quinta-feira, dezembro 30, 2010

Um ano intenso, assim a dar para o desmedido no périplo que foi para chegar aqui onde me encontro


Estava eu a tentar aprender a dançar minimamente marrabenta e no quebra-cabeças das questões sul-africanas e eis que 2010 irrompe com a pesquisa para um filme da Margarida Cardoso sobre a geração de angolanos e portugueses de resistência anti-colonial que se viu confrontada com questões ideológicas, militâncias políticas e acções trágicas no pós independência. Para o puzzle ganhar voz plural lá fomos rumo a Lisboa, Porto e Luanda, ouvir alguns desses protagonistas. Dos anos conturbados no rescaldo da independência, onde tudo esteve em jogo, os depoimentos das pessoas misturam memórias sombrias com uma certa saudade daquele engajamento político juvenil, nos distintos grupos e razões que faziam o empenho de todos como contribuito ao país que nascia. Ainda muito a contar e registar.
Mal regressei de Luanda pus-me a caminho do Brasil e fiquei seis meses no Rio de Janeiro, onde a informalidade e alegria ganharam mais terreno na minha vida. Foi o lugar certo para consolidar o projecto BUALA, que já crescia dentro de mim desde que essas andanças de freelancer da cultura em África me evidenciaram que eram necessárias pontes para as propostas, manifestações culturais e questões nestes países da cultura do beijo da boca, como diz o escritor-músico caboverdiano Mário Lúcio de Sousa. E é que o beijo contamina mesmo a língua portuguesa que se engrandece nesse contágio. É claro que o Brasil, sendo um país do futuro e de possibilidades, acolheu bem a ideia. No Rio, S. Paulo, Minas e Nordeste fui abençoada pela natureza pujante e a energia das pessoas daquele país. Aprendi a desdramatizar quase tudo e agora o queixume português soa-me ainda mas bizarro e pouco fértil. Nesta aprendizagem da brasileidade um intervalo para revisitar África. E foi interessante o trânsito entre dois continentes de continuidades. Apanhei um avião para voltar a Angola, meu território do coração pautado pelos momentos mais surrealistas e aprendizagens mais profundas às quais se pode ter acesso (e de difícil partilha – anátema de um livro emperrado há anos)! Desta vez fui ao encontro de duas amigas com a seguinte missão: recolha de histórias de vida para uma série documental “Eu Sou África” (em breve na RTP), duas por cada país africano de língua portuguesa. No caso angolano (começara já de Moçambique) uma situava-se em Luanda e outra em Benguela (à mais bonita... chamou-lhe praia Morena, lembrei a Alda Lara). De guerras e leis, quimbandas e danças, os fios de estórias iam-se desembaraçando. Em Luanda dancei, feliz, todos os sembas que pude no terraço do meu ex-namorado que se tem vindo a revelar um artista cada vez mais forte.
De lá voámos para S.Tomé e Príncipe onde, por um momento, a terra pára de girar no apelo do Equador, entre as praias, o verde da densa floresta, a memória das roças de cacau, a associação Cacau, a roça e a inquietude do João Carlos Silva e as palavras proféticas da poetisa São Deus Lima. Calor e projectos futuros, amigos, prazer de existir na emoção e sonho colectivo. Riso franco.
Regresso a Luanda sozinha e fico mais uns dias sempre a interrogar aquela cidade de infortúnio e tão inesquecível vivência. Perco o avião, com um festival de jazz pelo meio, custa sempre a despedida.
No regresso ao Brasil o BUALA ocupa-me de novo por inteiro. Chamam-me workaholic. Quando se gosta e se cria aquilo que nos preenche os dias e o pensamento, o trabalho é uma continuação de nós, deixa de fazer sentido a operativa divisão de vida / trabalho, como se a vida ficasse em suspenso para essa coisa ter lugar. Pelo Rio muitos amigos passaram, e reafirmei a minha admiração e prazer em estar com eles. Pedro, Roberta, Bruno, Joana, Milagre, Marta Mestre, Agualusa, João Rosas, Miguel, André. O ânimo do Otávio e a sua capacidade de se enturmar na favela, rejeitando sempre toda a espécie de sectarismos. A musicalidade de cada gesto. Os brasileiros que abraçam com vitalidade, acolhem e participam, generosamente, nos projectos que lhes trazem novos olhares. O Brasil anda a tentar pensar-se a sério e, nisso, é inclusivo.
De volta a Lisboa experimento o conforto de reconhecer ainda o meu lugar nesta cidade e nas pessoas que me são tão fundadoras. Observo os amigos a crescer (uns melhor que outros), e os filhos dos amigos a crescer mais rápido. Abraço a minha família em metamorfose sem se alterar drasticamente a natureza (uns menos esparançosos que outros).
E encontrava-me então neste processo de readaptação quando viajámos (com a mana Luísa e Maria João), de novo, para a segunda parte da tal série documental das histórias de vida de pessoas excepcionais.
A Guiné Bissau foi uma enorme surpresa na beleza, generosidade, diversidade. Carinho imenso pelo Pepito, que nos mostrou profundamente o seu contributo para a prosperidade do país, através das relações humanas e do que de facto pode beneficiar as comunidades. De Cantanhez a Cacheu, passando pelas ilhas Urok, percorre-lhes uma dignidade que não se verga à imagem terrífica que assombra este país.
E toda esta amálgama de informação para a minha cabeça e emoções ímpares tinha de desaguar em Cabo Verde onde, em 2003, começou para mim uma paixão incurável por estes universos, países novos que oferecem modos de viver e sentir alternativos a uma homogeneização cultural (a do capital), não estando, porém, resguardados disso mesmo. A revisitação do Mindelo, Paúl, Praia e Tarrafal foi demasiado intensa e clarividente para rematar este ano bruto, que preciso delapidar. Aquelas ilhas têm uma incrível capacidade de, em simultâneo, arrumar e desarrumar a vida. Tudo é de uma grande exigência: de um lado o mar oceânico, do outro a montanha escarpada, e nós pequenos ilhéus a naufragar naquilo que nos é dado viver. Uma parte de mim tinha ficado para sempre ali e só agora percebi. Resta-me juntar estes fragmentos de vida, das terras do calor, e voltar a ser uma alfacinha entretida com programas culturais, entediada com o circo da política e as noites de copos, na eterna ambição de construir coisas sólidas, além das virtuais, pedagógicas, simbólicas e afectivas. É que estes ventos de mudança compõem-se de muito fôlego e fibra do tanto que outros me deram e do que coloquei de mim na Experiência.


3 comentários:

Cesar Schofield Cardoso disse...

"eterna ambição de construir coisas sólidas"

Ambição?? No teu caso é 'concretização'. Ao ler o teu post percebi que ter um espaço comum da língua, viajar nesse espaço só tem entraves físicos, que são os mais fáceis de ultrapassar. De resto tudo parece se encaixar. É como se os nossos países formassem hoje em dia, peças de um puzzle, à espera que alguém as empurre umas de encontro às outras e formar a big picture. Sou um crente absoluto que pela Cultura temos muito mais a ganhar, em termos de desenvolvimento humano. É que a Cultura tem o condão de activar o principal motor do ser humano: a vontade.

Tu és só vontade. Uma força indomável.

Em 2011 duplica isso tudo :) (claro que consegues!)

César

Manuela Sá Carneiro disse...

"países da cultura do beijo da boca".
Ando por CABO VERDE há mais de uma decada a tentar (re)construir sonhos e sorrisos que foram roubados aos MININOS DI RUA...
Obrigada pela partilha deste texto absolutamente.. delicioso.
Também eu.. sou Africa! Nascida em Nampula com a Alma a vaguear entre Europa (onde vivo) e Africa (onde sorrio).

Akel abracu pa bô :)

Rui Hermenegildo disse...

"voltar a ser uma alfacinha entretida com programas culturais, entediada com o circo da política e as noites de copos, na eterna ambição de construir coisas sólidas, além das virtuais, pedagógicas, simbólicas e afectivas." Boa síntese da ciclotimia desresponsabilizante dos portugueses, ahahah.


Parece-me que 2011 vai ser um ano de fazer coisas, Marta!

Rui