Quarta-feira, Maio 07, 2008
Terça-feira, Maio 06, 2008
porrada
A miúda crioula que me trançava o cabelo pediu para desligar o disco do Bob Marley porque lhe lembrava o pai a espancar a mãe. Sempre ao som do No, woman no cry, umas estaladas para marcar território. Tal como os cães mijam, estes homens batem. Eram pais adolescentes, obsessivos, numa vida circular como o donuts. Num estranho vício de cismar, não tendo com quem implicar, viram-se para casa, para o que têm à mão.
"Nas grandes solenidades cheias de personalidades, parece que há uns que estão repetidos."
"A noite está entre pestanas azuis."
"As gaivotas nasceram dos lenços que dizem adeus nos portos."
Ramon Gomes de la Serna, Greguerías
Dália
Por essa tua capacidade de inocência e maldição vou chamar-te Dália. Homenagem às mulheres que, nos anos 40, sonhavam entrar em filmes de Hollywood (ser estrelas cadentes, brilhar infinitamente na escuridão do mundo) e podiam aparecer cortadas ao meio e com sorrisos rasgados literalmente de orelha a orelha por histórias de luxúrias e de violência sofisticada, como aconteceu à Dália Negra.
autoridade
A rapariga tem que fazer, organizar, ser pragmática. A actividade de transformação da natureza, que põe os homens em relação e é produtora de valor, está inscrita na sua vida, por isso, procura os gestos certos para transformar a natureza, os telefonemas com voz decidida, tudo a encaixar, os dias a socorrerem-se uns aos outros, os papéis sociais cumpridos para produzir valor. Os afazeres entretanto muitos, como um Heraclito sem tempo para reflectir sobre o devir na margem do rio, a vida mudou e já não há descontracção nos seus passos. Não se liberta de um problema mal resolvido de autoridade projectando-a de mil maneiras, da família para o trabalho, em casa, em alguns amigos, no amor. Contra isso, a mania da conciliação - estranha defesa - como uma criança que fez algum disparate grave e quer fugir às consequências, ou que provoca até ao excesso, com a acutilante consciência do que está a fazer, mas depois retira-se para não levar com os cacos da tempestade. A todas as autoridades é rebelde mas de má consciência, mais valia que o fosse assumidamente, sem problemas, simplesmente cumprisse os seus desígnios interiores.
Segunda-feira, Abril 28, 2008
o nervosismo do vizinho de baixo
Um jantar tranquilo com três amigos, tocam à campainha, espreito: dois homens, um maior que outro. Abro e um deles irrompe com uma agressividade desmesurada. Começo a ficar nervosa mas respondo com calma até que o senhor me acusa de ter deixado cair um objecto ruidoso no quarto, quando eu nem sequer lá tinha ido, conversava calmamente com os meus amigos na sala. E aí respondo com mais autoridade, a utilizar expressões à big brother tipo ‘eu não lhe admito...’ (juro, não me reconheci tão condescendente costumo ser nestas coisas!). Chama-me infantil, que tenho de crescer e que os cabelos brancos dele são culpa minha, que o tempo mais feliz da vida dele foi quando eu vivi fora. Atira-me à cara o seu esforço, o seu emprego, a sua vida de merda. Faz juízos de valor sobre os meus horários, o meu trabalho, os meus amigos, a minha vida em geral. Eu olhava para aquela triste figura, quando a conversa estava a ficar ‘musculada’ e só me apetecia vomitar. Avisa directamente ‘isto é uma ameaça’, as veias saltam-lhe do pescoço (odeio o tipo de comunicação violenta, mas já lá estou metida, que fazer?) e a ameaça era que da próxima vai "partir a boca a toda a gente", que “deixará marcas para a vida” e que, depois disso, “nunca mais vou chateá-lo”. Uma vez já tinha empurrado uma amiga me dissera que ‘para a próxima’ ía ‘trazer uma arma'. Crime passional? Estarei debaixo de fogo?
O outro rapaz mudo e calado limitava-se a carregar no botão do elevador a abrir e fechar à espera de a qualquer momento ter de levar à força o vizinho enraivecido lá para dentro para ele não bater mais na miúda.
Estou sobretudo triste com a vida nas cidades ocidentais, obcecadas com o silêncio, o descanso, em que não se tem privacidade, espaço, liberdade, nem na nossa casa, com tanto moralismo, novo-riquismo, mecanismos de repressão e vigilância.
lá por ser frustrante a vida de um yuppie, porque terei de aturar isto?
Quinta-feira, Abril 24, 2008
very tipical
Aquele senhor era o típico português: estava sempre a fazer piadinhas sem graça - as referências da casa portuguesa e dos evaristos tens cá disto ou, mais actualizado, dos malucos do riso; era agarrado ao dinheirinho, via televisão à tarde, não convivia por desconfiança dos vizinhos, zeloso do seu canto e dos seus rituais.
No fundo, tinha alma de coleccionador.
nova amiga
O charme dela é simultaneamente o seu universo liliputiano e global, estar desperta para as dimensões das coisas sem se assustar, encarar tudo como possibilidade. É temerária e tem muito mais piada do que as mulheres mais velhas que falam de pediatras e de sopa de espinafres.
coisas dos 80 que tenho saudades:
combinar encontros na praia ao lado da bola de nívea
chorar com o TopoGiggio
as piscinas com bolas dos Jogos Sem Fronteiras
chamar fascistas aos Heróis do Mar e aos Retornados
ir à Porfírios
Quinta-feira, Abril 10, 2008
encolher os ombros
Ele ficava muito triste quando na Europa os governos viravam à direita. “Que cena! lá vêm tempos de contenção, discursos ameaçadores e xenófobos, como se todos não fizéssemos parte da mesma família e não tivéssemos todos direito à felicidade.”
Ficava amargurado mas depois, pensando bem, concluía: “também, é tudo a mesma merda”.
fitness
estes templos para queimar gorduras são lugares de grande reflexo da sociedade. Fazer malhação com meninas exemplares faz-me sentir uma pequena baleia à deriva no Tejo. Aturar aqueles comentários é assim mais um teste à minha flexibilidade moral que em tantas alturas teve de se abrir aos impossíveis.
procuro
conexões argumentativas para as razões de sermos assim, nós-experiência própria-articulada-com-os-contextos-onde-estamos-envolvidos.
Boa sensação de, em três décadas de existência, a convicção aumentar e a dispersão também.
precaridade
Pedem-te as empresas que sejas militante. A única militância dos tempos que correm é uma militância saltitante, temporária.
- Defende os interesses desta casa, apenas hoje, mas com todo o teu suor. Amanhã podes estar na concorrência a dar a cara e a vender o cu para direccionar o capital para outros bolsos.
Sabes bem como o dinheiro é uma abstracção e atrás duma abstracção pode caminhar-se até ao infinito.
Sexta-feira, Abril 04, 2008
ou precisamente o contrário
as ideias parecem nascer do polimento da escrita como quando uma formulação inesperada nos faz ter a ideia que nunca tinha surgido, diz ulrich.
do quê?
O artista está de pé vestido de preto, óculos escuros e braços cruzados, numa ampla galeria. No chão os destroços das suas obras, ossos, leite, sangue, formas e cores que esmorecem, são uma espécie de súbditos daquela pose austera, alucinada, proprietária. O artista quer ser deus, comporta-se como deus. Mas não é mais do que um operário do indiscernível.
ainda a comunicação
Já tive pena de nós, raparigas intimidadas em falar ao lado dos rapazes.
É um facto que eles monopolizam os assuntos e sobretudo a maneira de falar sobre eles: a comunicação masculina, competitiva, organizada por factos, com laivos de exibicionismo. O próprio tom de voz não ajuda muito, para entrarmos na conversa temos quase de gritar, chamar a atenção, falar nos termos deles. É tão cansativo que desistimos.
Agora acho que o jogo vai reverter contra eles, quando perceberem que tem muito mais graça falar de outras maneiras e se sentirem desorientados com as nossas vozes (do que as vozes dizem e como dizem).
Terça-feira, Abril 01, 2008
mutantes
“Você... precisa saber da piscina, da margarida, da carolina, da gasolina. Você precisa saber de mim. Baby baby eu sei que é assim... Tomar um sorvete na lanchonete, andar com a gente, ouvir aquela canção do roberto.”
vazio
Vivia obcecado com a maneira de fazer dinheiro suficiente para poder viver a fazer o que gosta sem ter que trabalhar para ganhar dinheiro. Arrumava a decisão mais para a frente: trabalhava muito para um dia ter o seu destino singular. Mas na convicção de que lá chegaria, ao ganhar dinheiro a fazer o que não gostava, ia-se esquecendo de fazer o que realmente gostava de fazer. E esse momento nunca chegou, e lá se perdeu mais uma pessoa a pagar facturas.
Segunda-feira, Março 31, 2008
translation
A luta pelo poder sobrepôs-se a qualquer ideologia. La lutte pour le pouvoir... traduziu-lhe ele com aquele timbre de embalar, doce e meloso da língua francesa que amolece as palavras mais duras e mal-cheirosas.
édipo
Mãe e filho vão pelo jardim. Ele faz passar a mão rente ao canteiro, cabisbaixo mas a fingir-se indiferente às graves repreensões que o indicador em riste lhe aponta de 30 em 30 segundos com o novo fôlego com que a dona do indicador se vai lembrando de coisas novas para lhe ralhar.
A raiva aumenta à medida que projecta no miúdo o monstro de si própria.
sublimado
Os escorregões da minha infância no Alentejo estão cobertos de erva entre o olival que por sua vez deixa-se captar em linhas organizadas no campo real e no campo da nossa percepção.
visões da tarde
Levantas a cabeça entre o fumo do cigarro com o Jeff Buckley nos ouvidos a pensar nas mortes e alegrias que te ocorreram (a slave of system, the sky is a landfield) e de repente compreendes os suicídios de todos os adolescentes e detestas as pessoas fortes que não praticam gestos desadequados.
condição sine quo non
Os dois casais jantavam. Falavam de preços de casas. São jovens, recém-unidos mas com vidas em sustentáculos antigos. Entre o bife umas piadas para aligeirar. Fazem queixas dos companheiros e vice-versa, o seu teatrinho privado, ali pode ter graça, em casa deve ser chato (ou será ao contrário?).
Está provado, duas pessoas juntas mais cedo ou mais tarde embatem constantemente nas pequenas irritações.
Domingo, Março 30, 2008
o logro da propriedade
Cada um no seu cantinho, agarrado às suas coisas, sentado na sua cadeira, navegando na sua música, à procura das suas ideias, escrevendo aos seus amigos com as suas piadas, a encontrar as suas palavras, a tentar esquecer-se de si.
pertencer
Estávamos deitados no jardim de barriga para cima a ver as nuvens e ele disse “estou exactamente no lugar onde queria estar”.
Sexta-feira, Março 28, 2008
polis
Onde andam os partidários do teatro da polis, um teatro não como arte decorativa do poder mas como arte reflexiva acerca das relações de poder?
entusiasmo
A rapariga faz discursos arrebatadores sobre condutas e relações amorosas. O que tu dás o que tu não dás, o que tu amas o que tu não amas. Fala com o mesmo empenho com que há umas horas o rapaz discutia a questão da propriedade, de uma perspectiva marxista.
das misérias dos ambientes subversivos
Denunciados a inoperância, paradoxo e implosão mental, que mecanismos podemos ter de contágio, de vontade colectiva, de construção plural, sem ser pelo nicho da subcultura ou pela mistura dos corpos?
ser adulto...
Saber que se não for eu a regar as plantas elas vão morrer tristes e sozinhas, abandonadas à sorte, à crueldade da sede.
Domingo, Fevereiro 17, 2008
O homem hifenizado
Às segundas e sextas, puxava o lustro à sua aparência; decorava três ou quatro frases para derreter corações, e tinha sempre uma piada na algibeira. Quando falava, qualquer ninharia ganhava importância. Recados sem nexo, apontamentos incoerentes e mnemónicas vazias.
Bem caído nas graças do mundo, às segundas e sextas, o homem-secretário lambe as botas.
Às terças recolhia-se; comia de lata e pensava no mundo cá fora sem sentido. De vez em quando, marcava pontos num mapa-múndi; das capitais dos países traçava linhas para outras capitais em triangulações imaginadas. Pronunciava palavras nessas línguas distantes enquanto mastigava.
Nas noites de terça, o homem-sozinho faz castelos no ar.
Quartas e quintas, vestia e arregaçava a camisa. Saía já compenetrado para trabalhar com mais afinco. Quase não falava para não se desconcentrar. Tirava medidas às coisas para as refazer, “errando sempre menos, errando sempre melhor”. O seu suor era tudo o que guardava quando adormecia já de madrugada.
Palmadinhas nas costas não embalavam o homem-trabalhador independente.
O acontecimento de sábado e o temor de domingo davam-lhe uma comichão que o obrigava a sair. A beber. A falar interessadamente com mulheres estrangeiras. Na sua cabeça, soava música clássica no intervalo de tais encontros. Tornava-se um ser politizado, letrado, mordaz.
No fim-de-semana, a inveja crescia ao redor do homem-boémio.
Tiago Lança
Domingo, Fevereiro 03, 2008
'm cria ser poeta
S`na mundo tem mornas e mornas dedicód
Tónt morna bô te mereçê
S`beleza ta trazê inspiração
Esse bô beleza, ê más cum belo horizonte
Infeitód cum bom pôr do sol
Ô um arco-íris mut bem d`stacód.
Amim djam cria ser poeta
Pám fazê um mar di poesia
Pám cumpará que`ss bô beleza d`natureza
Parsem nem mar, nem lua cheia
Nem sol brilhante, nem noit serena
Ta cumpará q`bô formosura e bô corpo.
Pombinha mansa di odjos meigos sem maldade
Bô corpo formoso mas sem vaidade
T`armá quess bô sorriso inocente
Sorriso doce qui ta espertá alguem ambição
Nem q`for d`box tud humilhação
`m crê comquistá bô coração.
Composição: Paulino Vieira
para o sássá
Quarta-feira, Janeiro 23, 2008
Sexta-feira, Janeiro 18, 2008
leitura 1
A cara de quem lê muito tem uma angústia que não devia, de quem foi povoado pelos maiores delírios, a crueza das coisas, o lado barroco das coisas, as imensas peles que podem ser geradas na mais leve sensação, as mais prementes e estranhas questões à existência.
Há uma sombra a percorrer esses rostos. Tudo guardado como segredo profundo, na difícil relação com o lado não-partilhável da vida, numa incapacidade humilhante e tomada pelos outros como arrogância.
Não ter ninguém com quem falar sobre isso. Ou não gostar da maneira rudimentar habitual de se falar sobre isso. Como actos de intimidade que nos parecem ridículos no dia seguinte. Em que circuitos partilhar as histórias dos livros, além dos outros leitores, estudiosos ou amantes? Na terra onde quase ninguém lê o rapaz tinha um ar desajeitado a fingir naturalidade nos gestos.
leitura
Acontece um tempo morno, uma luz tórrida com cinzas a cair do resto dos incêndios do último Verão. Tempo de receber testemunhos das literaturas universais. Parar o relógio dos telejornais e deixar que cheguem as linhas de um comboio siberiano, um encontro num cemitério alemão cheio de feridas de antepassados, um dramaturgo irlandês que descreve o seu exílio espiritual, os mistérios dos dizeres portugueses, a história de um homem no meio da multidão, as deambulações por auto-estradas americanas, a poesia de cada frase isolada do contexto, as memórias revistas em absoluta claridade.
Imagino então uma vida em que me podia perder nos delírios literários sem ter que pensar o concreto, sem ter gente a cobrar participação no mundo de funções e lucros, sem ter que justificar passos. Apenas lia, não fazia mais nada, não tinha que trocar palavras indesejadas, apenas absorver as palavras certas e imaginar coisas a partir delas. As viagens por continentes e ângulos exóticos nos cantos dos livros. A vida e opiniões de...., se numa noite de inverno..., o retrato de...., a trilogia de...., o oráculo de…
Entretanto a visão dos livros a monte denuncia as leituras estancadas à quadragésima página. Denuncia a incapacidade para a recepção total, com tantas interferências. Denuncia a resistência ao assalto do sentir dos outros.
Abandonamos a vida dos livros para que não tomem o lugar da nossa.
Domingo, Janeiro 06, 2008
a comunidade
"Estendo o pé e toco com o calcanhar numa bochecha de carne macia e morna; viro-me para o lado esquerdo, de costas para a luz do candeeiro; e bafeja-me um hálito calmo e suave; faço um gesto ao acaso no escuro e a mão, involuntária tenaz de dedos, pulso, sangue latejante, descai-me sobre um seio morno nu ou numa cabecita de bebé, com um tufo de penugem preta no cocuruto da careca, a moleirinha latejante; respiramos na boca uns dos outros, trocamos pernas e braços, bafos suor uns com os outros, uns pelos outros, tão conchegados, tão embrulhados e enleados num mesmo calor como se as nossas veias e artérias transportassem o mesmo sangue girando, palpitassem, compassadamente, silenciosamente, duma igual vivificante seiva.
É um bicho poderoso, este, uma massa animal tentacular e voraz, adormecida agora, lançando em redor as suas pernas e braços, como um polvo, digo: um polvo excêntrico, sem cabeça central, sem ordenação certa (natural); um grande corpo disforme, respirando por várias bocas, repousando (abandonado) e dormindo, suspirando, gemendo. Choramingando, às vezes. Não está todo à vista, mas metido nas roupas, ou furando aos bocados fora delas. Parece (acho eu, parece) uma explosão que atingiu um grupo de gente parada e, agora, o que está ali são restos de corpos mutilados : uma pernita de criança, um braço nu sòzinho, um punho fechado (um adeus?... uma ameaça?...), um tronco mal coberto por uma camisa branca amarrotada. Ou seria, então, talvez, um desabamento súbito, uma avalanche de neve encardida, que nos cobriu a todos, ao acaso, aos bocados, e para ali ficámos, quietos e palpitando, à espera, quietos e confiantes, dum socorro improvável, cada vez mais (e as horas passam!) improvável, incerto, aguardando a luz da manhã, que chega sempre, que acaba sempre por chegar, para vivos e mortos, calados ou palrantes, ladinos ou soterrados, os que já desistiram da madrugada e os que, ainda, contra qualquer lógica, contra qualquer quantidade de esperança, confiam ainda e esperam.
Somos cinco numa cama. Para a cabeceira, eu, a rapariga, o bebé de dias; para os pés, o miúdo e a miúda mais pequena. Toco com o pé numa rosca de carne meiga e macia: é a pernita da Lina, que dorme à minha frente. Apago a luz, cansado de ler parvoíces que só em português é possível ler, e viro-me para o lado esquerdo: é um hálito levemente soprado, pedindo beijos no escuro que me embala até adormecer. Voltamo-nos, remexemos, tomados pelo medo de estarmos vivos, pela alegria dos sonhos, quem sabe!, e encontramos, chocamos carne, carne que não é nossa, que é um exagero, um a-mais do nosso corpo mas aqui, tão perto e tão quente, é como se fosse nossa carne também: agarrada (palpitante, latejando) pelos nossos dedos; calada (dormindo, confiante) encostada ao nosso suor."
Luiz Pacheco
Quarta-feira, Janeiro 02, 2008
previsões
"Jamais nascerão as árvores e o mundo desolado será uma bola de água sem fundo onde viveremos mergulhados, moldada segundo uma máscara chinesa que vi na infância, num pequeno teatro mimado, com largura para medir o universo e altura para arranhar o céu. Os homens terão uma cidade para viverem acompanhados e melancólicos, uma filosofia para a sua resignação, adolescentes para lhes partir a cara, virgens novas e ingénuas para lhes provocar o cio, o que os obrigará a fechar os olhos, onde habitam bichos, de vergonha. Terão poetas louros e académicos em holocausto à sua expiação."
António Maria Lisboa, "O amor de Isidore Ducasse"
Quinta-feira, Dezembro 27, 2007
saber esquecer
Parece que esqueci tudo. De repente dou por mim a reler os livros do liceu ou do Cambridge School e lá voltam os modal verbs e o present continuous, o humanismo e o livre arbítrio como ferramentas e conceitos redescobertos. Fomos usando tantas dessas aparentes inutilidades sem lhes lembrarmos o aspecto formal, ficaram filtradas dentro de nós, sem nomes, só pela funcionalidade. E o destino de muitas é serem esquecidas porque teorizadas e complexificadas com tantas outras questões. Por isso, diverte-me regressar ao material didáctico, ao livro organizado com esquemas e imagens tão bem pensados por equipas especializadas, que têm métodos pedagógicos para no-las prenderem ao cérebro por pouco tempo.
A aprendizagem funciona quando se lê ou ouve, memoriza-se temporariamente, e reproduz-se e questiona-se num discurso já com palavras nossas, que são também as dos outros. Partilhar com alguém o que se aprendeu é muito importante. Sempre vivi esse dilema, de sentir que só valia a pena aprender se fosse para partilhar depois. Mas na minha obsessão socializante, há depois um pudor que remete para o campo privado alguns dos elementos-chave dessa aprendizagem.
Do conhecimento que ao longo dos anos será esquecido, adulterado, substituído (já soubemos tantas coisas, tantos exames, testes e respostas. Tantas coisas coladas com cuspo que se evaporavam no dia seguinte, as frequências, os trabalhos, as teses e as defesas de tese. Pequenas metas no conhecimento, obsessões, formalidades. Tantas outras coisas que ficaram como fundadoras).
É na condição de conhecimento-teia, o processo infindo de pequenas trajectórias de aproximações às “coisas”, nunca o seu alcance, que está a frustração e a alegria momentânea. Acumulando as verdades parciais, produz-se um simples somatório de acontecimentos ou transformações radicais? Se “a dúvida é a pedra de toque da verdade, o ácido que dissolve os erros”, na perspectiva descartiana, o nosso prazer passa por estas sucessivas e recicladas interrogações.
Para depois tudo se deteriorar. Um simples acidente cerebral varrer toda a biblioteca interna, as referências mais preciosas, os poemas que sempre soubemos de coração, os mais comoventes momentos, a mais legítima dúvida.
caminhos fechados
"O Ela-ele contou-lhes o que acontecia quando não se iniciava na profetização da noite."
Quando começara o seu terror?
De há muito tempo para cá nada se introduz aqui no espaço que seja matéria dizível, de algum canto o silêncio irrompeu e ameaçou derrocada. As vãs palavras foram coniventes: calar o limite da dor e deixar que o empilhar de dias fechasse os caminhos como a curva da copa das árvores.
(Pesou fardos apesar da aparente ligeireza).
cerco de feras
Quando te sentas dentro do cerco, seja ele qual for, deixas de reconhecer o que cerca o cerco, é quando já nem tens consciência dessa condição e vais deixando os dias espumarem sozinhos e indefesos numa cadência enganadora. Há um momento em que vais dizer já chega, este capítulo passou. Ao vê-lo de fora essa visão será cada vez mais nítida e, em vez de te afastar completamente, faz-te sentir de perto o dentro e o fora, impõe-te a vontade de o integrar para não mais te prender.
Segunda-feira, Dezembro 24, 2007
futuros fofinhos
Abomino o fazer-se projecções para o futuro, como uma limpeza do lixo para debaixo do tapete: a partir de Janeiro vou mudar, esta é a última semana que faço isto, que vou trabalhar naquilo, deixarei de fumar no dia tal, vou viver para a Austrália a partir de março… É uma segurança assim as coisas arrumadas lá mais para a frente, não ter de revirar tudo de imediato, a ideia da coisa ir-se instalando devagarinho atrás do córtex.
Não gosto destas promessas confortáveis, as decisões devem tomar-se aqui e agora, pois devem ser imperativos.
(que tom categórico, mama mia!)
Domingo, Dezembro 23, 2007
monólogo 2
Imagino: se estivéssemos nesse mesmo restaurante daqui a 10 anos, nessa altura já não saberias o que dizer-me.
E eu talvez ganhasse coragem para dizer tudo o que tinha calado.
O mais provável é que não. O mais provável é não voltar a estar contigo nas próximas semanas.
Fazes gestos cavalheirescos como servir-me vinho assim que o copo se esvazia. Eu evito expressões como “interessante” ou “é isso”. Não quero que penses que estou a acompanhar-te ou a aplaudir-te. No entanto, parece que te conheço e que adivinho
tudo o que vais dizer a seguir. Mas é nessa altura que me engano e tu surpreendes-me.
Na tua simpatia queres começar a inquirir-me. São perguntas rasteiras para indagar a minha “situação de vida”.
Mas eu não quero falar de mim. Nem de ti. Gostava de falar de coisas que não fossem as nossas vidas
que são tão pouco hábeis para encaixar dentro de palavras.
Caem tão mal com o vinho.
São tão imbecis todos os “projectos” e as vontades impraticadas.
No entanto, falar de qualquer coisa do foro político, social, geográfico, artístico ou filosófico me soa a falso. Ou a curiosidade mórbida. Ou a comentário reciclado.
Tu insistes no eu e no tu.
Sexta-feira, Dezembro 21, 2007
monólogo
Tu darás azo ao teu sentimento, às tuas memórias nostálgicas da adolescência, aos teus sonhos privados de mulheres ideais.
E eu não quero saber. Vou sentir-me no papel de ampára-quedas, e penso que estamos a entrar na comunicação caixote-do-lixo. Alguém que fala fala e o outro ouve. Sentes-te bem, bebes e comes, e desbobinas os teus dramas, as tuas opiniões, as tuas questões. O meu silêncio e compreensão são a tua sensação confortável de que podes continuar por ali a fora a dar rédea solta ao teu ego. Não há contemplação possível do outro nas tuas palavras a não ser atirar-mas para que fique com elas e faça o que bem entender. Porque é que esta merda nunca é equilibrada? Eu conto-te uma história minha, logo há uma associação de ideias que te faz ligar a uma história tua que aniquila a minha, e os planos, de realidades inconciliáveis, sobrepõem-se. Quanto mais falas mais eu tenho vontade de calar. Mas não, não devia ser assim. O contágio, o entusiasmo. E entretanto já chegou o caril e interrompes o teu discurso com breves comentários à comida e aos sabores. Sabes e prezas o significado de comer bem. Mostras que conheces muitas culturas pelo prazer da carne. As coisas que nos fazem sentir vivos.
post-mortem
Gosto da ideia de um dia sermos reduzidos (ou dignificados), depois de tantas questões existenciais, à expressão “restos mortais”.



