sábado, fevereiro 11, 2006

Já não acreditamos neste mundo


« O facto moderno é que já não acreditamos neste mundo. Não acreditamos sequer nos acontecimentos que nos sucedem, o amor, a morte, como se quase não nos dissessem respeito. Não somos nós que fazemos cinema, é o mundo que nos parece um mau filme. Sobre Bande à part, Godard dizia: «São as pessoas que são reais, o mundo é que se põe à margem. É o mundo que faz cinema. É o mundo que não é síncrono, eles estão bem, são verdadeiros, representam a vida. Eles vivem uma história simples, é o mundo à sua volta que vive um mau argumento». É o vínculo entre o homem e o mundo que se encontra rompido. Assim, é esse vínculo que deve tornar-se objecto de crença: ele é o impossível que não pode ser devolvido senão numa fé. A crença já não se dirige a um mundo outro ou transformado. O homem está no mundo como numa situação óptica e sonora pura. A reacção de que o homem está privado não pode ser substituída senão pela crença. Apenas a crença no mundo pode voltar a vincular o homem ao que vê e ouve. É preciso que o cinema filme, não o mundo, mas a crença neste mundo, o nosso único vínculo. Interrogaram-se muitas vezes sobre a natureza da ilusão cinematográfica. Devolver-nos a crença no mundo, tal é o poder do cinema moderno (quando cessa de ser mau). Cristãos ou ateus, na nossa universal esquizofrenia temos necessidade de razões para acreditar neste mundo. »

Gilles Deleuze, L'image-temps, [trad. minha], Minuit, 1985, p. 223.

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