Os pais e professores são sempre culpados de pecados terríveis apenas porque são pais e professores, diz o Mishima.
Quinta-feira, Julho 09, 2009
metafísicas
a atracção dos opostos
Domingo, Julho 05, 2009
africanistas...
formação de uma consciência
Segunda-feira, Junho 29, 2009
Portugal na UE
piada seca
A matança do borrego

O meu tio Palminha atravessava a faca na carótida, depois de ter atado as patas do animal. Deixava o sangue escorrer num alguidar mas sem proveito. Depois abria o estômago, tirava as tripas todas que vêm num saco. Com o bicho pendurado, fazia a descasca da pele, pedacinho a pedacinho com a faca a empurrar a pele, que saía como um tapete de lã que se arranca sem deixar de ser fofinho. Para consumo próprio matava-se no quintal, galinhas e borregos. Na horta - ou monte, depende do grau de peneiras - fazia-se criação de vacas e cavalos. O tio Palminha tinha muito jeito, conhecia bem os animais, tinha ajudantes para matar o porco, mas o resto era homem para dar conta do recado. Eu ficava fascinada a olhar para aquele espectáculo em que o cheiro a sangue me subia com um misto de confiança e desolação com a aflição do animal que, contavam, apesar de tudo, era melhor ser morto assim do que com as idas para o matadouro, pois nessas eles pressentiam a morte a léguas.
Segunda-feira, Junho 22, 2009
nome
ambiente froxo
não nos calhou sequer a utopia
Segunda-feira, Junho 08, 2009
é demasiado
Vagos monstros de um olho só.
lógica das Greguerías
uf!
No Retiro, em Madrid
Quarta-feira, Maio 20, 2009
Terça-feira, Maio 19, 2009
reconhecimento
E também a imbecilidade das mulheres, sempre insatisfeitas com o que lhes faz bem.
duas praias do coração
Apesar de não ser lá uma grande praia, estou habituada à ilha de Luanda. É uma praia-casa-escritório ou libertação-do-stress-da-cidade-nervosa. Uma praia de passar quase todos os dias um bocadinho.
Gosto da sensação de estar lá longe noutro continente a pensar Lisboa e as pessoas de Lisboa. E também de esquecer que este mundo do lado de cá existe.
Naquela praia não há estas ondas nem surfistas nem prédios feios atrás. É estranha a familiaridade de quando pisei as areias da Costa me sentir quase lá, de caipirinha e sandes de frango com maionese na mão, com a musicalidade do sotaque angolano e os corpos viçosos em redor. Lembro-me nitidamente de certas vozes e das conversas com gargalhadas pois ir à praia é como ir ao café, pode-se sempre surgir.
Nesta praia da Costa, em vez dos africanos, tugas, chineses, brasileiros, russos, vendedores de panos e colares, estão uns senhores barrigudos com ar de que a frequentam há muitos muitos anos e que se calhar até estiveram em África 'noutras circunstâncias'. Se calhar também nostálgicos disso, como eu, mas das 'outras circunstâncias'.
Não reconheço esta praia a não ser pelo que me transporta para a outra de Luanda. Leva-me ao calor da areia, e à água-caldo-morno, imagem do azul, sempre a nostalgia de uma costa atlântica de onde apetece partir, a solidão muitas vezes, o livro que conseguia absorver melhor, a pele que “emorenece” amante.
rituais
Lembro-me daqueles prazeres simples que tinham os meus avôs quando ia lá almoçar: espremer o sumo de laranja, fazer um bolo de chocolate, bater as natas para os morangos. Durante a manhã cozinhavam os pratos do costume: empadão de carne com esparguete ou frango assado com arroz gratinado com rodelas de chouriço. Depois, se não repetisse no mínimo cinco vezes, ficavam ofendidos e achavam que eu não tinha gostado do repasto. Depois ofereciam-me uma nota (ainda em escudos), descia o elevador e cá de fora virava-me sempre para o alto daquele prédio de Benfica pois o ritual de acenar era indesculpável dispensar. A minha avó morreu, e o avô continuou a fazer isso. A falar menos, mas o prazer simples era o de me ter presente a partilhar / assistir aos seus rituais de solidão.
Quinta-feira, Maio 14, 2009
voar dentro da China
“espera lá pá, tenho de escrever isto”
uma mulher espera o autocarro e angustia-se como vai pagar as despesas escolares do filho;
um rapaz de i-pod lembra-se do campismo do verão;
uma rapariga tem um casaco vermelho e mãos nervosas, vai amanhã ser operada.
Mas eu não sou o anjo das asas do desejo!
Posso escrever todas as banalidades, até as rachas do tecto que observo, o que interessa e depois fica é um estado momentâneo que reflecte mais do que está ali, mais do que espuma dos dias que fica grudada de uma página para a outra.
Gostava mais de coleccionar insólitos.
Quarta-feira, Maio 06, 2009
só nos resta

fotografia de Kiluanji Kia Henda
Só nos resta ser dos mais obstinados, manter a imaginação durante mais tempo, viver segundo os nossos próprios termos, tratar a realidade como um horizonte de expectativas incertas e contingentes, crescer com obstinação e resistência. Pois é da capacidade de nos recriarmos, de escrever com uma nova linguagem, abrir os braços ao presente e à curiosidade que mexe, que nasce o poeta forte.
iman
também podia ser ao contrário
1973
Julio Cortazar, O Jogo do Mundo
Observação Directa
Ruy Duarte de Carvalho
Sábado, Maio 02, 2009
jocosidade à portuguesa
- Então Zé, sentes-te bem?
Resposta: - Só me vou sentir bem quando tiver cem anos!
- Já falta pouco Zé.
- Já não falta metade.
grandes poemas do Auto-ajuda
Mataram-no.
Sabia tudo.
Suicidou-se.
** *** **
O poeta puramente imagético
disse como se fosse um funcionário da EPAL
justificando a sua visita:
vim para contar a água.
Tiago Gomes
Quinta-feira, Abril 16, 2009
triste sorte
Ira de Aquiles, fúria de Filotectes, sofrimento de Prometeu, invectivas de Medeia, loucura de Ájax, desespero de Electra, em nome da justiça se clama vingança e se desencadeava retaliações.
E esta minha triste sina de ser demasiado benevolente...
um dia...
Um dia vou voltar aqui à terra de todas as minhas dúvidas mas onde uma vez também soube confrontar-me e perceber que é comigo o destino e o sofrimento de todas as coisas que toco e nessa validade sofrível dos outros à minha casmurrice e impedimento não me restará nada mais a não ser a solidão profunda de uma ilha, onde o conhecimento se faz como processo vulcânico e quando jorra é fatal, destrutivo mas criador de novas vidas, nova terra feita de cinza e mistério e inóspita pois bem.
Terça-feira, Março 31, 2009
Luanda sensorial
Pessoas a falar ao telemóvel - Tás onde?
Pessoas a cumprimentar-se - Comé? Tudo fixe?
Pessoas a insultar-se – vou-lhi bater! você vai morrer hoje!
Pessoas a pedir– madrinha, arranja só 100 kwanzas pra comprar pão.
O segurança conversa com a prostituta. Ela sabe dar música. Ele sabe o que ela quer ouvir.
O semba a cantar o orgulho de ser angolano.
Carros a chiar. Motas a arranhar. Todos se comunicam pelo tubo de escape como pelos rabos os cães.
Sirenes de ambulâncias. O doce amortecedor do jeep.
Kinguilas a fazer pssst, pssst, psssssst.
É O QUÊ???
Um avião cheio de chineses a aterrar.
Um candongueiro a despistar-se. Espalha-se contra outra viatura. Já raspou. O choque faz-se ouvir na avenida inteira. Logo os insultos e as palavras à toa.
De quem é a culpa, de quem é a culpa?
A velocidade? Os buracos na estrada? O kuduro a bater?
Ou mi mata ou quêê!!!! Culpa é de um, é do outro, é do pessoal que vai dentro que não fez nada e tem sempre culpa de tudo - penando a vida inteira.
Sai a bitola a estalar, com este calor sabe sempre a pouco. Venha mais uma e outra e mais outra e mais outra ainda e… no final de tudo, não esquecer a da porta.
fim da manhã. camarada: estou fobado. Vou comer na casa da tia Júlia. No quintal o funge fumega. Devoro-o com peixe seco. Encosto-me à cadeira a dormir um cochito.
À noite na discoteca beijo a garina. O beijo sabe a estrelas cadentes.
Fico tonto e flutuo na pista.
Ao levá-la a casa como ginguba para disfarçar o nervoso.
Saboreio um cigarro depois de a ver desaparecer no portão. A 'mboa é linda, vou conquistá-la. A minha língua enrola-se com tanta emoção. A que sabe o mar?
Cinzento e castanho.
Cidade em construção. Prédios a crescer. Todos os dias mais prédios, rebentam bancos e escritórios. A cidade cresce, para cima e sobretudo para os lados.
A terra é palmilhada por casas e casinhas e musseques e coisinhas. Uma cidade em expansão. O pessoal do mundo, o mundo é uma casinha, tá a vir!!! TÁ A VIR!!!! posso falar todas as línguas na banda que alguém me vai entender.
Cores. Vejo arte contemporânea e arte da Mauritânia. O traço, o espaço, a terra que vence o alcatrão. Ano 2007. Luanda tem muito que ver. Tem muito que fazer. Ele quer participar, ele quer estar no ar.
Precisa de ver e ser visto. Dá atenção à visão.
A mulher sentada com o puto de um lado e o abacate do outro.
Os panos, as pernas sempre em movimento. MAS VÃO AONDE?
O mar é um azul que às vezes tem cor de gente. Mexe como nós, em convulsões.
Cheira-me a esturro. O mambo tá a queimar. Perdi tudo perdi tudo. A casa ardeu. O dinheiro voou ontem no boda.
Cheira-me que não vou aguentar até ao próximo fim do mês. Os meses nunca mais acabam, são longos, mas se acabassem logo a vida era muito curta.
Mano, diz só: sentiste a fragrância daquela 'mboa que passou? Perfume de alfazema. Roupa lavada ontem e estendida ao sol. Mmm. Lençóis lavados. Quem me dera dormir mil horas mas tenho de acordar às 3 da manha para vir de Viana para o trabalho.
Na rua o cheiro do esgoto. O cheiro da gasolina. O cheiro das crianças. Cheira a fritos nas escadas.
E já sentiste o cheiro do pó?
O meu corpo modela-se. Sinto a textura da pele. Pele veludo. Pele forte. Pés que conhecem a sorte. Sinto o beijo: a tua língua esconde-se e revela-se. Quer dizer coisas.
As ancas dançam tarrachinha. Encosta mais um pouco... mas deixa que eu te atarrache bem!
Sou matéria sou feita de terra como Samba e tu és feito de fogo como Maweze e foi o deus Suku-Nzambi que nos moldou. Somos desta terra. Aqui nascemos e vivemos.
Somos a matéria que temos, mas também podemos ser outras coisas.
Desequilíbrio.
Domingo, Março 29, 2009
a vida-paródia do Mindelo
o menino burguês visita o colega do bairro social
Sexta-feira, Março 27, 2009
li isto algures
(pode-se substituir país por relação e tantas outras coisas)
agir
Terça-feira, Março 24, 2009
confusa
Sábado, Março 21, 2009
segundo andar direito
Ele vinte anos, e ela dezoito
e há cinco dias sem trocarem palavra
lembrando as zangas que um só beijo curava
e esta história começa no instante
em que o homem empurra a porta pesada
e entra no quarto onde a mulher está deitada
a dormir de um sono ligeiro
E no quarto, às cegas,
o escuro abraça-o como que a um companheiro
que se conhece pelo tocar e pelo o cheiro
e é o ruído que o chão faz que lhe traz
o gosto ao quarto depois de uma ruptura
faz-lhe sentir que entre os dois algo ainda dura
dos dias em que um beijo bastava
E agora, da cama
vem uma voz que diz sussurrando: És tu?
e a luz acende-se sobre um braço nu
e a mulher pergunta: A que vens agora?
é que não sei se reparaste na hora
deixa dormir quem quer dormir, vai-te embora
amanhã tenho de ir trabalhar
Não fales, que o bébé ainda acorda
não grites, que o vizinho ainda acorda
e não me olhes, que o amor ainda acorda
deixa-o dormir, o nosso amor, um bocadinho mais
deixa-o dormir, que viveu dias tão brutais
E o homem de pé
parece um rapazinho a ver se compreende
e grita e diz que ele também não se vende
que quer a paz mas de outra maneira
e nem que essa noite fosse a derradeira
veio afirmar quer ela queira ou não queira
que os dois ainda têm muito que aprender
Se temos?! diz ela
mas o problema não é só de aprender
é saber a partir daí que fazer
e o homem diz: Que queres que eu responda?
Não estamos no mesmo comprimento de onda?
Tu a mandares-me esse sorriso à Gioconda
e eu com ar de filme americano
Somos tão novos, diz o homem
e agora é a vez de a mulher se impacientar
essa frase já começa a tresandar
é que não é só uma questão de identidade
é eu ou tu, seja quem for, ter vontade
de mudar ou deixar mudar
Não fales...
E assim se ouviu
pela noite fora os dois amantes falar
e o que não vi só tive que imaginar
é preciso explicar que sou eu o vizinho
e à noite vivo neste quarto sozinho
corpo cansado e cabeça em desalinho
e o prédio inteiro nos meus ouvidos
Veio a manhã e diziam
telefona ao teu patrão, diz que hoje não vais
que viveste uns dias assim tão brutais
e que precisas de convalescença
sei lá, inventa qualquer coisa, uma doença
mete um atestado ou pede licença
sem prazo nem vencimento, se preciso for
(Espero que não seja preciso, porque não
sei como é que eles vão viver sem os dois salários)
Vá fala, que o bébé está acordado
o vizinho deve estar já acordado
e o amor, pronto, também está acordado
mas tem cuidado, trata-o bem
muito bem, de mansinho
que ainda agora vai pisar outro caminho.
Sérgio Godinho
Quarta-feira, Março 18, 2009
cores fortes
sem ofensa
Quinta-feira, Março 12, 2009
sobrevivemos a isso tudo
serenidade desejada
Domingo, Março 08, 2009

fotografia de Nuno Martinho, 2003
sinais
A clareza das coisas, porquê hoje este assalto assim de sinais? O que é estranho é que me são dados, não os procuro, crescem nas árvores como pássaros, os sinais. Não lhes correspondo nem sei ver o seu porquê, apenas recebo. É o que sei fazer: receber, os poucos que vou dando não são interceptados. Falha na mensagem, código errado, pessoa não atenta, não merecedora, desistência. Sinais cada vez mais para dentro, o que os faz revirarem-se, interferirem uns com os outros e perderem a pontaria, são desconexos, logo não sinais.
Voltas à tua margem.
O nosso segredo é vertiginoso em sensação porque embelezamos cada história ao dar vida. Imagino: enquanto cresço, cresço, o mundo não muda muito, sempre este olhar desfocado no metro, no ruído ensurdecedor e fatalista de que alguém se vai atirar, as pessoas que passam sem se passarem, o rodopio geográfico das vidas simultâneas. Saiam dos buracos, escancarem as vossas carnes amarelecidas a este sol vibrante, evitem a solidão. Grito isto, e já está gritado!
Ana procura as imagens.
A solidão em Lisboa é o hall de um prédio antigo às escuras, uma luz que se acende num ruído seco e um velho de chapéu que desce vagarosamente o degrau da porta lá fora e lá fora, ah lá fora as escadinhas desertas e intermináveis não lhe trazem nenhuma ligação ao mundo. O velho sobe as escadinhas como se caminhasse lento para demorar a morte.
Lisboa é uma caixa vigorosa de histórias. Os passeantes nunca se cansam, há sempre um velho do restelo bêbado a gritar filhos da puta, anda cá cabrão, entre muitas frases desconexas. Há sempre um trauma de guerra na cabeça do bancário que atravessa a passadeira, há sempre uma menina de belas-artes a descer o chiado, com olhos grandes e claros presos às cores da rua, há nem sempre uma velha a espreitar, um arrumador de carros que não desejamos, e uma mulher nas ruas da amargura.
Ouve no metro as pessoas a comunicarem.
Quantas vezes é preciso afirmar “é assim” para que alguém nos ouça, e depois nada é definitivo, axiomático, mas apenas uma opinião.
O sol arde cada vez mais, queima-lhe a pele e a cabeça. Torna-se difícil pensar para além do pensar calor. Ana observa para dentro, e deita-se no verde. As miúdas vêm em bandos para a relva, falam alto e de cantigas da moda. Comem batatas fritas alternando com pastilhas. E o lago deixa de existir, o lago que fixavam os olhos dos pensadores solitários é agora um pântano de lama pegajosa que já não concede paz ao olhar e os senhores do anfiteatro viram-lhe as costas desiludidos.
Às vezes páras o que estás a fazer, olhas a atravessar o calor e o ar pesado do tempo e ficas nesse ritmo que é teu, a implorar novas forças. Como obra do desejo, a ira desajeitada contra tudo e todos menos contra a comoção das coisas.

fotografia de Nuno Martinho, 2003
daqui desta lisboa comprometida...
Ali te sentaste a contemplar a cidade do outro lado e... quão longe estamos do mundo, embora o mundo seja aqui esquecemo-nos dele e só temos estes pés inúteis para nele pousar. Estou no cú do mundo e imagino onde estará a sua cabeça, quem o pensa quem o constrói. E houve um gosto de ferro na boca, quando pousaste a mão como calando o gesto e...
olho é sangue é sangue puro do meu, detesto o sabor inédito assim na boca. Ter-me-ão dado um soco? É bem provável, um soco invisível fez-se ouvir em mim e resultou num golpe sangrento que mescla tabaco e gosto a dinheiro na boca. O sangue tem o mesmo sabor estranho e férreo do dinheiro e isto não é metafórico.
Então, pensaste, quem serão os meus inimigos, a quem devo a vingança de existir? À volta só um cão esfaimado ousou abeirar-se de ti. De repente parece que tudo morre e é assim o mundo do fim do mundo. Quiseste então desaparecer tão fugaz como o miúdo do barco, correr da mulher que o odeia, correr de todos os polícias que são a ilustração fácil do nosso ódio, correr da modernidade e da promíscua relação que nos obrigam a manter com a cidade inteira. (...)
2001
Sábado, Março 07, 2009
Quinta-feira, Março 05, 2009
a cidade
José Afonso/Ary dos Santos (ouvir/ver)
pastéis de nata
Quantos quilos de bolos e farinheiras, carnes suculentas, já terei ingerido?
Os erros têm de repetir-se eternamente senão parece que perdem a sua condição: que nos atrai sempre.
(mas o erro nada tem a ver com as carnes ou os pasteis de nata, pois eu, em termos mentais, estou abaixo da linha do Equador e lá nós não conhecemos o pecado)
ciclo
Iuglia
Entretanto, depois de me confidenciar tudo isto e muito mais enquanto ficámos internadas no hospital, decidiu que se vai pôr a andar. De Portugal já chega, mas aprendeu a língua e gosta muito do marisco “percebes”.
a esta hora para o que me havia de dar....
Quinta-feira, Fevereiro 26, 2009
rasura
Palavras muito recorrentes na nova poesia portuguesa
Verões felizes
Quarta-feira, Fevereiro 25, 2009
Sábado, Fevereiro 21, 2009
cartas de amor, segredos tamanhos....
Trata-se do movimento contrário: conhecê-las da intimidade para a banalidade.
pitas
imperadores
Quarta-feira, Fevereiro 18, 2009
paladares
No início da refeição dá-se o mote para saber o paladar que aí vem. Saberá a fel, a memórias irrecuperáveis, a ventos turbulentos no cérebro, a cópulas interrompidas ou simplesmente a gambas com cogumelos?
O resto da refeição, almoço, jantar ou passeio de domingo (um repasto especial) poderá ser totalmente envenenado pela simples ousadia de piadas de mau gosto, por um comentário não pesado, por uma falsidade que colámos na cabeça.
multiculti ao jantar
Actriz argentina com artista digital colombiano, arquitecta de Viseu com programador experimental nascido no Zimbabue, cineasta do Equador com doutoranda do Porto, químico lisboeta com artista japonesa residente em paris, fotógrafo angolano com diletante lisboeta.
a luta da Madame Bovary
Também quero retratar a vida real com fidelidade, destruir o arquétipo da mulher romântica e do mundo romântico idealizado, mostrar a angústia e a fragilidade de quem é recusado pelo objecto de amor.
obstinação
A casa dela tem livros sobre o cyberpunk e acção directa, cartazes de caveiras e t-shirts dos Dead Kennedys. A rapariga consegue trazer da adolescência o lado sofisticado porque agora já não é um simples gosto infantil, é uma forma de recusar a recordação para continuar a ser uma escolha desadequada da maioria.
Com a idade os devaneios podem tornar-se ou muito obstinados ou muito patéticos. Acho que ela pertence à primeira categoria.
distância
Ao pé dele nunca conseguia dizer nada de jeito, ficava como que com paralisia cerebral. Como se não soubesse sequer pensar nem lembrar-se de nenhuma referência. Com o comportamento nervoso e pueril de uma adolescente ao lado do seu ídolo de rock. Engasgada e imbecil, uma pessoa frágil que se torna desinteressante por já nem sequer deixar pressentir outras coisas para além do atrofio. Era um estranho desafio desejar estar com ele e não conseguir. Ser mesmo insuportável essa permanência, contar os dias, as horas, os minutos para acabar com aquela tortura, para voltar a partir. E depois passar o resto do tempo a contar os dias para se reencontrarem e perceberem o que sentiam. Porque a distância ajudava-lhes a saber lidar com a coisa, a dar-lhe um sentido ainda que ambos questionassem muito. À distância era possível alimentá-la, a coisa, de uma alimentação precária. Na presença era a evidência do falhanço.
Desejava no entanto que voltassem para uma ilha em que não houvesse outras coisas importantes, nem afazeres nem pessoas, e a vida fosse apenas a decisão sobre o quê e onde se vai jantar. Era a única maneira daquilo fazer sentido, ao recusarem o compromisso, afastando-se de si próprios.
Sexta-feira, Fevereiro 13, 2009
Maiakovski & Nós
Até que um dia o mais débil dentre eles
entra sozinho em nossa casa,
rouba nossa luz,
arranca a voz de nossa garganta
e já não podemos dizer nada.
Segunda-feira, Fevereiro 09, 2009
linda bandeirinha
Regressei, subindo a gosto, para o lado de cá. Já na minha colina, descanso na esplanada da Graça. Desenhando furiosamente contra o frio, o meu olhar é desviado por uma figura no céu.
“Olhó pára-quedista!” – dizem uns. “Não. É um reclame” – outros. Houve até quem imaginasse que era alguém, um gigante certamente, a passear no tabuleiro da ponte (pura ilusão perspéctica).
Linda bandeirinha que atravessou a vista de tantos! Nesta altura sim, a minha cabeça pôs-se a pensar: e se tivesse tentado voltar para casa e a casa não existisse mais?
Tiago Lança
Camponeza
O papel cavalinho comprado na rua do crucifixo às voltas pela baixa com uma criança pelas mãos. Os sovacos vão suando ligeiramente. Passo num café antigo, a Camponesa, que dantes era antro de hippies e alguns drogados com um casal sempre a responder mal e aos berros e a expulsar os bêbados.
Era uma espécie de família de socorro dos dias que passam sem se passar nada, a não ser umas discussões vagas de quem leu umas coisas mas muito pouco e sabe dizer nomes de meia dúzia de filósofos como Nietzsche e blá blá blá. poetas. muitos poetas, freaks da rua augusta, meninas de belas artes e marinheiros.
Era uma casa à qual se rumava todos os fins de tarde, mesmo quem vinha de outra ponta da cidade. no meu caso pelo fascínio de estar com pessoas que trocavam experiências e conversa solta. E havia umas personagens sempre presentes como L. que não estudava nem trabalhava, tinha pais ricos mas abdicara de lhes mimar as expectativas para se entregar ao ócio e bebida.
Agora é apenas um café bonito conservado na sua aura de leitaria de outrora, meio arte nova, e muito bem localizado (ao lado do animatógrafo).
História dos regressados
O regresso à história, a si próprio, capacidade de compreender o que aconteceu e quem somos. E diante de nós a sedução, o medo, a dificuldade de compreensão, o conflito, a alegria, o espanto ou o vazio.
desinteresse
Vais-me desculpar se eu não guardo as coisas belas e potentes que nos aconteceram juntos. Por as votar ao esquecimento e não as pôr aqui transfiguradas para trazer um pouco de ti. Porque o que tu és agora, onde andas com quem estás e o que te enche a cabeça neste momento talvez não me interesse. Nem reconheço já nada de intacto na paixão do passado, a ameaçar reviravoltas na vida e tão facilmente desistente.
inverno triste
As pessoas das cidades de inverno enrolam-se em casacos que parecem sacos cama e têm caras brancas que parecem do norte ainda que se esteja em cidades do sul.
Sexta-feira, Janeiro 30, 2009
fotografia no hotel em Addis Abeba
O escritor italiano misógino
O escritor italiano misógino é um menino mimado e desajeitado que não vê os outros à frente. Foge para a literatura porque a vida dá demasiado trabalho. Fala de comprimidos porque tem pena de si próprio. Diz piadas sem graça nenhuma em que só ele ri. É actor do seu próprio fado.
nuvens e chuva
"Qualquer um pode se arrogar proprietário daquilo que faço, e isso acho giro. Não há direitos de autor nem pode haver. No momento exacto em que o aerossol deixa de beijar a parede e uma pintura é dada por terminada, declara-se aberta a exposição. O que está na rua é de todos. O espaço público deve ser verdadeiramente público. Pertence a todos. Qualquer um pode encontrar uma maneira de intervir nesse espaço em comunicação com os outros, essa grande nação planetária povoada por seres humanos tão diversos nas suas estruturas que só podem ser diversos também nas leituras que fazem do que podem encontrar na rua, em particular objectos políticos e estéticos. É a cidadania em pleno."Dalailama
Quinta-feira, Janeiro 29, 2009
à superfície chinesa
É uma arte muito ruidosa, diz a mexicana sobre a arte chinesa contemporânea. Dois casais urbanistas da Cidade do México, onde deixaram uma bebé de 10 meses, vieram à China para um congresso de urbanismo. Explicam-me que os chineses estão a planear as casas, que têm uma média 70m2, a longo prazo mas com a maior rapidez constroem tudo: “O que a América fez em 50 anos eles estão a fazer em 10.”Falamos das bizarrias da comida chinesa - espetadas de escorpião, cavalo marinho, etc. Dos hábitos estranhos: cuspir, empurrar. Das coisas que nos aproximam como o gostar de gozar com tudo, num riso meio infantil (eu reconheço-me). Da noção de espaço: da maneira como atravessam a rua (aprendem agora com os Olímpicos as 'boas maneiras' para receber turistas) à memória da fome: as mulheres mais velhas servem-se à bruta no buffet do restaurante tentando aproveitar ao máximo a abundância.
Enfim, são as conversas possíveis entre forasteiros que ainda não percebemos nada do sítio onde viemos parar.
na pastelaria bijou tecem-se grandes convicções
fecha o 24 horas, engole o galão e vira as costas ao café onde deu o seu show matinal de verticalidade portuguesa.
Quarta-feira, Janeiro 28, 2009
filhos da revolução aborrecem-se
recomeços
Sexta-feira, Janeiro 23, 2009
As meninas do bar Can Can na Hang Shan Lu em Shangai
As miúdas vêm de várias partes da China para aquela cidade selvagem de dinheiro e vida. Atiram-se a um cliente ocidental que lhes paga em bebidas. Quem ganha é a casa, um proprietário chinês que nunca lá põe os pés. Elas ganham uma pequena comissão do que fizerem beber. Todas as noites no mesmo balcão as mesmas miúdas com homens diferentes.
O rapaz que serve as bebidas – único homem da casa – fica a vê-las sem reacção. As línguas despontam, os homens velhos põem-lhes as mãos nas mamas, sentam-nas ao colo, fazem conversa tonta, elas elogiam-lhes o cabelo, as mãos, a personalidade de há 5 minutos: “you’re a smart and funny guy”. São profissionais das conversas de engate. Lá em cima há uma sala de snooker e luzes mais baixas para onde levam os clientes se querem uma sessão de ‘conversa’ privada.
Ao fim da noite quando eles vão embora jogam cartas umas com as outras, comem petiscos de rua “very spicy” que fazem retorcer as caras bonitas quando mastigam. Dão risinhos infantis no seu falar chinês a gozar umas com as outras. Parecem amiguinhas de escola. Todas as noite a mesma coisa, diz o rapaz.
Segunda-feira, Junho 09, 2008
(2003)
Quarta-feira, Maio 28, 2008
correspondência
Sexta-feira, Maio 16, 2008
coisas dos 90 que tenho saudades
passar a tarde na casa do Alentejo ou na Camponesa
tocar flauta no castelo ou na rua augusta
tomar cafés em todo o lado, inclusive em bombas de gasolina
fazer jogos colectivos em jantares, como o da personagem pateta colada na testa, o psicólogo ou o da história que a pessoa inventa na projecção do seu subconsciente
lisboa começar a ser 'bué cultural'
começar a ter vontade de ir viver para fora
quase muller
É claro que entretanto os pássaros já devem ter regressado àquele horror.
a oeste nada de novo
O Ocidente está fodido, disse-me um amigo catalão a comer batatas fritas.
Quarta-feira, Maio 07, 2008
Terça-feira, Maio 06, 2008
porrada
"A noite está entre pestanas azuis."
"As gaivotas nasceram dos lenços que dizem adeus nos portos."
Ramon Gomes de la Serna, Greguerías
Dália
autoridade
Quinta-feira, Abril 24, 2008
very tipical
No fundo, tinha alma de coleccionador.
nova amiga
coisas dos 80 que tenho saudades:
chorar com o TopoGiggio
as piscinas com bolas dos Jogos Sem Fronteiras
chamar fascistas aos Heróis do Mar e aos Retornados
ir à Porfírios
Quinta-feira, Abril 10, 2008
encolher os ombros
Ficava amargurado mas depois, pensando bem, concluía: “também, é tudo a mesma merda”.
fitness
procuro
Boa sensação de, em três décadas de existência, a convicção aumentar e a dispersão também.
precaridade
- Defende os interesses desta casa, apenas hoje, mas com todo o teu suor. Amanhã podes estar na concorrência a dar a cara e a vender o cu para direccionar o capital para outros bolsos.
Sabes bem como o dinheiro é uma abstracção e atrás duma abstracção pode caminhar-se até ao infinito.
Sexta-feira, Abril 04, 2008
ou precisamente o contrário
do quê?
ainda a comunicação
É um facto que eles monopolizam os assuntos e sobretudo a maneira de falar sobre eles: a comunicação masculina, competitiva, organizada por factos, com laivos de exibicionismo. O próprio tom de voz não ajuda muito, para entrarmos na conversa temos quase de gritar, chamar a atenção, falar nos termos deles. É tão cansativo que desistimos.
Agora acho que o jogo vai reverter contra eles, quando perceberem que tem muito mais graça falar de outras maneiras e se sentirem desorientados com as nossas vozes (do que as vozes dizem e como dizem).
Terça-feira, Abril 01, 2008
mutantes
vazio
Segunda-feira, Março 31, 2008
translation
édipo
A raiva aumenta à medida que projecta no miúdo o monstro de si própria.
sublimado
visões da tarde
condição sine quo non
Está provado, duas pessoas juntas mais cedo ou mais tarde embatem constantemente nas pequenas irritações.
Domingo, Março 30, 2008
o logro da propriedade
pertencer
Sexta-feira, Março 28, 2008
polis
entusiasmo
das misérias dos ambientes subversivos
ser adulto...
Domingo, Fevereiro 17, 2008
O homem hifenizado
Bem caído nas graças do mundo, às segundas e sextas, o homem-secretário lambe as botas.
Às terças recolhia-se; comia de lata e pensava no mundo cá fora sem sentido. De vez em quando, marcava pontos num mapa-múndi; das capitais dos países traçava linhas para outras capitais em triangulações imaginadas. Pronunciava palavras nessas línguas distantes enquanto mastigava.
Nas noites de terça, o homem-sozinho faz castelos no ar.
Quartas e quintas, vestia e arregaçava a camisa. Saía já compenetrado para trabalhar com mais afinco. Quase não falava para não se desconcentrar. Tirava medidas às coisas para as refazer, “errando sempre menos, errando sempre melhor”. O seu suor era tudo o que guardava quando adormecia já de madrugada.
Palmadinhas nas costas não embalavam o homem-trabalhador independente.
O acontecimento de sábado e o temor de domingo davam-lhe uma comichão que o obrigava a sair. A beber. A falar interessadamente com mulheres estrangeiras. Na sua cabeça, soava música clássica no intervalo de tais encontros. Tornava-se um ser politizado, letrado, mordaz.
No fim-de-semana, a inveja crescia ao redor do homem-boémio.
Tiago Lança
Domingo, Fevereiro 03, 2008
'm cria ser poeta
Tónt morna bô te mereçê
S`beleza ta trazê inspiração
Esse bô beleza, ê más cum belo horizonte
Infeitód cum bom pôr do sol
Ô um arco-íris mut bem d`stacód.
Amim djam cria ser poeta
Pám fazê um mar di poesia
Pám cumpará que`ss bô beleza d`natureza
Parsem nem mar, nem lua cheia
Nem sol brilhante, nem noit serena
Ta cumpará q`bô formosura e bô corpo.
Pombinha mansa di odjos meigos sem maldade
Bô corpo formoso mas sem vaidade
T`armá quess bô sorriso inocente
Sorriso doce qui ta espertá alguem ambição
Nem q`for d`box tud humilhação
`m crê comquistá bô coração.
Composição: Paulino Vieira
para o sássá
Quarta-feira, Janeiro 23, 2008
Sexta-feira, Janeiro 18, 2008
leitura 1
Há uma sombra a percorrer esses rostos. Tudo guardado como segredo profundo, na difícil relação com o lado não-partilhável da vida, numa incapacidade humilhante e tomada pelos outros como arrogância.
Não ter ninguém com quem falar sobre isso. Ou não gostar da maneira rudimentar habitual de se falar sobre isso. Como actos de intimidade que nos parecem ridículos no dia seguinte. Em que circuitos partilhar as histórias dos livros, além dos outros leitores, estudiosos ou amantes? Na terra onde quase ninguém lê o rapaz tinha um ar desajeitado a fingir naturalidade nos gestos.
leitura
Imagino então uma vida em que me podia perder nos delírios literários sem ter que pensar o concreto, sem ter gente a cobrar participação no mundo de funções e lucros, sem ter que justificar passos. Apenas lia, não fazia mais nada, não tinha que trocar palavras indesejadas, apenas absorver as palavras certas e imaginar coisas a partir delas. As viagens por continentes e ângulos exóticos nos cantos dos livros. A vida e opiniões de...., se numa noite de inverno..., o retrato de...., a trilogia de...., o oráculo de…
Entretanto a visão dos livros a monte denuncia as leituras estancadas à quadragésima página. Denuncia a incapacidade para a recepção total, com tantas interferências. Denuncia a resistência ao assalto do sentir dos outros.
Abandonamos a vida dos livros para que não tomem o lugar da nossa.
Domingo, Janeiro 06, 2008
a comunidade
É um bicho poderoso, este, uma massa animal tentacular e voraz, adormecida agora, lançando em redor as suas pernas e braços, como um polvo, digo: um polvo excêntrico, sem cabeça central, sem ordenação certa (natural); um grande corpo disforme, respirando por várias bocas, repousando (abandonado) e dormindo, suspirando, gemendo. Choramingando, às vezes. Não está todo à vista, mas metido nas roupas, ou furando aos bocados fora delas. Parece (acho eu, parece) uma explosão que atingiu um grupo de gente parada e, agora, o que está ali são restos de corpos mutilados : uma pernita de criança, um braço nu sòzinho, um punho fechado (um adeus?... uma ameaça?...), um tronco mal coberto por uma camisa branca amarrotada. Ou seria, então, talvez, um desabamento súbito, uma avalanche de neve encardida, que nos cobriu a todos, ao acaso, aos bocados, e para ali ficámos, quietos e palpitando, à espera, quietos e confiantes, dum socorro improvável, cada vez mais (e as horas passam!) improvável, incerto, aguardando a luz da manhã, que chega sempre, que acaba sempre por chegar, para vivos e mortos, calados ou palrantes, ladinos ou soterrados, os que já desistiram da madrugada e os que, ainda, contra qualquer lógica, contra qualquer quantidade de esperança, confiam ainda e esperam.
Somos cinco numa cama. Para a cabeceira, eu, a rapariga, o bebé de dias; para os pés, o miúdo e a miúda mais pequena. Toco com o pé numa rosca de carne meiga e macia: é a pernita da Lina, que dorme à minha frente. Apago a luz, cansado de ler parvoíces que só em português é possível ler, e viro-me para o lado esquerdo: é um hálito levemente soprado, pedindo beijos no escuro que me embala até adormecer. Voltamo-nos, remexemos, tomados pelo medo de estarmos vivos, pela alegria dos sonhos, quem sabe!, e encontramos, chocamos carne, carne que não é nossa, que é um exagero, um a-mais do nosso corpo mas aqui, tão perto e tão quente, é como se fosse nossa carne também: agarrada (palpitante, latejando) pelos nossos dedos; calada (dormindo, confiante) encostada ao nosso suor."
Luiz Pacheco
Quarta-feira, Janeiro 02, 2008
previsões
António Maria Lisboa, "O amor de Isidore Ducasse"
Quinta-feira, Dezembro 27, 2007
saber esquecer
A aprendizagem funciona quando se lê ou ouve, memoriza-se temporariamente, e reproduz-se e questiona-se num discurso já com palavras nossas, que são também as dos outros. Partilhar com alguém o que se aprendeu é muito importante. Sempre vivi esse dilema, de sentir que só valia a pena aprender se fosse para partilhar depois. Mas na minha obsessão socializante, há depois um pudor que remete para o campo privado alguns dos elementos-chave dessa aprendizagem.
Do conhecimento que ao longo dos anos será esquecido, adulterado, substituído (já soubemos tantas coisas, tantos exames, testes e respostas. Tantas coisas coladas com cuspo que se evaporavam no dia seguinte, as frequências, os trabalhos, as teses e as defesas de tese. Pequenas metas no conhecimento, obsessões, formalidades. Tantas outras coisas que ficaram como fundadoras).
É na condição de conhecimento-teia, o processo infindo de pequenas trajectórias de aproximações às “coisas”, nunca o seu alcance, que está a frustração e a alegria momentânea. Acumulando as verdades parciais, produz-se um simples somatório de acontecimentos ou transformações radicais? Se “a dúvida é a pedra de toque da verdade, o ácido que dissolve os erros”, na perspectiva descartiana, o nosso prazer passa por estas sucessivas e recicladas interrogações.
Para depois tudo se deteriorar. Um simples acidente cerebral varrer toda a biblioteca interna, as referências mais preciosas, os poemas que sempre soubemos de coração, os mais comoventes momentos, a mais legítima dúvida.
caminhos fechados
Quando começara o seu terror?
De há muito tempo para cá nada se introduz aqui no espaço que seja matéria dizível, de algum canto o silêncio irrompeu e ameaçou derrocada. As vãs palavras foram coniventes: calar o limite da dor e deixar que o empilhar de dias fechasse os caminhos como a curva da copa das árvores.
(Pesou fardos apesar da aparente ligeireza).
cerco de feras
Segunda-feira, Dezembro 24, 2007
futuros fofinhos
Não gosto destas promessas confortáveis, as decisões devem tomar-se aqui e agora, pois devem ser imperativos.
(que tom categórico, mama mia!)
Domingo, Dezembro 23, 2007
monólogo 2
E eu talvez ganhasse coragem para dizer tudo o que tinha calado.
O mais provável é que não. O mais provável é não voltar a estar contigo nas próximas semanas.
Fazes gestos cavalheirescos como servir-me vinho assim que o copo se esvazia. Eu evito expressões como “interessante” ou “é isso”. Não quero que penses que estou a acompanhar-te ou a aplaudir-te. No entanto, parece que te conheço e que adivinho
tudo o que vais dizer a seguir. Mas é nessa altura que me engano e tu surpreendes-me.
Na tua simpatia queres começar a inquirir-me. São perguntas rasteiras para indagar a minha “situação de vida”.
Mas eu não quero falar de mim. Nem de ti. Gostava de falar de coisas que não fossem as nossas vidas
que são tão pouco hábeis para encaixar dentro de palavras.
Caem tão mal com o vinho.
São tão imbecis todos os “projectos” e as vontades impraticadas.
No entanto, falar de qualquer coisa do foro político, social, geográfico, artístico ou filosófico me soa a falso. Ou a curiosidade mórbida. Ou a comentário reciclado.
Tu insistes no eu e no tu.
Sexta-feira, Dezembro 21, 2007
monólogo
E eu não quero saber. Vou sentir-me no papel de ampára-quedas, e penso que estamos a entrar na comunicação caixote-do-lixo. Alguém que fala fala e o outro ouve. Sentes-te bem, bebes e comes, e desbobinas os teus dramas, as tuas opiniões, as tuas questões. O meu silêncio e compreensão são a tua sensação confortável de que podes continuar por ali a fora a dar rédea solta ao teu ego. Não há contemplação possível do outro nas tuas palavras a não ser atirar-mas para que fique com elas e faça o que bem entender. Porque é que esta merda nunca é equilibrada? Eu conto-te uma história minha, logo há uma associação de ideias que te faz ligar a uma história tua que aniquila a minha, e os planos, de realidades inconciliáveis, sobrepõem-se. Quanto mais falas mais eu tenho vontade de calar. Mas não, não devia ser assim. O contágio, o entusiasmo. E entretanto já chegou o caril e interrompes o teu discurso com breves comentários à comida e aos sabores. Sabes e prezas o significado de comer bem. Mostras que conheces muitas culturas pelo prazer da carne. As coisas que nos fazem sentir vivos.
post-mortem
Terça-feira, Dezembro 18, 2007
la même chanson
Segunda-feira, Dezembro 17, 2007
razões de optimismo em África
walls and politics, de Kiluanji Kia Henda"(...)conclui o seu livro dizendo: "Não temos razão para desesperar da África." Que razões temos para ser optimistas?
Há várias razões. A primeira vai contra o filósofo francês La Beócie [séc. XVI], que dizia que, quando há dominação, os dominados estão muitas vezes de acordo. As sociedades africanas são indisciplinadas e rebeldes. O modelo africano é mais o das civilizações rurais, fundadas sobre o debate, a discussão. Há nelas um enorme e positivo potencial contra a ordem estatal. A segunda razão, julgo, é a juventude do continente (embora não saibamos para onde ela vai...). Terceira: as mulheres em África jogam um papel mais revolucionário do que os homens - são mais imaginativas, a economia são elas que a detêm, como é nelas que está a luta pelos direitos humanos, pois o caos e a violência começa sempre pela violação das mulheres. Quarta, que ficou escondida nesta cimeira: os africanos começam a olhar para a Índia e para a China."
entrevista de Adelino Gomes a Elikia M'Bokolo
amigos
da noite 1
Sábado, Dezembro 15, 2007
da noite
displacement
Quinta-feira, Dezembro 13, 2007
envelhecimento - sintomas
era
Repare-se no orgulho de "um homem" e na melancolia do pretérito imperfeito. Depreende-se que já não é. Em tempos foi uma pessoa que com todo o seu vigor a protegia, a razão do seu orgulho. Agora a recordação torna incómodo o presente, aquele homem já não é "um homem", passou a ser um objecto sem adjectivos a não ser os do triunfo daquilo que foi. A beleza é como a juventude, não se é, está-se.
a natureza tem horror ao vazio
Quarta-feira, Dezembro 12, 2007
quietude
Pessoas quietas à espera do dia de amanhã. Tudo parece fácil e sereno, a vida corre, corre, o trem-trem do dia a dia, a jornada de hoje, as caras de sempre, tudo parece fácil e sereno quando quietos, esperamos: o dia de hoje é tão igual ao de ontem como o de ontem e o de hoje o será ao de amanhã.
Mas a vida não se quer nem escorreita nem igual ao igual de sempre. Um encontro furtivo, uma troca de olhares, ideias discutidas à volta de uma mesa de café, de uma sala, um filme, um autor, um romance, um poema. Pequenos quase nadas que prefaciam prazeres maiores. Fazer o dia de amanhã diferente do dia de hoje é uma busca do que existe e do que ainda não se conhece. É viver viajando, deixando o corpo no minúsculo espaço geográfico onde se encontra.
don't panic

No jardim deitada olhava para cima. Entre o recorte das árvores, castanheiros de um lado, palmeiras do outro, árvores despidas e outras frondosas - e os demais adjectivos das questões botânicas. Por entre as árvores, o céu azul. Cá de baixo, sobejava o meu corpo e dele se desprendia o olhar. Um olhar que deixou de ver o corpo, e quer atingir o vazio, onde ainda assim a vida teima em intrometer-se com as suas solicitações (não desejava suspender o enfado e o bocejo nihilista, mas lá vinham os passarinhos dizer das suas liberdades ou a bola perdida de uma criança aplicada no golo). A minha questão era simples: “haverá ainda espaços de inscrição, onde posso pensar a partir do vazio e das coisas que não me apetece fazer?” Podia pegar num spray imaginário e escrever palavras num céu anterior à penumbra. Ou com um avião usar a dança das palavras efémeras no vasto manto como um grito de alerta.
Uma artista sul-africana, Ruth Sacks, fê-lo mesmo. E eu gosto destas pessoas que levam à prática pensamentos poéticos. DON’T PANIC, escrevera nos céus de Cape Town. As letras brancas riscavam o cian, gozavam com a nossa vidinha de pequenos pânicos e contentamentos egoístas. Eram a forma possível de uma advertência: controla-te, equilibra, calibra, enfrenta o medo. Eram a voz doce de uma enfermeira para uma cidade onde se morre tanto de tuberculose. Eram o grito ao espelho do yuppie que vai debater-se com uma plateia de homens de negócios arriscados. Eram o sussurro de um amante a dizer à namorada na véspera do aborto: Don’t panic. Don’t panic.
O jardim era a minha calma possível de um dia de pânico em que o ar deixaria de circular pelos pulmões. O meu pânico privado. A vontade de sentir o vazio, o tempo que falta para contar a grande história.
Terça-feira, Dezembro 11, 2007
concurso de dor
-Ai queria tanto ver a minha mãezinha! - gritam as ciganas. 5 mulheres altas, louras, morenas, com brincos e tranças, saias pretas. Os seus homens lá fora, de pé, em roda, partilham uns com outros episódios heróicos acerca do paciente que, ali internado, é a razão da sua presença.
-Ai que saudades da minha mãezinha! - pregão a choros e gritos de impressionar.
-Ai ai que dor, que dor! Eu morro, eu morro. – Os outros começam a sair do seu sofrimento e a pensar: “que estranha forma de sofrer”. É o concurso de dor levado a limite.
–Deus, fala comigo, não ouço a tua voz!- abafam tudo, estridência. Já ganharam.
Segunda-feira, Dezembro 10, 2007
limpeza
São sempre imagens de purificação. Isto lembra-me alguma coisa...
alemanha
sinais de esquecimento 2
sinais de esquecimento
Domingo, Dezembro 09, 2007
os “restavek”
Na casa onde foi escravo durante 4 anos, um dos miúdos conta: “a patroa acordou-me a meio da noite para me partir a cabeça”. “Tinha de lavar as cuecas com menstruação da patroa.”
O chicote chama-se a “educadora”, em nome do exemplo têm de pagar corporalmente, e trabalhar muito.
À noite chega a hora dos insultos, das violações, humilhações e toda a espécie de abusos. Por isso são conhecidas como “là pour ça”.
Crescem sem infância e quase não frequentam as escolas. São crianças zombi, mudas, submissas, que desaprenderam o riso.
No Ocidente seriam traumatizadas, ali são só tristes, ressentidas com anos acumulados de maus tratos.
(mudo de canal, onde especialistas sobre obesidade infantil debatem preocupados)
pose de escritor
onde andam os intelectuais?
É o Villa Matas que o diz numa crónica no magazine littéraire.
Terça-feira, Outubro 30, 2007
venho de um sul
dimensionar a noite
em gestos largos
que inventei no sul
pastoreando mulolas e anharas
claras
como coxas recordadas em Maio.
Venho de um sul
medido claramente
em transparência de água fresca de amanhã.
De um tempo circular
liberto de estações.
De uma nação de corpos transumantes
confundidos
na cor da crosta acúlea
de um negro chão elaborado em brasa.
RUY DUARTE DE CARVALHO, Chão de oferta, 1972
Quinta-feira, Setembro 27, 2007
a impropriedade
Mas o mistério não é menos aborrecido do que a evidência. quero dizer, o mistério pleno, tal como foi concebido até ao nosso tempo. O nosso, puramente formal, não passa de um expediente de espíritos desiludidos da clareza, de uma profundidade vazia, própria desta fase da arte que já não engana ninguem e em que, na literatura, na música, na pintura, somos contemporâneos de todos os estilos. O ecletismo, se lesa a inspiração, alarga, em contrapartida, o nosso horizonte e permite-nos beneficiar de todas as tradições. Liberta o teórico, mas paralisa o criador, ao qual rasga perspectivas demasiado vastas; ora uma obra constroi-se à margem ou na ausência do saber. Se o artista de hoje se refugia no obscuro, é porque ja não pode inovar com aquilo que sabe. A massa dos seus conhecimentos fez dele um glosador, um Aristarco desenganado. Para salvaguardar a sua originalidade, resta-lhe somente a aventura do ininteligível. Renunciará, portanto, às evidências que uma época sabedora e estéril lhe inflinge. Poeta, vê-se diante de palavras, das quais nenhuma, na sua legítima acepção, se encontra carregada de futuro; se quiser torná-las viáveis, terá de quebrar o seu sentido, procurar a impropriedade.(...)"
Cioran, A Tentação de Existir
Segunda-feira, Setembro 24, 2007
disponibilidade
Sexta-feira, Setembro 21, 2007
a propósito de Lisboa
destino
Segunda-feira, Setembro 17, 2007
dedicação
Sexta-feira, Setembro 14, 2007
baixar a temperatura
Quinta-feira, Setembro 13, 2007
Ratazanas à venda
Uma ratazana,
Uma ratazana com consciência.
Uma ratazana com uma consciência permanente?
A ideia é essa.
Bem, eu tenho várias à escolha.
Esta acabou de comer Granada,
Despedaçou-a em bocados e cagou-a
Leite de limpeza American Girl.
Já começou a salivar e beliscar um bocado suculento de queijo nicaraguense.
Mas agora (já que estamos entre amigos)
Tem grandes planos para Berlim, Londres, Amsterdão, Paris,
E as mamas da Natacha em Moscovo –
Mostra-me outra.
Ok. Bem, esta é do tipo manhosa.
Come colonialismo
Para o cagar sozinha, por pura malícia.
Tentei comprá-la no Quénia
Tentei comprá-la no Malawi
Tentei comprá-la aqui mesmo
Mas sabes onde encontrei a sacana?
A jantar com os espíritos de
Malan, Verwoerd, Vorster e Botha.
Mostra-me as outras.
Bem, esta aqui esteve envolvida no Caso Aquino
Aquela era amiga do Xá e apresentou-o àquele ali chamado Ayatollah.
Aquele eclesiástico baixinho e aquela senhora gorda e grisalha…
Dambudzo Marechera
Quarta-feira, Setembro 12, 2007
Oráculo do Povo
De heróis desempregados
Que na véspera conquistaram um país
E hoje caíram na desgraça
E alguns morros incitaram-lhes a sede
Outros ao fogo e à blasfémia
Que acenam a turistas, autocarros
Soltando ruína inenarrável
Vê quilómetros de terra ressequida
de ocupantes esquálidos assolados
E de senhores obesos, soberbos e armados
Que incendeiam-lhes os incidentais abrigos
Levando ao juiz, ao tribunal da aldeia
o mais faminto e vulnerável cidadão -
Vê camiões de ajuda alimentar
Esfumarem-se entre o ponto de partida
E um destino que os aguarda –
Desesperada, encontram-na em tabernas
E botequins, na berma dos caminhos
E em bordéis: vendendo as derradeiros
Estilhaços da sua quimera amargurada.
Dambudzo Marechera
(leitura colectiva de poemas do Zimbabué hoje no espaço Ler Devagar + Eterno Retorno em Braço de Prata, a partir das 21h30)
Terça-feira, Setembro 11, 2007
abstémio
A nossa inteligência já é tão pouca porque razão nos entretemos em reduzi-la ainda mais? – pergunta-se.
a situação das mulheres
(por aí a fora até parecer uma ladainha)
Segunda-feira, Setembro 10, 2007
a melancolia que não sai de nós não sai
“Lisboa é uma cidade decadente”, ouve-se algures numa mesa. E por detrás o imenso rio e a imensa claridade. Toda a gente delira com Lisboa menos os lisboetas, ou melhor, eles também, mas faz parte do charme dizerem que não gostam. Uma cidade linda, barata, segura, luminosa, cheia de entretenimento, sem dramas. Só a vil tristeza.
Consequências da revolução cultural
De uma cultura de poupança para uma de consumo
De uma cultura patriarcal para novos modelos de convivência doméstica
De uma cultura monolítica para uma pluralista e segmentada
De uma cultura oral e escrita para uma visual e multimédia
De uma cultura local para culturas globais
De culturas consideradas “puras” para culturas “híbridas”
De culturas presenciais para culturas virtuais
(por aí a fora até parecer um poema)
Segunda-feira, Agosto 27, 2007
o autista
Esse autismo não chega a ser desprezível, só ridículo. Não reconheço nenhuma humanidade num filme que passe por tal deturpação. Depois o frustrante resultado deixa-o angustiado, quase desiste. Mais tarde recomeçará o ciclo.
Quinta-feira, Agosto 23, 2007
Quarta-feira, Agosto 22, 2007
dente por dente
Fora do meu reino toda a pobreza, toda a ascese que gane aos artelhos dos que rangem os dentes; no meu reino apenas
palavras provisórias, ódio breve e escarlate. Nem um gesto de paciência: o sonho ao nível de todos os perigos. Pelo meu relógio são horas de matar, de chamar o amor para a mesa dos sanguinários.
Dente por dente: a boca no coração do sangue: escolher a tempo a nossa morte e amá-Ia.
António José Forte, Uma Faca nos Dentes
Terça-feira, Agosto 21, 2007
abandono
(Ruanda, Sudão)















