sábado, maio 21, 2011

Nil

Uns dias em Barcelona dá para calibrar a nossa Europa em processo de desmoralização com uma réstia de resistência. Atravessamos quarteirões e quarteirões de consumo passando em avenidas largas, museus, lado a lado com turistas bronzeados. Lojas, comida e cultura nas ruas. Umas só com restaurantes paquistaneses e outras só com roupa gótica. A atitude desprendida pode comprar-se com a roupa original, sem falta de opções para as várias tribos urbanas. A onda alternativa é, não raras vezes, a norma. Dinheiro e património escandalizam tanto como as muitas pessoas que andam a pedir. Os serviços, organizados e funcionais, pedem desculpa a toda a hora pelas “moléstias” ao consumidor.
É que tudo apela ao consumo.
- Esta cidade é uma caricatura de si própria. - diz o meu amigo Nil quando o vou visitar.
Nil leva-me às festas da Grácia, bairro de resistência republicana. A meio do concerto punk, ainda a festa está a acontecer, com festival de fogo e batuque, e logo vem o carro de limpeza arrumar tudo, como qualquer graffiti será irremediavelmente apagado para logo ressurgir noutra parede. Nessa diversão organizada, os jovens têm caras do mundo inteiro e falam sonoramente do alto da sua postura "curto bué".
A felicidade [bem-estar + conhecimento] ao acesso de muita gente.
Isto é o melhor que uma cidade pode ser.
Não sei, porém, que tipo de coisas verdadeiramente podem acontecer aqui.
Gosto muito das conversas com o Nil, sentimentos, projectos, disparates, temos sempre coisas a dizer. Uma rapariga exibe, ao sentar-se, as cuecas cor-de-laranja (é sexy mostrar constantemente as cuecas) e isso desencadeia toda uma conversação sobre engates, também na linha do consumo.
Nil é assim um Bukowski mal amanhado, faltam-lhe a gravidade e a verdadeira decadência, mas cultiva o gosto do engate desligado, que representa exactamente o mesmo esforço ou a mesma indiferença com que bebe um copo de cerveja. Lá se seguem uma e outra rapariga, bonitas nouvelle vague, aprendizes “eu-não-sei-nada-sobre-isso-mas-adorava-saber”, sem qualquer mácula pós-coito para ele. Umas vezes são apenas histórias de casa de banho, outras frutos dos mais laboriosos jogos de contenção até chegar ao limite do 'tem de ser'.
O pânico de se apaixonar, é que em acontecendo contrariaria a vida que escolhera aí.

Sem comentários: