sábado, agosto 20, 2011

música de resistência

Na Luanda dos anos 90, em plena guerra civil, o pessoal embriagava-se e a música ajudava a espantar a dor. O próprio lamento tornou-se um género musical, de tal maneira as coisas estavam associadas. Toda a música urbana, e sobretudo o semba - nas vozes de Carlitos Vieira Dias, Carlos Lamartine, Carlos Burity, Lourdes Van Dunem, acompanhadas pela Banda Maravilha, Waldemar Bastos, Filipe Mukenga, Nani, Irmãos Kafala e o jovem Paulo Flores, além do sucesso internacional de Bonga - cantava a dor da guerra mas também uma promessa de vida para além da paisagem arrasada, onde se semeava morte no interior. Nos Coqueiros, Ingombotas, Bairro Operário, Rangel e Marçal lá se iam recriando e recuperando músicas marginalizadas no tempo colonial, como os Ngola Ritmos haviam feito. Também se ouvia merengue, rumba, kazukuta e kilapanda. Traduziam-se músicas cubanas, e aquela animação histérica salsera apesar de desconexa com as sombras em que se vivia, era essencial. O filme Mopiopi de Zézé Gamboa é um grande documento sobre esta época: os loucos que deambulavam por Luanda, a desorientação de um país que se pensava na exaustão das suas forças e ainda levou com mais 16 anos de guerra em cima. Neste ambiente, o filme mostra bem o que pode a música como suavizante e resistência, essa forma de lutar sem armas que pode ser a melhor luta.

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