessoas bonitas, crianças, adolescentes sensuais, mulheres de trinta na fúria de viver com aquela amargura canalizada para outra coisa. Ali estávamos em harmonia, numa ilha de corpo humano, longe dos mecanismos das cidades, das capitais, de onde circula o poder e a alta cultura. À nossa medida, a vida desenrolava-se apenas nas voltinhas à praça nova e ao coreto. A namorada nova do estrangeiro, os desatinos de casais com que nos envolvíamos involuntariamente, as intrigas dos meios pequenos, eram um reflexo da imensa atenção que dávamos uns aos outros. O mundo chegava-nos apenas dos filmes de Domingo no cinema Éden e de um ou outro viajante que ali estacionava mas rapidamente passava a percepcionar a sua vida naquela dimensão de ilha para e com aquelas pessoas, nada mais interessava.

o menino burguês visita o colega do bairro social

No meio dos prédios todos iguais, uma casa de minúsculas divisões, uma mãe com ar repreendedor de ignorância cheia de moralidade, um canário, um poster do Phill Colins, um pai polícia que cheira a vinho, o mundo inteiro por descobrir e não vão fazê-lo nunca. A família reúne-se para almoçar: os dois jovens rapazes de cabelo espetadinho com gel e brilhante, caras rurais com roupas urbanas, sofisticadas mas baratas. Conversas sobre o que fizeram no natal passado ou no último passeio ao shopping. Ele sente-se bem ali e pensa: "Na minha família a esta hora estava-se a discutir o estado do mundo com valentes lições de história. Que chatice!" Depos pega no entrecosto e ri-se do "bacoco", irmão mais novo do colega.

pintura de Sara Franco
As cidades ou são premeditadas ou são espontâneas, diz o Dostoievski.

Sexta-feira, Março 27, 2009

li isto algures

Um país dirigido para um futuro que não se deseja é um presente em ruínas.
(pode-se substituir país por relação e tantas outras coisas)

agir

André Malraux escreve em A Condição Humana: "a acção humana verdadeiramente à altura do estatuto ontológico do homem é o acto". Se, depois de tomar decisões e pensar nelas com calma e ponderação, não avançar para o acto estarei a trair o meu estatuto ontológico. Mas não é fácil.

Terça-feira, Março 24, 2009

confusa

Já não é o homem que faz a história mas o sistema, uma espécie de monstro que age brutalmente destruindo o que o homem levou séculos a construir. Já não são os homens como dizia marx, os agentes, mas é este (a economia de mercado ou outros semelhantes) que dispõe como um tirano da vida dos homens.
Mas no entanto há quem diga: "o futuro? pergunta ao Obama!"

Quarta-feira, Março 18, 2009

cores fortes

Casas preto e branco, com varanda de madeira. Sempre o preto e branco igual ao das fotografias dos baleeiros. Igreja enorme e central na vila. Natureza forte entre montanha e lava. Também o preto das casas com o verde da natureza, o que faz salientar o verde, o mar e o vento.
Na mercearia da vila há um café (cujo dono é o mesmo - ou no café há uma mercearia). No café há um maxilar gigante de baleia pendurado, e ao lado do maxilar um autocolante de proibido fumar. De manhã, no café, as pessoas falam do moço bêbado a quem não podem - não devem - servir álcool. Denoto um carinho de comunidade, mas áspero e difícil.
O lado temerário desta gente de terras pequenas e combatentes, com os seus arpões de suor e medo mas imprescindível confiança.
O ar de tédio denuncia a nossa vida do ‘continente’.

sem ofensa

O rapaz do bar da praia do Almoxarife apressou-se a ligar a música rn'b aos berros. Na cacofonia com o relato da bola e a aparelhagem potentíssima, corre a exibir-me o seu Honda à frente da esplanada. E eu, impávida e serena, nem estava a perceber o código. Parece que os bens materiais são um grande troféu para o engate... coisa que infelizmente nunca resultou comigo pela minha incorrigível atracção por 'pelintras'.

Quinta-feira, Março 12, 2009

Eu vi a luz
em um país distante!
Camilo Pessanha, Clepsidra

sobrevivemos a isso tudo

11 de setembro de 2001, ao Tsunami de 2004, ao Katrina em Nova Orleães de 2005, terramoto Sishuan 2008, Mumbay 2008, aquecimento global, crise financeira.

serenidade desejada

Só as ervas balançam. Na alta relva onde brincamos com os sacos-cama estendidos, a tenda já desmontada, o muro de pedra preta rectilíneo lembra o zelo desta vila com as casas bem pintadas e em total sintonia na paisagem, assim como as pessoas.
Assim como as pessoas, também os lagartos correm a esconder-se nas fendas entre as pedras e eu angustio-me com o esconde-esconde.

Domingo, Março 08, 2009


fotografia de Nuno Martinho, 2003


sinais
A clareza das coisas, porquê hoje este assalto assim de sinais? O que é estranho é que me são dados, não os procuro, crescem nas árvores como pássaros, os sinais. Não lhes correspondo nem sei ver o seu porquê, apenas recebo. É o que sei fazer: receber, os poucos que vou dando não são interceptados. Falha na mensagem, código errado, pessoa não atenta, não merecedora, desistência. Sinais cada vez mais para dentro, o que os faz revirarem-se, interferirem uns com os outros e perderem a pontaria, são desconexos, logo não sinais.
Voltas à tua margem.
O nosso segredo é vertiginoso em sensação porque embelezamos cada história ao dar vida. Imagino: enquanto cresço, cresço, o mundo não muda muito, sempre este olhar desfocado no metro, no ruído ensurdecedor e fatalista de que alguém se vai atirar, as pessoas que passam sem se passarem, o rodopio geográfico das vidas simultâneas. Saiam dos buracos, escancarem as vossas carnes amarelecidas a este sol vibrante, evitem a solidão. Grito isto, e já está gritado!
Ana procura as imagens.
A solidão em Lisboa é o hall de um prédio antigo às escuras, uma luz que se acende num ruído seco e um velho de chapéu que desce vagarosamente o degrau da porta lá fora e lá fora, ah lá fora as escadinhas desertas e intermináveis não lhe trazem nenhuma ligação ao mundo. O velho sobe as escadinhas como se caminhasse lento para demorar a morte.
Lisboa é uma caixa vigorosa de histórias. Os passeantes nunca se cansam, há sempre um velho do restelo bêbado a gritar filhos da puta, anda cá cabrão, entre muitas frases desconexas. Há sempre um trauma de guerra na cabeça do bancário que atravessa a passadeira, há sempre uma menina de belas-artes a descer o chiado, com olhos grandes e claros presos às cores da rua, há nem sempre uma velha a espreitar, um arrumador de carros que não desejamos, e uma mulher nas ruas da amargura.
Ouve no metro as pessoas a comunicarem.
Quantas vezes é preciso afirmar “é assim” para que alguém nos ouça, e depois nada é definitivo, axiomático, mas apenas uma opinião.
O sol arde cada vez mais, queima-lhe a pele e a cabeça. Torna-se difícil pensar para além do pensar calor. Ana observa para dentro, e deita-se no verde. As miúdas vêm em bandos para a relva, falam alto e de cantigas da moda. Comem batatas fritas alternando com pastilhas. E o lago deixa de existir, o lago que fixavam os olhos dos pensadores solitários é agora um pântano de lama pegajosa que já não concede paz ao olhar e os senhores do anfiteatro viram-lhe as costas desiludidos.
Às vezes páras o que estás a fazer, olhas a atravessar o calor e o ar pesado do tempo e ficas nesse ritmo que é teu, a implorar novas forças. Como obra do desejo, a ira desajeitada contra tudo e todos menos contra a comoção das coisas.

fotografia de Nuno Martinho, 2003

daqui desta lisboa comprometida...

Ali te sentaste a contemplar a cidade do outro lado e... quão longe estamos do mundo, embora o mundo seja aqui esquecemo-nos dele e só temos estes pés inúteis para nele pousar. Estou no cú do mundo e imagino onde estará a sua cabeça, quem o pensa quem o constrói. E houve um gosto de ferro na boca, quando pousaste a mão como calando o gesto e...
olho é sangue é sangue puro do meu, detesto o sabor inédito assim na boca. Ter-me-ão dado um soco? É bem provável, um soco invisível fez-se ouvir em mim e resultou num golpe sangrento que mescla tabaco e gosto a dinheiro na boca. O sangue tem o mesmo sabor estranho e férreo do dinheiro e isto não é metafórico.
Então, pensaste, quem serão os meus inimigos, a quem devo a vingança de existir? À volta só um cão esfaimado ousou abeirar-se de ti. De repente parece que tudo morre e é assim o mundo do fim do mundo. Quiseste então desaparecer tão fugaz como o miúdo do barco, correr da mulher que o odeia, correr de todos os polícias que são a ilustração fácil do nosso ódio, correr da modernidade e da promíscua relação que nos obrigam a manter com a cidade inteira. (...)
2001

Sábado, Março 07, 2009

sincretismo

Quinta-feira, Março 05, 2009


foto de Alexander Gerner
Os resultados e comentários dos jogos de futebol são recebidos com a mesma desemoção como o são o circo da assembleia.

a cidade

A cidade é um chão de palavras pisadas a palavra criança a palavra segredo. A cidade é um céu de palavras paradas a palavra distância e a palavra medo. A cidade é um saco um pulmão que respira pela palavra água pela palavra brisa A cidade é um poro um corpo que transpira pela palavra sangue pela palavra ira. A cidade tem praças de palavras abertas como estátuas mandadas apear. A cidade tem ruas de palavras desertas como jardins mandados arrancar. A palavra sarcasmo é uma rosa rubra. A palavra silêncio é uma rosa chá. Não há céu de palavras que a cidade não cubra não há rua de sons que a palavra não corra à procura da sombra de uma luz que não há.
José Afonso/Ary dos Santos (ouvir/ver)

pastéis de nata

Já sei que o pastel de nata não me dá prazer mas continuo a pedi-lo com a bica. 'Um minuto na boca uma eternidade nas ancas’, penso nesta grande verdade que um amigo do Porto me disse, sempre que como pasteis de nata.
Quantos quilos de bolos e farinheiras, carnes suculentas, já terei ingerido?
Os erros têm de repetir-se eternamente senão parece que perdem a sua condição: que nos atrai sempre.
(mas o erro nada tem a ver com as carnes ou os pasteis de nata, pois eu, em termos mentais, estou abaixo da linha do Equador e lá nós não conhecemos o pecado)

ciclo

Para completá-lo nesta perfeita imperfeição: a utilidade que se dá aos dias, a higiene diária e os vícios de amor, a espiral da semana, as roupas mais ou menos estilosas, os lançamentos de livros, os rolos de papel higiénico para a reciclagem, as caras conhecidas, os espectáculos de Lisboa, as makas da família, queixas e exigências da mãe, o cansaço anímico do pai, os não-ciúmes do namorado, a análise do ego da amiga, o sarcasmo do amigo, perda de paciência minha, fumo em excesso do Estádio, fofoca deste, doença daquele, as conferências do X, os projectos de toda a gente, os jogos eróticos, a maternidade das amigas, o fundamentalismo da A, os preconceitos do sedentarismo e bairrismo, o snobismo dos cinéfilos e dos académicos, a incapacidade de lidar com a diferença, com o que não tem cursos, imagens, referências semelhantes, ou seja, o que não é semelhante; a doçura dos apaixonados, o deslumbramento dos estrangeiros com este à-vontade negligente, a loucura daqueloutro, a ruptura, a falta de coragem para romper, para ficar, para continuar no carrossel.

Iuglia

Iuglia é moldava, mora em lagos em frente à Meia Praia. Trabalha há 6 anos no mesmo pequeno hotel, na parte da lavandaria. Não subiu na carreira. O marido, de engenheiro na Moldávia passou a motorista. Quando chegaram não pôde deixar de reparar no egoísmo dos algarvios: levava bolachas e bolinhos para as colegas no trabalho e elas riam-se tipo a dizer que tolinha, deixa estar que aqui ninguém dá nada a ninguém. As mesmas que só falavam de comida, que tinham tanta abundância de repasto durante a semana, gabarolice de cozinhados a dar c'um pau, mas prova de paladar nem vê-la. Depois estava chocada com a falta de educação na escola do filho. Ela, a rapariga que no tempo na União Soviética viajara pela Rússia e Alemanha (de leste) por ter a abébia de um pai comunista e que nas aulas ficava em silêncio com os cotovelos e ante-braços em cima da mesa sempre atenta ao que o professor dizia, tinha agora, numa terra chamada Lagos que antes nunca sonhara existir, de aturar a ignorância arrogante dos administrativos e o desleixo dos professores. Nunca foi convidada para casa de nenhum português. Salário, nada que desse para mandar de volta aos familiares moldavos.
Entretanto, depois de me confidenciar tudo isto e muito mais enquanto ficámos internadas no hospital, decidiu que se vai pôr a andar. De Portugal já chega, mas aprendeu a língua e gosta muito do marisco “percebes”.

a esta hora para o que me havia de dar....

Despojamento, precisão do gesto, nada é deixado ao acaso. Pensar a diferença entre calma e estatismo.

Quinta-feira, Fevereiro 26, 2009

rasura

Há confrontos que nada trazem de poderoso, a não ser uma provação que passadas as primeiras curiosidades será logo ridícula. Estou a falhar na convicção dos actos. Depois de embrutecida, semente apagadora do resto, do sentir dos outros, o que pode surgir?

Palavras muito recorrentes na nova poesia portuguesa

umbrais, freixo, baldios, escopro, urdir, fímbria, sulco, pináculo, degelo, dédalo.

Verões felizes

Ainda é possível havê-los, nesse espírito antigo sempre actualizado, nas adolescências que tropeçam depois de já termos sido adultos e cumprido uma série de requisitos. Felizes mas sem certezas dos próximos tempos. Não sendo nada seguro, o conforto do presente restabelece dos conflitos anteriores e transporta-nos para dentro.

Quarta-feira, Fevereiro 25, 2009

grafitti

Tenho sono

(num spray escorregadio nas paredes de uma igreja de Queluz)

Sábado, Fevereiro 21, 2009

cartas de amor, segredos tamanhos....

Tenho uma enorme atracção pelas cartas de amor dos outros. Ao ler não deixo de emocionar-me. Como me não são dirigidas mais emocionante ainda se torna tentar descobrir quem são aquelas pessoas por detrás daqueles afectos.
Trata-se do movimento contrário: conhecê-las da intimidade para a banalidade.

pitas

A miúda tinha uma voz entre os gritos rebeldes mas folk da janis joplin e o atrevimento adolescente da bjork. Usava ganchinhos no cabelo, o que lhe dava um ar de eterna menina e era difícil imaginá-la na cama com esse ar de cordeirinho, se bem que conhecida por defender ideias radicais e com ousadia criativa.
Gosto dela por falarmos de coisas improváveis, o nível de abstracção da realidade ser elevado, surpreendendo com novas referências e estórias de outras paisagens e paradigmas de pensamento.

imperadores

Ele tinha a arrogância natural de um Bonaparte que acha que vai conquistar o mundo inteiro. E ninguém o enfrentava. Passava de moda mas a força da sua convicção residia naquela ideia de virilidade imbecil: não importa o que diz mas como finge dizer. O mais absurdo é este tipo de pessoas ser levado a sério.

Quarta-feira, Fevereiro 18, 2009

paladares

No início da refeição dá-se o mote para saber o paladar que aí vem. Saberá a fel, a memórias irrecuperáveis, a ventos turbulentos no cérebro, a cópulas interrompidas ou simplesmente a gambas com cogumelos? 

O resto da refeição, almoço, jantar ou passeio de domingo (um repasto especial) poderá ser totalmente envenenado pela simples ousadia de piadas de mau gosto, por um comentário não pesado, por uma falsidade que colámos na cabeça. 


multiculti ao jantar

Actriz argentina com artista digital colombiano, arquitecta de Viseu com programador experimental nascido no Zimbabue, cineasta do Equador com doutoranda do Porto, químico lisboeta com artista japonesa residente em paris, fotógrafo angolano com diletante lisboeta.

a luta da Madame Bovary

Também quero retratar a vida real com fidelidade, destruir o arquétipo da mulher romântica e do mundo romântico idealizado, mostrar a angústia e a fragilidade de quem é recusado pelo objecto de amor.  

obstinação

A casa dela tem livros sobre o cyberpunk e acção directa, cartazes de caveiras e t-shirts dos Dead Kennedys. A rapariga consegue trazer da adolescência o lado sofisticado porque agora já não é um simples gosto infantil, é uma forma de recusar a recordação para continuar a ser uma escolha desadequada da maioria. 

Com a idade os devaneios podem tornar-se ou muito obstinados ou muito patéticos. Acho que ela pertence à primeira categoria.  


distância

Ao pé dele nunca conseguia dizer nada de jeito, ficava como que com paralisia cerebral. Como se não soubesse sequer pensar nem lembrar-se de nenhuma referência. Com o comportamento nervoso e pueril de uma adolescente ao lado do seu ídolo de rock. Engasgada e imbecil, uma pessoa frágil que se torna desinteressante por já nem sequer deixar pressentir outras coisas para além do atrofio. Era um estranho desafio desejar estar com ele e não conseguir. Ser mesmo insuportável essa permanência, contar os dias, as horas, os minutos para acabar com aquela tortura, para voltar a partir. E depois passar o resto do tempo a contar os dias para se reencontrarem e perceberem o que sentiam. Porque a distância ajudava-lhes a saber lidar com a coisa, a dar-lhe um sentido ainda que ambos questionassem muito. À distância era possível alimentá-la, a coisa, de uma alimentação precária. Na presença era a evidência do falhanço. 

Desejava no entanto que voltassem para uma ilha em que não houvesse outras coisas importantes, nem afazeres nem pessoas, e a vida fosse apenas a decisão sobre o quê e onde se vai jantar. Era a única maneira daquilo fazer sentido, ao recusarem o compromisso, afastando-se de si próprios. 

Segunda-feira, Fevereiro 09, 2009

linda bandeirinha

Sábado de manhã fui passear.
Fui até à Bijou para tomar café. Passei pela bandeira palestiniana no Camões, mas preferi andar, andar célere, porque fazia frio, e ir parando só para desenhar. A minha cabeça, protegida por um boné marroquino, só se preocupava em captar o que a circundava. Fui descendo. Inspirei o caril e o açafrão, estive à porta da mesquita improvisada ali no Martim Moniz e no interior de São Domingos.
Regressei, subindo a gosto, para o lado de cá. Já na minha colina, descanso na esplanada da Graça. Desenhando furiosamente contra o frio, o meu olhar é desviado por uma figura no céu.
“Olhó pára-quedista!” – dizem uns. “Não. É um reclame” – outros. Houve até quem imaginasse que era alguém, um gigante certamente, a passear no tabuleiro da ponte (pura ilusão perspéctica).
Linda bandeirinha que atravessou a vista de tantos! Nesta altura sim, a minha cabeça pôs-se a pensar: e se tivesse tentado voltar para casa e a casa não existisse mais?
Tiago Lança

O charme dos marginais de Lisboa não desapareceu com a morte de César Monteiro nem se perdeu o verdadeiro linguarejar tão solto. Há uma maneira de permanecer ligado às suas dores e por isso entra na língua que mistura ansiedade e desleixo. 

Camponeza

O papel cavalinho comprado na rua do crucifixo às voltas pela baixa com uma criança pelas mãos. Os sovacos vão suando ligeiramente. Passo num café antigo, a Camponesa, que dantes era antro de hippies e alguns drogados com um casal sempre a responder mal e aos berros e a expulsar os bêbados.

Era uma espécie de família de socorro dos dias que passam sem se passar nada, a não ser umas discussões vagas de quem leu umas coisas mas muito pouco e sabe dizer nomes de meia dúzia de filósofos como Nietzsche e blá blá blá. poetas. muitos poetas, freaks da rua augusta, meninas de belas artes e marinheiros.

Era uma casa à qual se rumava todos os fins de tarde, mesmo quem vinha de outra ponta da cidade. no meu caso pelo fascínio de estar com pessoas que trocavam experiências e conversa solta. E havia umas personagens sempre presentes como L. que não estudava nem trabalhava, tinha pais ricos mas abdicara de lhes mimar as expectativas para se entregar ao ócio e bebida. 

Agora é apenas um café bonito conservado na sua aura de leitaria de outrora, meio arte nova, e muito bem localizado (ao lado do animatógrafo). 


História dos regressados

O regresso à história, a si próprio, capacidade de compreender o que aconteceu e quem somos. E diante de nós a sedução, o medo, a dificuldade de compreensão, o conflito, a alegria, o espanto ou o vazio.


desinteresse

Vais-me desculpar se eu não guardo as coisas belas e potentes que nos aconteceram juntos. Por as votar ao esquecimento e não as pôr aqui transfiguradas para trazer um pouco de ti. Porque o que tu és agora, onde andas com quem estás e o que te enche a cabeça neste momento talvez não me interesse. Nem reconheço já nada de intacto na paixão do passado, a ameaçar reviravoltas na vida e tão facilmente desistente. 

inverno triste

As pessoas das cidades de inverno enrolam-se em casacos que parecem sacos cama e têm caras brancas que parecem do norte ainda que se esteja em cidades do sul.

Sexta-feira, Janeiro 30, 2009

fotografia no hotel em Addis Abeba

A mão branca a sair da porta do quarto com notas de dólares a pagar a puta preta.

O escritor italiano misógino

Desprezo total pelas opiniões femininas, nunca inquire as mulheres sobre a vida delas. Sempre a esboçar hierarquias: os melhores escritores, cinema, tradutores, tudo é uma questão valorativa só existindo o genial e uma grande merda. Sempre a passar certidões de óbito a tudo: a literatura morreu, o cinema morreu, a Itália morreu com Berlusconi. E claro, a partir da modernidade tudo definhou. O mundo actual não interessa, porque a única coisa que vale a pena é a maneira como ele quer ver as coisas e não o que existe.
O escritor italiano misógino é um menino mimado e desajeitado que não vê os outros à frente. Foge para a literatura porque a vida dá demasiado trabalho. Fala de comprimidos porque tem pena de si próprio. Diz piadas sem graça nenhuma em que só ele ri. É actor do seu próprio fado.

nuvens e chuva

Yun Yu é metáfora com que os antigo chineses designavam o acto sexual entre homem e mulher. Nunca ligado ao pecado, como no ocidente cristão, ou à culpa, mas ao prazer individual, à família e à saúde, considerado benéfico por favorecer a longevidade e ser fruto de um instinto vital. Deste lado a idiota mania de porem na cabeça das pessoas vergonha pelas coisas da natureza...
"Qualquer um pode se arrogar proprietário daquilo que faço, e isso acho giro. Não há direitos de autor nem pode haver. No momento exacto em que o aerossol deixa de beijar a parede e uma pintura é dada por terminada, declara-se aberta a exposição. O que está na rua é de todos. O espaço público deve ser verdadeiramente público. Pertence a todos. Qualquer um pode encontrar uma maneira de intervir nesse espaço em comunicação com os outros, essa grande nação planetária povoada por seres humanos tão diversos nas suas estruturas que só podem ser diversos também nas leituras que fazem do que podem encontrar na rua, em particular objectos políticos e estéticos. É a cidadania em pleno."
Dalailama

Quinta-feira, Janeiro 29, 2009

à superfície chinesa

É uma arte muito ruidosa, diz a mexicana sobre a arte chinesa contemporânea. Dois casais urbanistas da Cidade do México, onde deixaram uma bebé de 10 meses, vieram à China para um congresso de urbanismo. Explicam-me que os chineses estão a planear as casas, que têm uma média 70m2, a longo prazo mas com a maior rapidez constroem tudo: “O que a América fez em 50 anos eles estão a fazer em 10.”
Falamos das bizarrias da comida chinesa - espetadas de escorpião, cavalo marinho, etc. Dos hábitos estranhos: cuspir, empurrar. Das coisas que nos aproximam como o gostar de gozar com tudo, num riso meio infantil (eu reconheço-me). Da noção de espaço: da maneira como atravessam a rua (aprendem agora com os Olímpicos as 'boas maneiras' para receber turistas) à memória da fome: as mulheres mais velhas servem-se à bruta no buffet do restaurante tentando aproveitar ao máximo a abundância.
Enfim, são as conversas possíveis entre forasteiros que ainda não percebemos nada do sítio onde viemos parar.

grafitti

Invadir a prisão, assaltar o banco
Ocupar o rossio e jogar outra vez.

na pastelaria bijou tecem-se grandes convicções

- Eu nunca viro, venha quem vier. Defendo aquilo que gosto. O Benfica e o partido socialista, mai’nada. Não digo mal dos outros clubes. A vida é assim e mai’nada eu não digo pelas costas.
fecha o 24 horas, engole o galão e vira as costas ao café onde deu o seu show matinal de verticalidade portuguesa.

Quarta-feira, Janeiro 28, 2009

filhos da revolução aborrecem-se

Penso nos filhos tão bem educados que somos, que tivemos aceso a tudo, que crescemos felizes sem carências, cuja educação de esquerda sonhou gente solidária e lutadora. A quem contaram, como se de uma história romântica se tratasse, as coisas dos tempos dos nossos pais como o black power, os hippies, a oposição à guerra do Vietname, o Maio de 68, a primavera de Praga e as heróicas imolações, o assassinato de Cabral, golpe de Pinochet e suicídio de Allende, os fascismos domésticos e a luta pelas Independências, o 25 de Abril, a vinda das províncias para a cidade trabalhar muito e estudar à noite, a boîte em vez de discotecas, a libertação de presos em Caxias e todas essas matérias que agora servem para fazer filmes que misturam o entretenimento e o pedagógico. É certo que por vezes as estórias têm um tom ressabiado: a geração deles é que tinha a cabeça no lugar e privações que nós hoje não iríamos aceitar, que somos tão afortunados porque eles não viveram metade da liberdade que nós agora gozamos. E na qual nos entediamos tanto.
“Existir obriga a ser... e cada um vai tentando ser como acha que sim e acabando sendo como afinal é mesmo.” Ruy Duarte de Carvalho

recomeços

Voltar a um sítio onde se foi muitas vezes, ouvir uma música que se ouviu até à exaustão, ler um texto no qual se trabalhou horas, esgota, não há senão náusea e esvaziamento da anterior capacidade de comunicar. Não me esqueço da excitação da sensação de recomeçar a vida. Aquela ilha era o cenário ou mesmo a matéria da transformação?
Jongleur, Tchalé Figueira
“o coração ficou escondido no escuro e duro como a pedra filosofal”, Paul Célan

Sexta-feira, Janeiro 23, 2009

As meninas do bar Can Can na Hang Shan Lu em Shangai

Uma mongol de vestido leve decotado - pele muito branca, como mandam as leis da atracção chinesa (brancura pura, não apanhar sol, as peles morenas são as das pessoas do campo, trabalhadores rurais, logo atrasados e pobres)– atira perguntas e respostas meio cómicas, provocantes. Outra de 16 anos não fala inglês, só se ri. Calças de ganga e colete fino preto, corte de cabelo à tigela, os olhos são um risco de riso que perfaz um rosto do tipo japonês, parece saída de uma manga. Uma delas, uma espécie de cicerone com o cabelo muito bem apanhado, pede para beber um copo comigo. Mas eu não sou cliente delas, só da cerveja. E ela desiste.
As miúdas vêm de várias partes da China para aquela cidade selvagem de dinheiro e vida. Atiram-se a um cliente ocidental que lhes paga em bebidas. Quem ganha é a casa, um proprietário chinês que nunca lá põe os pés. Elas ganham uma pequena comissão do que fizerem beber. Todas as noites no mesmo balcão as mesmas miúdas com homens diferentes.
O rapaz que serve as bebidas – único homem da casa – fica a vê-las sem reacção. As línguas despontam, os homens velhos põem-lhes as mãos nas mamas, sentam-nas ao colo, fazem conversa tonta, elas elogiam-lhes o cabelo, as mãos, a personalidade de há 5 minutos: “you’re a smart and funny guy”. São profissionais das conversas de engate. Lá em cima há uma sala de snooker e luzes mais baixas para onde levam os clientes se querem uma sessão de ‘conversa’ privada.
Ao fim da noite quando eles vão embora jogam cartas umas com as outras, comem petiscos de rua “very spicy” que fazem retorcer as caras bonitas quando mastigam. Dão risinhos infantis no seu falar chinês a gozar umas com as outras. Parecem amiguinhas de escola. Todas as noite a mesma coisa, diz o rapaz.

Segunda-feira, Junho 09, 2008

Lisboa à tarde num sábado de Inverno. Algumas mulheres velhas à janela no cimo dos prédios. Cor branca, frio, ruas desertas, obras paradas. Um homem sai sozinho do Mac Donalds onde comeu sozinho, e traz um saco de plástico. Os almoços de família prolongados até às cinco da tarde, as mesmas conversas de sempre, os mesmos conflitos de sempre, os casais novos já desgastados a ver o filme em que meteram a sua própria vida. Lisboa à tarde de sábado. Um sábado de Inverno. Os cafés molengões, a televisão nos cafés com filmes de sábado à tarde. Autocarros quase vazios. A visão do rio prolongadamente de chumbo. Os suplementos culturais, o que ver, o que dizem, as estrelas dos filmes. O estômago a dar sinais, o enjoo dos cigarros, intoxicação de cigarros da noite anterior. A memória do teu sorriso louco de fim da noite. E prometemos que nunca mais íamos sair, depois do carro que nos levou a casa como se fosse a carrinha da escola a depositar as crianças. Repetimo-nos em círculo nas memórias da noite.
(2003)

Quarta-feira, Maio 28, 2008

correspondência

Ela escrevia-lhe cartas todos os dias para o palco de guerra, ele respondia pouco com medo de morrer e de a deixar num profundo desgosto de amor.

Sexta-feira, Maio 16, 2008

coisas dos 90 que tenho saudades

entrar à pala pela porta lateral do coliseu
passar a tarde na casa do Alentejo ou na Camponesa
tocar flauta no castelo ou na rua augusta
tomar cafés em todo o lado, inclusive em bombas de gasolina
fazer jogos colectivos em jantares, como o da personagem pateta colada na testa, o psicólogo ou o da história que a pessoa inventa na projecção do seu subconsciente
lisboa começar a ser 'bué cultural'
começar a ter vontade de ir viver para fora

quase muller

No estádio de Superdome em New Orleans 30 mil refugiados aí se acolheram desesperados por água, comida e medicamentos. O cheiro pestilento traduzia o maior urinol do mundo, onde houve também lugar para tiroteios, violações e mortes.
É claro que entretanto os pássaros já devem ter regressado àquele horror.

a oeste nada de novo

Tocava txalaparta em Bilbao enquanto se perguntava se o ramon york teria vindo de nova Iorque, ou porque certas pastilhas elásticas fazem balões maiores do que outras, ou porque será o dinheiro um assunto quase ausente na literatura. Depois decidiu investigar corsários e piratas. Ainda na juventude encontrou-se a almoçar com os industriais de Carolina do Sul em fábricas tão barulhentas que não conseguia ouvir uma palavra. Deixou-se disso, enriqueceu e comprou uma casa onde nunca tinha tempo para estar. Uma casa com símbolos gloriosos das suas aventuras mas para as quais não conseguiu arranjar destino dentro de si.
O Ocidente está fodido, disse-me um amigo catalão a comer batatas fritas.

Quarta-feira, Maio 07, 2008

fotografia de Bamba

Terça-feira, Maio 06, 2008

grande Patti Smith a cantar Smell Like Teen Spirit

porrada

A miúda crioula que me trançava o cabelo pediu para desligar o disco do Bob Marley porque lhe lembrava o pai a espancar a mãe. Sempre ao som do No, woman no cry, umas estaladas para marcar território. Tal como os cães mijam, estes homens batem. Eram pais adolescentes, obsessivos, numa vida circular como o donuts. Num estranho vício de cismar, não tendo com quem implicar, viram-se para casa, para o que têm à mão.

deserto

O deserto é a metáfora das metáforas, a auto-percepção das viagens: vermo-nos a ser.
"Nas grandes solenidades cheias de personalidades, parece que há uns que estão repetidos."
"A noite está entre pestanas azuis."
"As gaivotas nasceram dos lenços que dizem adeus nos portos."
Ramon Gomes de la Serna, Greguerías

Dália

Por essa tua capacidade de inocência e maldição vou chamar-te Dália. Homenagem às mulheres que, nos anos 40, sonhavam entrar em filmes de Hollywood (ser estrelas cadentes, brilhar infinitamente na escuridão do mundo) e podiam aparecer cortadas ao meio e com sorrisos rasgados literalmente de orelha a orelha por histórias de luxúrias e de violência sofisticada, como aconteceu à Dália Negra.

autoridade

A rapariga tem que fazer, organizar, ser pragmática. A actividade de transformação da natureza, que põe os homens em relação e é produtora de valor, está inscrita na sua vida, por isso, procura os gestos certos para transformar a natureza, os telefonemas com voz decidida, tudo a encaixar, os dias a socorrerem-se uns aos outros, os papéis sociais cumpridos para produzir valor. Os afazeres entretanto muitos, como um Heraclito sem tempo para reflectir sobre o devir na margem do rio, a vida mudou e já não há descontracção nos seus passos. Não se liberta de um problema mal resolvido de autoridade projectando-a de mil maneiras, da família para o trabalho, em casa, em alguns amigos, no amor. Contra isso, a mania da conciliação - estranha defesa - como uma criança que fez algum disparate grave e quer fugir às consequências, ou que provoca até ao excesso, com a acutilante consciência do que está a fazer, mas depois retira-se para não levar com os cacos da tempestade. A todas as autoridades é rebelde mas de má consciência, mais valia que o fosse assumidamente, sem problemas, simplesmente cumprisse os seus desígnios interiores.

Quinta-feira, Abril 24, 2008

very tipical

Aquele senhor era o típico português: estava sempre a fazer piadinhas sem graça - as referências da casa portuguesa e dos evaristos tens cá disto ou, mais actualizado, dos malucos do riso; era agarrado ao dinheirinho, via televisão à tarde, não convivia por desconfiança dos vizinhos, zeloso do seu canto e dos seus rituais.
No fundo, tinha alma de coleccionador.

nova amiga

O charme dela é simultaneamente o seu universo liliputiano e global, estar desperta para as dimensões das coisas sem se assustar, encarar tudo como possibilidade. É temerária e tem muito mais piada do que as mulheres mais velhas que falam de pediatras e de sopa de espinafres.

coisas dos 80 que tenho saudades:

combinar encontros na praia ao lado da bola de nívea
chorar com o TopoGiggio
as piscinas com bolas dos Jogos Sem Fronteiras
chamar fascistas aos Heróis do Mar e aos Retornados
ir à Porfírios

Quinta-feira, Abril 10, 2008

encolher os ombros

Ele ficava muito triste quando na Europa os governos viravam à direita. “Que cena! lá vêm tempos de contenção, discursos ameaçadores e xenófobos, como se todos não fizéssemos parte da mesma família e não tivéssemos todos direito à felicidade.”
Ficava amargurado mas depois, pensando bem, concluía: “também, é tudo a mesma merda”.

fitness

estes templos para queimar gorduras são lugares de grande reflexo da sociedade. Fazer malhação com meninas exemplares faz-me sentir uma pequena baleia à deriva no Tejo. Aturar aqueles comentários é assim mais um teste à minha flexibilidade moral que em tantas alturas teve de se abrir aos impossíveis.

procuro

conexões argumentativas para as razões de sermos assim, nós-experiência própria-articulada-com-os-contextos-onde-estamos-envolvidos.
Boa sensação de, em três décadas de existência, a convicção aumentar e a dispersão também.

precaridade

Pedem-te as empresas que sejas militante. A única militância dos tempos que correm é uma militância saltitante, temporária.
- Defende os interesses desta casa, apenas hoje, mas com todo o teu suor. Amanhã podes estar na concorrência a dar a cara e a vender o cu para direccionar o capital para outros bolsos.
Sabes bem como o dinheiro é uma abstracção e atrás duma abstracção pode caminhar-se até ao infinito.

Sexta-feira, Abril 04, 2008

ou precisamente o contrário

as ideias parecem nascer do polimento da escrita como quando uma formulação inesperada nos faz ter a ideia que nunca tinha surgido, diz ulrich.

há quem diga que escrever é assim

se as ideias encaixarem o resto é só polimento.

do quê?

O artista está de pé vestido de preto, óculos escuros e braços cruzados, numa ampla galeria. No chão os destroços das suas obras, ossos, leite, sangue, formas e cores que esmorecem, são uma espécie de súbditos daquela pose austera, alucinada, proprietária. O artista quer ser deus, comporta-se como deus. Mas não é mais do que um operário do indiscernível.

ainda a comunicação

Já tive pena de nós, raparigas intimidadas em falar ao lado dos rapazes.
É um facto que eles monopolizam os assuntos e sobretudo a maneira de falar sobre eles: a comunicação masculina, competitiva, organizada por factos, com laivos de exibicionismo. O próprio tom de voz não ajuda muito, para entrarmos na conversa temos quase de gritar, chamar a atenção, falar nos termos deles. É tão cansativo que desistimos.
Agora acho que o jogo vai reverter contra eles, quando perceberem que tem muito mais graça falar de outras maneiras e se sentirem desorientados com as nossas vozes (do que as vozes dizem e como dizem).

Terça-feira, Abril 01, 2008

mutantes

“Você... precisa saber da piscina, da margarida, da carolina, da gasolina. Você precisa saber de mim. Baby baby eu sei que é assim... Tomar um sorvete na lanchonete, andar com a gente, ouvir aquela canção do roberto.”

vazio

Vivia obcecado com a maneira de fazer dinheiro suficiente para poder viver a fazer o que gosta sem ter que trabalhar para ganhar dinheiro. Arrumava a decisão mais para a frente: trabalhava muito para um dia ter o seu destino singular. Mas na convicção de que lá chegaria, ao ganhar dinheiro a fazer o que não gostava, ia-se esquecendo de fazer o que realmente gostava de fazer. E esse momento nunca chegou, e lá se perdeu mais uma pessoa a pagar facturas.

Segunda-feira, Março 31, 2008

translation

A luta pelo poder sobrepôs-se a qualquer ideologia. La lutte pour le pouvoir... traduziu-lhe ele com aquele timbre de embalar, doce e meloso da língua francesa que amolece as palavras mais duras e mal-cheirosas.

édipo

Mãe e filho vão pelo jardim. Ele faz passar a mão rente ao canteiro, cabisbaixo mas a fingir-se indiferente às graves repreensões que o indicador em riste lhe aponta de 30 em 30 segundos com o novo fôlego com que a dona do indicador se vai lembrando de coisas novas para lhe ralhar.
A raiva aumenta à medida que projecta no miúdo o monstro de si própria.

sublimado

Os escorregões da minha infância no Alentejo estão cobertos de erva entre o olival que por sua vez deixa-se captar em linhas organizadas no campo real e no campo da nossa percepção.

visões da tarde

Levantas a cabeça entre o fumo do cigarro com o Jeff Buckley nos ouvidos a pensar nas mortes e alegrias que te ocorreram (a slave of system, the sky is a landfield) e de repente compreendes os suicídios de todos os adolescentes e detestas as pessoas fortes que não praticam gestos desadequados.

condição sine quo non

Os dois casais jantavam. Falavam de preços de casas. São jovens, recém-unidos mas com vidas em sustentáculos antigos. Entre o bife umas piadas para aligeirar. Fazem queixas dos companheiros e vice-versa, o seu teatrinho privado, ali pode ter graça, em casa deve ser chato (ou será ao contrário?).
Está provado, duas pessoas juntas mais cedo ou mais tarde embatem constantemente nas pequenas irritações.

Domingo, Março 30, 2008

o logro da propriedade

Cada um no seu cantinho, agarrado às suas coisas, sentado na sua cadeira, navegando na sua música, à procura das suas ideias, escrevendo aos seus amigos com as suas piadas, a encontrar as suas palavras, a tentar esquecer-se de si.

pertencer

Estávamos deitados no jardim de barriga para cima a ver as nuvens e ele disse “estou exactamente no lugar onde queria estar”.

Sexta-feira, Março 28, 2008

polis

Onde andam os partidários do teatro da polis, um teatro não como arte decorativa do poder mas como arte reflexiva acerca das relações de poder?

entusiasmo

A rapariga faz discursos arrebatadores sobre condutas e relações amorosas. O que tu dás o que tu não dás, o que tu amas o que tu não amas. Fala com o mesmo empenho com que há umas horas o rapaz discutia a questão da propriedade, de uma perspectiva marxista.

das misérias dos ambientes subversivos

Denunciados a inoperância, paradoxo e implosão mental, que mecanismos podemos ter de contágio, de vontade colectiva, de construção plural, sem ser pelo nicho da subcultura ou pela mistura dos corpos?

ser adulto...

Saber que se não for eu a regar as plantas elas vão morrer tristes e sozinhas, abandonadas à sorte, à crueldade da sede.

Domingo, Fevereiro 17, 2008

O homem hifenizado

Às segundas e sextas, puxava o lustro à sua aparência; decorava três ou quatro frases para derreter corações, e tinha sempre uma piada na algibeira. Quando falava, qualquer ninharia ganhava importância. Recados sem nexo, apontamentos incoerentes e mnemónicas vazias.
Bem caído nas graças do mundo, às segundas e sextas, o homem-secretário lambe as botas.
Às terças recolhia-se; comia de lata e pensava no mundo cá fora sem sentido. De vez em quando, marcava pontos num mapa-múndi; das capitais dos países traçava linhas para outras capitais em triangulações imaginadas. Pronunciava palavras nessas línguas distantes enquanto mastigava.
Nas noites de terça, o homem-sozinho faz castelos no ar.
Quartas e quintas, vestia e arregaçava a camisa. Saía já compenetrado para trabalhar com mais afinco. Quase não falava para não se desconcentrar. Tirava medidas às coisas para as refazer, “errando sempre menos, errando sempre melhor”. O seu suor era tudo o que guardava quando adormecia já de madrugada.
Palmadinhas nas costas não embalavam o homem-trabalhador independente.
O acontecimento de sábado e o temor de domingo davam-lhe uma comichão que o obrigava a sair. A beber. A falar interessadamente com mulheres estrangeiras. Na sua cabeça, soava música clássica no intervalo de tais encontros. Tornava-se um ser politizado, letrado, mordaz.
No fim-de-semana, a inveja crescia ao redor do homem-boémio.
Tiago Lança

Domingo, Fevereiro 03, 2008

'm cria ser poeta

S`na mundo tem mornas e mornas dedicód
Tónt morna bô te mereçê
S`beleza ta trazê inspiração
Esse bô beleza, ê más cum belo horizonte
Infeitód cum bom pôr do sol
Ô um arco-íris mut bem d`stacód.
Amim djam cria ser poeta
Pám fazê um mar di poesia
Pám cumpará que`ss bô beleza d`natureza
Parsem nem mar, nem lua cheia
Nem sol brilhante, nem noit serena
Ta cumpará q`bô formosura e bô corpo.
Pombinha mansa di odjos meigos sem maldade
Bô corpo formoso mas sem vaidade
T`armá quess bô sorriso inocente
Sorriso doce qui ta espertá alguem ambição
Nem q`for d`box tud humilhação
`m crê comquistá bô coração.

Composição: Paulino Vieira

para o sássá

Quarta-feira, Janeiro 23, 2008