quinta-feira, maio 14, 2009

“espera lá pá, tenho de escrever isto”

Coleccionar momentos. Passear por uma cidade qualquer:
uma mulher espera o autocarro e angustia-se como vai pagar as despesas escolares do filho;
um rapaz de i-pod lembra-se do campismo do verão;
uma rapariga tem um casaco vermelho e mãos nervosas, vai amanhã ser operada.
Mas eu não sou o anjo das asas do desejo!
Ouvir uma pessoa a falar e querer anotar a situação em que ela está a falar. É a situação, os gestos, não o que está a dizer, que me interessa.
O sabor da maçã é melhor do que a descrição do sabor da maçã?
Memórias adoráveis, cultivadas, para manter vivas as pessoas e os momentos. Lembrar o tempo para trás, amarrar os gestos, para que estes não sejam só acidentes de percurso e nos façam crescer. Dói-me às vezes recordar de forma tão preciosista e acumular, não deitar nada fora do que se viveu.
“A verdadeira substância de um diário não são os acontecimentos exteriores mas a evolução moral da pessoa que escreve” diz o Villa-Matas no Mal de Montano.
Posso escrever todas as banalidades, até as rachas do tecto que observo, o que interessa e depois fica é um estado momentâneo que reflecte mais do que está ali, mais do que espuma dos dias que fica grudada de uma página para a outra.
Gostava mais de coleccionar insólitos.

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