quarta-feira, fevereiro 15, 2006

o deserto junto à minha mão


são sobretudo as vozes
e como elas brotam
das rugas do corpo
da expressão de cada um
e vêm ocupar o dentro dos outros
cruzando as linhas
esta é uma pequena carta
de um quase desconhecido
sobre a tua voz imensa
a tua extensão excêntrica
e não teria coragem de a escrever
se fosses tu apenas
a que irradia alegria e prazer de viver
se não me sentisse tocado por isso
também entre as outras coisas
entre outras pessoas
por isso
entre os dadores
não deve haver pudor
nem receio
de dizer simplesmente
o quanto é bom para o mundo
que tu existas
porque para mais vou-me embora
para as dunas e cactos da praia
para as carochas pretinhas
que atravessam todos os dias o deserto
junto à minha mão
para o calor imenso
até quase ao desmaio
para o suor que anseia a água do mar
para o nada pacificador
dentro de mim
e talvez nunca mais te reveja
e sinto que não faz mal
foi bom cantar o «lola» contigo
por entre a timidez
discutir as opiniões que tinhas feitas
e mesmo perceber
como tinhas de ser tão fugidia
ao mesmo tempo
como seria de se esperar
dar-se
creio perceber a dificuldade
muito ou pouco
cedo ou tarde
mantendo a abertura da vida
num desequilíbrio constante
é tão bonito
e tão tormentoso
ao pé
perguntar-me-ia
se serias afinal
uma superfície de inscrição
ou de não-inscrição
porque na verdade
estou tão cansado
e não tenho mais força
para os encontros-desencontros
para as mulheres todas
livres e presas
ao seu próprio segredo
à linha infinita
que as consome
e que me anula
nesse gesto
por vezes
digo-te adeus
por entre o carinho
a ideia que me guardo
it’s a mixed up muddled up shook up world except for lola... and for you, maybe

(2005)

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