A vida escrita
Quarta-feira, Fevereiro 29, 2012
a vida selvagem
ele há coisas...
calar
meu coração vagabundo
genet
outra coisa que dizem as revistas
coisas que se lêem em revista estúpidas e que eu não devia reproduzir
Quarta-feira, Janeiro 25, 2012
adquirir propriedade
Naqueles breves minutos passou-lhe pela cabeça tudo o que podia fazer com o dinheiro que perdia, suores velozes, o mundo a desabar naquele pequeno crash financeiro.
festa de cientistas sociais
fumam ganzas e falam sobre o espaço público e a nacionalização da banca.
o olhar desvia-se-me para fora: as poças de chuva na calçada portuguesa e o riso perverso da noite.
saltar o carro
momento Merly Streep nas Pontes de Madison: agarra convicta o fecho da porta para saltar para outro carro e viver a sua grande paixão.
não consegue, o medo e a culpa tolhem-na.
deixar a sua rotina de filhos e homem enfastioso é uma traição ao social, não saltar é uma traição a si própria.
perante isso, quantas mulheres nesse momento saltaram do carro?
já começa ser um clássico
ela: uma improvável mistura de beleza, inteligência e liberdade; o namorado: um tótó desarticulado, autoritário e de horizontes curtos.
Quinta-feira, Janeiro 12, 2012
métodos estalinistas
convictamente sem rede
- Isto é uma casa muito antiga, as paredes são grossas e não deixam entrar a rede. É de propósito para não ouvirmos a conversa dos outros.
de como as pessoas se continuam nas outras...
Foi o tempo que nos coube e não aquele que escolhemos.
Falaremos sempre a linguagem de hoje, apesar dos “nossos ídolos ainda serem os mesmos”.
Sempre diferente sim, mas o contínuo de risco e vontades que tudo atravessa é poderoso.
segurança
Sábado, Janeiro 07, 2012
Quarta-feira, Janeiro 04, 2012
cavalheirismo
Quinta-feira, Dezembro 29, 2011
estado de tese
- Pior que gravidez, quando o desleixo se apodera dos dias proporcionalmente ao grau de concentração. Cigarros e noites brancas, discussões à beira de um ataque de nervos, nada fundamentais, há que dizê-lo, ao nível da importância da pestana do eça de queirós.
letargia
Era portanto a hora [nunca é a hora]. Pairava sobre a cidade um ar morno de nostalgia, apesar de uma constantemente emperrada tentativa de futuro. Era duro parar, ainda mais não ter motivos para agir. Havia quem perpetuasse a digna arte de nada fazer, de não respirar influências, de não ter que se justificar; secretas poses para um filme interior, para uma certeza a desenvolver que era cada vez menos certa e menos causadora de conflitos exteriores.
Cada um com os seus cansaços e as suas justificações, condensados numa estranha letargia, onde nada se passa e tudo circula com a maior pretensão de intensidade. Um olhar de vício, uns olhos de água por detrás das mãos. Esconder a cara, não há tempo para dores.
Connosco qualquer coisa de diferente, que inverta esta lógica absurda em que o funcional não nos deixa perceber os mecanismos. A máquina infernal é a primeira a intrometer-se nas mais profundas aspirações e ficamos a sentir de mansinho o desejo de dormir...
olhos dos apaixonados
- Sim, sim, estou a ver.
- Fazia calma ali, dentro do alvoroço em volta. Ela queria dar tudo mas tudo não se dá, de manhã estaríamos juntos na pose habitual e a proximidade seria distância, seria suja, seria quase comiseração. O amor é outra coisa, o contrário do medo, digo.
- Era gira, a gaja?
- Não é isso.
- Infelizmente, vários sentimentos envelheceram, o amor não é excepção. Encontra-se enfastiado, dengoso, insuficiente. As nossas fantasias sexuais são tão aborrecidas como um filme pornográfico de baixo orçamento. Falta-nos imaginação!
- Paixão, descontrolo da razão, olhar que hipnotiza, mãos que se tocam com magia, ser mais espirituoso, procurar relações entre as coisas que só os olhos apaixonados vêem, ter olhos para ver as coisas apaixonadas, crescer nessa exigência. No Banquete diz-se que o deus do amor herdara “o mesmo espírito ardiloso em procura do que é belo e bom, a mesma coragem, persistência e ousadia que fazem dele o caçador temível, sempre ocupado em tecer qualquer armadilha; sedento de saber e inventivo”.
- Mas hoje em dia, meu caro amigo, os voos são rasteiros, até mesmo ridículos, têm como piloto um ritual social neurótico, são perseguidos pelo incansável pirata do espaço: o vírus da solidão, e normalmente, em vez de estimular a criatividade, estupidificam. Platão está desactualizado.
- Achas que é impossível viver sempre intensamente?
- Amanhã já não vamos estar aqui, amanhã estas cadeiras estarão vazias e mantêm apenas a forma e o calor dos nossos corpos por uns minutos. Uns meros minutos. Prontas para o próximo.
Terça-feira, Dezembro 13, 2011
romance de supermercado
Olhos mesquinhamente curiosos rodeiam os apaixonados, enquanto os próprios, estendidos no chão, o mesmo chão onde um patinador desmaiou de cansaço, se acarinham loucamente e fazem chover propostas: casa, na sua ou na minha, curo-lhe o pé com uma ligadura, faço-lhe o jantar, venha, venha.
Lauro levanta-se e pede uma mão, Eli repõe as batatas fritas light na prateleira errada e agarra-o com força, como se esperasse há muito por este homem. Depois avançam contentes e coxos por entre os congelados, saem altivos pela caixa das 15 unidades e nem ligam aos alarmes que tocam frenéticos assinalando o bonito romance.
as meninas fúteis
A miúda do subúrbio lembra-se de quando a levavam a passear ao parquezinho infantil, no meio dos tubos de escape, de um quadrado-jardim feito à pressão para meninos como ela brincarem com emoção retemperada. O seu pequeno contentamento quando, depois de outro menino se abeirar para lhe cuspir cinicamente, respondia com a boçalidade aprendida em casa e para que nunca mais ninguém se risse da sua cara.
Já Benedita tinha ido àquela zona mas não era de lá. As mãos ainda lhe cheiravam a comboio e experimentava a pegajosa e claustrofóbica sensação que os prédios e os senhores de fato de treino de domingo com carros a serem lavados lhe atiravam à cara, como dizendo: "a tua sensibilidade não cabe aqui."
Benedita observava Carla com desdém, desconhecendo que era tão pequena como ela, iludida em festas de pessoas vistosas e fantasias de namorados com olhares galantes de nenhuma espessura.
As duas meninas cruzaram olhares no café e nem farejaram a solidão uma da outra, tal era a distância dos códigos sociais. E já sabemos como ninguém perde tempo a desconstruir essa tanta coisa que se coloca antes do ser-se pessoa.
A Carla esperava o Tony para um passeio ao centro comercial, a Benedita dispensava aquele subúrbio da sua vida, estava perdida e destoava no café, a mulher-a-dias nunca mais chegava, telefonava angustiosa à mãe a quem avisava que nunca mais voltaria àquele lugar omisso às conversas giras.
Carla pergunta: “olha lá, tens um cigarro?” Benedita nem sorri, dá o cigarro com o mesmo desprezo de 10 cêntimos a um mendigo. Desaparece.
Segunda-feira, Dezembro 05, 2011
ficar mais velho
O comodismo torna pesarosa a sua companhia, e o lado reacionário aquiesce à miséria.
Quarta-feira, Outubro 19, 2011
lições
À troglodita condescendência do superior que insiste em dar algo que sabe ser fundamental ao subordinado pobre, a resposta altiva daquele que, por mais que lhe custe, diz orgulhamente que não.
isto anda tudo zangado
- Este é o pior de todos desde o 25 de abril. Nunca nos foram ao subsídio de natal e de férias, essa é que é essa. Aldrabão, fascista! - queixava-se a senhora no auge das suas grandes verdades proletárias, antes de entrar na enumeração raivosa de aspectos sombrios da biografia do PM.
Na mesa ao lado o livro que eu lia às tantas devolveu-me a palavra de ordem leninista “quanto pior melhor”.
Quarta-feira, Outubro 05, 2011
homens a fazer um país
Cada um tinha uma ideia própria de que país queria fazer: um só desejava ser guarda da prisão e vingativo, outro queria mudar o mundo. Os revolucionários mostravam-se desequilibrados e com tendências para despotismos. O mestiço tinha vergonha da mãe preta que só saía do quintal para fazer os filhos. Muitos casaram com brancas, trazendo uma soviética às costas. Racismos vieram ainda mais ao de cima. Um problema fundo e triste atravessava o país que nascia.
doutoranda
Ele olhou meio confuso para aquela rapariga que lhe acabara de contar que estava a fazer doutoramento sobre a sociabilidade dos jovens da periferia. Achava muito estranho que pagassem a alguém para fazer assim uma coisa com tão pomposo nome sobre a malta lá do bairro e de como falavam e se davam entre si.
pactos de silêncio
Havia sempre uma zona de sombra, um mistério recorrente sobre a sua vida. Cheguei a aspirar entender esses momentos de apagamento e ausência, e depois um súbito ressurgir na normalidade como se nada fosse, como se não tivesse estado cinco dias desaparecido no mais profundo círculo do inferno onde tudo fora penoso. Retornava à vida com a mesma naturalidade com que sumira, e ninguém lhe perguntava absolutamente nada. Já havia conquistado esse grau de comiseração.
agora falta o resto
Agradava-lhe a possibilidade de escrever porque era fascinante como a vida corria assim explicada, organizada na sua desordem crónica… até os sentimentos, hesitações e os deboches ganhavam em complexidade e novas formas de pronunciar-se e, portanto, adquiriam uma nobreza qualquer ao aflorarem por essa via. Tudo se configurava possível de articular-se, as coisas estrambólicas que lhe passavam pela cabeça até à vida dos outros, melindrosa e desinteressante de saber mas curiosa e auspiciosa de contar.
“e assumiu a tristeza para reclamar a esperança”
É preciso saber que a nossa metade cheia do copo será sempre a metade vazia para alguém que nos é próximo. Aceitar que nessas mundivisões afastadas nunca nos reconciliaremos totalmente. E porque as coisas que ia calando se transformavam em pássaros demoníacos e ninguém suspeita necessariamente do temor que por vezes o silêncio esconde.
Sábado, Setembro 10, 2011
love calls you by your name
Tudo começou no sofá, entre carícias. Eram as nuvens carregadas que assombravam os sete andares por cima do nosso, era uma mão por dentro da outra e o tom waits a cantar-nos ao ouvido as suas máquinas de ossos. Parecia que este mundo era bem melhor do que o outro. E depois veio a frase. Palavras desadequadas a querer inscrever o tempo quando os relógios param. A lembrar, somos estranhos, não conseguimos, nunca esquecemos, passados e futuros pesam, somos estrangeiros um e outro, um no outro. Veio a frase da estranheza, não troquei o teu nome - um lapso indesculpável entre amantes - foi frase ainda pior, uma falha na linguagem fundamental, para sempre a esquartejar a confiança. Um disparate este hábito da língua articular palavras e a sua falta de ponderação crónica. A frase que afasta, quebra o elo da ilusão, lembra o artifício escondido nas subtilezas.
Tinhas de vir com as palavras. Desculpa, é protecção, é vontade de nomear e dar a notícia ao mundo. Para quê se o mundo agora não interessa nada, só eu, tu e aqui. Falta de pontaria, não devia. I don’wanna, I don’t think so.
E tu disseste: o que é que isso interessa. E eu disse: nada. E passámos juntos um calendário no sofá apertado para quatro pernas.
Do sofá para a vida foi um instante. Vieram caixotes cheios de livros e cds, veio a ocupação disfarçada de bons modos que começaram rapidamente a ser ecos de outros tempos. A máquina de lavar roupa que é preciso estender depois, a cama a aquecer rápido, o diálogo a ganhar ao monólogo, as depressões a alternar com a euforia, o jogo de brincar aos casais, aos adultos. Bateram umas quantas portas no auge das discussões, o tom waits calou-se dentro da sua própria cabeça, às mensagens poéticas e arrulhos via telemóvel sucederam-se combinações a despachar, mas tudo se tornou tranquilo apesar da aparente desordem. Ainda há o calor de um copo de vinho tinto no jantar de tabuleiro ao som do portugal-camarões. E o rosto agitado com as oscilações dos dias e as idas ao café à hora de almoço quando não há mesa.
[Queria uma casa sem recheio, sem obstáculos a distraírem-nos do que nos levou ali aos dois.]
Agora sem pressa, de outra maneira, contigo aqui ao lado, mesmo ao lado íntimo. Sentamo-nos em tantos sofás alheios mas nenhum será como o primeiro, o do coração aberto, quase piroso nas revelações que guarda. Classe média e barriga de bem-estar, foi já grito de iniciação e de intempérie.
Terça-feira, Agosto 30, 2011
tempo morto
mudam-se os tempos
É só ligar a tv que em 5 minutos o mundo desfilará em continuidade de horror : vaga de calor na Europa do leste mata uma data de idosos, bombista suicida num hotel em Bagdad, jornalista da BBC refém do Hamas, inauguração de um museu em Belém com um bimbo à frente, etc... notícias de verões passados transladadas para outros, quase idênticos.
Domingo, Agosto 28, 2011
na praia
Quarta-feira, Agosto 24, 2011
fala
O homem da caverna utilizava as mãos nas primeiras tentativas de talhar a pedra, exercia um esforço de abstracção, trabalhava mentalmente, na sua rudeza: a mão, comandada por essa mente obscura, provocou o aparecimento da linguagem. A linguagem classifica o sujeito que fala, individualmente antes de socialmente. Calar os gestos na difícil formulação de palavras para encaixar histórias, parece fastio pela vida. Afinal o que é preciso é convicção no dizer. Sem isso a nossa voz terá a importância de uma casca de tremoço.
desenho de Tiago Lança
eu aqui a rir
Domingo, Agosto 21, 2011
mal-entendido
autocarro
espontâneo
As palavras sussurradas podem ser tão espontâneas que duvidamos logo se alguma vez as dissemos.
Sábado, Agosto 20, 2011
como tal
urgência
mundo macho em luanda
No ginásio do Teatro Elinga, com a luz semi-apagada, os rapazes cantam em várias tonalidades enquanto experimentam vozes. Fumam picas consecutivamente, falam com calão cheio de si próprios, mexem-se de acordo com uma postura aparentemente inabalável, defendem condutas e moralidades, não prescindem dos sinais homofóbicos (apesar da cena gay entre si, socialmente reprovável mas praticada às escondidas) e reiteram o comportamento talibã com as raparigas (inquietos se as suas damas falam com rapazes, por ser tão incomum a convivência mista).
Deprimo-me. Longas horas mergulhada na cultura macho onde não há homens inseguros nem delicados. Ouço histórias repetidas, ânimos exaltados sobre filiações intermináveis e discursos que articulam os acontecimentos da História de Angola com as vidas comuns. A raça sempre vem à baila (os mulatos são arrogantes, preto tem um peso depreciativo, os brancos são para desconfiar e por aí a fora em milhentas variáveis). Somos espectadoras e sómente nesse papel valorizadas. Aqueles rapazes precisam de mim ou de outra qualquer para dar sentido ao espectáculo daquilo que contam, pois, ainda assim, as mulheres devem conseguir fingir simpatia pela retórica desconexa e extravagante, aborrecida.
Mesmo que queira ir embora, não há saída possível para a redoma de cerveja, picas, música – tudo enquadrado no grande assunto de sempre, Angola, um assunto intenso, inesgotável e sempre vibrante. Vou ficando. Resta-me um pensamento fugaz, pouco novo e super sexista: o mundo seria um monstro desdentado e malcheiroso sem as mulheres.
guerra infinita
O meu tio esteve nos rangers. Escondeu durante anos fotografias a preto e branco de pequeno formato entre as meias de inverno: numa delas está com uma arma e pretinhos à volta, que sorriem ao lado do soldado. Guardou também as poucas cartas em aerogramas que mandara para a mulher, mas não as dela que ficaram perdidas por lá. Ela escrevia-lhe frequentemente para o palco de guerra, ele respondia raramente, com medo de morrer e de a deixar num profundo desgosto de amor. Escrevia duas ou três palavras com poucas letras, mas eram palavras fundamentais. Ela usava todas as palavras, mas nem o seu vocabulário tampouco o abecedário eram suficientes. Ele sorria com as confidências infantis dela, mas os seus segredos da guerra não podia contar, nem o medo, então remetia-se a um quase silêncio. Tinha partido antes de mais por vontade de sair do cerco das tias, do montado alentejano onde o pai se suicidara amarrado a um chaparro, deixando cinco filhos e uma data de dívidas, apostas e negócios furados. Os bagaços por rotina apresentavam-se ainda inodoros para ele, o mais novo dos irmãos convicto em desejar uma vida diferente. Veio para a Mocidade ganhar dinheiro, só tinha o 5º ano e passou directo, de moço da mocidade, para a guerra pelas abstracções Pátria - Império. Por lá andou a fazer-se homem e a beber cervejas, nos intervalos do capim e do saque às palhotas. Quando voltou dos ultramares, conheceu comovido a filha que lhe fora copiosamente documentada à distância. Já a minha tia, mal o viu, estranhou a sua própria descrença quanto ao amor que julgara tão sedimentado, mas calou-a logo e para sempre, pois tinha esperado eternidades, escrito cartas apaixonadas e construído cenários mentais de fotonovelas e era mulher de um homem só. A guerra tinha-lhe conferido a missão de edificar uma normalidade e experimentar um romantismo imberbe. Quando o foi buscar ao porto, sentiu na pele a frase ainda não batida na altura: ele não era a mesma pessoa que conhecera antes de partir. Voltou com diarreias, pálido, cheio de restrições alimentares, a ter de passar temporadas no hospital, acompanhado de livros pois estudava à noite para vir "a ser alguém". Voltou sem o brilho nos olhos e com agressividades imbecis. Voltou cheio de imposições e senhor de mundividências com as quais interiormente ninguém concordava. Casaram, porém. E ela tornou-se auxiliar social e trabalhou na linha de Sintra a dar assistência aos dramas de tantos outros que também vinham de África, mas em circunstâncias diferentes. E nos momentos mais difíceis lembra ainda nostálgica o rapaz que, muitos anos atrás, no Alentejo, se embebedara para lhe pedir namoro debaixo de uma janela.
música de resistência
Na Luanda dos anos 90, em plena guerra civil, o pessoal embriagava-se e a música ajudava a espantar a dor. O próprio lamento tornou-se um género musical, de tal maneira as coisas estavam associadas. Toda a música urbana, e sobretudo o semba - nas vozes de Carlitos Vieira Dias, Carlos Lamartine, Carlos Burity, Lourdes Van Dunem, acompanhadas pela Banda Maravilha, Waldemar Bastos, Filipe Mukenga, Nani, Irmãos Kafala e o jovem Paulo Flores, além do sucesso internacional de Bonga - cantava a dor da guerra mas também uma promessa de vida para além da paisagem arrasada, onde se semeava morte no interior. Nos Coqueiros, Ingombotas, Bairro Operário, Rangel e Marçal lá se iam recriando e recuperando músicas marginalizadas no tempo colonial, como os Ngola Ritmos haviam feito. Também se ouvia merengue, rumba, kazukuta e kilapanda. Traduziam-se músicas cubanas, e aquela animação histérica salsera apesar de desconexa com as sombras em que se vivia, era essencial. O filme Mopiopi de Zézé Gamboa é um grande documento sobre esta época: os loucos que deambulavam por Luanda, a desorientação de um país que se pensava na exaustão das suas forças e ainda levou com mais 16 anos de guerra em cima. Neste ambiente, o filme mostra bem o que pode a música como suavizante e resistência, essa forma de lutar sem armas que pode ser a melhor luta.
Sexta-feira, Agosto 19, 2011
afagos
solidão
Quinta-feira, Agosto 18, 2011
estranhas cumplicidades
Há noites que quase derrubam o nosso frágil dominó de lucidez. Vivem de momentos de transe pela repetição, pelo absurdo de se arrastar o nada até ao limite. Encontra-se cumplicidade com desconhecidos e, em situações particulares, fica-se dependente deles estabelecendo-se um silencioso e imprescindível pacto.
num bar do Bagamoio, rua do pecado, em Maputo
Ali estavam poços de machismo reunidos a beber cerveja. Braços secos e magros, ar de aldeões transmontanos, barba rala e barrigas de desleixo de Albufeira. Com o olhar descarado, estranham a presença de raparigas não prostitutas e isso excita-os mas incomoda-os.
De cada vez que uma mulher se levanta adivinha-se os comentários borgessos.
Observo aqueles blocos de boçalidade, com ar seboso, risadas perversas e lubricidade atávica, enquanto mãos sapudas enrolam a cintura daquelas meninas saídas de uma fotografia nocturna de Ricardo Rangel. E penso como é afinal reles a presunção de que um miserável dinheiro no bolso lhes dá direito a tratar as pessoas como mercadoria, lhes altera o estatuto, os faz esquecer de onde vêm.
Tudo aquilo é só um quadro clássico das pessoas a fazerem pela vida. Para ser verdadeiramente avessa a estas relações de poder, sem ceder ao moralismo perante uma forma como qualquer outra de dar azo ao desejo, uma troca de interesses, um instrumento de obtenção de ganhos, seria preciso repensar muito para lá desta óbvia observação. Como outrora, este é o jogo de domínio do dominado perante o dominador. O sexo será sempre, nestes cenários, a pedra de toque que manda às urtigas o nosso empirismo paternalista.
Quinta-feira, Agosto 04, 2011
Quarta-feira, Julho 13, 2011
amigos
festival de músicas do mundo
Segunda-feira, Julho 11, 2011
estranhas adivinhações
Então ela lá me arrastou nos seus saltos altos prateados, saia cor-de-rosa e uns enormes brincos redondos que acompanhavam as tranças rentinho à cabeça. Entrámos, era uma casa bastante atravancada no bairro da Samba. Um homem alto, olhar profundo e corpo volumoso, com um boubou que vinha até aos joelhos, recebeu-nos com um ar meio enfadado. Sentámos as duas à sua frente. Perguntou a natureza do sucedido. Eu disse com voz grave: “desapareceu muito dinheiro do meu quarto!”. Não queria condicionar a sua adivinhação por isso nem manifestei nenhuma das minhas suspeitas. Ele perguntou os nomes de toda a gente que vivia ou tinha passado lá por casa. E eu senti o arrepio traidor de estar para ali a denunciar gente amiga, a grande miséria da vida de um bufo.
A operação era bastante simples: o professor friccionava uma vara no muxakatu, pedaço de madeira talhado com várias ranhuras, enquanto perguntava caso a caso se tinha sido aquela determinada pessoa. Mas os búzios remeteram-se ao silêncio inerte perante uma voz cada vez mais autoritária. O Professor Sheik já estava a ficar meio aborrecido pois aparentemente não fora ninguém, quando resolveu fazer uma segunda rodada mas sem atentar à minha memória. E eu que desconfiava de X, fiquei a ver o episódio noutra perspectiva. Nesse dia tinha lá ido uma estranha visita, de facto, e de repente tive o flash de uma mão rápida, que na altura não relacionei com qualquer gesto excepcional, nem vira nada passível de se tirar. Então o adivinho lançou-me sem escrúpulos a 1ª letra do nome do dono dessa mão. Uma só letra, era tudo o conseguia. Saímos de lá, a Jurema contente com a capacidade adivinhatória do Professor Sheik, reconciliada com as suas crenças mais profundas, ainda que só tivesse adivinhado uma letra, e eu perturbada com o peso dessa insuspeita e incómoda letra. Preferia não saber, a verdade é também uma dúvida perpétua.
futuro
que fazer da vida sem a inquietação do futuro
como preenchê-la sem projectos e vontades não cumpridas
e as outras que irrompem no acontecimento.
sem a fome que ainda nos faz acordar numa pensão ao lado de casa só para tocar a pele clandestina
sem questionar os poderes da biologia que do nosso corpo podem gerar outro corpo (apressar as membranas dos outros seres ainda não bem-vindos)
e os tantos medos de falhar
sem sofrer ainda por impossíveis amores e destruir amores possíveis...
ver escancarada a crueldade do mundo nas terras onde não há tapetes fofinhos nem rendimentos mínimos
sentir nos anarquistas de Atenas uma virulência convicta que mostra, a ferro e fogo, que não são os governos nem as polícias a domar as nossas vontades.
acreditar na destruição, viver no meio dela e, nas chamas dos carros ardidos, antever a esperança, o que nos une no futuro em aberto.
an-do-li-tá
Vão embora depois de se despedirem no portão do cemitério. Um combatente a menos, e o mundo de funções e trocas, afectos calculistas e talentos de pacotilha ali ao lado.
rezinguice
fantasma
A dor de amor paralizava-a e o tempo discorria sem nada a assinalar, indiferente ao mundo apesar da revisitação dos momentos intensos.
Lembrava aquela vivência ao pormenor, desde a dor física ao acordar à ansiedade de não dormir para nada perder. Uns breves dias que, na sua espessura, só lhe acordavam o temor e a extrema vida. Intermináveis dias.
Deixara-a nesse estado um homem impregnante, cínico, imprevisível e abrupto, viajante e especialista em sabres. Uma figura enigmática que nunca chegara a conhecer, afinal, mas que haveria de povoar os seus piores e melhores sonhos anos a fio.
Quarta-feira, Junho 29, 2011
verão
Quarta-feira, Junho 22, 2011
na suíça passeava
as elites em maputo
belas expressões nada homofóbicas
eternos infantes
Terça-feira, Junho 21, 2011
narrativas
Quando ela era uma miúda provocadora, irrequieta e atrevidota, achava que as raparigas mais velhas não tinham graça nenhuma, por serem caretas, cheias de ideias feitas e incapacidade de sonhar. Agora olha para as miúdas mais novas e pensa que nada sabem da vida, não conhecem a dor nem têm capacidade de ironia com tanta ingenuidade. Mesmo as carinhas larocas ainda não vincadas por qualquer sinal da idade lhe parecem um atentado à verdadeira beleza. Pois, de argumentos para se conseguir viver consigo mesmo está o inferno cheio.
máquina de fazer deveres
Ouvi, em tom de elogio, sobre uma dessas super-mulheres: "Além de cuidar dos outros ela também tem de cuidar da sua doença: quimioterapia, consultas, cremes e remédios. E ainda continua a ser mãe, divorciou-se e mudou de casa, tudo ao mesmo tempo."
Esqueceu-se de dizer que ainda arranja tempo para as pessoas a quem dá auxiílio na gestão do sofrimento devido à sua própria doença.
Segunda-feira, Junho 20, 2011
eu sei lá, sei lá
Já não passava a época dos santos populares em Lisboa há muito tempo. Apesar do ritual repetido (as músicas, as sardinhas, os manjericos e os bezanos ancestrais) há uma alegria nestas noites que não deixa de ser entusiamante e sempre renovada.
O Santo António traz ao de cima o que há de mais bairrista, buçal e provinciano nos lisboetas, mas também por isso mesmo, retrai qualquer coisa de muito igual que atravessa o mundo. Para perplexidade de europeus que visitam a cidade nesta altura, o castiço, a informalidade, a música pimba, os amassos, o calor, tanto humano como do outro, vingam e valem a pena. Aquelas pessoas que não se cruzam durante o resto do ano, arrumadas nos seus códigos e representações socio-culturais, frequentando espaços de acordo com critérios de meio, gostos e amigos, ali se acotevelam, sorriem, comunicam, brindam, admiram-se ironica e mutuamente. Dançam lado a lado sucessos de criativas letras como “é o bicho é o bicho”, a “cabritinha” ou a “garagem da vizinha”. As feministas dos bar dos Anos 60 fazem olhinhos aos betos de Santos, o Toni da oficina bebe do mesmo plástico do chinês da papelaria e o casal vamp partilha a calçada portuguesa com o par de barrigudos que dança solene aqueles dois toques com 40 anos de prática. Todos dão o show.
Na noite de dia 12 para 13 de Junho em qualquer recanto do centro histórico, da Graça a Alfama, da Bica à Mouraria, o movimento é um corpo colectivo a descer e subir as colinas de Lisboa. Sem faltar o territorial desfile alegórico das marchas populares na Avenida, na competição renhida mas fraterna entre os não tão diferentes bairros, com as suas coreografias, adereços, altares em riste, que reforçam identidades não problemáticas, como bem quis o Estado Novo. E a encerrar o desfile, decrépito e triste como todos os mundos pirotécnicos, o fogo-de-artifício.
Bonita festa de palcos suspensos e sintetizadores estereofónicos, os verdadeiros protagonistas das canções. De arraial em arraial, a mesma dúvida existencial é-nos oferecida na cantiga mais em voga esta ano: “mas quem será, mas quem será o pai da criança? Eu sei lá sei lá!” Mais à frente uma roda de kuduro, do outro lado a música tecno ganha terreno com gente aos pulos e mão indicadora dançando sem amanhã. Os grelhadores improvisados reforçam na febra, bifana e sardinha, e a facturar. Há uns quantos indianos com perucas onde desponta uma careca de santo António. Serão funcionários da Câmara a vender a imagem do multiculturalismo da cidade?
O bom povo português que, por estes dias, descontrói o poder com toda a gente junta a desprivatizar a rua entre a “cabritinha” e as cervejas, ocupando as esquinas e as escadas com o seu sound system, a sua alegria e o seu “não quero saber”, o mesmo que comenta nas tascas a troika e os políticos - todos iguais, é só promessas e cantigas - e votam nos que lá estão.
E assim vamos, ao menos em Junho o ar é de todos.
Quinta-feira, Junho 16, 2011
Segunda-feira, Maio 23, 2011
íntimos
– Achas que somos íntimos?
- O que é a intimidade?
- Tens aí um dicionário?
- (traz o dicionário e vê a palavra) Íntimo, situado muito dentro, aquele que é cordial, particular, doméstico, do âmago. Amigo do peito. Gostava que fossemos próximos.
- Então não podes estar sempre a castrar o meu gosto de planar. Tens de abrir ao máximo a tua percepção visual. Estar disposto a tudo, a aceitar todas as contradições. Assim posso ir embora e continuas meu amigo para sempre uma vez que trocámos tudo. Eu fico a saber o que tu querias dizer mesmo que não digas. Ainda que contes muitas histórias e uses muitas referências, palavras e teorias dos outros. Sei que queres tornar tudo isso uma coisa tua, exiges a tua singularidade. Queres que as histórias dos outros e a tua versão dessa história seja a memória que fica de ti em mim. E eu deixo.
- Percebo, queres que eu cometa o erro de abrir o meu pequeno coração.
- Deves regressar a tempos preciosos, usar a linguagem dos apaixonados e da poesia. Contar coisas grandes sem a censura da piroseira, sem medo de chamar as coisas pelos nomes e expor intimidades.
- Para quê? As pessoas não ouvem. Estão obcecadas com o seu caminho, o seu precário percurso. Não ouvem. Aliás nem apetece falar, contar coisas. Vamos calando cada vez mais, para sempre. Não ouvem, ou fazem aquele ar entediado, um bocejo, um olhar distraído, a cabeça a pensar noutras coisas, no que têm para fazer, no que vão dizer a seguir. Deixa de apetecer tudo, nada intersecta com nada. Ficamos a pensar o que já pensávamos e não há partilha nenhuma.
- Tu também és assim, não ouves e mal falas de ti.
- Por exemplo, conto-te que já fui para lá das nuvens, ao país onde as coisas não têm nome, e onde não há deuses, nem homens, não há mundo, só o abismo do fundo.
- Drogas?
- Também. Conto-te que gostava de ter uma mulher que ordenhasse vacas, tenho essa fantasia. Gostava de acordar, dirigir-me à porta da minha casa no meio do campo, bocejar a coçar os tomates, olhar em frente e ver a minha mulher com uma saia branca e ancas largas a ordenhar uma vaca, a sorrir para mim e a dizer “bom dia, querido”.
festa
Estou num sétimo andar numa festa. Olho lá para baixo e penso que gostava de me atirar. Debruço-me. Recolho-me. A música estridente faz-me voltar àquela festa. A música e as vozes, misturadas, sincopadas com gargalhadas, estridentes às vezes, metálicas. Volto a debruçar-me. Lá em baixo a linha do eléctrico curva e passa debaixo de uma pequena ponte. Há um homem a caminhar e está frio. É Inverno, um daqueles meses indiferentes em que festas como esta tentam enganar a solidão. Comigo não pegou. Estou há três horas a deambular pela casa sem saber com quem falar, não me apetece fazer conversa, paralisado para dançar, enjoado para beber, sem disfarce para o mau humor. Mas não é por isso. É que a rua está mesmo a chamar-me e este momento parece-me subitamente o mais perfeito para me atirar. O momento em que ficará um silêncio pesado e dramático na casa da festa, em que as pessoas vão parar de dançar, de falar, de beber e correrão aflitas à janela depois do primeiro ter dado por isso. Vão ficar traumatizadas para sempre com a minha imagem lá em baixo, estatelado no chão, de braços abertos, como um duplo no cinema. Vão ficar para sempre com essa imagem na cabeça, a dar voltas dentro delas. Vão sentir-se vazias por não poderem ter feito nada, por não me terem convidado para pôr música no momento antes disso acontecer, por não terem aceite o meu convite na semana antes, por não terem ouvido com atenção as minhas palavras naquela conversa. Vão sentir a minha falta nas próximas festas. Depois esquecem. Debruço-me mais e já nem preciso de consolidar forças, tudo me parece excessivamente fácil: acabar tudo, assim, neste momento. Seria perfeito. Debruço-me ainda mais, a rua lá em baixo. Alguém toca o meu ombro por trás, ao de leve, e passa-me um charro, sem falar comigo, está a meio de outra conversa. Recolho a cabeça e aceito-o, com um sorriso lívido. Dou uma passa. Não olham para mim. Passou-me tudo pela cabeça. A música que está a dar agora até não é má. Vou dançar.
Sábado, Maio 21, 2011
Nil
- Esta cidade é uma caricatura de si própria. - diz o meu amigo Nil quando o vou visitar.
Nil leva-me às festas da Grácia, bairro de resistência republicana. A meio do concerto punk, ainda a festa está a acontecer, com festival de fogo e batuque, e logo vem o carro de limpeza arrumar tudo, como qualquer graffiti será irremediavelmente apagado para logo ressurgir noutra parede. Nessa diversão organizada, os jovens têm caras do mundo inteiro e falam sonoramente do alto da sua postura "curto bué".
A felicidade [bem-estar + conhecimento] ao acesso de muita gente.
Isto é o melhor que uma cidade pode ser.
Não sei, porém, que tipo de coisas verdadeiramente podem acontecer aqui.
Gosto muito das conversas com o Nil, sentimentos, projectos, disparates, temos sempre coisas a dizer. Uma rapariga exibe, ao sentar-se, as cuecas cor-de-laranja (é sexy mostrar constantemente as cuecas) e isso desencadeia toda uma conversação sobre engates, também na linha do consumo.
Nil é assim um Bukowski mal amanhado, faltam-lhe a gravidade e a verdadeira decadência, mas cultiva o gosto do engate desligado, que representa exactamente o mesmo esforço ou a mesma indiferença com que bebe um copo de cerveja. Lá se seguem uma e outra rapariga, bonitas nouvelle vague, aprendizes “eu-não-sei-nada-sobre-isso-mas-adorava-saber”, sem qualquer mácula pós-coito para ele. Umas vezes são apenas histórias de casa de banho, outras frutos dos mais laboriosos jogos de contenção até chegar ao limite do 'tem de ser'.
O pânico de se apaixonar, é que em acontecendo contrariaria a vida que escolhera aí.
Quarta-feira, Maio 11, 2011
a varanda da Maianga
A varanda é comprida e espaçosa ainda que não muito larga, cabem muitos sapatos e roupa estendida. Mal acabada de estender já a poeira se acumula, Luanda não dá tréguas. No parapeito despontam os vestígios das noites passadas: beatas, repelente de mosquitos, latas de cerveja, velas quase gastas, uma harmónica, betadine e objectos não tão identificáveis assim.
Corre ao comprido da varanda uma austera grade verticalmente regular com um pequeno quadrado central onde cabe, à risca, a cabeça para espreitar, para respirar, ou oferecê-la a uma invisível guilhotina.
Em todos os apartamentos de Luanda figura esta herança da guerra: as grades.
A tarde morre numa laranja quente entre o desenho de nuvens baixas. Quanto mais o vermelho se esbate mais o azul feltro escuro traz uma outra cidade de peso nocturno.
Nesta varanda misturam-se expressões bem alfacinhas com os sotaques de Angola e Brasil numa ininterrupta conversação baseada em especulações, conspirações mas também em experiência de vida. Pode ser o utópico fim do capitalismo, o novo império chinês, a circuncisão dos miúdos na Lunda ou o espaço para uma nova galeria. Tudo é motivo para debate e opiniões.
Apesar de se planar num altivo oitavo andar, o som da rua chega cá acima com acutilante proximidade e envolve-nos nessa capacidade acústica de diferenciar os pormenores urbanos. De manhã os ruídos irrompem cedo no quarto e nos sonhos. A visão recai logo nos prédios e casas baixas entre os prédios com seguranças à porta. À noite o alto edifício de um banco com escritórios acesos sem ninguém lá dentro, e um cubo giratório a luzir que pornograficamente insulta a falta de luz cá em casa. Um cartaz gigante com holofotes bem apontados ostenta uma mulata sorridente que vende o rosto à mensagem: “o fim do mês é quando eu quiser”.
[Faz-me lembrar uma manifestação em Lisboa dos Felizes da Fé, precisamente contra o fim do mês. O slogan deles: “este mês está tão bom, porque é que tem de acabar?”. Do marketing bancário para a reivindicação criativo-situacionista é um passo de gigante, mas assim é o nosso cérebro, azado nas associações livres.]
Os guindastes e os prédios em construção não descansam. O hospital militar liga com a praça da revolução, um gesto dos russos a Angola desproporcional mas inacabado, com o mausoléu a apontar para o céu as suas pontas de lança afiadíssimas. O reservatório de água da zona presidencial faz inveja a quem não tem água. O trânsito infernal ruge, entre apitos de polícia, carros a estamparem-se e a voz do cobrador dos candongueiros. De uma casa perto do prédio costuma vibrar uma música “erudita” que se distingue da cacofonia. Se me concentrar melhor posso ouvir somente as sonatas e cantatas, os allegros ma no troppo que dão um pouco da tão desejada paz.
Duvidei sempre se essa música realmente existia... apenas um arquétipo de harmonia?
E hoje é Domingo à tarde e «In to my arms» de Nick Cave reveste o apartamento de uma poética bruta. Volto a reparar na luz do entardecer que entra pela varanda gradeada deste oitavo andar. A casa está toda em desalinho, é o dia seguinte a uma festa de grandes confrontos de personalidades, fricções atómicas de egos, onde se discutiu e se dançou, afinal muito livremente. A enorme feijoada na qual investimos tantos mil kwanzas e mão-de-obra qualificada azedou durante a noite - nem sempre há a sobriedade desejada para lembrar de pôr a comida no frigorífico. Alguém escreveu palavras indecifráveis com pasta de dentes e fuck you com baton na casa-de-banho. Na mesa onde jantámos jazem as beatas dos cigarros fumados entre risos.
Os bêbados desapareceram subitamente mas deixaram vestígios. Dois corpos abandonados ao chão, uns braços negros descansam, os pássaros dançam em bandos com indiferença por cima do mausoléu.
Os tempos de vida em comunidade sobrevivem numa frágil harmonia: as personalidades, por mais extravagantes que possam ser, encaixam numa palavra, na abordagem certa, no gesto caricato, seguram-se os papéis que cada um tem de desempenhar para criar um entendimento, o limite da possível convivência.
Dissipou-se essa dinâmica quando partimos, e um certo tipo de confronto, com o qual já sabíamos lidar e fugir.
Habitada normalmente por um desespero emocional, alegrias ao limite e gestos selvagens, chegámos, por vezes, a conseguir estar em paz nesta casa. Nunca a monotonia. Era a nossa varanda da Maianga.
