quinta-feira, maio 13, 2010

o lado de lá

Uma visita ao Tombua (antigo Porto Alexandre), cidadezinha portuária no Namibe, Angola. Ali se viveu da farta indústria pesqueira, e hoje as duas baías continuam a ser as balizas dos dias de tantas mulheres a carregar peixe. Miragem de silhuetas entre a lisura das dunas. Fileiras de casas idênticas de pescadores.

Há algo ali de apocalíptico, não é bem a paragem no tempo, é um assustador trabalho do tempo que tudo corrói e degenera. As forças do passado vincadas nas casas, numa arquitetura que foi ousada e experimental ali tão longe, o cinema ainda com o escudo do império, a estátua em honra dos pescadores - "obreiros do povo". A degradação habitada pela miséria faz com que tudo pareça décor de utopia negra, de filme futurista fora de moda. 

Faço um esforço para não estetizar. 

No Tombua, as crianças são milhares. É um espaço - uma extensão de vida - entregue aos inocentes. Bandos e bandos de crianças por todos os lados, entre a areia, as casas e a praia. Por não haver padrões de consumo não conhecem o sabor enjoativo da fartura, das luzes das cidades e da vida tal como nós a desfrutamos e maldizemos. No desconhecimento de tudo isso, qualquer pequena coisa é um entusiasmo ou motivo de histerismo. Um pacote de sumo, ver alguém de fora, uma música. 

Aquele porto, paraíso na terra tão agastado, com as crianças a correr à toa, em rodas e em brincadeiras de molecagem - a dança provocadora de abanar o rabo e bater palmas, a fazer piruetas enquanto gritam “me afirma” para eu filmar, a pedir bolachas e 'cinquentas', é uma desolação.

Olhos espectantes para qualquer movimento teu, sensação de a realidade de todos os tempos e lugares só ter existência naquela extensão de areia que circunscreve as suas vidas.

Foi a primeira vez que experienciei a terrível impotência de estar assim de um lado e não saber como chegar ao lado deles sem convocar relações de poder. O facto de ter dinheiro e comida no carro é um enorme tormento, pois ceder a uma fraca medida de espírito de qualquer gesto de caridade, despoletaria conflitos entre eles, e seria uma migalha tão ridícula como humilhante para ambos os lados.

Ver tudo isto junto a angolanos que estão mais do que imunes a esse tipo de comoções e problemáticas, ajuda a normalizar. Vamos masé acender mais um pica.  

1 comentário:

Raitxe disse...

Desemboquei hoje no teu blog. Gosto muito da tua escrita. Vou continuar a descobri-lo.
Parabéns Marta