sexta-feira, abril 29, 2011

a memória da música

Existe gente para quem tudo é apenas imagem, o significado das coisas reside no potencial da imagem, como esta remete para uma outra realidade. Para estes, por exemplo, a imagem de uma mulher a carregar um cântaro de barro tem apenas um valor estético, a recriação de um ambiente, o décor para um filme e nunca o gesto real que existe pela sua necessidade e sua precisa medida: ter de andar a acarretar água num quotidiano que exige esse gesto para sobreviver.
Se não houver uma imagem, como podemos lembrar e ganhar interesse?
A memória histórica é adquirida nas salas de cinema e nos romances. Se não houvesse um Kusturika e as fanfarras, quem teria interesse pelos Balcãs, regime de Tito, guerra da Jugoslávia, nacionalismos actuais? Seriam lugares povoados de paisagens deformadas pela arte redutora dos telejornais.
A memória pode ainda ficar selada pelo mais idiota objecto: as meias brancas do Michael Jackson foi o que me ficou da sua imagem.
Mas o mais impressionante é a recordação musical. A voz do Ildo Lobo potencia-me a recordação total de um fragmento de vivência, fá-lo ganhar dimensão, como um grogue ressequido mas ainda assim saboroso. Reviver as coisas pela música leva-nos ao que foi desde a primeira hora especial, consegue superar a limitação da mera recordação. Memórias adoráveis e impartilháveis, que podem fugir distantes depois de perdida a intensidade. Com o poder da música, estamos totalmente entregues ao lado emocional. A música e vestígios da paixão (às vezes dava por si a organizar as lembranças em função dos namorados, livros e filmes), a mais preciosa mutação das migalhas do passado.

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