Quarta-feira, Novembro 11, 2009
A Terceira Metade, Ruy Duarte de Carvalho
desabafo do escritor com duas amigas numa casa de montanha em Springbok sobre a sensibilidade masculina e feminina
O que está inscrito primeiro, o modelo ou o programa do corpo? devemos aceitar que o biológico e cultural acabam por ser uma e a mesma coisa.
Só vos invejo essa coisa de criar filhos na barriga, de resto gosto de ser homem porque é mais fácil.
Segunda-feira, Novembro 09, 2009
todas as perspectivas
Lisboa, Paris, Luanda, Moscovo, Berna, Maputo, Faro, Edimburgo 2000 e mais coisa menos coisa
Quando me vou embora, e estou sempre a ir embora, inaugura-se outra comunicação mais perene com as pessoas. Afasta-se o ruído como que por magia. As partidas permanentes fazem-me ver pelos outros ou, pelos meus olhos, ver o mar de muitos outros.
A vida anuncia-se por correspondência já que não se encontra o lugar certo para estar, afinal encontrado sempre mas sem capacidade para decidir ficar.
Nem que sejam só umas palavras, curtas e poucas, gostava de escrever uma carta uma vez por mês, para o coração saber como viver. Pode ser a continuação de um poema, garrafas cheias de dor, ciúmes, gritos e sofrimento, com música, inferno e segredo. Uma espécie de crimes contra mulheres que no entanto recusam ser vítimas. Cadelas cor-de-rosa à procura de um mapa interior.
Para onde vão as palavras quando as deixamos? Lançam-se como flores negras.
(folha de sala para porque na noite terrena sou mais fiel que um cão do Teatro do Vestido)
Sexta-feira, Novembro 06, 2009
receptáculos usados para transportar droga
Forro das malas, instrumentos musicais (guitarras, jambés), fruta (por ex. ananás), chouriço, pasta de dentes, barriga.
Quarta-feira, Novembro 04, 2009
cartaz na fronteira moçambique - áfrica do sul
Lá porque uma pessoa se acostuma a um problema nao quer dizer que ele deixe de existir.
Terça-feira, Novembro 03, 2009
quem vê tv
Grande parte da humanidade vive fora da influência dos media e não tem qualquer razão para preocupar-se com as manipulações mediáticas ou a má influência dos meios de comunicação de massas.
Na América Latina e em África, a principal e quase única função da televisão é divertir, por isso não esperam uma interpretação séria do mundo, o que equivaleria a esperá-la de um circo.
Há televisores em quase todos os bares, restaurantes e hotéis. As pessoas têm o costume de ir ao bar para tomar um copo e ver televisão. E a ninguém ocorre a ideia de que esse meio seja sério ou que tenha uma função educativa e informativa.
Richard Kapushinski
Segunda-feira, Novembro 02, 2009
exposicão assexuada
a cópia original
Já no século XVIII ouvíamos a voz indignada do estrangeirado Cavaleiro de Oliveira contra o marasmo cultural em Portugal: “nada de novo lá entra que não tenha já envelhecido em outros países”. Que cansadas e velhas me soam as vozes desmoralizadas de hoje que se deixaram afectar até à medula pela contagiosa melancolia e sempre se queixam “este pais é uma merda”.Somos receptivos e interessados no mundo dos outros porque achamos condição necessária para que alguma opinião venha a vingar em Portugal. Esta, por sua vez, deve ser aprovada na constatação da sua eficácia anterior e assim se pode encaixá-la, com algum ruído. O processo é simples e eficaz, não se tem muito trabalho em inovar porque o que há a fazer é uma adaptação, duvidosa, à nossa realidade.
Tento encontrar o mérito da circulação de influências que tem origens históricas, sendo uma das nossas peculiaridades a facilidade de recebermos e assimilarmos as dos outros. Gosto sobretudo da maneira como as podemos conjugar, como crianças que montam as peças do lego e brincam aos achados arqueológicos do que já é demasiado vulgar para ser raridade. Gosto do facto de nos movimentarmos (ainda que às vezes apenas virtualmente) e de não nos fecharmos nas nossas certezas, orgulhosos na ignorância e sós na limitação.
a exaltacão das pequenas coisas
José Cardoso Pires
Sexta-feira, Outubro 30, 2009
no hospital do Mindelo
Em Cabo Verde estive 15 dias internada no hospital. Foi uma experiência reveladora, longe de casa mas tão em casa. O ritmo do hospital é fabuloso, está tudo bem encadeado, os turnos, os antibióticos, as canjas insípidas, os soros, os ruídos e silêncios. A luz branca que acendem violentamente a meio do sono (uma vez uma enfermeira acordou-me à 1 da manhã para cravar um telefonema). É impressionante a importância do pormenor para que tudo funcione ou se aproxime do conforto. Ir compondo a mesa-de-cabeceira com os objectos devidamente necessários, tais como coisas várias de higiene, roupa, toalha, garrafas de água, livros, discos, os fones que não funcionavam, telemóvel, sumo, iogurtes, lençol. E é tudo. Tudo muito dependente do exterior e de teres alguém que cuide de ti e te vá trazendo as coisas numa reciclagem diária. Como fazem os solitários que não têm ninguém, entregues aos serviços do Estado indiferente?
Ocupava o tempo com livros e pensamentos para que nada fosse desperdício, com a nossa velha amiga ansiedade, a tentativa de nunca perder tempo. Revolvia as memórias mais longínquas e ínfimas para me entreter, fazia cronologias e atribuía ligações aos factos e tentativas de justificação para tudo. Sentia-me quase preparada para morrer se fosse preciso. Olhava para as três crioulas do quarto que dormem o dia todo e se aborrecem sem nunca se queixarem. O arrastar dos seus rabos protuberantes. Filhas do tédio, lidam bem com a espera, o silêncio e a inacção. Que horizontes serão possíveis para elas, que nunca saíram nem vão sair da sua ilha e dos seus rituais de pobreza? Não sei bem o que é dizer do mundo senão uma coisa tão privada.
equilíbrio difícil
O amor é como a teoria dos sistemas: se mexemos num elemento do sistema outro tem de se modificar para restabelecer o antigo equilíbrio.
insónia
Desde criança que tenho insónias e ando sempre num estado meio zombie e extenuada, mas disfarço a fazer muitas coisas. A insónia trouxe toda uma nova perspectiva sobre a vida, nas minhas errâncias nocturnas a atacar o frigorífico, a ver a TVI e comprar porcarias no televendas, a lidar com os medos e os vazios. E a aceitar que a morte talvez me desse tréguas durante uns anos.
doméstica
Da próxima vez que tiver de assinalar a minha profissão vou responder que sou doméstica. Faço tudo em casa o que dantes fazia na rua: trabalhar, conviver, as tarefas domésticas clássicas, reuniões criativas, férias, lazer, cinema, amor. Tudo, tudo, só me falta tirar a carteira profissional. Por isso, quando vou à rua vivo um turbilhão de emoções com a exaltação do movimento, poluição, cores, ruídos, tensões.
Em quantos passos se traduz o futuro?
Os meus passos tantas vezes se atropelam e sucumbem e, como numa tragédia, sofrem reviravoltas. Acontece-me prender-me ao riso aberto e sonoro das meninas do lado, um riso que tem uma cor negra a rasgá-lo. Fico nesses instantes a achar que a vida nos trespassa com uma força voraz, que nos lança as suas garras como instrumentos que não sabemos usar. Uma alegria tonta e desajeitada como a daquele louco que aí vem a gesticular contra a lama.
criatividade e técnica
No tempo que vivemos gostava de desenvolver um sentido maior para o visual, de poder arriscá-lo assim livre e experimental, sem ter prisões académicas, teóricas ou líricas, sem este estúpido exercício das palavras que é uma higiene diária e nada mais. Gostava de ter mais sensibilidade plástica. Gostava de trazer um discurso em movimento, dominar a técnica e saber enquadrar e calibrar o potencial de força de cada imagem. A brincadeira que permite, a exibição dos outros através de nós e vice-versa, com o toque de intervenção e experimentalismo formal para ficarmos confortáveis nas leituras que farão do nosso objecto artístico. Gostava de ser capaz de experimentar, ter coisas a dizer de uma forma aberta, menos a preto e branco. Cedendo à linguagem visual - ganhar mais dimensão, gritar mais alto, mostrar, tornar enigmático. A imagem não tem de explicar, tem de agir.
Mas sempre me quis afastar desse contacto por uma espécie de respeito a quem sabe, trabalha e discursa, usa e abusa da imagem. Num desejo de perfeccionismo ou, por outro lado, ao saber que já ninguém tolera a falta dele, qualquer coisa me paralisa. É difícil aventurar-me realmente em algo novo, continuo a apelar às técnicas tradicionais que não fazem muito ruído. Sei que um dia o mundo voltará a dar-lhes atenção. Talvez não. Talvez o domínio da imagem seja mesmo tão charmoso que é irresistível.
Se fosse artista seria escultora para sujar as mãos, para descobrir formas no vazio de formas. A maravilha da pele ser pedra, das superfícies porosas e grosseiras, ondulantes de firmeza, de outras dimensões ainda que com peso e gravidade. Mas gostava ainda mais de ser inventora, inventar a pólvora e a bússola, inaugurar uma nova era como Guttenberg e a sua máquina de imprensa. E lá voltamos às palavras.
da produção
Quando trabalhava na Trienal de Luanda tentava perceber o processo de produção artística daqueles jovens angolanos. Era engraçado assistir ao desenvolvimento das ideias e vontades e a sua quase imediata concretização. Não se perdia muito tempo a discutir os conceitos. A força era a da perspicácia em lançá-los de forma eficaz e de leitura simples, como uma espécie de jogo para se descodificar sem muitos truques. Sempre os trocadilhos como uma fórmula batida mas funcional de fazer pensar divertindo. Há ali uma frontalidade muito interessante e criativa. No capitalismo, a actividade criativa enquanto produção de mercadoria e bens negociáveis, características de todas as actividades práticas e produtos, era ali, claro, de suma importância. Todo o mercado da arte leva isto ao limite, mas nunca tinha interligado os dois momentos. Foi muito importante perceber o funcionamento, o espírito deste jogo. Depois, o brilho sofisticado do k-line, pladur e vinil contrastava com o pessoal que passava a vender na rua. Os putos e as mulheres, autênticas lojas ambulantes, olhavam para dentro da galeria, para aqueles objectos estranhos e contemporâneos, com um certo encantamento e magia. E isso era ainda mais belo!
Quinta-feira, Outubro 29, 2009
high culture
E depois nada comunica. O público avalia a obra de arte como nojice pretensiosa de intelectuais, e estes, por seu turno, classificam o público (o público-massa) de acéfalos intratáveis. As duas partes tornam-se reaccionárias.
há um ano na China
Eu penso: é o mesmo em todo o lado, são os ocidentais a darem opinião sobre os países onde vivem, sempre uma opinião filtrada.
Entramos na disco, que se chama 3.3, super estilosa e bem decorada, põe o Lux a um canto. Raparigas trajadas com vestidos brilhantes e corte clássico sentam os clientes. Parecem cavaleiras ou damas da corte. Avança-se para a pista de dança, um grupo de jovens chinesas com mini-saias e lantejoulas, penteados very trendy fazem roda para dançar. Puxam os homens para o centro e imitam o bambolear das ancas meio streep tease. A excitação é muita. A mesma excitação com que viam a exposição de arte contemporânea e tiravam fotos a todas as obras. A mesma excitação com que vão às compras e remexem na roupa. Uma avidez de consumo, seria o mais fácil de concluir, mas eu não o faço porque não sou o Thomas que pensa que sabe tudo sobre a China.
Sexta-feira, Outubro 16, 2009
as hesitações do nómada

Uma partida é um tempo que separa outro, que vai mudar tudo, mas é ao mesmo tempo uma continuidade. Em todas estas deslocações e turbilhões o compromisso é, ao estar num lugar, vivê-lo intensamente, tornamo-nos uma espécie de Caramuru que casa com Paraguaçu, filha de um dos chefes dos tupinambás, e passa a dominar a sua língua e costumes.
A distância é condição para pensar e agir, não um afastamento de si. Muitas vezes queria não estar aqui, queria estar junto dos meus amigos e dizer-lhes como vale a pena essa prisão. Mas as relações à distância tornam-se outra coisa diferente de relações à distância. Uma amizade carinhosa e próxima pelo teor dos afectos e ideias que se querem partilhar. Chega uma altura em que a única forma que temos de rever a pessoa é pensar nela pelos episódios que vivemos mas também pelas palavras que entretanto deram nomes a sentimentos e explicarem fenómenos que são imperceptíveis quando estamos numa cultura de nos vermos fisicamente mas em nada frontal. Sinto as pessoas a crescer à distância e gosto de imaginar e ir sabendo da forma como organizam e desfrutam a sua vida, quase que ganho mais respeito pelos seus propósitos privados.
Depois há a história dos regressados que voltam à história, a si próprios, e terão ou não a capacidade de compreender o que lhes aconteceu. E o que é mais estranho, é que aí se dá também o encontro com o Outro. A cada paragem no desejado e atribulado regresso a casa, encontra-se o diferente - nada mudou que se veja mas há desadequações incuráveis em nós. Medo, a dificuldade de compreensão, conflito, alegria, espanto, ter de conquistar. Os mesmos elementos com que nos deparamos numa terra nova. Não adianta contar nada sobre a vida noutro país, seria o mesmo de contar como é a vida noutro planeta: para as pessoas tanto faz, pode existir como pode não existir. E a grande riqueza nesse acréscimo de experiências fica, com a inutilidade de partilha, assim meio patética dentro de nós, transforma-se em sonho, alucinação, e vontade de voltar de novo a outros mundos.
simpático
Lá estás tu com as tuas manobras de diversão. A produzir coisas e coisas, ideias, que depois não sabes o que fazer com elas, ou não tens tomates para lhes dar forma, forma de tarte que se atira à cara dos outros ou outra forma qualquer. Ficas-te pela vontade, pela conversa do que vais fazer, de onde gostavas de ir viver, como se isso te ocupasse espaço suficiente para depois não teres de o realizar. E assim vais lamentando por aí a fora, os anos passam, o lamento transforma-se em fracasso e, mais tarde, em amargura colada à pele. Mas não deixas de ser uma pessoa em potência, se calhar as coisas que não fizeste são tão interessantes como se as tivesses feito.
ruminadores
Indivíduos letrados, iluminados, isentos e racionais, com a missão de ser árbitro do sistema político, corrigindo as injustiças, alertando para os problemas sociais e conformando a acção dos governantes às expectativas da população. São os que dão e fazem opinião, os ruminadores. Os que escrevem poemas, crónicas, blogues, livros e falam na internet, rádio, televisão e conferências. E tudo lhes é acessível, desde o Iraque, o Líbano, o Hugo Pratt, Pessoa, Cimeira Europa-África, a reforma do ensino, a segurança social, o Ocidente e o kuduro. Não suporto.
Cada vez mais longe do conselho de Deleuze: é preciso resistir a estas forças sociais que nos forçam a falar quando não temos nada a dizer.
me engana que eu gosto
Os dois escritores amigos contavam estórias de pessoas obcecadas por eles, paixões demenciais de quem os persegue por todo o lado. Aparecem nos lançamentos, nas esquinas, mandam sms, emails, fazem promessas como se fossem os maiores amores de sempre. Dizem que os livros foram escritos de propósito para si, que são almas gémeas, etc.
Os escritores queixam-se dos fãs e da falta de anonimato mas saíram dali a correr para ir aceitar pedidos de amizade de anónimos no facebook.
cidade-monstro
Duzentas mil pessoas por dia deslocam-se para as cidades à procura de melhores condições de vida. Entram naquele estado meio alucinado que há nas grandes cidades, uma mistura de exaustão com conquista de liberdade, que consome as energias do indivíduo, com laivos de alienação e hipertrofia. Lutar todos os dias por um dever cumprido, adormecer muitas vezes em transportes, não ter dinheiro nem tempo para o lazer, viver em favelas ou musseques ou bairros sociais, mas pertencer à família anónima das grandes cidades. À família dos 30 milhões de Tóquio, Cidade do México, Seul, Nova Iorque e São Paulo, triste família sem destino que ostenta, no entanto, aquele ar ousado, seguro e descomprometido que há nas cidades.
Os japoneses assalariados das empresas, guerreiros de fatos escuros que trabalham e trabalham e trabalham longas horas sem parar, e ainda vão aos bares com clientes e ao karaoke fingindo-se divertidos. Que chegam a casa tarde demais e as suas esposas angustiadas e sonhadoras olham para eles como perfeitos estranhos de quem nem conhecem o cheiro.
Há uns anos deambulava por Paris e não gostava da sensação de viver ali. Sentia-me sempre à deriva mas não uma deriva política e literariamente interessante. Era uma deriva de perder tempo, de fugir de mim própria. A arrastar-me pelo metro, residências, idas ao cinema, a preguiça de ir para a faculdade no subúrbio e ouvir falar de flics e das turbulências da noite passada no metro logo às 8 da manhã. A odiar os operários, os turistas e umas almas penadas que andam pela rua das cidades europeias a animar a burguesia entediada. Os cantores de fanfarra, os homens-estátua, dançarinos de tango, pintores de calçada, os flautistas punks, os bonés, as barbas, as roupas coloridas, os cães e as maracas.
Há qualquer coisa de gasto na Europa, sobretudo na ideia de conforto e no descuido com que se almeja a alegria, muito cenário, avenidas rectas e coisas que se intrometem nos gestos, supostamente para facilitar a vida.
Os habitantes das cidades andam nostálgicos mas bem apetrechados com um telemóvel, um cartão multibanco, às vezes mochila e ténis. Parecem saber muito bem para onde vão e de onde vêm. Andam em círculos nos seus afazeres, apanha metro, muda a linha, desce escadas, pega outro transporte, ver aquilo, no fim-de-semana aqueloutro, sentar no café a ler os jornais e as opiniões alheias que farão conversa amanhã. Tudo faz parte do jogo de existir cheio de regras para cada singularidade e suas imensas vestes que camuflam esse ser solitário.
Sexta-feira, Outubro 09, 2009
coisas a fazer
Atirar desejos ao mar, recolher águas de dois oceanos. Tomar banho com folhas nos kimbandas. Ver as gaivotas que habitam lá nos buracos.
doi doi
Quando não durmo e tenho crises de ansiedade sinto que a criança vem ao de cima. Nesta vida nómada, talvez seja para lembrar alturas de recolhimento, de carinho materno, daquela voz que sussurrava no escuro do quarto, como um milagre, quando eu gritava com dores nos ossos. A minha mãe vinha de leve e esfregava-me as pernas com álcool. Diziam-me que eram as “dores de crescimento”. E eram. E ainda são.
desejada
Ontem caiu uma daquelas tempestades de verão: ninguém está preparado para a chuva que afinal todos desejam.
república dos poetas
Ao contrário do que o Melo e Castro diz em Poex - que tem um antepassado que foi um grande poeta e nunca escreveu um verso - eu tenho um bisavô que escreveu milhares de versos e era mau poeta.
Quinta-feira, Outubro 08, 2009
something to catch
alguém diz
bed & breakfast
depois de atravessar o deserto
Terça-feira, Setembro 08, 2009
querias....
Aula de dança acompanhada de marimbas e jambés. O pessoal salta dez vezes seguidas no mesmo lugar, saltos verdadeiramente altos com uma elasticidade brutal. Nós desistimos ainda mal tinha acabado o aquecimento e já deu para ficarmos todas partidinhas. Logo a seguir corremos a beber cerveja e a comer uma feijoada.
dãããaãã!!!!
O actor moçambicano mostra como se deve virar o pão para baixo para não ofender as dicas e tradições dos mais velhos. Pergunto porquê e ele faz um ar perplexo. As tradições não se questionam.
Domingo, Setembro 06, 2009
diz o Mia Couto
A maior desgraça de uma nação pobre é que, em vez de produzir riqueza, produz ricos.
tudo coisas simples
Na baixa de Maputo entregam-me este cartão: Professor Sheik Youssouf cura diabete, hipertensão, cancro, impotência sexual, pneumonia, anemia e problemas espirituais. Dá aulas de árabe, swahili e xadrez.
Sábado, Setembro 05, 2009
ops!
No avião observo um casal de aposentados muito sereno. A estranha dedicação com que a mulher barra as tostas com queijo président e põe na boca do marido, depois corta o bife e volta a pôr-lhe os bocadinhos na boca e tudo o resto até à sobremesa. Já ia começar a pensar no desequilíbrio de favores e na propensão maternal que as esposas têm, quando reparo, ao se levantar, que o homem não tem braços.
Quarta-feira, Setembro 02, 2009
fazer cinema
Como podíamos iluminar esta rua? Só o dinheiro que os americanos gastam em ensaios e mariquices e nós aqui para contar as nossas estórias não há nada, temos de improvisar. A minha mãe tinha razão: nunca me devia ter metido nisto. Ela dizia devia era ser doutor e eu convencia-me de que fazer cinema era também ser doutor das almas.
leve
Segunda-feira, Agosto 31, 2009
escadas rolantes
Ela desce as escadas rolantes de uma qualquer metrópole europeia e o violino que se ouve ao fundo, provindo de um dos corredores por onde se passa sem nada fixar, aquele Bach destinado ao esquecimento imediato acorda nela um suspiro e uma certeza: não quero viver aqui!
pacto
Ali selaram um pacto de amor entre colunas solitárias, onde desembarcara o Gungunhana, junto à praça hoje habitada por jovens a praticar street dance, turistas desnorteados e um cavaleiro esverdeado.
De braços bem repletos um do outro, devoram-se com aquela urgência e perplexidade que raras vezes nos questiona. “O que é que nos está a acontecer?” Uma subtil hesitação antes de deslizarem para o abismo autofágico da paixão, glutão do eu, violador de certezas, caçador insaciável de novas presas de corações inocentes.
contar a dor
Ele emocionou-se a meio da entrevista. Teve de parar, desligar a máquina que registava aquele relato trágico. Era a filha de um cantor popular que contava como tinha sido dramático na vida daquela família terem assassinado o pai, crescer a ouvir barbaridades e terem de se defender, das mentiras e da memória do pai. Um grande cantor cujos temas enchem a boca de tantos intérpretes, inflamam o orgulho de tanto angolano para afinal ter sido morto na febre violenta de Maio de 77.
Ela desfiava aquela estória e a raiva já esbatida ainda fazia mais impressão.
um entrevistado
O coração estava cauterizado, depois da minha mãe ter morrido de doença do sono (tripanossoníases que afecta 66 milhões de pessoas), não consegui chorar com mais nenhuma das tragédias seguintes.
o sul
Ai esse sul mítico, definidor de carácter, que vem de África, Caraíbas, Pacífico, Sudoeste Asiático, Próximo-Oriente, Península Arábica, Ásia central!
o sabor da idade: prosaico-sociológico
Como diz o MEC envelhecer é tirarem-nos o prazer das novidades para passar a ser tudo um déjà vu.
Como diz o Bourdieu a idade é um dado biológico socialmente manipulado e manipulável.
num restaurante de domingo
A senhora comia o seu doce leite creme que deliciosamente actuava contra a solidão que sentia. O açucar a derreter-lhe nos lábios era um consolo imenso. Desejei não assistir a tamanha tristeza.
Sábado, Julho 18, 2009
lei do ruído
Já não há vida nos bairros burgueses por causa dos vizinhos. Estórias dos vizinhos, toda a gente tem uma, e há aquela hora da noite em que se começa a contá-las, cada uma mais sinistra que a anterior. Técnicas cada vez mais apuradas de controlar a nossa vida e nos roubar a liberdade: medem os decibeis para ter um comprovativo de que se pode passar multa. É foda!
Nos países onde ainda existe algo que se parece com uma forma descontraída de se viver, ninguém ousa meter-se nesse assunto. A lógica é bastante simples: umas vezes tu outras vezes eu. E somos felizes!
por onde começar? lição de escrita nº 1
Se uma imagem dispara ideias uma ideia dispara imagens. Deve-se trabalhar a ideia até descobrir as forças contrapostas que lá estão contidas, e cada pessoa é expressão disso. As duas pessoas devem estar em confronto mas também unidas por agum tipo de laço, forte, significativo.
Quarta-feira, Julho 15, 2009
ainda há
RDC, A Terceira Metade
aqui inverno
Quinta-feira, Julho 09, 2009
culpa
Os pais e professores são sempre culpados de pecados terríveis apenas porque são pais e professores, diz o Mishima.
metafísicas
a atracção dos opostos
Domingo, Julho 05, 2009
africanistas...
formação de uma consciência
Segunda-feira, Junho 29, 2009
Portugal na UE
piada seca
A matança do borrego

O meu tio Palminha atravessava a faca na carótida, depois de ter atado as patas do animal. Deixava o sangue escorrer num alguidar mas sem proveito. Depois abria o estômago, tirava as tripas todas que vêm num saco. Com o bicho pendurado, fazia a descasca da pele, pedacinho a pedacinho com a faca a empurrar a pele, que saía como um tapete de lã que se arranca sem deixar de ser fofinho. Para consumo próprio matava-se no quintal, galinhas e borregos. Na horta - ou monte, depende do grau de peneiras - fazia-se criação de vacas e cavalos. O tio Palminha tinha muito jeito, conhecia bem os animais, tinha ajudantes para matar o porco, mas o resto era homem para dar conta do recado. Eu ficava fascinada a olhar para aquele espectáculo em que o cheiro a sangue me subia com um misto de confiança e desolação com a aflição do animal que, contavam, apesar de tudo, era melhor ser morto assim do que com as idas para o matadouro, pois nessas eles pressentiam a morte a léguas.
Segunda-feira, Junho 22, 2009
nome
ambiente froxo
não nos calhou sequer a utopia
Segunda-feira, Junho 08, 2009
é demasiado
Vagos monstros de um olho só.
lógica das Greguerías
uf!
No Retiro, em Madrid
Quarta-feira, Maio 20, 2009
Terça-feira, Maio 19, 2009
reconhecimento
E também a imbecilidade das mulheres, sempre insatisfeitas com o que lhes faz bem.
duas praias do coração
Apesar de não ser lá uma grande praia, estou habituada à ilha de Luanda. É uma praia-casa-escritório ou libertação-do-stress-da-cidade-nervosa. Uma praia de passar quase todos os dias um bocadinho.
Gosto da sensação de estar lá longe noutro continente a pensar Lisboa e as pessoas de Lisboa. E também de esquecer que este mundo do lado de cá existe.
Naquela praia não há estas ondas nem surfistas nem prédios feios atrás. É estranha a familiaridade de quando pisei as areias da Costa me sentir quase lá, de caipirinha e sandes de frango com maionese na mão, com a musicalidade do sotaque angolano e os corpos viçosos em redor. Lembro-me nitidamente de certas vozes e das conversas com gargalhadas pois ir à praia é como ir ao café, pode-se sempre surgir.
Nesta praia da Costa, em vez dos africanos, tugas, chineses, brasileiros, russos, vendedores de panos e colares, estão uns senhores barrigudos com ar de que a frequentam há muitos muitos anos e que se calhar até estiveram em África 'noutras circunstâncias'. Se calhar também nostálgicos disso, como eu, mas das 'outras circunstâncias'.
Não reconheço esta praia a não ser pelo que me transporta para a outra de Luanda. Leva-me ao calor da areia, e à água-caldo-morno, imagem do azul, sempre a nostalgia de uma costa atlântica de onde apetece partir, a solidão muitas vezes, o livro que conseguia absorver melhor, a pele que “emorenece” amante.
rituais
Lembro-me daqueles prazeres simples que tinham os meus avôs quando ia lá almoçar: espremer o sumo de laranja, fazer um bolo de chocolate, bater as natas para os morangos. Durante a manhã cozinhavam os pratos do costume: empadão de carne com esparguete ou frango assado com arroz gratinado com rodelas de chouriço. Depois, se não repetisse no mínimo cinco vezes, ficavam ofendidos e achavam que eu não tinha gostado do repasto. Depois ofereciam-me uma nota (ainda em escudos), descia o elevador e cá de fora virava-me sempre para o alto daquele prédio de Benfica pois o ritual de acenar era indesculpável dispensar. A minha avó morreu, e o avô continuou a fazer isso. A falar menos, mas o prazer simples era o de me ter presente a partilhar / assistir aos seus rituais de solidão.
Quinta-feira, Maio 14, 2009
voar dentro da China
“espera lá pá, tenho de escrever isto”
uma mulher espera o autocarro e angustia-se como vai pagar as despesas escolares do filho;
um rapaz de i-pod lembra-se do campismo do verão;
uma rapariga tem um casaco vermelho e mãos nervosas, vai amanhã ser operada.
Mas eu não sou o anjo das asas do desejo!
Posso escrever todas as banalidades, até as rachas do tecto que observo, o que interessa e depois fica é um estado momentâneo que reflecte mais do que está ali, mais do que espuma dos dias que fica grudada de uma página para a outra.
Gostava mais de coleccionar insólitos.
Quarta-feira, Maio 06, 2009
só nos resta

fotografia de Kiluanji Kia Henda
Só nos resta ser dos mais obstinados, manter a imaginação durante mais tempo, viver segundo os nossos próprios termos, tratar a realidade como um horizonte de expectativas incertas e contingentes, crescer com obstinação e resistência. Pois é da capacidade de nos recriarmos, de escrever com uma nova linguagem, abrir os braços ao presente e à curiosidade que mexe, que nasce o poeta forte.
iman
também podia ser ao contrário
1973
Julio Cortazar, O Jogo do Mundo
Observação Directa
Ruy Duarte de Carvalho
Sábado, Maio 02, 2009
jocosidade à portuguesa
- Então Zé, sentes-te bem?
Resposta: - Só me vou sentir bem quando tiver cem anos!
- Já falta pouco Zé.
- Já não falta metade.
grandes poemas do Auto-ajuda
Mataram-no.
Sabia tudo.
Suicidou-se.
** *** **
O poeta puramente imagético
disse como se fosse um funcionário da EPAL
justificando a sua visita:
vim para contar a água.
Tiago Gomes
Quinta-feira, Abril 16, 2009
triste sorte
Ira de Aquiles, fúria de Filotectes, sofrimento de Prometeu, invectivas de Medeia, loucura de Ájax, desespero de Electra, em nome da justiça se clama vingança e se desencadeava retaliações.
E esta minha triste sina de ser demasiado benevolente...
um dia...
Um dia vou voltar aqui à terra de todas as minhas dúvidas mas onde uma vez também soube confrontar-me e perceber que é comigo o destino e o sofrimento de todas as coisas que toco e nessa validade sofrível dos outros à minha casmurrice e impedimento não me restará nada mais a não ser a solidão profunda de uma ilha, onde o conhecimento se faz como processo vulcânico e quando jorra é fatal, destrutivo mas criador de novas vidas, nova terra feita de cinza e mistério e inóspita pois bem.
Terça-feira, Março 31, 2009
Luanda sensorial
Pessoas a falar ao telemóvel - Tás onde?
Pessoas a cumprimentar-se - Comé? Tudo fixe?
Pessoas a insultar-se – vou-lhi bater! você vai morrer hoje!
Pessoas a pedir– madrinha, arranja só 100 kwanzas pra comprar pão.
O segurança conversa com a prostituta. Ela sabe dar música. Ele sabe o que ela quer ouvir.
O semba a cantar o orgulho de ser angolano.
Carros a chiar. Motas a arranhar. Todos se comunicam pelo tubo de escape como pelos rabos os cães.
Sirenes de ambulâncias. O doce amortecedor do jeep.
Kinguilas a fazer pssst, pssst, psssssst.
É O QUÊ???
Um avião cheio de chineses a aterrar.
Um candongueiro a despistar-se. Espalha-se contra outra viatura. Já raspou. O choque faz-se ouvir na avenida inteira. Logo os insultos e as palavras à toa.
De quem é a culpa, de quem é a culpa?
A velocidade? Os buracos na estrada? O kuduro a bater?
Ou mi mata ou quêê!!!! Culpa é de um, é do outro, é do pessoal que vai dentro que não fez nada e tem sempre culpa de tudo - penando a vida inteira.
Sai a bitola a estalar, com este calor sabe sempre a pouco. Venha mais uma e outra e mais outra e mais outra ainda e… no final de tudo, não esquecer a da porta.
fim da manhã. camarada: estou fobado. Vou comer na casa da tia Júlia. No quintal o funge fumega. Devoro-o com peixe seco. Encosto-me à cadeira a dormir um cochito.
À noite na discoteca beijo a garina. O beijo sabe a estrelas cadentes.
Fico tonto e flutuo na pista.
Ao levá-la a casa como ginguba para disfarçar o nervoso.
Saboreio um cigarro depois de a ver desaparecer no portão. A 'mboa é linda, vou conquistá-la. A minha língua enrola-se com tanta emoção. A que sabe o mar?
Cinzento e castanho.
Cidade em construção. Prédios a crescer. Todos os dias mais prédios, rebentam bancos e escritórios. A cidade cresce, para cima e sobretudo para os lados.
A terra é palmilhada por casas e casinhas e musseques e coisinhas. Uma cidade em expansão. O pessoal do mundo, o mundo é uma casinha, tá a vir!!! TÁ A VIR!!!! posso falar todas as línguas na banda que alguém me vai entender.
Cores. Vejo arte contemporânea e arte da Mauritânia. O traço, o espaço, a terra que vence o alcatrão. Ano 2007. Luanda tem muito que ver. Tem muito que fazer. Ele quer participar, ele quer estar no ar.
Precisa de ver e ser visto. Dá atenção à visão.
A mulher sentada com o puto de um lado e o abacate do outro.
Os panos, as pernas sempre em movimento. MAS VÃO AONDE?
O mar é um azul que às vezes tem cor de gente. Mexe como nós, em convulsões.
Cheira-me a esturro. O mambo tá a queimar. Perdi tudo perdi tudo. A casa ardeu. O dinheiro voou ontem no boda.
Cheira-me que não vou aguentar até ao próximo fim do mês. Os meses nunca mais acabam, são longos, mas se acabassem logo a vida era muito curta.
Mano, diz só: sentiste a fragrância daquela 'mboa que passou? Perfume de alfazema. Roupa lavada ontem e estendida ao sol. Mmm. Lençóis lavados. Quem me dera dormir mil horas mas tenho de acordar às 3 da manha para vir de Viana para o trabalho.
Na rua o cheiro do esgoto. O cheiro da gasolina. O cheiro das crianças. Cheira a fritos nas escadas.
E já sentiste o cheiro do pó?
O meu corpo modela-se. Sinto a textura da pele. Pele veludo. Pele forte. Pés que conhecem a sorte. Sinto o beijo: a tua língua esconde-se e revela-se. Quer dizer coisas.
As ancas dançam tarrachinha. Encosta mais um pouco... mas deixa que eu te atarrache bem!
Sou matéria sou feita de terra como Samba e tu és feito de fogo como Maweze e foi o deus Suku-Nzambi que nos moldou. Somos desta terra. Aqui nascemos e vivemos.
Somos a matéria que temos, mas também podemos ser outras coisas.
Desequilíbrio.
Domingo, Março 29, 2009
a vida-paródia do Mindelo
o menino burguês visita o colega do bairro social
Sexta-feira, Março 27, 2009
li isto algures
(pode-se substituir país por relação e tantas outras coisas)
agir
Terça-feira, Março 24, 2009
confusa
Quarta-feira, Março 18, 2009
cores fortes
sem ofensa
Quinta-feira, Março 12, 2009
sobrevivemos a isso tudo
serenidade desejada
Domingo, Março 08, 2009

fotografia de Nuno Martinho, 2003
sinais
A clareza das coisas, porquê hoje este assalto assim de sinais? O que é estranho é que me são dados, não os procuro, crescem nas árvores como pássaros, os sinais. Não lhes correspondo nem sei ver o seu porquê, apenas recebo. É o que sei fazer: receber, os poucos que vou dando não são interceptados. Falha na mensagem, código errado, pessoa não atenta, não merecedora, desistência. Sinais cada vez mais para dentro, o que os faz revirarem-se, interferirem uns com os outros e perderem a pontaria, são desconexos, logo não sinais.
Voltas à tua margem.
O nosso segredo é vertiginoso em sensação porque embelezamos cada história ao dar vida. Imagino: enquanto cresço, cresço, o mundo não muda muito, sempre este olhar desfocado no metro, no ruído ensurdecedor e fatalista de que alguém se vai atirar, as pessoas que passam sem se passarem, o rodopio geográfico das vidas simultâneas. Saiam dos buracos, escancarem as vossas carnes amarelecidas a este sol vibrante, evitem a solidão. Grito isto, e já está gritado!
Ana procura as imagens.
A solidão em Lisboa é o hall de um prédio antigo às escuras, uma luz que se acende num ruído seco e um velho de chapéu que desce vagarosamente o degrau da porta lá fora e lá fora, ah lá fora as escadinhas desertas e intermináveis não lhe trazem nenhuma ligação ao mundo. O velho sobe as escadinhas como se caminhasse lento para demorar a morte.
Lisboa é uma caixa vigorosa de histórias. Os passeantes nunca se cansam, há sempre um velho do restelo bêbado a gritar filhos da puta, anda cá cabrão, entre muitas frases desconexas. Há sempre um trauma de guerra na cabeça do bancário que atravessa a passadeira, há sempre uma menina de belas-artes a descer o chiado, com olhos grandes e claros presos às cores da rua, há nem sempre uma velha a espreitar, um arrumador de carros que não desejamos, e uma mulher nas ruas da amargura.
Ouve no metro as pessoas a comunicarem.
Quantas vezes é preciso afirmar “é assim” para que alguém nos ouça, e depois nada é definitivo, axiomático, mas apenas uma opinião.
O sol arde cada vez mais, queima-lhe a pele e a cabeça. Torna-se difícil pensar para além do pensar calor. Ana observa para dentro, e deita-se no verde. As miúdas vêm em bandos para a relva, falam alto e de cantigas da moda. Comem batatas fritas alternando com pastilhas. E o lago deixa de existir, o lago que fixavam os olhos dos pensadores solitários é agora um pântano de lama pegajosa que já não concede paz ao olhar e os senhores do anfiteatro viram-lhe as costas desiludidos.
Às vezes páras o que estás a fazer, olhas a atravessar o calor e o ar pesado do tempo e ficas nesse ritmo que é teu, a implorar novas forças. Como obra do desejo, a ira desajeitada contra tudo e todos menos contra a comoção das coisas.

fotografia de Nuno Martinho, 2003
daqui desta lisboa comprometida...
Ali te sentaste a contemplar a cidade do outro lado e... quão longe estamos do mundo, embora o mundo seja aqui esquecemo-nos dele e só temos estes pés inúteis para nele pousar. Estou no cú do mundo e imagino onde estará a sua cabeça, quem o pensa quem o constrói. E houve um gosto de ferro na boca, quando pousaste a mão como calando o gesto e...
olho é sangue é sangue puro do meu, detesto o sabor inédito assim na boca. Ter-me-ão dado um soco? É bem provável, um soco invisível fez-se ouvir em mim e resultou num golpe sangrento que mescla tabaco e gosto a dinheiro na boca. O sangue tem o mesmo sabor estranho e férreo do dinheiro e isto não é metafórico.
Então, pensaste, quem serão os meus inimigos, a quem devo a vingança de existir? À volta só um cão esfaimado ousou abeirar-se de ti. De repente parece que tudo morre e é assim o mundo do fim do mundo. Quiseste então desaparecer tão fugaz como o miúdo do barco, correr da mulher que o odeia, correr de todos os polícias que são a ilustração fácil do nosso ódio, correr da modernidade e da promíscua relação que nos obrigam a manter com a cidade inteira. (...)
2001
Sábado, Março 07, 2009
Quinta-feira, Março 05, 2009
a cidade
José Afonso/Ary dos Santos (ouvir/ver)
pastéis de nata
Quantos quilos de bolos e farinheiras, carnes suculentas, já terei ingerido?
Os erros têm de repetir-se eternamente senão parece que perdem a sua condição: que nos atrai sempre.
(mas o erro nada tem a ver com as carnes ou os pasteis de nata, pois eu, em termos mentais, estou abaixo da linha do Equador e lá nós não conhecemos o pecado)
ciclo
Iuglia
Entretanto, depois de me confidenciar tudo isto e muito mais enquanto ficámos internadas no hospital, decidiu que se vai pôr a andar. De Portugal já chega, mas aprendeu a língua e gosta muito do marisco “percebes”.
a esta hora para o que me havia de dar....
Quinta-feira, Fevereiro 26, 2009
rasura
Palavras muito recorrentes na nova poesia portuguesa
Verões felizes
Quarta-feira, Fevereiro 25, 2009
Sábado, Fevereiro 21, 2009
cartas de amor, segredos tamanhos....
Trata-se do movimento contrário: conhecê-las da intimidade para a banalidade.
pitas
imperadores
Quarta-feira, Fevereiro 18, 2009
paladares
No início da refeição dá-se o mote para saber o paladar que aí vem. Saberá a fel, a memórias irrecuperáveis, a ventos turbulentos no cérebro, a cópulas interrompidas ou simplesmente a gambas com cogumelos?
O resto da refeição, almoço, jantar ou passeio de domingo (um repasto especial) poderá ser totalmente envenenado pela simples ousadia de piadas de mau gosto, por um comentário não pesado, por uma falsidade que colámos na cabeça.
multiculti ao jantar
Actriz argentina com artista digital colombiano, arquitecta de Viseu com programador experimental nascido no Zimbabue, cineasta do Equador com doutoranda do Porto, químico lisboeta com artista japonesa residente em paris, fotógrafo angolano com diletante lisboeta.
a luta da Madame Bovary
Também quero retratar a vida real com fidelidade, destruir o arquétipo da mulher romântica e do mundo romântico idealizado, mostrar a angústia e a fragilidade de quem é recusado pelo objecto de amor.
obstinação
A casa dela tem livros sobre o cyberpunk e acção directa, cartazes de caveiras e t-shirts dos Dead Kennedys. A rapariga consegue trazer da adolescência o lado sofisticado porque agora já não é um simples gosto infantil, é uma forma de recusar a recordação para continuar a ser uma escolha desadequada da maioria.
Com a idade os devaneios podem tornar-se ou muito obstinados ou muito patéticos. Acho que ela pertence à primeira categoria.
distância
Ao pé dele nunca conseguia dizer nada de jeito, ficava como que com paralisia cerebral. Como se não soubesse sequer pensar nem lembrar-se de nenhuma referência. Com o comportamento nervoso e pueril de uma adolescente ao lado do seu ídolo de rock. Engasgada e imbecil, uma pessoa frágil que se torna desinteressante por já nem sequer deixar pressentir outras coisas para além do atrofio. Era um estranho desafio desejar estar com ele e não conseguir. Ser mesmo insuportável essa permanência, contar os dias, as horas, os minutos para acabar com aquela tortura, para voltar a partir. E depois passar o resto do tempo a contar os dias para se reencontrarem e perceberem o que sentiam. Porque a distância ajudava-lhes a saber lidar com a coisa, a dar-lhe um sentido ainda que ambos questionassem muito. À distância era possível alimentá-la, a coisa, de uma alimentação precária. Na presença era a evidência do falhanço.
Desejava no entanto que voltassem para uma ilha em que não houvesse outras coisas importantes, nem afazeres nem pessoas, e a vida fosse apenas a decisão sobre o quê e onde se vai jantar. Era a única maneira daquilo fazer sentido, ao recusarem o compromisso, afastando-se de si próprios.
Segunda-feira, Fevereiro 09, 2009
linda bandeirinha
Regressei, subindo a gosto, para o lado de cá. Já na minha colina, descanso na esplanada da Graça. Desenhando furiosamente contra o frio, o meu olhar é desviado por uma figura no céu.
“Olhó pára-quedista!” – dizem uns. “Não. É um reclame” – outros. Houve até quem imaginasse que era alguém, um gigante certamente, a passear no tabuleiro da ponte (pura ilusão perspéctica).
Linda bandeirinha que atravessou a vista de tantos! Nesta altura sim, a minha cabeça pôs-se a pensar: e se tivesse tentado voltar para casa e a casa não existisse mais?
Tiago Lança
Camponeza
O papel cavalinho comprado na rua do crucifixo às voltas pela baixa com uma criança pelas mãos. Os sovacos vão suando ligeiramente. Passo num café antigo, a Camponesa, que dantes era antro de hippies e alguns drogados com um casal sempre a responder mal e aos berros e a expulsar os bêbados.
Era uma espécie de família de socorro dos dias que passam sem se passar nada, a não ser umas discussões vagas de quem leu umas coisas mas muito pouco e sabe dizer nomes de meia dúzia de filósofos como Nietzsche e blá blá blá. poetas. muitos poetas, freaks da rua augusta, meninas de belas artes e marinheiros.
Era uma casa à qual se rumava todos os fins de tarde, mesmo quem vinha de outra ponta da cidade. no meu caso pelo fascínio de estar com pessoas que trocavam experiências e conversa solta. E havia umas personagens sempre presentes como L. que não estudava nem trabalhava, tinha pais ricos mas abdicara de lhes mimar as expectativas para se entregar ao ócio e bebida.
Agora é apenas um café bonito conservado na sua aura de leitaria de outrora, meio arte nova, e muito bem localizado (ao lado do animatógrafo).
História dos regressados
O regresso à história, a si próprio, capacidade de compreender o que aconteceu e quem somos. E diante de nós a sedução, o medo, a dificuldade de compreensão, o conflito, a alegria, o espanto ou o vazio.
desinteresse
Vais-me desculpar se eu não guardo as coisas belas e potentes que nos aconteceram juntos. Por as votar ao esquecimento e não as pôr aqui transfiguradas para trazer um pouco de ti. Porque o que tu és agora, onde andas com quem estás e o que te enche a cabeça neste momento talvez não me interesse. Nem reconheço já nada de intacto na paixão do passado, a ameaçar reviravoltas na vida e tão facilmente desistente.
inverno triste
As pessoas das cidades de inverno enrolam-se em casacos que parecem sacos cama e têm caras brancas que parecem do norte ainda que se esteja em cidades do sul.
Sexta-feira, Janeiro 30, 2009
fotografia no hotel em Addis Abeba
O escritor italiano misógino
O escritor italiano misógino é um menino mimado e desajeitado que não vê os outros à frente. Foge para a literatura porque a vida dá demasiado trabalho. Fala de comprimidos porque tem pena de si próprio. Diz piadas sem graça nenhuma em que só ele ri. É actor do seu próprio fado.
nuvens e chuva
"Qualquer um pode se arrogar proprietário daquilo que faço, e isso acho giro. Não há direitos de autor nem pode haver. No momento exacto em que o aerossol deixa de beijar a parede e uma pintura é dada por terminada, declara-se aberta a exposição. O que está na rua é de todos. O espaço público deve ser verdadeiramente público. Pertence a todos. Qualquer um pode encontrar uma maneira de intervir nesse espaço em comunicação com os outros, essa grande nação planetária povoada por seres humanos tão diversos nas suas estruturas que só podem ser diversos também nas leituras que fazem do que podem encontrar na rua, em particular objectos políticos e estéticos. É a cidadania em pleno."Dalailama
Quinta-feira, Janeiro 29, 2009
à superfície chinesa
É uma arte muito ruidosa, diz a mexicana sobre a arte chinesa contemporânea. Dois casais urbanistas da Cidade do México, onde deixaram uma bebé de 10 meses, vieram à China para um congresso de urbanismo. Explicam-me que os chineses estão a planear as casas, que têm uma média 70m2, a longo prazo mas com a maior rapidez constroem tudo: “O que a América fez em 50 anos eles estão a fazer em 10.”Falamos das bizarrias da comida chinesa - espetadas de escorpião, cavalo marinho, etc. Dos hábitos estranhos: cuspir, empurrar. Das coisas que nos aproximam como o gostar de gozar com tudo, num riso meio infantil (eu reconheço-me). Da noção de espaço: da maneira como atravessam a rua (aprendem agora com os Olímpicos as 'boas maneiras' para receber turistas) à memória da fome: as mulheres mais velhas servem-se à bruta no buffet do restaurante tentando aproveitar ao máximo a abundância.
Enfim, são as conversas possíveis entre forasteiros que ainda não percebemos nada do sítio onde viemos parar.
na pastelaria bijou tecem-se grandes convicções
fecha o 24 horas, engole o galão e vira as costas ao café onde deu o seu show matinal de verticalidade portuguesa.
Quarta-feira, Janeiro 28, 2009
filhos da revolução aborrecem-se
recomeços
Sexta-feira, Janeiro 23, 2009
As meninas do bar Can Can na Hang Shan Lu em Shangai
As miúdas vêm de várias partes da China para aquela cidade selvagem de dinheiro e vida. Atiram-se a um cliente ocidental que lhes paga em bebidas. Quem ganha é a casa, um proprietário chinês que nunca lá põe os pés. Elas ganham uma pequena comissão do que fizerem beber. Todas as noites no mesmo balcão as mesmas miúdas com homens diferentes.
O rapaz que serve as bebidas – único homem da casa – fica a vê-las sem reacção. As línguas despontam, os homens velhos põem-lhes as mãos nas mamas, sentam-nas ao colo, fazem conversa tonta, elas elogiam-lhes o cabelo, as mãos, a personalidade de há 5 minutos: “you’re a smart and funny guy”. São profissionais das conversas de engate. Lá em cima há uma sala de snooker e luzes mais baixas para onde levam os clientes se querem uma sessão de ‘conversa’ privada.
Ao fim da noite quando eles vão embora jogam cartas umas com as outras, comem petiscos de rua “very spicy” que fazem retorcer as caras bonitas quando mastigam. Dão risinhos infantis no seu falar chinês a gozar umas com as outras. Parecem amiguinhas de escola. Todas as noite a mesma coisa, diz o rapaz.
Segunda-feira, Junho 09, 2008
(2003)
Quarta-feira, Maio 28, 2008
correspondência
Sexta-feira, Maio 16, 2008
coisas dos 90 que tenho saudades
passar a tarde na casa do Alentejo ou na Camponesa
tocar flauta no castelo ou na rua augusta
tomar cafés em todo o lado, inclusive em bombas de gasolina
fazer jogos colectivos em jantares, como o da personagem pateta colada na testa, o psicólogo ou o da história que a pessoa inventa na projecção do seu subconsciente
lisboa começar a ser 'bué cultural'
começar a ter vontade de ir viver para fora
quase muller
É claro que entretanto os pássaros já devem ter regressado àquele horror.
a oeste nada de novo
O Ocidente está fodido, disse-me um amigo catalão a comer batatas fritas.
Quarta-feira, Maio 07, 2008
Terça-feira, Maio 06, 2008
porrada
"A noite está entre pestanas azuis."
"As gaivotas nasceram dos lenços que dizem adeus nos portos."
Ramon Gomes de la Serna, Greguerías
Dália
autoridade
Quinta-feira, Abril 24, 2008
very tipical
No fundo, tinha alma de coleccionador.
nova amiga
coisas dos 80 que tenho saudades:
chorar com o TopoGiggio
as piscinas com bolas dos Jogos Sem Fronteiras
chamar fascistas aos Heróis do Mar e aos Retornados
ir à Porfírios
Quinta-feira, Abril 10, 2008
encolher os ombros
Ficava amargurado mas depois, pensando bem, concluía: “também, é tudo a mesma merda”.
fitness
procuro
Boa sensação de, em três décadas de existência, a convicção aumentar e a dispersão também.
precaridade
- Defende os interesses desta casa, apenas hoje, mas com todo o teu suor. Amanhã podes estar na concorrência a dar a cara e a vender o cu para direccionar o capital para outros bolsos.
Sabes bem como o dinheiro é uma abstracção e atrás duma abstracção pode caminhar-se até ao infinito.
Sexta-feira, Abril 04, 2008
ou precisamente o contrário
do quê?
ainda a comunicação
É um facto que eles monopolizam os assuntos e sobretudo a maneira de falar sobre eles: a comunicação masculina, competitiva, organizada por factos, com laivos de exibicionismo. O próprio tom de voz não ajuda muito, para entrarmos na conversa temos quase de gritar, chamar a atenção, falar nos termos deles. É tão cansativo que desistimos.
Agora acho que o jogo vai reverter contra eles, quando perceberem que tem muito mais graça falar de outras maneiras e se sentirem desorientados com as nossas vozes (do que as vozes dizem e como dizem).
Terça-feira, Abril 01, 2008
mutantes
vazio
Segunda-feira, Março 31, 2008
translation
édipo
A raiva aumenta à medida que projecta no miúdo o monstro de si própria.
sublimado
visões da tarde
condição sine quo non
Está provado, duas pessoas juntas mais cedo ou mais tarde embatem constantemente nas pequenas irritações.
Domingo, Março 30, 2008
o logro da propriedade
pertencer
Sexta-feira, Março 28, 2008
polis
entusiasmo
das misérias dos ambientes subversivos
ser adulto...
Domingo, Fevereiro 17, 2008
O homem hifenizado
Bem caído nas graças do mundo, às segundas e sextas, o homem-secretário lambe as botas.
Às terças recolhia-se; comia de lata e pensava no mundo cá fora sem sentido. De vez em quando, marcava pontos num mapa-múndi; das capitais dos países traçava linhas para outras capitais em triangulações imaginadas. Pronunciava palavras nessas línguas distantes enquanto mastigava.
Nas noites de terça, o homem-sozinho faz castelos no ar.
Quartas e quintas, vestia e arregaçava a camisa. Saía já compenetrado para trabalhar com mais afinco. Quase não falava para não se desconcentrar. Tirava medidas às coisas para as refazer, “errando sempre menos, errando sempre melhor”. O seu suor era tudo o que guardava quando adormecia já de madrugada.
Palmadinhas nas costas não embalavam o homem-trabalhador independente.
O acontecimento de sábado e o temor de domingo davam-lhe uma comichão que o obrigava a sair. A beber. A falar interessadamente com mulheres estrangeiras. Na sua cabeça, soava música clássica no intervalo de tais encontros. Tornava-se um ser politizado, letrado, mordaz.
No fim-de-semana, a inveja crescia ao redor do homem-boémio.
Tiago Lança
Domingo, Fevereiro 03, 2008
'm cria ser poeta
Tónt morna bô te mereçê
S`beleza ta trazê inspiração
Esse bô beleza, ê más cum belo horizonte
Infeitód cum bom pôr do sol
Ô um arco-íris mut bem d`stacód.
Amim djam cria ser poeta
Pám fazê um mar di poesia
Pám cumpará que`ss bô beleza d`natureza
Parsem nem mar, nem lua cheia
Nem sol brilhante, nem noit serena
Ta cumpará q`bô formosura e bô corpo.
Pombinha mansa di odjos meigos sem maldade
Bô corpo formoso mas sem vaidade
T`armá quess bô sorriso inocente
Sorriso doce qui ta espertá alguem ambição
Nem q`for d`box tud humilhação
`m crê comquistá bô coração.
Composição: Paulino Vieira
para o sássá













