sábado, agosto 20, 2011

mundo macho em luanda

No ginásio do Teatro Elinga, com a luz semi-apagada, os rapazes cantam em várias tonalidades enquanto experimentam vozes. Fumam picas consecutivamente, falam com calão cheio de si próprios, mexem-se de acordo com uma postura aparentemente inabalável, defendem condutas e moralidades, não prescindem dos sinais homofóbicos (apesar da cena gay entre si, socialmente reprovável mas praticada às escondidas) e reiteram o comportamento talibã com as raparigas (inquietos se as suas damas falam com rapazes, por ser tão incomum a convivência mista).

Deprimo-me. Longas horas mergulhada na cultura macho onde não há homens inseguros nem delicados. Ouço histórias repetidas, ânimos exaltados sobre filiações intermináveis e discursos que articulam os acontecimentos da História de Angola com as vidas comuns. A raça sempre vem à baila (os mulatos são arrogantes, preto tem um peso depreciativo, os brancos são para desconfiar e por aí a fora em milhentas variáveis). Somos espectadoras e sómente nesse papel valorizadas. Aqueles rapazes precisam de mim ou de outra qualquer para dar sentido ao espectáculo daquilo que contam, pois, ainda assim, as mulheres devem conseguir fingir simpatia pela retórica desconexa e extravagante, aborrecida.

Mesmo que queira ir embora, não há saída possível para a redoma de cerveja, picas, música – tudo enquadrado no grande assunto de sempre, Angola, um assunto intenso, inesgotável e sempre vibrante. Vou ficando. Resta-me um pensamento fugaz, pouco novo e super sexista: o mundo seria um monstro desdentado e malcheiroso sem as mulheres.

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