sábado, agosto 20, 2011

guerra infinita

O meu tio esteve nos rangers. Escondeu durante anos fotografias a preto e branco de pequeno formato entre as meias de inverno: numa delas está com uma arma e pretinhos à volta, que sorriem ao lado do soldado. Guardou também as poucas cartas em aerogramas que mandara para a mulher, mas não as dela que ficaram perdidas por lá. Ela escrevia-lhe frequentemente para o palco de guerra, ele respondia raramente, com medo de morrer e de a deixar num profundo desgosto de amor. Escrevia duas ou três palavras com poucas letras, mas eram palavras fundamentais. Ela usava todas as palavras, mas nem o seu vocabulário tampouco o abecedário eram suficientes. Ele sorria com as confidências infantis dela, mas os seus segredos da guerra não podia contar, nem o medo, então remetia-se a um quase silêncio. Tinha partido antes de mais por vontade de sair do cerco das tias, do montado alentejano onde o pai se suicidara amarrado a um chaparro, deixando cinco filhos e uma data de dívidas, apostas e negócios furados. Os bagaços por rotina apresentavam-se ainda inodoros para ele, o mais novo dos irmãos convicto em desejar uma vida diferente. Veio para a Mocidade ganhar dinheiro, só tinha o 5º ano e passou directo, de moço da mocidade, para a guerra pelas abstracções Pátria - Império. Por lá andou a fazer-se homem e a beber cervejas, nos intervalos do capim e do saque às palhotas. Quando voltou dos ultramares, conheceu comovido a filha que lhe fora copiosamente documentada à distância. Já a minha tia, mal o viu, estranhou a sua própria descrença quanto ao amor que julgara tão sedimentado, mas calou-a logo e para sempre, pois tinha esperado eternidades, escrito cartas apaixonadas e construído cenários mentais de fotonovelas e era mulher de um homem só. A guerra tinha-lhe conferido a missão de edificar uma normalidade e experimentar um romantismo imberbe. Quando o foi buscar ao porto, sentiu na pele a frase ainda não batida na altura: ele não era a mesma pessoa que conhecera antes de partir. Voltou com diarreias, pálido, cheio de restrições alimentares, a ter de passar temporadas no hospital, acompanhado de livros pois estudava à noite para vir "a ser alguém". Voltou sem o brilho nos olhos e com agressividades imbecis. Voltou cheio de imposições e senhor de mundividências com as quais interiormente ninguém concordava. Casaram, porém. E ela tornou-se auxiliar social e trabalhou na linha de Sintra a dar assistência aos dramas de tantos outros que também vinham de África, mas em circunstâncias diferentes. E nos momentos mais difíceis lembra ainda nostálgica o rapaz que, muitos anos atrás, no Alentejo, se embebedara para lhe pedir namoro debaixo de uma janela.

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