quarta-feira, maio 11, 2011

a varanda da Maianga

A varanda é comprida e espaçosa ainda que não muito larga, cabem muitos sapatos e roupa estendida. Mal acabada de estender já a poeira se acumula, Luanda não dá tréguas. No parapeito despontam os vestígios das noites passadas: beatas, repelente de mosquitos, latas de cerveja, velas quase gastas, uma harmónica, betadine e objectos não tão identificáveis assim.

Corre ao comprido da varanda uma austera grade verticalmente regular com um pequeno quadrado central onde cabe, à risca, a cabeça para espreitar, para respirar, ou oferecê-la a uma invisível guilhotina.

Em todos os apartamentos de Luanda figura esta herança da guerra: as grades.

A tarde morre numa laranja quente entre o desenho de nuvens baixas. Quanto mais o vermelho se esbate mais o azul feltro escuro traz uma outra cidade de peso nocturno.

Nesta varanda misturam-se expressões bem alfacinhas com os sotaques de Angola e Brasil numa ininterrupta conversação baseada em especulações, conspirações mas também em experiência de vida. Pode ser o utópico fim do capitalismo, o novo império chinês, a circuncisão dos miúdos na Lunda ou o espaço para uma nova galeria. Tudo é motivo para debate e opiniões.

Apesar de se planar num altivo oitavo andar, o som da rua chega cá acima com acutilante proximidade e envolve-nos nessa capacidade acústica de diferenciar os pormenores urbanos. De manhã os ruídos irrompem cedo no quarto e nos sonhos. A visão recai logo nos prédios e casas baixas entre os prédios com seguranças à porta. À noite o alto edifício de um banco com escritórios acesos sem ninguém lá dentro, e um cubo giratório a luzir que pornograficamente insulta a falta de luz cá em casa. Um cartaz gigante com holofotes bem apontados ostenta uma mulata sorridente que vende o rosto à mensagem: “o fim do mês é quando eu quiser”.

[Faz-me lembrar uma manifestação em Lisboa dos Felizes da Fé, precisamente contra o fim do mês. O slogan deles: “este mês está tão bom, porque é que tem de acabar?”. Do marketing bancário para a reivindicação criativo-situacionista é um passo de gigante, mas assim é o nosso cérebro, azado nas associações livres.]

Os guindastes e os prédios em construção não descansam. O hospital militar liga com a praça da revolução, um gesto dos russos a Angola desproporcional mas inacabado, com o mausoléu a apontar para o céu as suas pontas de lança afiadíssimas. O reservatório de água da zona presidencial faz inveja a quem não tem água. O trânsito infernal ruge, entre apitos de polícia, carros a estamparem-se e a voz do cobrador dos candongueiros. De uma casa perto do prédio costuma vibrar uma música “erudita” que se distingue da cacofonia. Se me concentrar melhor posso ouvir somente as sonatas e cantatas, os allegros ma no troppo que dão um pouco da tão desejada paz.

Duvidei sempre se essa música realmente existia... apenas um arquétipo de harmonia?

E hoje é Domingo à tarde e «In to my arms» de Nick Cave reveste o apartamento de uma poética bruta. Volto a reparar na luz do entardecer que entra pela varanda gradeada deste oitavo andar. A casa está toda em desalinho, é o dia seguinte a uma festa de grandes confrontos de personalidades, fricções atómicas de egos, onde se discutiu e se dançou, afinal muito livremente. A enorme feijoada na qual investimos tantos mil kwanzas e mão-de-obra qualificada azedou durante a noite - nem sempre há a sobriedade desejada para lembrar de pôr a comida no frigorífico. Alguém escreveu palavras indecifráveis com pasta de dentes e fuck you com baton na casa-de-banho. Na mesa onde jantámos jazem as beatas dos cigarros fumados entre risos.

Os bêbados desapareceram subitamente mas deixaram vestígios. Dois corpos abandonados ao chão, uns braços negros descansam, os pássaros dançam em bandos com indiferença por cima do mausoléu.

Os tempos de vida em comunidade sobrevivem numa frágil harmonia: as personalidades, por mais extravagantes que possam ser, encaixam numa palavra, na abordagem certa, no gesto caricato, seguram-se os papéis que cada um tem de desempenhar para criar um entendimento, o limite da possível convivência.

Dissipou-se essa dinâmica quando partimos, e um certo tipo de confronto, com o qual já sabíamos lidar e fugir.

Habitada normalmente por um desespero emocional, alegrias ao limite e gestos selvagens, chegámos, por vezes, a conseguir estar em paz nesta casa. Nunca a monotonia. Era a nossa varanda da Maianga.

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