quarta-feira, fevereiro 08, 2006

A corrente eléctrica

Uns dias mais longos, tomada pelo tédio a espraiar-me num sofá alheio, vi os anos revolucionários num rodopio televisivo, a propósito da música que fez movimentar: Brasil, China, Vietname, EUA, França. Vi que em todas as cidades se abriram asas dos prédios, anjos de guitarra eléctrica e força de vinil. As marchas de jeunesse em direcção ao ritmo, o transe explosivo, amálgama de gente a agarrar as cabeças, os ombros, aos pontapés de tanta proximidade física. Vi o sexo assim em exposição numa oferta dupla e tripla de corpos. A vingança contra o princípio da realidade para viver eternamente no princípio do prazer. Vi o rock supra-nacional. Quando um mercado de rebeldia mexia outros números. Quando uma liberdade de expressão incomparável ecoava antes do CD e dos bons amplificadores, antes das mil opções. Os tropicalismos todos em estado experimental. As garagens fechadas entre charros e trocas de silêncios estereofónicos. Histéricos. A histeria afinal do n’importe quoi que é a felicidade com o simples acontecer da corrente eléctrica. Corre o mundo, México, Chile, Nigéria, corpos pintados, batuques, consciência cultural da beleza africana. Vi o sono dos cartazes coloridos que anunciam o que se deve gostar. Navegar é preciso, viver não é preciso.
E pergunto que cantam os poetas, poetas andaluzes de agora. Agora que tantos sinais prejudicam gravemente a saúde e, nessa dor, na desordem dos poetas obscuros, abierto en el aire, eu tento ser o mais verdadeira possível nesta canção.
Gostaria de chegar aos lugares e dizer as coisas certas pois o marulhar de gente é inspirador, e urge vogar por cima desse fumo baço para ver a voz terrível com que nos cantamos. Porém, depois de ter por dentro dos olhos tanta frescura de praia e floresta, afinal vir aqui é cravar o cancro no pulmão, é o que penso agora e não tenho mais ombros para cortejar.
Vir aqui é assistir ao prazer da degradação, ao ferir das evidências numa época em que já nada se reconhece. Vir aqui é enganar o tempo para viver na descrição, não desejada mas sem dúvida a melhor saída. Vir aqui é procurar desesperadamente o amor, não a entrega materializada em pessoas determinadas, mas um amor quase absoluto. Como alguém que num desprezo sábio toldasse o previsível, resistisse a todos os muros, uma pessoa sofrível e presa à sua própria liberdade. Pois, conheces isto, tudo o que não encaixe em nenhuma gaveta mais cedo ou mais tarde acaba por provocar incómodos. Mesmo para os mais teóricos da liberdade. E depois do incómodo talvez descubras uma linguagem que é a tua.
(2004)

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