quarta-feira, fevereiro 29, 2012
a vida selvagem
ele há coisas...
calar
meu coração vagabundo
genet
outra coisa que dizem as revistas
coisas que se lêem em revista estúpidas e que eu não devia reproduzir
quarta-feira, janeiro 25, 2012
adquirir propriedade
Naqueles breves minutos passou-lhe pela cabeça tudo o que podia fazer com o dinheiro que perdia, suores velozes, o mundo a desabar naquele pequeno crash financeiro.
festa de cientistas sociais
fumam ganzas e falam sobre o espaço público e a nacionalização da banca.
o olhar desvia-se-me para fora: as poças de chuva na calçada portuguesa e o riso perverso da noite.
saltar o carro
momento Merly Streep nas Pontes de Madison: agarra convicta o fecho da porta para saltar para outro carro e viver a sua grande paixão.
não consegue, o medo e a culpa tolhem-na.
deixar a sua rotina de filhos e homem enfastioso é uma traição ao social, não saltar é uma traição a si própria.
perante isso, quantas mulheres nesse momento saltaram do carro?
já começa ser um clássico
ela: uma improvável mistura de beleza, inteligência e liberdade; o namorado: um tótó desarticulado, autoritário e de horizontes curtos.
quinta-feira, janeiro 12, 2012
métodos estalinistas
convictamente sem rede
- Isto é uma casa muito antiga, as paredes são grossas e não deixam entrar a rede. É de propósito para não ouvirmos a conversa dos outros.
de como as pessoas se continuam nas outras...
Foi o tempo que nos coube e não aquele que escolhemos.
Falaremos sempre a linguagem de hoje, apesar dos “nossos ídolos ainda serem os mesmos”.
Sempre diferente sim, mas o contínuo de risco e vontades que tudo atravessa é poderoso.
segurança
sábado, janeiro 07, 2012
quarta-feira, janeiro 04, 2012
cavalheirismo
quinta-feira, dezembro 29, 2011
estado de tese
- Pior que gravidez, quando o desleixo se apodera dos dias proporcionalmente ao grau de concentração. Cigarros e noites brancas, discussões à beira de um ataque de nervos, nada fundamentais, há que dizê-lo, ao nível da importância da pestana do eça de queirós.
letargia
Era portanto a hora [nunca é a hora]. Pairava sobre a cidade um ar morno de nostalgia, apesar de uma constantemente emperrada tentativa de futuro. Era duro parar, ainda mais não ter motivos para agir. Havia quem perpetuasse a digna arte de nada fazer, de não respirar influências, de não ter que se justificar; secretas poses para um filme interior, para uma certeza a desenvolver que era cada vez menos certa e menos causadora de conflitos exteriores.
Cada um com os seus cansaços e as suas justificações, condensados numa estranha letargia, onde nada se passa e tudo circula com a maior pretensão de intensidade. Um olhar de vício, uns olhos de água por detrás das mãos. Esconder a cara, não há tempo para dores.
Connosco qualquer coisa de diferente, que inverta esta lógica absurda em que o funcional não nos deixa perceber os mecanismos. A máquina infernal é a primeira a intrometer-se nas mais profundas aspirações e ficamos a sentir de mansinho o desejo de dormir...
olhos dos apaixonados
- Sim, sim, estou a ver.
- Fazia calma ali, dentro do alvoroço em volta. Ela queria dar tudo mas tudo não se dá, de manhã estaríamos juntos na pose habitual e a proximidade seria distância, seria suja, seria quase comiseração. O amor é outra coisa, o contrário do medo, digo.
- Era gira, a gaja?
- Não é isso.
- Infelizmente, vários sentimentos envelheceram, o amor não é excepção. Encontra-se enfastiado, dengoso, insuficiente. As nossas fantasias sexuais são tão aborrecidas como um filme pornográfico de baixo orçamento. Falta-nos imaginação!
- Paixão, descontrolo da razão, olhar que hipnotiza, mãos que se tocam com magia, ser mais espirituoso, procurar relações entre as coisas que só os olhos apaixonados vêem, ter olhos para ver as coisas apaixonadas, crescer nessa exigência. No Banquete diz-se que o deus do amor herdara “o mesmo espírito ardiloso em procura do que é belo e bom, a mesma coragem, persistência e ousadia que fazem dele o caçador temível, sempre ocupado em tecer qualquer armadilha; sedento de saber e inventivo”.
- Mas hoje em dia, meu caro amigo, os voos são rasteiros, até mesmo ridículos, têm como piloto um ritual social neurótico, são perseguidos pelo incansável pirata do espaço: o vírus da solidão, e normalmente, em vez de estimular a criatividade, estupidificam. Platão está desactualizado.
- Achas que é impossível viver sempre intensamente?
- Amanhã já não vamos estar aqui, amanhã estas cadeiras estarão vazias e mantêm apenas a forma e o calor dos nossos corpos por uns minutos. Uns meros minutos. Prontas para o próximo.
terça-feira, dezembro 13, 2011
romance de supermercado
Olhos mesquinhamente curiosos rodeiam os apaixonados, enquanto os próprios, estendidos no chão, o mesmo chão onde um patinador desmaiou de cansaço, se acarinham loucamente e fazem chover propostas: casa, na sua ou na minha, curo-lhe o pé com uma ligadura, faço-lhe o jantar, venha, venha.
Lauro levanta-se e pede uma mão, Eli repõe as batatas fritas light na prateleira errada e agarra-o com força, como se esperasse há muito por este homem. Depois avançam contentes e coxos por entre os congelados, saem altivos pela caixa das 15 unidades e nem ligam aos alarmes que tocam frenéticos assinalando o bonito romance.
as meninas fúteis
A miúda do subúrbio lembra-se de quando a levavam a passear ao parquezinho infantil, no meio dos tubos de escape, de um quadrado-jardim feito à pressão para meninos como ela brincarem com emoção retemperada. O seu pequeno contentamento quando, depois de outro menino se abeirar para lhe cuspir cinicamente, respondia com a boçalidade aprendida em casa e para que nunca mais ninguém se risse da sua cara.
Já Benedita tinha ido àquela zona mas não era de lá. As mãos ainda lhe cheiravam a comboio e experimentava a pegajosa e claustrofóbica sensação que os prédios e os senhores de fato de treino de domingo com carros a serem lavados lhe atiravam à cara, como dizendo: "a tua sensibilidade não cabe aqui."
Benedita observava Carla com desdém, desconhecendo que era tão pequena como ela, iludida em festas de pessoas vistosas e fantasias de namorados com olhares galantes de nenhuma espessura.
As duas meninas cruzaram olhares no café e nem farejaram a solidão uma da outra, tal era a distância dos códigos sociais. E já sabemos como ninguém perde tempo a desconstruir essa tanta coisa que se coloca antes do ser-se pessoa.
A Carla esperava o Tony para um passeio ao centro comercial, a Benedita dispensava aquele subúrbio da sua vida, estava perdida e destoava no café, a mulher-a-dias nunca mais chegava, telefonava angustiosa à mãe a quem avisava que nunca mais voltaria àquele lugar omisso às conversas giras.
Carla pergunta: “olha lá, tens um cigarro?” Benedita nem sorri, dá o cigarro com o mesmo desprezo de 10 cêntimos a um mendigo. Desaparece.
segunda-feira, dezembro 05, 2011
ficar mais velho
O comodismo torna pesarosa a sua companhia, e o lado reacionário aquiesce à miséria.
quarta-feira, outubro 19, 2011
lições
À troglodita condescendência do superior que insiste em dar algo que sabe ser fundamental ao subordinado pobre, a resposta altiva daquele que, por mais que lhe custe, diz orgulhamente que não.
isto anda tudo zangado
- Este é o pior de todos desde o 25 de abril. Nunca nos foram ao subsídio de natal e de férias, essa é que é essa. Aldrabão, fascista! - queixava-se a senhora no auge das suas grandes verdades proletárias, antes de entrar na enumeração raivosa de aspectos sombrios da biografia do PM.
Na mesa ao lado o livro que eu lia às tantas devolveu-me a palavra de ordem leninista “quanto pior melhor”.
quarta-feira, outubro 05, 2011
homens a fazer um país
Cada um tinha uma ideia própria de que país queria fazer: um só desejava ser guarda da prisão e vingativo, outro queria mudar o mundo. Os revolucionários mostravam-se desequilibrados e com tendências para despotismos. O mestiço tinha vergonha da mãe preta que só saía do quintal para fazer os filhos. Muitos casaram com brancas, trazendo uma soviética às costas. Racismos vieram ainda mais ao de cima. Um problema fundo e triste atravessava o país que nascia.
doutoranda
Ele olhou meio confuso para aquela rapariga que lhe acabara de contar que estava a fazer doutoramento sobre a sociabilidade dos jovens da periferia. Achava muito estranho que pagassem a alguém para fazer assim uma coisa com tão pomposo nome sobre a malta lá do bairro e de como falavam e se davam entre si.
agora falta o resto
Agradava-lhe a possibilidade de escrever porque era fascinante como a vida corria assim explicada, organizada na sua desordem crónica… até os sentimentos, hesitações e os deboches ganhavam em complexidade e novas formas de pronunciar-se e, portanto, adquiriam uma nobreza qualquer ao aflorarem por essa via. Tudo se configurava possível de articular-se, as coisas estrambólicas que lhe passavam pela cabeça até à vida dos outros, melindrosa e desinteressante de saber mas curiosa e auspiciosa de contar.
“e assumiu a tristeza para reclamar a esperança”
É preciso saber que a nossa metade cheia do copo será sempre a metade vazia para alguém que nos é próximo. Aceitar que nessas mundivisões afastadas nunca nos reconciliaremos totalmente. E porque as coisas que ia calando se transformavam em pássaros demoníacos e ninguém suspeita necessariamente do temor que por vezes o silêncio esconde.
sábado, setembro 10, 2011
love calls you by your name
Tudo começou no sofá, entre carícias. Eram as nuvens carregadas que assombravam os sete andares por cima do nosso, era uma mão por dentro da outra e o tom waits a cantar-nos ao ouvido as suas máquinas de ossos. Parecia que este mundo era bem melhor do que o outro. E depois veio a frase. Palavras desadequadas a querer inscrever o tempo quando os relógios param. A lembrar, somos estranhos, não conseguimos, nunca esquecemos, passados e futuros pesam, somos estrangeiros um e outro, um no outro. Veio a frase da estranheza, não troquei o teu nome - um lapso indesculpável entre amantes - foi frase ainda pior, uma falha na linguagem fundamental, para sempre a esquartejar a confiança. Um disparate este hábito da língua articular palavras e a sua falta de ponderação crónica. A frase que afasta, quebra o elo da ilusão, lembra o artifício escondido nas subtilezas.
Tinhas de vir com as palavras. Desculpa, é protecção, é vontade de nomear e dar a notícia ao mundo. Para quê se o mundo agora não interessa nada, só eu, tu e aqui. Falta de pontaria, não devia. I don’wanna, I don’t think so.
E tu disseste: o que é que isso interessa. E eu disse: nada. E passámos juntos um calendário no sofá apertado para quatro pernas.
Do sofá para a vida foi um instante. Vieram caixotes cheios de livros e cds, veio a ocupação disfarçada de bons modos que começaram rapidamente a ser ecos de outros tempos. A máquina de lavar roupa que é preciso estender depois, a cama a aquecer rápido, o diálogo a ganhar ao monólogo, as depressões a alternar com a euforia, o jogo de brincar aos casais, aos adultos. Bateram umas quantas portas no auge das discussões, o tom waits calou-se dentro da sua própria cabeça, às mensagens poéticas e arrulhos via telemóvel sucederam-se combinações a despachar, mas tudo se tornou tranquilo apesar da aparente desordem. Ainda há o calor de um copo de vinho tinto no jantar de tabuleiro ao som do portugal-camarões. E o rosto agitado com as oscilações dos dias e as idas ao café à hora de almoço quando não há mesa.
[Queria uma casa sem recheio, sem obstáculos a distraírem-nos do que nos levou ali aos dois.]
Agora sem pressa, de outra maneira, contigo aqui ao lado, mesmo ao lado íntimo. Sentamo-nos em tantos sofás alheios mas nenhum será como o primeiro, o do coração aberto, quase piroso nas revelações que guarda. Classe média e barriga de bem-estar, foi já grito de iniciação e de intempérie.
terça-feira, agosto 30, 2011
tempo morto
mudam-se os tempos
É só ligar a tv que em 5 minutos o mundo desfilará em continuidade de horror : vaga de calor na Europa do leste mata uma data de idosos, bombista suicida num hotel em Bagdad, jornalista da BBC refém do Hamas, inauguração de um museu em Belém com um bimbo à frente, etc... notícias de verões passados transladadas para outros, quase idênticos.
domingo, agosto 28, 2011
na praia
quarta-feira, agosto 24, 2011
fala
O homem da caverna utilizava as mãos nas primeiras tentativas de talhar a pedra, exercia um esforço de abstracção, trabalhava mentalmente, na sua rudeza: a mão, comandada por essa mente obscura, provocou o aparecimento da linguagem. A linguagem classifica o sujeito que fala, individualmente antes de socialmente. Calar os gestos na difícil formulação de palavras para encaixar histórias, parece fastio pela vida. Afinal o que é preciso é convicção no dizer. Sem isso a nossa voz terá a importância de uma casca de tremoço.
desenho de Tiago Lança
eu aqui a rir
domingo, agosto 21, 2011
mal-entendido
autocarro
espontâneo
As palavras sussurradas podem ser tão espontâneas que duvidamos logo se alguma vez as dissemos.
sábado, agosto 20, 2011
sexta-feira, agosto 19, 2011
afagos
solidão
quinta-feira, agosto 18, 2011
estranhas cumplicidades
Há noites que quase derrubam o nosso frágil dominó de lucidez. Vivem de momentos de transe pela repetição, pelo absurdo de se arrastar o nada até ao limite. Encontra-se cumplicidade com desconhecidos e, em situações particulares, fica-se dependente deles estabelecendo-se um silencioso e imprescindível pacto.
quinta-feira, agosto 04, 2011
quarta-feira, julho 13, 2011
amigos
festival de músicas do mundo
segunda-feira, julho 11, 2011
estranhas adivinhações
Então ela lá me arrastou nos seus saltos altos prateados, saia cor-de-rosa e uns enormes brincos redondos que acompanhavam as tranças rentinho à cabeça. Entrámos, era uma casa bastante atravancada no bairro da Samba. Um homem alto, olhar profundo e corpo volumoso, com um boubou que vinha até aos joelhos, recebeu-nos com um ar meio enfadado. Sentámos as duas à sua frente. Perguntou a natureza do sucedido. Eu disse com voz grave: “desapareceu muito dinheiro do meu quarto!”. Não queria condicionar a sua adivinhação por isso nem manifestei nenhuma das minhas suspeitas. Ele perguntou os nomes de toda a gente que vivia ou tinha passado lá por casa. E eu senti o arrepio traidor de estar para ali a denunciar gente amiga, a grande miséria da vida de um bufo.
A operação era bastante simples: o professor friccionava uma vara no muxakatu, pedaço de madeira talhado com várias ranhuras, enquanto perguntava caso a caso se tinha sido aquela determinada pessoa. Mas os búzios remeteram-se ao silêncio inerte perante uma voz cada vez mais autoritária. O Professor Sheik já estava a ficar meio aborrecido pois aparentemente não fora ninguém, quando resolveu fazer uma segunda rodada mas sem atentar à minha memória. E eu que desconfiava de X, fiquei a ver o episódio noutra perspectiva. Nesse dia tinha lá ido uma estranha visita, de facto, e de repente tive o flash de uma mão rápida, que na altura não relacionei com qualquer gesto excepcional, nem vira nada passível de se tirar. Então o adivinho lançou-me sem escrúpulos a 1ª letra do nome do dono dessa mão. Uma só letra, era tudo o conseguia. Saímos de lá, a Jurema contente com a capacidade adivinhatória do Professor Sheik, reconciliada com as suas crenças mais profundas, ainda que só tivesse adivinhado uma letra, e eu perturbada com o peso dessa insuspeita e incómoda letra. Preferia não saber, a verdade é também uma dúvida perpétua.
futuro
que fazer da vida sem a inquietação do futuro
como preenchê-la sem projectos e vontades não cumpridas
e as outras que irrompem no acontecimento.
sem a fome que ainda nos faz acordar numa pensão ao lado de casa só para tocar a pele clandestina
sem questionar os poderes da biologia que do nosso corpo podem gerar outro corpo (apressar as membranas dos outros seres ainda não bem-vindos)
e os tantos medos de falhar
sem sofrer ainda por impossíveis amores e destruir amores possíveis...
ver escancarada a crueldade do mundo nas terras onde não há tapetes fofinhos nem rendimentos mínimos
sentir nos anarquistas de Atenas uma virulência convicta que mostra, a ferro e fogo, que não são os governos nem as polícias a domar as nossas vontades.
acreditar na destruição, viver no meio dela e, nas chamas dos carros ardidos, antever a esperança, o que nos une no futuro em aberto.
an-do-li-tá
Vão embora depois de se despedirem no portão do cemitério. Um combatente a menos, e o mundo de funções e trocas, afectos calculistas e talentos de pacotilha ali ao lado.
rezinguice
fantasma
A dor de amor paralizava-a e o tempo discorria sem nada a assinalar, indiferente ao mundo apesar da revisitação dos momentos intensos.
Lembrava aquela vivência ao pormenor, desde a dor física ao acordar à ansiedade de não dormir para nada perder. Uns breves dias que, na sua espessura, só lhe acordavam o temor e a extrema vida. Intermináveis dias.
Deixara-a nesse estado um homem impregnante, cínico, imprevisível e abrupto, viajante e especialista em sabres. Uma figura enigmática que nunca chegara a conhecer, afinal, mas que haveria de povoar os seus piores e melhores sonhos anos a fio.
quarta-feira, junho 29, 2011
verão
quarta-feira, junho 22, 2011
na suíça passeava
as elites em maputo
belas expressões nada homofóbicas
eternos infantes
terça-feira, junho 21, 2011
narrativas
Quando ela era uma miúda provocadora, irrequieta e atrevidota, achava que as raparigas mais velhas não tinham graça nenhuma, por serem caretas, cheias de ideias feitas e incapacidade de sonhar. Agora olha para as miúdas mais novas e pensa que nada sabem da vida, não conhecem a dor nem têm capacidade de ironia com tanta ingenuidade. Mesmo as carinhas larocas ainda não vincadas por qualquer sinal da idade lhe parecem um atentado à verdadeira beleza. Pois, de argumentos para se conseguir viver consigo mesmo está o inferno cheio.
máquina de fazer deveres
Ouvi, em tom de elogio, sobre uma dessas super-mulheres: "Além de cuidar dos outros ela também tem de cuidar da sua doença: quimioterapia, consultas, cremes e remédios. E ainda continua a ser mãe, divorciou-se e mudou de casa, tudo ao mesmo tempo."
Esqueceu-se de dizer que ainda arranja tempo para as pessoas a quem dá auxiílio na gestão do sofrimento devido à sua própria doença.
segunda-feira, junho 20, 2011
eu sei lá, sei lá
Já não passava a época dos santos populares em Lisboa há muito tempo. Apesar do ritual repetido (as músicas, as sardinhas, os manjericos e os bezanos ancestrais) há uma alegria nestas noites que não deixa de ser entusiamante e sempre renovada.
O Santo António traz ao de cima o que há de mais bairrista, buçal e provinciano nos lisboetas, mas também por isso mesmo, retrai qualquer coisa de muito igual que atravessa o mundo. Para perplexidade de europeus que visitam a cidade nesta altura, o castiço, a informalidade, a música pimba, os amassos, o calor, tanto humano como do outro, vingam e valem a pena. Aquelas pessoas que não se cruzam durante o resto do ano, arrumadas nos seus códigos e representações socio-culturais, frequentando espaços de acordo com critérios de meio, gostos e amigos, ali se acotevelam, sorriem, comunicam, brindam, admiram-se ironica e mutuamente. Dançam lado a lado sucessos de criativas letras como “é o bicho é o bicho”, a “cabritinha” ou a “garagem da vizinha”. As feministas dos bar dos Anos 60 fazem olhinhos aos betos de Santos, o Toni da oficina bebe do mesmo plástico do chinês da papelaria e o casal vamp partilha a calçada portuguesa com o par de barrigudos que dança solene aqueles dois toques com 40 anos de prática. Todos dão o show.
Na noite de dia 12 para 13 de Junho em qualquer recanto do centro histórico, da Graça a Alfama, da Bica à Mouraria, o movimento é um corpo colectivo a descer e subir as colinas de Lisboa. Sem faltar o territorial desfile alegórico das marchas populares na Avenida, na competição renhida mas fraterna entre os não tão diferentes bairros, com as suas coreografias, adereços, altares em riste, que reforçam identidades não problemáticas, como bem quis o Estado Novo. E a encerrar o desfile, decrépito e triste como todos os mundos pirotécnicos, o fogo-de-artifício.
Bonita festa de palcos suspensos e sintetizadores estereofónicos, os verdadeiros protagonistas das canções. De arraial em arraial, a mesma dúvida existencial é-nos oferecida na cantiga mais em voga esta ano: “mas quem será, mas quem será o pai da criança? Eu sei lá sei lá!” Mais à frente uma roda de kuduro, do outro lado a música tecno ganha terreno com gente aos pulos e mão indicadora dançando sem amanhã. Os grelhadores improvisados reforçam na febra, bifana e sardinha, e a facturar. Há uns quantos indianos com perucas onde desponta uma careca de santo António. Serão funcionários da Câmara a vender a imagem do multiculturalismo da cidade?
O bom povo português que, por estes dias, descontrói o poder com toda a gente junta a desprivatizar a rua entre a “cabritinha” e as cervejas, ocupando as esquinas e as escadas com o seu sound system, a sua alegria e o seu “não quero saber”, o mesmo que comenta nas tascas a troika e os políticos - todos iguais, é só promessas e cantigas - e votam nos que lá estão.
E assim vamos, ao menos em Junho o ar é de todos.
quinta-feira, junho 16, 2011
segunda-feira, maio 23, 2011
íntimos
– Achas que somos íntimos?
- O que é a intimidade?
- Tens aí um dicionário?
- (traz o dicionário e vê a palavra) Íntimo, situado muito dentro, aquele que é cordial, particular, doméstico, do âmago. Amigo do peito. Gostava que fossemos próximos.
- Então não podes estar sempre a castrar o meu gosto de planar. Tens de abrir ao máximo a tua percepção visual. Estar disposto a tudo, a aceitar todas as contradições. Assim posso ir embora e continuas meu amigo para sempre uma vez que trocámos tudo. Eu fico a saber o que tu querias dizer mesmo que não digas. Ainda que contes muitas histórias e uses muitas referências, palavras e teorias dos outros. Sei que queres tornar tudo isso uma coisa tua, exiges a tua singularidade. Queres que as histórias dos outros e a tua versão dessa história seja a memória que fica de ti em mim. E eu deixo.
- Percebo, queres que eu cometa o erro de abrir o meu pequeno coração.
- Deves regressar a tempos preciosos, usar a linguagem dos apaixonados e da poesia. Contar coisas grandes sem a censura da piroseira, sem medo de chamar as coisas pelos nomes e expor intimidades.
- Para quê? As pessoas não ouvem. Estão obcecadas com o seu caminho, o seu precário percurso. Não ouvem. Aliás nem apetece falar, contar coisas. Vamos calando cada vez mais, para sempre. Não ouvem, ou fazem aquele ar entediado, um bocejo, um olhar distraído, a cabeça a pensar noutras coisas, no que têm para fazer, no que vão dizer a seguir. Deixa de apetecer tudo, nada intersecta com nada. Ficamos a pensar o que já pensávamos e não há partilha nenhuma.
- Tu também és assim, não ouves e mal falas de ti.
- Por exemplo, conto-te que já fui para lá das nuvens, ao país onde as coisas não têm nome, e onde não há deuses, nem homens, não há mundo, só o abismo do fundo.
- Drogas?
- Também. Conto-te que gostava de ter uma mulher que ordenhasse vacas, tenho essa fantasia. Gostava de acordar, dirigir-me à porta da minha casa no meio do campo, bocejar a coçar os tomates, olhar em frente e ver a minha mulher com uma saia branca e ancas largas a ordenhar uma vaca, a sorrir para mim e a dizer “bom dia, querido”.
festa
Estou num sétimo andar numa festa. Olho lá para baixo e penso que gostava de me atirar. Debruço-me. Recolho-me. A música estridente faz-me voltar àquela festa. A música e as vozes, misturadas, sincopadas com gargalhadas, estridentes às vezes, metálicas. Volto a debruçar-me. Lá em baixo a linha do eléctrico curva e passa debaixo de uma pequena ponte. Há um homem a caminhar e está frio. É Inverno, um daqueles meses indiferentes em que festas como esta tentam enganar a solidão. Comigo não pegou. Estou há três horas a deambular pela casa sem saber com quem falar, não me apetece fazer conversa, paralisado para dançar, enjoado para beber, sem disfarce para o mau humor. Mas não é por isso. É que a rua está mesmo a chamar-me e este momento parece-me subitamente o mais perfeito para me atirar. O momento em que ficará um silêncio pesado e dramático na casa da festa, em que as pessoas vão parar de dançar, de falar, de beber e correrão aflitas à janela depois do primeiro ter dado por isso. Vão ficar traumatizadas para sempre com a minha imagem lá em baixo, estatelado no chão, de braços abertos, como um duplo no cinema. Vão ficar para sempre com essa imagem na cabeça, a dar voltas dentro delas. Vão sentir-se vazias por não poderem ter feito nada, por não me terem convidado para pôr música no momento antes disso acontecer, por não terem aceite o meu convite na semana antes, por não terem ouvido com atenção as minhas palavras naquela conversa. Vão sentir a minha falta nas próximas festas. Depois esquecem. Debruço-me mais e já nem preciso de consolidar forças, tudo me parece excessivamente fácil: acabar tudo, assim, neste momento. Seria perfeito. Debruço-me ainda mais, a rua lá em baixo. Alguém toca o meu ombro por trás, ao de leve, e passa-me um charro, sem falar comigo, está a meio de outra conversa. Recolho a cabeça e aceito-o, com um sorriso lívido. Dou uma passa. Não olham para mim. Passou-me tudo pela cabeça. A música que está a dar agora até não é má. Vou dançar.
quarta-feira, maio 11, 2011
má onda
Os olhos de ambos cruzam-se no retrovisor e permanecem uns muito breves segundos em contacto. Naquele momento há uma agitação nas rotinas de um e de outro, uma faísca de raiva fatal e eterna atravessa a linha invisível que algures os terá dividido para sempre nas condições de vida.
domingo, maio 08, 2011
“Homenagem a Cara de Cavalo” de Hélio Oiticica

sexta-feira, maio 06, 2011
o tempo dos assassinos e a pacatez suíça
Fiquei igualmente bem impressionada com o grau de cordialidade e interesse mútuo que este formato de colóquio proporcionou. Ninguém esteve para aqui a falar e logo a fugir de encontro aos seus compromissos, todos nos ouvimos horas a fio, sugerimos, discutimos, perspectivámos. Num lugar tão inspirador, a palavra transitava de português de portugal, brasil, moçambique, cabo verde e angola para o espanhol do méxico, colômbia, venezuela, e ambos falado por suíços poliglotas e aplicados, sempre com uma harmonia e entendimento incríveis entre todos.
quinta-feira, maio 05, 2011
descrição
Ele impelia-me à vida por tantas palavras e anteriores caminhos. Então, vamos lá contar.
quarta-feira, maio 04, 2011
desconcerto
Uma semana de retiro no Monte Veritá, Ascona, Locarno, a discutir e pensar sobre violência urbana, drogas e jovens. O tráfico e o crime, de Bogotá ao Rio, da investigação criminal no México às ex-crianças soldado de Moçambique, literatura de favelas, chicas pré-pago, prostitutas transcontinentais, guerreiros urbanos, filmes amadores de luta, saudosos Pixote e Cidade de Deus, jovens guineenses não violentos, Thag life na Praia, peça de teatro sobre putas e assaltos, kuduro e outros que tais.
Neste lugar feito por naturalistas e boémios, carregado de utopias e acolhedor de refugiados, onde passaram temporadas ilustres figuras, como o anarquista Bakunini, o dadaísta Hugo Ball, o pintor Klee, Kandinsky e tantos outros, acredito que nunca terá havido tanto sangue, crime e horror juntos.
traumas da guerra
- não me parece que saibas o que é o comunismo. por isso vou-te dar uma oportunidade de provares que não és comunista e não morreres. toma esta arma, mata o teu pai e podes fugir.
O pai incentivou-o, como qualquer pai faria, deu a vida pelo filho. O miúdo obedeceu-lhe e matou-o dolorosamente.
Esgotado e perdido, a ideia de fugir não fazia sentido para ele.
Para fugir é preciso haver um lugar melhor do que aquele para ir, uma ideia de casa, lugar pacífico.
Isso pode ainda existir para alguém que mata um membro da família?
sexta-feira, abril 29, 2011
essas todas
Gostei sobretudo do facto dela não ter medo do ridículo, aquele ridículo que só existe auferido pelos outros, no vício de todos nos sentirmos no direito de julgar ou de olhar de lado. Talvez por ter uma linguagem corporal imediatamente denunciadora das tantas mulheres que a habitavam (e conseguir não encaixar em nenhuma máscara), sabia viver desde logo com essas possibilidades. Ao falar alterava totalmente a figura do seu ar infantil.
terça-feira, abril 26, 2011
adiar
As manhãs e a sua energia são promessas diariamente renovadas. Mas depois enfiamo-nos em escritórios, em salas climatizadas, de leitura e administração ou nas grandes reviravoltas da rua e suas distracções. Logo se gasta a esperança produzida pela magia da manhã.
Queria apanhar esse momento antes do desgaste que nos atinge diariamente.
Todas as noites adio pois o momento de começar o dia, não dormindo.
quinta-feira, abril 21, 2011
e foi quase ontem...
Já vem de longe a pressão da Europa
o Satee
Argentina, Angola, Marrocos
choro
Os anos que passei em Luanda foi o período mais inundado de lágrimas de sempre. Chorei tanto tanto tanto. Lágrimas sempre grossas e convictas. Chorei para lá do razoável. Ou eram problemas amorosos, ou problemas do trabalho, ou salários em preocupado atraso, ou questões burocráticas incompreensíveis, ou a luz que desaparecia meses, ou fugiam-me as perspectivas, invadida por nostalgias antigas, ou a agressividade toda da rua acumulava na falta de conforto - silêncio - da casa agitada onde vivia.
Luanda deixa-me vulnerável a tal ponto que a última vez que lá estive a minha voz sumiu por completo quando perdi o avião de volta para o Brasil.
Aquela cidade provoca o descontrolo persistente.
Por outro lado, acorda-nos forças das quais não nos sabíamos capazes...
Não lido bem com a irracionalidade, não me sei defender dela.
Quando tudo nos ultrapassa e o sistema nervoso não se aguenta àquele ritmo e lógica muito próprios, só nos resta chorar. Menina mimada em terra de duros, tanta gente resistente que já viveu horrores sem nunca se queixar.
Fatalismo à portuguesa, diziam-me.
Lembro-me de ir ler poesia para a Ilha e aquelas palavras doces não pareciam jamais ter existido quando via florescer um mundo de desprezo pelo cidadão. Ou parecer-me patético exigir aos alunos uma subjectividade que eles não poderiam ter nas suas condições de vida.
Não me lembro de ter chorado depois dessa experiência, nem me acontecia muito antes de ir para Luanda.
Uma vez um rapaz viu-me a chorar no meio da rua, na Mutamba. Reparou nessa rara e inusitada entrega à fragilidade. Transtornou-o. Tocou-lhe a exposição. Aquilo, ali, onde todos têm de ser fortes e survivers, tornara-se belo e não triste.
Veio ter comigo e elogiou francamente o meu choro.
Foi o suficiente para conceder ao desespero perante a vida que me ocorria nessa altura o direito universal a sucumbir...
quarta-feira, abril 20, 2011
ainda me acontece
o X no meu coração
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terça-feira, abril 19, 2011
os conjuges em Macau
- Aqui rola mais dinheiro no jogo do que nos Estados Unidos inteiros.- exagera um português rendido à adrenalina macaense.
Os tubarões da terra tentavam introduzir o rapaz recém-chegado aos favores sexuais... pagos por eles.
- Não sais daqui sem levar uma massagem nas virilhas! – aliciam-no.
No jantar antes desse momento, com as esposas, eram óbvias as conveniências das relações. A esposa número 1 lembrou:
- Estive 15 dias em Luanda, as pessoas são tão queridas, podem ser pobres mas muito simpáticas. Não sei como vivem naquele musseque com tanto dinheiro e diamantes...
Está há mais de 20 anos em Macau e continua a falar com as empregadas filipinas com o paternalismo-salvaguarda do estatuto senhorial. O esposo é obcecado com a boa vida e todo o tipo de amoralidades, repetindo o lema epicurista: “divirtamo-nos”.
A esposa número 2 faz voluntariado num orfanato e, a propósito de Luanda, lembra-se de contar com voz fininha e sempre à beira do riso, uma sensação excitante:
- Eu uma vez fui a uma festa africana em Lisboa, nem queria acreditar, convidaram-me para dançar e eu muito inocente lá fui. Ai meus deus. Consegui sentir tudo, aquilo foi estranhíssimo. Voltei para casa e disse à minha mãe!
O marido, pessoa bastante inteligente, um operativo encantado com a energia e facilidade de fazer dinheiro em Macau ("o dinheiro do jogo favorece a qualidade de vida da comunidade", é a sua teoria), quase a despreza, despedindo-se com um seco “adeus” sem a olhar. Os homens vão para a noite e obviamente elas vão para casa. Por isso quando a esposa nº 2 aparece imprevisivelmente no bar não é sem desprezo que a recebe e não lhe dirige palavra. Estranho mundo das aparências, ninguém se incomoda com as vidas paralelas e desconectadas, isso faz parte das terras das oportunidades.
Terra Prometida

inútil dizer: o deserto é rosto afogueado de mulher iminência de revelação constelada apocalipse imenso do braseiro; o deserto é ar e areia ar e areia quente e seco;
para lá das areias do Kalahari crescem as árvores brancas: marula, terebinto, espinheiro, imbondeiro - depois da encosta ardente surgem os limites do purgatório
Joanesburgo!
cidade erguida fora do constrangimento terráquio espelho e planalto de luz alterada; atrás das colunas dos geradores eléctricos brancas fábricas torres chaminés lançam-se ao assalto do céu cuspindo labaredas que explodem no azul: ur-tambores de morte…
é o inferno sem Deus
Deus o bureau da Segurança do Estado Deus de capacete e pasta cheia de ouro e acções selada presa a um braço e no ouro braço o chicote Deus erecto em toda a sua lustrosa glória sobre dorsos de negros imersos no pó
uma granada!
corações vermelhos hão-de rebentar e levar esta sarça ao fogo (convem tirar os sapatos e rastejar sem deixar marcas…)
Enquanto Houver Água na Água e outros poemas, de Breyten Breytenbach tradução de Mário Cesariny, D.Quixote, 1979
terça-feira, abril 12, 2011
solidão
Esta é uma característica surpreendente nas pessoas sós. Se se pensa que a solidão destreina a astúcia de falar, não, os solitários aproveitam o interlocutor para se compreenderem, ao ouvir a sua própria voz e matarem saudades de falar. Com a confirmação exterior, o discurso é hiperbolizado e impetuoso, numa auto-comiseração.

