quarta-feira, fevereiro 29, 2012

a vida selvagem

Um grupo de springbocks com os seus rabos saltitantes e cornos triangulares, pululam nas estradas como se a vida fosse um parque de diversões. Acolá uma girafa esguia de beleza rumina ervas, é paciente e pensa longe. O pachorrento rinoceronte atravessa a paisagem sem pedir licença, directamente de um quadro do Dali. Os impalas são umas marias-vai-com-as-outras e dão-se bem com todos os animais. As zebras entrelaçam o pescoço nas listras aos beijinhos, desafiando o fim e o princípio das relações. Felinos nem vê-los. Seguimos os contornos dos arbustros, temos de estar vigilantes.

sociedade laica

- Qual é a sua graça? - perguntou ele.
- Maria Imaculada dos Santos.

ele há coisas...

Nunca pensei gostar de um rapaz que estudasse matemática assim como nunca pensei trabalhar literalmente com palhaços.

calar

Calou tudo o que tinha estado intensamente a pensar e a formular ardentemente durante mais uma noite branca. Queria partilhar para deixar de ser uma tragédia interior e fosse, vá lá, apenas um problema. Seria para dizer tudo de atacado, explicadinho e vomitado logo ao pequeno-almoço. Era preciso pôr ordem naquela dor que crescia dentro dela, e fazia desse vazio um poço sem fim de vazios maiores, onde nem a água reflectia rosto algum. Uma angústia funda se apoderava dos seus piores pesadelos, ausência de algo fundamental, simples e vívido, universalmente experimentado, que transforma tudo. Mas quando acordou calou com aqueles silêncios pequeninos que se matam uns aos outros.

meu coração vagabundo

contrai-se ritmicamente para obrigar o sangue a percorrer o corpo. Lá está ele em forma de cone, com a sua dimensão de um punho cerrado, escondido no tórax, por trás do esterno, acima do diafragma e entre os dois pulmões, a garantir-me que a vida aconteça.

genet

Repare nos nossos gestos. Não passam de braços decepados dos nossos rituais destruídos, sepultos pela fadiga e pelo tempo.

outra coisa que dizem as revistas

A afeição é uma troca desinteressada que não deve almejar a segurança, protecção ou fuga da solidão.

dificuldade

Deixar que uma obsessão nos persiga reforça a necessidade de tornar a vida inventiva.

coisas que se lêem em revista estúpidas e que eu não devia reproduzir

O idealismo feminino tende a ser mais sobre como os indivíduos se relacionam uns com os outros. O idealismo masculino tende a ser mais sobre como o indivíduo deve encaixar nas grandes teorias sobre o mundo.

quarta-feira, janeiro 25, 2012

adquirir propriedade

Naqueles breves minutos passou-lhe pela cabeça tudo o que podia fazer com o dinheiro que perdia, suores velozes, o mundo a desabar naquele pequeno crash financeiro.

ideia de comunismo

igualitarismo, voluntarismo, confiança no povo e temor.

festa de cientistas sociais

fumam ganzas e falam sobre o espaço público e a nacionalização da banca.

o olhar desvia-se-me para fora: as poças de chuva na calçada portuguesa e o riso perverso da noite.

melancolia

como posso superar esta coisa grudada, asquerosamente cultural?

leva-se a sério

e continua a recusar sempre minha amizade no FB porque não quer ser um entre mil.

saltar o carro

momento Merly Streep nas Pontes de Madison: agarra convicta o fecho da porta para saltar para outro carro e viver a sua grande paixão.

não consegue, o medo e a culpa tolhem-na.

deixar a sua rotina de filhos e homem enfastioso é uma traição ao social, não saltar é uma traição a si própria.

perante isso, quantas mulheres nesse momento saltaram do carro?

já começa ser um clássico

ela: uma improvável mistura de beleza, inteligência e liberdade; o namorado: um tótó desarticulado, autoritário e de horizontes curtos.

quinta-feira, janeiro 12, 2012

bons adjetivos

O rapaz era um píncaro com olheiras tunisinas, e já vivera em zonas de frio pérfido.

métodos estalinistas

O activista levou 24 pontos no hospital do aeroporto de orly, entre outras coisas, por constar em fotografia colectiva numa vigília pelos presos políticos, da qual se espalhou a versão que fora organizada por malfeitores à pátria que só querem vender armas e destabilizar o país.

convictamente sem rede

Estava no café desesperada para falar ao telefone e o empregado parou de limpar a janela e disse cheio de pachorra:
- Isto é uma casa muito antiga, as paredes são grossas e não deixam entrar a rede. É de propósito para não ouvirmos a conversa dos outros.

de como as pessoas se continuam nas outras...

Os propósitos diferem, assim como as formas de acção, o contexto e a mundividência em que vivemos. Varia o grau de conservadorismo e de esperança do tempo histórico e meio.
Foi o tempo que nos coube e não aquele que escolhemos.
Falaremos sempre a linguagem de hoje, apesar dos “nossos ídolos ainda serem os mesmos”.
Sempre diferente sim, mas o contínuo de risco e vontades que tudo atravessa é poderoso.

segurança

inutilidade praticada por pessoas treinadas na escola da violência ao serviço da suposta não-violência que protege a propriedade privada.

sábado, janeiro 07, 2012

uma decisão

formada e pronta, fundida, arrefecida, martelada e moldada como uma lança.

quarta-feira, janeiro 04, 2012

cavalheirismo

O cavalheiro serve o vinho com prontidão, recua meio passo para eu passar primeiro, na rua estreita, no carro, no elevador, em qualquer porta. Pergunta que tipo de restaurante me apetece e adequa-se a tudo o que quero comer e beber. Na sua irrepreensível competência de anfitrião mostra os monumentos da cidade com as devidas informações no momento oportuno. Até a conversa mais fluída ele sabe resolver, dando a deixa para o assunto seguinte. Depois come o entrecôte com delicadeza e fala da mostarda e do queijo típico, ou de epopeias e géneros literários mortos. De facto o cavalheireismo é um aliado bem cheiroso do machismo.

quinta-feira, dezembro 29, 2011

estado de tese

queixou-se da sua mulher, que estava em estado de tese:
- Pior que gravidez, quando o desleixo se apodera dos dias proporcionalmente ao grau de concentração. Cigarros e noites brancas, discussões à beira de um ataque de nervos, nada fundamentais, há que dizê-lo, ao nível da importância da pestana do eça de queirós.

arrepia

o pensamento mole que preside aos destinos culturais do mundo. para não falar dos outros...

letargia

Um remexer dentro da cabeça. Uma vida demasiado preenchida, por opções tomadas e nunca fatalidade. Uma vida de encaixar tudo nos eixos de acordo com a suspeita exigida.
Era portanto a hora [nunca é a hora]. Pairava sobre a cidade um ar morno de nostalgia, apesar de uma constantemente emperrada tentativa de futuro. Era duro parar, ainda mais não ter motivos para agir. Havia quem perpetuasse a digna arte de nada fazer, de não respirar influências, de não ter que se justificar; secretas poses para um filme interior, para uma certeza a desenvolver que era cada vez menos certa e menos causadora de conflitos exteriores.
Cada um com os seus cansaços e as suas justificações, condensados numa estranha letargia, onde nada se passa e tudo circula com a maior pretensão de intensidade. Um olhar de vício, uns olhos de água por detrás das mãos. Esconder a cara, não há tempo para dores.
Connosco qualquer coisa de diferente, que inverta esta lógica absurda em que o funcional não nos deixa perceber os mecanismos. A máquina infernal é a primeira a intrometer-se nas mais profundas aspirações e ficamos a sentir de mansinho o desejo de dormir...

olhos dos apaixonados

– Estávamos numa casa sem portas, apenas chão, tecto e campo à volta. Pessoas bêbedas e dementes riam, gritavam, dançavam descalças em transe. Ela deitada no chão duro, eu em sossego. E as nossas mãos procuraram tudo o que havia para inspeccionar, assim nos corpos.
- Sim, sim, estou a ver.
- Fazia calma ali, dentro do alvoroço em volta. Ela queria dar tudo mas tudo não se dá, de manhã estaríamos juntos na pose habitual e a proximidade seria distância, seria suja, seria quase comiseração. O amor é outra coisa, o contrário do medo, digo.
- Era gira, a gaja?
- Não é isso.
- Infelizmente, vários sentimentos envelheceram, o amor não é excepção. Encontra-se enfastiado, dengoso, insuficiente. As nossas fantasias sexuais são tão aborrecidas como um filme pornográfico de baixo orçamento. Falta-nos imaginação!
- Paixão, descontrolo da razão, olhar que hipnotiza, mãos que se tocam com magia, ser mais espirituoso, procurar relações entre as coisas que só os olhos apaixonados vêem, ter olhos para ver as coisas apaixonadas, crescer nessa exigência. No Banquete diz-se que o deus do amor herdara “o mesmo espírito ardiloso em procura do que é belo e bom, a mesma coragem, persistência e ousadia que fazem dele o caçador temível, sempre ocupado em tecer qualquer armadilha; sedento de saber e inventivo”.
- Mas hoje em dia, meu caro amigo, os voos são rasteiros, até mesmo ridículos, têm como piloto um ritual social neurótico, são perseguidos pelo incansável pirata do espaço: o vírus da solidão, e normalmente, em vez de estimular a criatividade, estupidificam. Platão está desactualizado.
- Achas que é impossível viver sempre intensamente?
- Amanhã já não vamos estar aqui, amanhã estas cadeiras estarão vazias e mantêm apenas a forma e o calor dos nossos corpos por uns minutos. Uns meros minutos. Prontas para o próximo.

terça-feira, dezembro 13, 2011

romance de supermercado

Foi no corredor dos detergentes - que cruza o dos laticínios e separa o das bebidas do dos pensos higiénicos – onde se viram pela primeira vez. A loura redondinha e o mestiço de bigode ralo. Um tão inesperado encontro mudaria as vidas destes solitários que passeavam no hipermercado lançando um ar indignado com os preços para simular o engate: quando Elisabete deixa cair o skip e Lauro escorrega no perfumado pó branco. Este acidente fá-lo torcer um pé às mãos dela, e ela, a excêntrica loura com ares de actriz de série z, encosta o redondo peito à cara do acidentado.
Olhos mesquinhamente curiosos rodeiam os apaixonados, enquanto os próprios, estendidos no chão, o mesmo chão onde um patinador desmaiou de cansaço, se acarinham loucamente e fazem chover propostas: casa, na sua ou na minha, curo-lhe o pé com uma ligadura, faço-lhe o jantar, venha, venha.
Lauro levanta-se e pede uma mão, Eli repõe as batatas fritas light na prateleira errada e agarra-o com força, como se esperasse há muito por este homem. Depois avançam contentes e coxos por entre os congelados, saem altivos pela caixa das 15 unidades e nem ligam aos alarmes que tocam frenéticos assinalando o bonito romance.

as meninas fúteis

Carla, a miúda do subúrbio, do café do subúrbio, baixa, de cabelos negros, olhos pequeninos e rabo grande. Repara desinteressadamente nas unhas. O cigarro e o cimento das varandas andam a par, e nisto julga-se trágica. Atenta numa garagem, por detrás de prédios iguais, os sonhos fugazes que a rodeiam.
A miúda do subúrbio lembra-se de quando a levavam a passear ao parquezinho infantil, no meio dos tubos de escape, de um quadrado-jardim feito à pressão para meninos como ela brincarem com emoção retemperada. O seu pequeno contentamento quando, depois de outro menino se abeirar para lhe cuspir cinicamente, respondia com a boçalidade aprendida em casa e para que nunca mais ninguém se risse da sua cara.
Eram os tempos despreocupados, nem o totoloto nem o subsídio de férias a faziam suspirar.
Já Benedita tinha ido àquela zona mas não era de lá. As mãos ainda lhe cheiravam a comboio e experimentava a pegajosa e claustrofóbica sensação que os prédios e os senhores de fato de treino de domingo com carros a serem lavados lhe atiravam à cara, como dizendo: "a tua sensibilidade não cabe aqui."
Benedita observava Carla com desdém, desconhecendo que era tão pequena como ela, iludida em festas de pessoas vistosas e fantasias de namorados com olhares galantes de nenhuma espessura.
Para Benedita os dias passavam entre a conspiração privada do seu sucesso num mundo com exigências de superficialidade.
As duas meninas cruzaram olhares no café e nem farejaram a solidão uma da outra, tal era a distância dos códigos sociais. E já sabemos como ninguém perde tempo a desconstruir essa tanta coisa que se coloca antes do ser-se pessoa.
A Carla esperava o Tony para um passeio ao centro comercial, a Benedita dispensava aquele subúrbio da sua vida, estava perdida e destoava no café, a mulher-a-dias nunca mais chegava, telefonava angustiosa à mãe a quem avisava que nunca mais voltaria àquele lugar omisso às conversas giras.
Carla pergunta: “olha lá, tens um cigarro?” Benedita nem sorri, dá o cigarro com o mesmo desprezo de 10 cêntimos a um mendigo. Desaparece.
É perseguida por um tarado que lhe mostra o sexo, quase ao pé da estação.

segunda-feira, dezembro 05, 2011

ficar mais velho

é tornar-se céptico e descredibilizar o entusiasmo dos outros, por ressabianço ou ignorância. Denegrir a poesia, o riso desgarrado, a incongruência, como um filme que em tempos já se gostou e devorou e agora é apenas a recordação distante de si mesmo. A opção de renegar esse passado quando fazia da vida um desejo, é ditada pela insustentabilidade balofa que é o seu presente, defendendo veementemente – como quem se convence a si mesmo - as vantagens de uma vida estável, sem riscos e radiante de saúde.
O comodismo torna pesarosa a sua companhia, e o lado reacionário aquiesce à miséria.

quarta-feira, outubro 19, 2011

um rosto

tão nítido, quase desprovido da misteriosa fraqueza dos rostos humanos.

tenham muito medo

pois um borrão de cigarro pode incendiar uma savana.

lições

À troglodita condescendência do superior que insiste em dar algo que sabe ser fundamental ao subordinado pobre, a resposta altiva daquele que, por mais que lhe custe, diz orgulhamente que não.

isto anda tudo zangado

- Este é o pior de todos desde o 25 de abril. Nunca nos foram ao subsídio de natal e de férias, essa é que é essa. Aldrabão, fascista! - queixava-se a senhora no auge das suas grandes verdades proletárias, antes de entrar na enumeração raivosa de aspectos sombrios da biografia do PM.

Na mesa ao lado o livro que eu lia às tantas devolveu-me a palavra de ordem leninista “quanto pior melhor”.

quarta-feira, outubro 05, 2011

ruínas melancólicas

Sombras de bailarinas nos romances.

homens a fazer um país

Cada um tinha uma ideia própria de que país queria fazer: um só desejava ser guarda da prisão e vingativo, outro queria mudar o mundo. Os revolucionários mostravam-se desequilibrados e com tendências para despotismos. O mestiço tinha vergonha da mãe preta que só saía do quintal para fazer os filhos. Muitos casaram com brancas, trazendo uma soviética às costas. Racismos vieram ainda mais ao de cima. Um problema fundo e triste atravessava o país que nascia.

doutoranda

Ele olhou meio confuso para aquela rapariga que lhe acabara de contar que estava a fazer doutoramento sobre a sociabilidade dos jovens da periferia. Achava muito estranho que pagassem a alguém para fazer assim uma coisa com tão pomposo nome sobre a malta lá do bairro e de como falavam e se davam entre si.

paralisia

baralhação, às vezes pânico, por excesso de afazeres.

agora falta o resto

Agradava-lhe a possibilidade de escrever porque era fascinante como a vida corria assim explicada, organizada na sua desordem crónica… até os sentimentos, hesitações e os deboches ganhavam em complexidade e novas formas de pronunciar-se e, portanto, adquiriam uma nobreza qualquer ao aflorarem por essa via. Tudo se configurava possível de articular-se, as coisas estrambólicas que lhe passavam pela cabeça até à vida dos outros, melindrosa e desinteressante de saber mas curiosa e auspiciosa de contar.


“e assumiu a tristeza para reclamar a esperança”

É preciso saber que a nossa metade cheia do copo será sempre a metade vazia para alguém que nos é próximo. Aceitar que nessas mundivisões afastadas nunca nos reconciliaremos totalmente. E porque as coisas que ia calando se transformavam em pássaros demoníacos e ninguém suspeita necessariamente do temor que por vezes o silêncio esconde.

sábado, setembro 10, 2011

imagem

A mulher a comer ameixa e uma mosca a rondá-la.

love calls you by your name

Tudo começou no sofá, entre carícias. Eram as nuvens carregadas que assombravam os sete andares por cima do nosso, era uma mão por dentro da outra e o tom waits a cantar-nos ao ouvido as suas máquinas de ossos. Parecia que este mundo era bem melhor do que o outro. E depois veio a frase. Palavras desadequadas a querer inscrever o tempo quando os relógios param. A lembrar, somos estranhos, não conseguimos, nunca esquecemos, passados e futuros pesam, somos estrangeiros um e outro, um no outro. Veio a frase da estranheza, não troquei o teu nome - um lapso indesculpável entre amantes - foi frase ainda pior, uma falha na linguagem fundamental, para sempre a esquartejar a confiança. Um disparate este hábito da língua articular palavras e a sua falta de ponderação crónica. A frase que afasta, quebra o elo da ilusão, lembra o artifício escondido nas subtilezas.

Tinhas de vir com as palavras. Desculpa, é protecção, é vontade de nomear e dar a notícia ao mundo. Para quê se o mundo agora não interessa nada, só eu, tu e aqui. Falta de pontaria, não devia. I don’wanna, I don’t think so.

E tu disseste: o que é que isso interessa. E eu disse: nada. E passámos juntos um calendário no sofá apertado para quatro pernas.

Do sofá para a vida foi um instante. Vieram caixotes cheios de livros e cds, veio a ocupação disfarçada de bons modos que começaram rapidamente a ser ecos de outros tempos. A máquina de lavar roupa que é preciso estender depois, a cama a aquecer rápido, o diálogo a ganhar ao monólogo, as depressões a alternar com a euforia, o jogo de brincar aos casais, aos adultos. Bateram umas quantas portas no auge das discussões, o tom waits calou-se dentro da sua própria cabeça, às mensagens poéticas e arrulhos via telemóvel sucederam-se combinações a despachar, mas tudo se tornou tranquilo apesar da aparente desordem. Ainda há o calor de um copo de vinho tinto no jantar de tabuleiro ao som do portugal-camarões. E o rosto agitado com as oscilações dos dias e as idas ao café à hora de almoço quando não há mesa.

[Queria uma casa sem recheio, sem obstáculos a distraírem-nos do que nos levou ali aos dois.]

Agora sem pressa, de outra maneira, contigo aqui ao lado, mesmo ao lado íntimo. Sentamo-nos em tantos sofás alheios mas nenhum será como o primeiro, o do coração aberto, quase piroso nas revelações que guarda. Classe média e barriga de bem-estar, foi já grito de iniciação e de intempérie.

terça-feira, agosto 30, 2011

tempo morto

Gosto de reencontrar coisas guardadas tantos anos em garagens alheias e revê-las como uma surpresa - não é só o relembrar os objectos, são as várias identidades que vamos sendo e se compõem e decompõem. Neste mini apartamento, com luz a furar as janelas altas onde chegam vozes algarvias alternadas com os repuxos rega, os dias não trazem mais preocupações senão apetites, criatividades de projectos futuros e diagnósticos dos passados recentes. Fosse assim possível um instrumento de refocagem...

mudam-se os tempos

Leio no jornal uma cronista fazer o diagnóstico das mudanças súbitas: há tão poucos anos a Europa era ainda um clube restrito, a revolução tecnológica não tinha começado, o planeta não estava ameaçado, os recursos energéticos eram suficientes, a emigração era culturalmente hegemónica, o mundo muçulmano não suscitava desconfiança, a expressão económica do pós-guerra consolidava-se, a democracia e a paz europeia também. A descrição destas transformações e acelerações num ápice de sessenta anos, contrasta com uma tão antiga história da Humanidade.
É só ligar a tv que em 5 minutos o mundo desfilará em continuidade de horror : vaga de calor na Europa do leste mata uma data de idosos, bombista suicida num hotel em Bagdad, jornalista da BBC refém do Hamas, inauguração de um museu em Belém com um bimbo à frente, etc... notícias de verões passados transladadas para outros, quase idênticos.

domingo, agosto 28, 2011

na praia

Na praia uma trinca na sandes de carne assada, depois de pôr a pastilha cor-de-laranja de parte, como manda a sequencialidade dos gestos. Leio um conto do Calvino dos Amores Difíceis, a estória da mulher de biquini e o seu incómodo com o corpo quando, ao nadar, o perde. Olho o mar ao fundo e imagino ficar horas por lá na aflição da vergonha, o drama pessoal de lidar com os medos e outro ainda maior de revelá-los aos olhares alheios. No entanto, mal regresso à realidade agitada da areia, a visão de ti, de papo para o ar e pernil ao sol, faz perder ligeiramente a gravidade da narrativa.

quarta-feira, agosto 24, 2011

fala


O homem da caverna utilizava as mãos nas primeiras tentativas de talhar a pedra, exercia um esforço de abstracção, trabalhava mentalmente, na sua rudeza: a mão, comandada por essa mente obscura, provocou o aparecimento da linguagem. A linguagem classifica o sujeito que fala, individualmente antes de socialmente. Calar os gestos na difícil formulação de palavras para encaixar histórias, parece fastio pela vida. Afinal o que é preciso é convicção no dizer. Sem isso a nossa voz terá a importância de uma casca de tremoço.

desenho de Tiago Lança

não ter medo

e abraçar o conflito entre pessoas vivas e um estado de coisas petrificado.

eu aqui a rir

onde me conheço, onde me deixo pender para a terra. Nesse movimento tudo se converte numa estranha letargia, onde nada se passa e tudo circula com a maior pretensão de intensidade.

domingo, agosto 21, 2011

mal-entendido

É triste quando, numa conversa, perdemos mais tempo a explicar aquilo que não se disse do que aquilo que realmente se quer dizer.

autocarro

Hoje chove e parece dia dos namorados. As pessoas andam aos pares e algumas mulheres levam rosas vermelhas na mão. Turistas, lisboetas, famílias, o par é a regra. Um rapaz caminha sozinho, dá pontapés nas pedras do chão. É meio trapalhão e tropeça. Apanha um autocarro sem ver o número. Os olhos presos no chão e uma música no ipod lembra uma história antiga. Demasiada gente naquele autocarro de verão. O espaço é apertado e as mãos movimentam-se sem se tocarem, com cuidado para não tocar, para não ser tocado, para não se ser ofendido no toque. Tenta não ofender ninguém mas tem vontade de ordenar à bruta que todos saiam e fazer do autocarro uma zona libertada. ficar ali só com a música e uma brisa confortável. O calor sufoca e ninguém se move para não tocar. Um suspiro sacode o ar muito pesado. Uma mulher ali na retaguarda, com os lábios muito pintados e os olhos a revirarem-se, cai, desmaia, quase falece. É uma senhora de idade, as quedas têm certas idades. É preciso socorrê-la, afastar uns dos outros, metade do autocarro ficar mais comprimida, apertada até aos ossos. Uma criança chora, o rapaz concentra-se na criança, nos ouvidos a música até ia bem com um riot num subúrbio qualquer. Os dedos do rapaz inquietam-se no varão do autocarro.

espontâneo

As palavras sussurradas podem ser tão espontâneas que duvidamos logo se alguma vez as dissemos.

sábado, agosto 20, 2011

como tal

É preciso ter força para lidar com esse horizonte de expectativas incertas e contingentes e participar daquilo que ainda não foi transformado.

urgência

Devoram tudo como mizzebill, a praga de gafanhotos esfaimados, a calamidade insuportável, o cataclismo ambulante.

sexta-feira, agosto 19, 2011

afagos

Nas mesas dos que ficam em Lisboa em agosto a resmunguice dos velhos habituais coexiste com famílias sorridentes em pose de campismo às quais se junta um vizinho, o namorado da filha calado e respeitador, denunciado pelo sorriso preso, e a mulher com rugas que contornam os lábios por ter tirado o buço vezes demais. Os homens da mesa, tanto o do casal mais velho como o mais novo, vai não vai, dão umas palmadinhas condescendentes nas costas das suas mulheres. E a vida sorri.

solidão

Vejo uma mulher com sobrancelhas arranjadas e bolsa de marca, sabrinas e corsário branco, a vadiar sozinha pelo jardim da parada, em Campo de Ourique, à hora dura de jantar. Deu várias voltas ao jardim e espreitou atentamente para todas as esquinas e cafés na esperança de encontrar o amor ou a compaixão de si própria.

quinta-feira, agosto 18, 2011

estranhas cumplicidades

Há noites que quase derrubam o nosso frágil dominó de lucidez. Vivem de momentos de transe pela repetição, pelo absurdo de se arrastar o nada até ao limite. Encontra-se cumplicidade com desconhecidos e, em situações particulares, fica-se dependente deles estabelecendo-se um silencioso e imprescindível pacto.

quinta-feira, agosto 04, 2011

quarta-feira, julho 13, 2011

amigos

Dizia orgulhosa da propriedade: “os meus amigos”, reforçando as regras de aliança, filiação, residência ou perpetuação das populações que há no parentesco, num desejo genuino de manifestar o amor crescente à medida que iam sendo pessoas. É que gostava mesmo dos amigos de sempre, reunidos à volta de mesas de matraquilhos ou "naquele bar", a falar dos mesmos assuntos e a calar com os mesmos silêncios. Mas também dos novos amigos que vão aparecendo a tentar, mais ou menos arrogantemente, acordar esta gente orientada para um desinteressante vazio.

festival de músicas do mundo

Leveza de férias com música que pretende exprimir questões identitárias e tensões do mundo inteiro - e de que forma inclusiva, pois tudo é música deste mundo e não do outro! Por ali andamos aos encontrões amparados nas vibrações musicais que provocam epifanias. Um ser woodstoquiano dança na praia ao amanhecer, um pouco afastado das restantes 10 mil pessoas que fazem dos seus pés a base do céu. As longas horas anti-tédio resguardam-nos de qualquer violência. Abraçados uns aos outros, uma tristeza range baixinho nos telhados com palmeiras por perto. Prescindimos de culpas exteriores a nós, e dos medos pequeninos. Levamos o verão até às últimas consequências, e o riso entra nas sobranceiras e faz abrir a cara totalmente. A alegria possível.

segunda-feira, julho 11, 2011

estranhas adivinhações

Tinha desaparecido dinheiro na nossa casa, e a Jurema insistiu comigo para irmos ao adivinho (ou adivinhador?). Resmunguei que obviamente não acreditava nessas coisas, e o dinheiro desaparecido era apenas uma coisa muito concreta: tudo aquilo que eu não posso comprar porque esse dinheiro desapareceu. E, depois, à partida consigo perceber logo quem está a mentir quando confrontar as pessoas implicadas. Mas ela respondeu, passa tanta gente na tua casa, nem sequer podes encostar as pessoas todas, que vão ficar chateadas, tens de ter mais pistas. Acedi, até porque gostava de conhecer esse Professor Sheik Youssouf, com tantos super-poderes para atacar o prejuizo e curar coisas tão fáceis como diabetes, hipertensão, cancro, impotência sexual, pneumonia, paixões obcessivas, anemia e problemas espirituais, além de dar aulas de árabe, swahili. xadrez e adivinhar, não o futuro, mas o que já aconteceu. O futuro repousa dentro do tronco da mulemba e todos temos uma cegueira necessária para não o ver, a não ser de vez em quando, quando nos chega em sonhos e depois estamos a viver o que sonhámos e nos arrepiamos com o déjà vu. Explicou-me a Jurema que, além de consultar adivinhos, também frequentava a igreja universal do reino de deus, tudo maneiras de limpar a alma de problemas e sentir a comunhão do amor universal.
Então ela lá me arrastou nos seus saltos altos prateados, saia cor-de-rosa e uns enormes brincos redondos que acompanhavam as tranças rentinho à cabeça. Entrámos, era uma casa bastante atravancada no bairro da Samba. Um homem alto, olhar profundo e corpo volumoso, com um boubou que vinha até aos joelhos, recebeu-nos com um ar meio enfadado. Sentámos as duas à sua frente. Perguntou a natureza do sucedido. Eu disse com voz grave: “desapareceu muito dinheiro do meu quarto!”. Não queria condicionar a sua adivinhação por isso nem manifestei nenhuma das minhas suspeitas. Ele perguntou os nomes de toda a gente que vivia ou tinha passado lá por casa. E eu senti o arrepio traidor de estar para ali a denunciar gente amiga, a grande miséria da vida de um bufo.
A operação era bastante simples: o professor friccionava uma vara no muxakatu, pedaço de madeira talhado com várias ranhuras, enquanto perguntava caso a caso se tinha sido aquela determinada pessoa. Mas os búzios remeteram-se ao silêncio inerte perante uma voz cada vez mais autoritária. O Professor Sheik já estava a ficar meio aborrecido pois aparentemente não fora ninguém, quando resolveu fazer uma segunda rodada mas sem atentar à minha memória. E eu que desconfiava de X, fiquei a ver o episódio noutra perspectiva. Nesse dia tinha lá ido uma estranha visita, de facto, e de repente tive o flash de uma mão rápida, que na altura não relacionei com qualquer gesto excepcional, nem vira nada passível de se tirar. Então o adivinho lançou-me sem escrúpulos a 1ª letra do nome do dono dessa mão. Uma só letra, era tudo o conseguia. Saímos de lá, a Jurema contente com a capacidade adivinhatória do Professor Sheik, reconciliada com as suas crenças mais profundas, ainda que só tivesse adivinhado uma letra, e eu perturbada com o peso dessa insuspeita e incómoda letra. Preferia não saber, a verdade é também uma dúvida perpétua.

futuro

É normal que não se saiba envelhecer:
que fazer da vida sem a inquietação do futuro
como preenchê-la sem projectos e vontades não cumpridas
e as outras que irrompem no acontecimento.
sem a fome que ainda nos faz acordar numa pensão ao lado de casa só para tocar a pele clandestina
sem questionar os poderes da biologia que do nosso corpo podem gerar outro corpo (apressar as membranas dos outros seres ainda não bem-vindos)
e os tantos medos de falhar
sem sofrer ainda por impossíveis amores e destruir amores possíveis...
ver escancarada a crueldade do mundo nas terras onde não há tapetes fofinhos nem rendimentos mínimos
sentir nos anarquistas de Atenas uma virulência convicta que mostra, a ferro e fogo, que não são os governos nem as polícias a domar as nossas vontades.
acreditar na destruição, viver no meio dela e, nas chamas dos carros ardidos, antever a esperança, o que nos une no futuro em aberto.

an-do-li-tá

Naquele funeral concentravam-se, nos homens de cabelo grisalho, alguns dos mais talentosos e persistentes escritores, jornalistas, intelectuais. A morte a escolhê-los um a um e novas configurações dos mesmos assistem aos funerais uns dos outros. Observam o acto mecânico de cobrir o caixão com terra e o rio ao fundo. Vêem a sua própria morte naquele que os tocou e se vai. E pensam: "mais um dos bons que a terra engole."
Vão embora depois de se despedirem no portão do cemitério. Um combatente a menos, e o mundo de funções e trocas, afectos calculistas e talentos de pacotilha ali ao lado.

rezinguice

Repentinamente tornara-se um velho rezingão. Critica tudo o que se lhe diz e corrige severamente qualquer inofensiva imprecisão de linguagem. Muda subitamente de humor, do entusiasmo excitado com uma coisa banal até ao desinteresse total pela mais importante notícia. Pode estar uma semana inteira sem perguntar uma única vez seja o que for para lá dos constrangimentos da sua própria vida e conforto. Numa cidade estrangeira chora durante a totalidade do espectáculo de tango para turistas. Confere o mapa a cada 5m para certificar-se onde está a ir, tendo já antecipadamente preparado o percurso. De tão auto-centrado na sua vitimização não lhe sobeja qualquer atenção para os outros. Sente a angústia da solidão mas cansa-se quando está com pessoas. Esqueceu a possibilidade de diálogo, só lhe ocorre dar brilhantes lições de História, para todos uma grande seca pela falta de dialéctica.

fantasma

A dor de amor paralizava-a e o tempo discorria sem nada a assinalar, indiferente ao mundo apesar da revisitação dos momentos intensos.
Lembrava aquela vivência ao pormenor, desde a dor física ao acordar à ansiedade de não dormir para nada perder. Uns breves dias que, na sua espessura, só lhe acordavam o temor e a extrema vida. Intermináveis dias.
Deixara-a nesse estado um homem impregnante, cínico, imprevisível e abrupto, viajante e especialista em sabres. Uma figura enigmática que nunca chegara a conhecer, afinal, mas que haveria de povoar os seus piores e melhores sonhos anos a fio.

diz o rapper...

Não consigo vender o meu cd na Fnac vou vendê-lo como crack!

quarta-feira, junho 29, 2011

verão

caracóis todos os dias, bem acompanhados. peles morenas e outras surpresas reacordam em nós. parole parole. raquetes e mar quase sempre generoso. tudo é possível. olha, é bom.

quarta-feira, junho 22, 2011

na suíça passeava

com aquela segurança e entediamento de viajar por países burgueses onde até a paisagem parece estar ali para nos confortar em vez de inquietar.

as elites em maputo

A beber chá de gengibre e vinho sul-africano, a comer matapa e tarte de maçã, falam do Coconuts e das doenças mais comuns nos subúrbios. Ao fundo os cartazes da Frelimo sempre iguais, sempre chatos. Vermelho, maçaroca, cara do presidente. Frelimo fez Frelimo faz.

belas expressões nada homofóbicas

Gosta de atracar de pôpa, acometer pela retaguarda, abafar pela palhinha.

eternos infantes

Uns suecos juntam-se para inventar canções sobre crianças de 12 anos presas num corpo de adulto. O universo onírico infantil está presente no imaginário criativo de muitos artistas que clamam o regresso à infância. Sem falar da incurável ligação endocêntrica: fazer filmes sobre amigos com amigos e os amigos a verem-se no ecrã todos na mesma sala. Será a auto-reflexividade o antídoto para adiar os momentos trágicos de crescer e participar nas misérias do mundo adulto?

terça-feira, junho 21, 2011

narrativas

Quando ela era uma miúda provocadora, irrequieta e atrevidota, achava que as raparigas mais velhas não tinham graça nenhuma, por serem caretas, cheias de ideias feitas e incapacidade de sonhar. Agora olha para as miúdas mais novas e pensa que nada sabem da vida, não conhecem a dor nem têm capacidade de ironia com tanta ingenuidade. Mesmo as carinhas larocas ainda não vincadas por qualquer sinal da idade lhe parecem um atentado à verdadeira beleza. Pois, de argumentos para se conseguir viver consigo mesmo está o inferno cheio.

máquina de fazer deveres

Ouvi, em tom de elogio, sobre uma dessas super-mulheres: "Além de cuidar dos outros ela também tem de cuidar da sua doença: quimioterapia, consultas, cremes e remédios. E ainda continua a ser mãe, divorciou-se e mudou de casa, tudo ao mesmo tempo."

Esqueceu-se de dizer que ainda arranja tempo para as pessoas a quem dá auxiílio na gestão do sofrimento devido à sua própria doença.

segunda-feira, junho 20, 2011

eu sei lá, sei lá

Já não passava a época dos santos populares em Lisboa há muito tempo. Apesar do ritual repetido (as músicas, as sardinhas, os manjericos e os bezanos ancestrais) há uma alegria nestas noites que não deixa de ser entusiamante e sempre renovada.

O Santo António traz ao de cima o que há de mais bairrista, buçal e provinciano nos lisboetas, mas também por isso mesmo, retrai qualquer coisa de muito igual que atravessa o mundo. Para perplexidade de europeus que visitam a cidade nesta altura, o castiço, a informalidade, a música pimba, os amassos, o calor, tanto humano como do outro, vingam e valem a pena. Aquelas pessoas que não se cruzam durante o resto do ano, arrumadas nos seus códigos e representações socio-culturais, frequentando espaços de acordo com critérios de meio, gostos e amigos, ali se acotevelam, sorriem, comunicam, brindam, admiram-se ironica e mutuamente. Dançam lado a lado sucessos de criativas letras como “é o bicho é o bicho”, a “cabritinha” ou a “garagem da vizinha”. As feministas dos bar dos Anos 60 fazem olhinhos aos betos de Santos, o Toni da oficina bebe do mesmo plástico do chinês da papelaria e o casal vamp partilha a calçada portuguesa com o par de barrigudos que dança solene aqueles dois toques com 40 anos de prática. Todos dão o show.

Na noite de dia 12 para 13 de Junho em qualquer recanto do centro histórico, da Graça a Alfama, da Bica à Mouraria, o movimento é um corpo colectivo a descer e subir as colinas de Lisboa. Sem faltar o territorial desfile alegórico das marchas populares na Avenida, na competição renhida mas fraterna entre os não tão diferentes bairros, com as suas coreografias, adereços, altares em riste, que reforçam identidades não problemáticas, como bem quis o Estado Novo. E a encerrar o desfile, decrépito e triste como todos os mundos pirotécnicos, o fogo-de-artifício.

Bonita festa de palcos suspensos e sintetizadores estereofónicos, os verdadeiros protagonistas das canções. De arraial em arraial, a mesma dúvida existencial é-nos oferecida na cantiga mais em voga esta ano: “mas quem será, mas quem será o pai da criança? Eu sei lá sei lá!” Mais à frente uma roda de kuduro, do outro lado a música tecno ganha terreno com gente aos pulos e mão indicadora dançando sem amanhã. Os grelhadores improvisados reforçam na febra, bifana e sardinha, e a facturar. Há uns quantos indianos com perucas onde desponta uma careca de santo António. Serão funcionários da Câmara a vender a imagem do multiculturalismo da cidade?

O bom povo português que, por estes dias, descontrói o poder com toda a gente junta a desprivatizar a rua entre a “cabritinha” e as cervejas, ocupando as esquinas e as escadas com o seu sound system, a sua alegria e o seu “não quero saber”, o mesmo que comenta nas tascas a troika e os políticos - todos iguais, é só promessas e cantigas - e votam nos que lá estão.

E assim vamos, ao menos em Junho o ar é de todos.

quinta-feira, junho 16, 2011

à janela leio o programa do governo e vejo passar 15 mariposas para um lado e depois 15 varejeiras para o outro. é verdade e a verdade é sempre uma traição.
Alberto Pimenta, a ideologia do martelo

segunda-feira, maio 23, 2011

íntimos

– Achas que somos íntimos?

- O que é a intimidade?

- Tens aí um dicionário?

- (traz o dicionário e vê a palavra) Íntimo, situado muito dentro, aquele que é cordial, particular, doméstico, do âmago. Amigo do peito. Gostava que fossemos próximos.

- Então não podes estar sempre a castrar o meu gosto de planar. Tens de abrir ao máximo a tua percepção visual. Estar disposto a tudo, a aceitar todas as contradições. Assim posso ir embora e continuas meu amigo para sempre uma vez que trocámos tudo. Eu fico a saber o que tu querias dizer mesmo que não digas. Ainda que contes muitas histórias e uses muitas referências, palavras e teorias dos outros. Sei que queres tornar tudo isso uma coisa tua, exiges a tua singularidade. Queres que as histórias dos outros e a tua versão dessa história seja a memória que fica de ti em mim. E eu deixo.

- Percebo, queres que eu cometa o erro de abrir o meu pequeno coração.

- Deves regressar a tempos preciosos, usar a linguagem dos apaixonados e da poesia. Contar coisas grandes sem a censura da piroseira, sem medo de chamar as coisas pelos nomes e expor intimidades.

- Para quê? As pessoas não ouvem. Estão obcecadas com o seu caminho, o seu precário percurso. Não ouvem. Aliás nem apetece falar, contar coisas. Vamos calando cada vez mais, para sempre. Não ouvem, ou fazem aquele ar entediado, um bocejo, um olhar distraído, a cabeça a pensar noutras coisas, no que têm para fazer, no que vão dizer a seguir. Deixa de apetecer tudo, nada intersecta com nada. Ficamos a pensar o que já pensávamos e não há partilha nenhuma.

- Tu também és assim, não ouves e mal falas de ti.

- Por exemplo, conto-te que já fui para lá das nuvens, ao país onde as coisas não têm nome, e onde não há deuses, nem homens, não há mundo, só o abismo do fundo.

- Drogas?

- Também. Conto-te que gostava de ter uma mulher que ordenhasse vacas, tenho essa fantasia. Gostava de acordar, dirigir-me à porta da minha casa no meio do campo, bocejar a coçar os tomates, olhar em frente e ver a minha mulher com uma saia branca e ancas largas a ordenhar uma vaca, a sorrir para mim e a dizer “bom dia, querido”.

festa

Estou num sétimo andar numa festa. Olho lá para baixo e penso que gostava de me atirar. Debruço-me. Recolho-me. A música estridente faz-me voltar àquela festa. A música e as vozes, misturadas, sincopadas com gargalhadas, estridentes às vezes, metálicas. Volto a debruçar-me. Lá em baixo a linha do eléctrico curva e passa debaixo de uma pequena ponte. Há um homem a caminhar e está frio. É Inverno, um daqueles meses indiferentes em que festas como esta tentam enganar a solidão. Comigo não pegou. Estou há três horas a deambular pela casa sem saber com quem falar, não me apetece fazer conversa, paralisado para dançar, enjoado para beber, sem disfarce para o mau humor. Mas não é por isso. É que a rua está mesmo a chamar-me e este momento parece-me subitamente o mais perfeito para me atirar. O momento em que ficará um silêncio pesado e dramático na casa da festa, em que as pessoas vão parar de dançar, de falar, de beber e correrão aflitas à janela depois do primeiro ter dado por isso. Vão ficar traumatizadas para sempre com a minha imagem lá em baixo, estatelado no chão, de braços abertos, como um duplo no cinema. Vão ficar para sempre com essa imagem na cabeça, a dar voltas dentro delas. Vão sentir-se vazias por não poderem ter feito nada, por não me terem convidado para pôr música no momento antes disso acontecer, por não terem aceite o meu convite na semana antes, por não terem ouvido com atenção as minhas palavras naquela conversa. Vão sentir a minha falta nas próximas festas. Depois esquecem. Debruço-me mais e já nem preciso de consolidar forças, tudo me parece excessivamente fácil: acabar tudo, assim, neste momento. Seria perfeito. Debruço-me ainda mais, a rua lá em baixo. Alguém toca o meu ombro por trás, ao de leve, e passa-me um charro, sem falar comigo, está a meio de outra conversa. Recolho a cabeça e aceito-o, com um sorriso lívido. Dou uma passa. Não olham para mim. Passou-me tudo pela cabeça. A música que está a dar agora até não é má. Vou dançar.

quarta-feira, maio 11, 2011

má onda

Rotunda do Marquês de Pombal, sinal fechado, vidros abertos, muito calor em Lisboa. Um homem num carro caro ouve um audiobook em alemão. Tem óculos escuros pretos, cabelo curto, mangas arregaçadas, ar compenetrado no sinal. Deve estar atrasado para dar corda ao mundo dos mercados. Os minutos demoram a passar.
Por detrás desse carro surge o vulto de um sem-abrigo, casaco surrado até aos pés, barbas enormes, um andar altivo que agarra firme um pacote de vinho de supermercado. Não pede dinheiro no semáforo, apenas passa pelos carros como se flutuasse num mundo só dele, que coloca a cidade em suspenso.
Os olhos de ambos cruzam-se no retrovisor e permanecem uns muito breves segundos em contacto. Naquele momento há uma agitação nas rotinas de um e de outro, uma faísca de raiva fatal e eterna atravessa a linha invisível que algures os terá dividido para sempre nas condições de vida.

domingo, maio 08, 2011

“Homenagem a Cara de Cavalo” de Hélio Oiticica



“Bólide – Caixa 18” de 1966, “Homenagem a Cara de Cavalo” de Hélio Oiticica


“Aqui está e ficará! Contemplai seu silêncio heróico.”

“eu quis aqui homenagear o que penso que seja a revolta individual social: a dos chamados marginais. Tal idéia é muito perigosa mas algo necessário para mim: existe um contraste, um aspecto ambivalente no comportamento do homem marginalizado: ao lado de uma grande sensibilidade está um comportamento violento e muitas vezes, em geral, o crime é uma busca desesperada de felicidade.”

Hélio Oiticica, 1980, sobre o seu amigo, o bandido Cara de Cavalo, morto pela polícia.

sexta-feira, maio 06, 2011

o tempo dos assassinos e a pacatez suíça

Cinco dias a ouvir relatos, posições, teses sobre violência urbana e culturas juvenis, América Latina e África. Todas estas pessoas têm uma grande paixão e proximidade pelos objectos das suas pesquisas e isso mudou as suas vidas. E a narrativa geral, se pudéssemos fazer disto a construção de uma memória colectiva como produzem com os seus sonhos os índios Kayowa, que andam a suicidar-se em massa, os nossos imaginários das realidades duras de um mundo fragilizado por podres poderes, não seriam os mais estimulantes...
Entregue ao aleatório, máfias, gangs, polícias, repressão, narco, mutilações, traumas, o tempo dos assassinos que Rimbaud cantava, volta a instalar-se!

Fiquei igualmente bem impressionada com o grau de cordialidade e interesse mútuo que este formato de colóquio proporcionou. Ninguém esteve para aqui a falar e logo a fugir de encontro aos seus compromissos, todos nos ouvimos horas a fio, sugerimos, discutimos, perspectivámos. Num lugar tão inspirador, a palavra transitava de português de portugal, brasil, moçambique, cabo verde e angola para o espanhol do méxico, colômbia, venezuela, e ambos falado por suíços poliglotas e aplicados, sempre com uma harmonia e entendimento incríveis entre todos.
Agora ao jantar, quando circulavam histórias de imigração aqui na Suíça, e cada cantão com as suas manias, estava a pensar que, apesar do lado extremamente controlado e controlador deste país, será talvez esta neutralidade que permite um encontro saudável de realidades tão extremadas.

quinta-feira, maio 05, 2011

descrição

Depois desse encontro parti para a descrição com a certeza de estar ali alguém que, num movimento mútuo, espiava e era espiado, na certeza da cumplicidade que é, apesar de tudo, doseada.
Ele impelia-me à vida por tantas palavras e anteriores caminhos. Então, vamos lá contar.

quarta-feira, maio 04, 2011

desconcerto

Encontro-me num cenário bastante promissor e surrealizante.
Dia de sol, montanhas com picos de neve, lago azul enorme, árvores frondosas, comida glamourosa, corte de ténis, pessoas poliglotas de 4 línguas para cima, uma paz imensa em redor.
Uma semana de retiro no Monte Veritá, Ascona, Locarno, a discutir e pensar sobre violência urbana, drogas e jovens. O tráfico e o crime, de Bogotá ao Rio, da investigação criminal no México às ex-crianças soldado de Moçambique, literatura de favelas, chicas pré-pago, prostitutas transcontinentais, guerreiros urbanos, filmes amadores de luta, saudosos Pixote e Cidade de Deus, jovens guineenses não violentos, Thag life na Praia, peça de teatro sobre putas e assaltos, kuduro e outros que tais.
Neste lugar feito por naturalistas e boémios, carregado de utopias e acolhedor de refugiados, onde passaram temporadas ilustres figuras, como o anarquista Bakunini, o dadaísta Hugo Ball, o pintor Klee, Kandinsky e tantos outros, acredito que nunca terá havido tanto sangue, crime e horror juntos.

traumas da guerra

Na guerra civil em moçambique um grupo de rebeldes chega a uma aldeia e inicia a matança de toda uma família de supostos "comunistas".
Quando foi a vez do filho mais novo perguntam-lhe: "e tu pá, sabes o que é o comunismo?" ao que o miúdo encolheu os ombros assustado e não respondeu.
- não me parece que saibas o que é o comunismo. por isso vou-te dar uma oportunidade de provares que não és comunista e não morreres. toma esta arma, mata o teu pai e podes fugir.
O pai incentivou-o, como qualquer pai faria, deu a vida pelo filho. O miúdo obedeceu-lhe e matou-o dolorosamente.
Esgotado e perdido, a ideia de fugir não fazia sentido para ele.
Para fugir é preciso haver um lugar melhor do que aquele para ir, uma ideia de casa, lugar pacífico.
Isso pode ainda existir para alguém que mata um membro da família?

sexta-feira, abril 29, 2011

essas todas

A rapariga de franjinha vestia um casaco de cabedal vermelho, com outro de capuz por dentro e usava ganchinhos no cabelo, o que lhe dava um ar de menina, de cordeirinho até. Depois de a ouvir defender ideias radicais com ousadia criativa, ganhou para mim uma altivez para lá das fragrâncias de Rivette. Gostei dela por falarmos de coisas improváveis, e o nível de abstracção da realidade superar a minha expectativa, surpreendendo com novas referências e estórias de outras paisagens e paradigmas de pensamento sem nunca ser pretenciosa.
Gostei sobretudo do facto dela não ter medo do ridículo, aquele ridículo que só existe auferido pelos outros, no vício de todos nos sentirmos no direito de julgar ou de olhar de lado. Talvez por ter uma linguagem corporal imediatamente denunciadora das tantas mulheres que a habitavam (e conseguir não encaixar em nenhuma máscara), sabia viver desde logo com essas possibilidades. Ao falar alterava totalmente a figura do seu ar infantil.
Se a associasse às personagens sem rosto das canções de Sérgio Godinho, podia ser uma Etelvina às vezes, outras a Alice nos país dos matraquilhos.

terça-feira, abril 26, 2011

adiar

Atrás de mim, uma parede cheia de fotografias. Cada fotografia um rosto. Os rostos têm a particularidade de usar os mesmos óculos escuros. Todas estas pessoas estão vivas mas algumas parecem semi-mortas. Entretenho-me a pensar num projecto pateta: uma polaróide de todos os amigos tirada no momento de começarem o dia.
As manhãs e a sua energia são promessas diariamente renovadas. Mas depois enfiamo-nos em escritórios, em salas climatizadas, de leitura e administração ou nas grandes reviravoltas da rua e suas distracções. Logo se gasta a esperança produzida pela magia da manhã.
Queria apanhar esse momento antes do desgaste que nos atinge diariamente.
Todas as noites adio pois o momento de começar o dia, não dormindo.

quinta-feira, abril 21, 2011

e foi quase ontem...

O massacre de Sharpeville 1960. A polícia sul-africana dispara contra uma multidão que protestava recusando a obrigatoriedade do uso de passes de identificação pelos negros.

discreta

Na vida dos outros prefiro ser aquela que não provoca estragos.

Já vem de longe a pressão da Europa

Recompensa à China por ter ensinado aos europeus a arte de fazer papel, usar a bússola e fabricar a pólvora: os britânicos saquearam e incendiaram o lindo e antigo Palácio Imperial de Verão e todas as obras de arte do início do império (de mil anos). Seguiu-se um longo período sujeito às exigências de mercadores europeus até à desforra actual.

o Satee

Na Índia a viúva que se lança voluntariamente na fogueira onde arde o falecido marido é uma santa.

Argentina, Angola, Marrocos

Quando os nossos pais andavam excitados a ver a Sónia Braga na Gabriela, noutros países jovens cheios de ideias e de futuro eram levados e fuzilados. Os mesmos anos 70, de prisões, torturas, desaparecimentos, valas comuns, e depois relações imaginárias com os pais.

choro

Ultimamente tenho visto muitas mulheres a chorarem na rua, no metro, na paragem de autocarro, bem cedo pela manhã, ao regressarem a casa. Apetece-me sempre dar-lhes todo o conforto do mundo. Porém, o pudor intromete-se no espontâneo gesto de afecto. Que dizer a uma desconhecida? Que voz será a mais certa para aquela hora? Que dimensão terá esta tragédia privada?
Os anos que passei em Luanda foi o período mais inundado de lágrimas de sempre. Chorei tanto tanto tanto. Lágrimas sempre grossas e convictas. Chorei para lá do razoável. Ou eram problemas amorosos, ou problemas do trabalho, ou salários em preocupado atraso, ou questões burocráticas incompreensíveis, ou a luz que desaparecia meses, ou fugiam-me as perspectivas, invadida por nostalgias antigas, ou a agressividade toda da rua acumulava na falta de conforto - silêncio - da casa agitada onde vivia.
Luanda deixa-me vulnerável a tal ponto que a última vez que lá estive a minha voz sumiu por completo quando perdi o avião de volta para o Brasil.
Aquela cidade provoca o descontrolo persistente.
Por outro lado, acorda-nos forças das quais não nos sabíamos capazes...
Não lido bem com a irracionalidade, não me sei defender dela.
Quando tudo nos ultrapassa e o sistema nervoso não se aguenta àquele ritmo e lógica muito próprios, só nos resta chorar. Menina mimada em terra de duros, tanta gente resistente que já viveu horrores sem nunca se queixar.
Fatalismo à portuguesa, diziam-me.
Lembro-me de ir ler poesia para a Ilha e aquelas palavras doces não pareciam jamais ter existido quando via florescer um mundo de desprezo pelo cidadão. Ou parecer-me patético exigir aos alunos uma subjectividade que eles não poderiam ter nas suas condições de vida.
Não me lembro de ter chorado depois dessa experiência, nem me acontecia muito antes de ir para Luanda.
Uma vez um rapaz viu-me a chorar no meio da rua, na Mutamba. Reparou nessa rara e inusitada entrega à fragilidade. Transtornou-o. Tocou-lhe a exposição. Aquilo, ali, onde todos têm de ser fortes e survivers, tornara-se belo e não triste.
Veio ter comigo e elogiou francamente o meu choro.

Foi o suficiente para conceder ao desespero perante a vida que me ocorria nessa altura o direito universal a sucumbir...

quarta-feira, abril 20, 2011

ainda me acontece

Uma rapariga de trinta e poucos anos a escrever num diário a meio de uma festa tem qualquer coisa de mundo perdido...

cativo

Foi o carrasco do Che que, ao prendê-lo, o tornou um mito.

o X no meu coração

é como o X de Malcom, que simbolizava o nome africano dos seus antepassados que o opressor branco apagara.

por reacção...

Desempenhamos papéis consoante aquilo que nos irrita ver nos outros, muitas vezes contrários, em toda a extensão da nossa bipolaridade, só para fazer vingar o extremo de nós e anular o gesto do outro. É mais ou menos o mesmo mecanismo daqueles que aderem ao Islão político como reacção à futilidade e à falta de sentido da opulência consumista.

terça-feira, abril 19, 2011

os conjuges em Macau

Naquela terra delirante, os jovens crescem com uma ideia deturpada do mundo. Até as portas dos táxis abrem sozinhas.
Estávamos num dos pontos de turismo sexual, com filipinas, tailandesas na montra da rua, em frente ao bar MP3 que, no cartaz, apresentava as novidades russas.
- Aqui rola mais dinheiro no jogo do que nos Estados Unidos inteiros.- exagera um português rendido à adrenalina macaense.
Os tubarões da terra tentavam introduzir o rapaz recém-chegado aos favores sexuais... pagos por eles.
- Não sais daqui sem levar uma massagem nas virilhas! – aliciam-no.
No jantar antes desse momento, com as esposas, eram óbvias as conveniências das relações. A esposa número 1 lembrou:
- Estive 15 dias em Luanda, as pessoas são tão queridas, podem ser pobres mas muito simpáticas. Não sei como vivem naquele musseque com tanto dinheiro e diamantes...
Está há mais de 20 anos em Macau e continua a falar com as empregadas filipinas com o paternalismo-salvaguarda do estatuto senhorial. O esposo é obcecado com a boa vida e todo o tipo de amoralidades, repetindo o lema epicurista: “divirtamo-nos”.
A esposa número 2 faz voluntariado num orfanato e, a propósito de Luanda, lembra-se de contar com voz fininha e sempre à beira do riso, uma sensação excitante:
- Eu uma vez fui a uma festa africana em Lisboa, nem queria acreditar, convidaram-me para dançar e eu muito inocente lá fui. Ai meus deus. Consegui sentir tudo, aquilo foi estranhíssimo. Voltei para casa e disse à minha mãe!
O marido, pessoa bastante inteligente, um operativo encantado com a energia e facilidade de fazer dinheiro em Macau ("o dinheiro do jogo favorece a qualidade de vida da comunidade", é a sua teoria), quase a despreza, despedindo-se com um seco “adeus” sem a olhar. Os homens vão para a noite e obviamente elas vão para casa. Por isso quando a esposa nº 2 aparece imprevisivelmente no bar não é sem desprezo que a recebe e não lhe dirige palavra. Estranho mundo das aparências, ninguém se incomoda com as vidas paralelas e desconectadas, isso faz parte das terras das oportunidades.

Terra Prometida


inútil dizer: o deserto é rosto afogueado de mulher iminência de revelação constelada apocalipse imenso do braseiro; o deserto é ar e areia ar e areia quente e seco;
para lá das areias do Kalahari crescem as árvores brancas: marula, terebinto, espinheiro, imbondeiro - depois da encosta ardente surgem os limites do purgatório
Joanesburgo!
cidade erguida fora do constrangimento terráquio espelho e planalto de luz alterada; atrás das colunas dos geradores eléctricos brancas fábricas torres chaminés lançam-se ao assalto do céu cuspindo labaredas que explodem no azul: ur-tambores de morte…
é o inferno sem Deus
Deus o bureau da Segurança do Estado
Deus de capacete e pasta cheia de ouro e acções selada presa a um braço e no ouro braço o chicote Deus erecto em toda a sua lustrosa glória sobre dorsos de negros imersos no pó
uma granada!
corações vermelhos hão-de rebentar e levar esta sarça ao fogo (convem tirar os sapatos e rastejar sem deixar marcas…)

Enquanto Houver Água na Água e outros poemas, de Breyten Breytenbach tradução de Mário Cesariny, D.Quixote, 1979

terça-feira, abril 12, 2011

solidão

Velhos a quem dá prazer remexer na ferida que só eles sentem, fixando qualquer pessoa que lhes mostre o mínimo de interesse, que os ouça com um pingo de interesse. Normalmente tornam-se vagarosos. Não ouvem, falam a encher o espaço todo e o ouvinte fica estupefacto sem poder contradizer nada porque tem ali à frente uma biblioteca com o peso-pesado da experiência. E isso não se questiona: ficamos pequeninos com aqueles ensinamentos a pesar, quase a esmagar-nos.
Esta é uma característica surpreendente nas pessoas sós. Se se pensa que a solidão destreina a astúcia de falar, não, os solitários aproveitam o interlocutor para se compreenderem, ao ouvir a sua própria voz e matarem saudades de falar. Com a confirmação exterior, o discurso é hiperbolizado e impetuoso, numa auto-comiseração.