quarta-feira, maio 11, 2011

a tasca da rua das portas de sto antão

Ao lado da montra recheada de panados, pastéis de bacalhau, filetes, sandes de carne assada, de omelete, folhas de alface pendentes, uma fotografia de um leitão e outra de um caracol gigante em nada apetitoso, estão dois homens branquinhos de sobrancelhas carregadas, a beber imperiais e a queixar-se das próprias tascas com argumentos surreais:

- O problema do país é não haver uma ficha técnica do rissol de camarão!

- Queres petisco? Come bifanas. À vontade do camone, o que está a dar é comida italiana. Não há nenhum sítio onde um gajo possa dizer: estes tipos sabem ganhar dinheiro, sabem gerir uma casa.

Portugal é o país com mais concentração de opinião por m2 e menos acção consequente.

- Claro, mas não podemos avaliar um país pelos seus governantes, nem pela trolaroika. Envelhecemos muito, somos poucos.

O dono da tasca é o típico português que faz piadinhas sem graça. Ainda ecoam nele as referências da casa portuguesa e dos evaristos tens cá disto ou dos malucos do riso. Envelhece agarrado ao dinheirinho, não vão elas tecê-las. E não é que têm tecido?

Duas mulheres noutra mesa falam do trabalho e das colegas como autênticas peixeiras, sempre na má língua, muito convictas nos seus argumentos zangados. Mas há outro debate inflamado na mesa de jovens vestidos de preto:

- Então e porque é que no cinema português se representa tanto o sofrimento?

Um rapaz dessa mesa dos de preto, umas frases à frente, diz:

- Há dois modelos de malta que está a viver isto: os de direita cada vez mais conservadores, sem grandes questões existenciais, preocupados mas aproveitando o balanço para lixar os mais fracos. E os de esquerda, chateados, assistindo ao espectáculo da redução das liberdades sem levantarem o rabinho da esplanada ou do computador e a achar que não é nada com eles.

Não sei qual das conversas prosseguir...

1 comentário:

beijo de mulata disse...

Tens é de sair daí rapidamente, que já se viu que aí não se aprende nada...