quinta-feira, agosto 18, 2011

num bar do Bagamoio, rua do pecado, em Maputo

Ali estavam poços de machismo reunidos a beber cerveja. Braços secos e magros, ar de aldeões transmontanos, barba rala e barrigas de desleixo de Albufeira. Com o olhar descarado, estranham a presença de raparigas não prostitutas e isso excita-os mas incomoda-os.

De cada vez que uma mulher se levanta adivinha-se os comentários borgessos.

Observo aqueles blocos de boçalidade, com ar seboso, risadas perversas e lubricidade atávica, enquanto mãos sapudas enrolam a cintura daquelas meninas saídas de uma fotografia nocturna de Ricardo Rangel. E penso como é afinal reles a presunção de que um miserável dinheiro no bolso lhes dá direito a tratar as pessoas como mercadoria, lhes altera o estatuto, os faz esquecer de onde vêm.

Tudo aquilo é só um quadro clássico das pessoas a fazerem pela vida. Para ser verdadeiramente avessa a estas relações de poder, sem ceder ao moralismo perante uma forma como qualquer outra de dar azo ao desejo, uma troca de interesses, um instrumento de obtenção de ganhos, seria preciso repensar muito para lá desta óbvia observação. Como outrora, este é o jogo de domínio do dominado perante o dominador. O sexo será sempre, nestes cenários, a pedra de toque que manda às urtigas o nosso empirismo paternalista.

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