terça-feira, abril 26, 2011

expats

A primeira vez que a realidade da indústria do desenvolvimento me entrou pelos olhos adentro, foi de forma quase obscena, em Luanda.
Era uma espécie de festa Erasmus, mas sendo trintões aquele intercâmbio cultural parece ainda mais plástico e a excitação mais patética. Reparo que, estranhamente, estas pessoas não têm muito para partilhar, forçam gestos e palavras para se manter activa uma certa noção de juventude. De alguma forma, têm consciência da desadequação da sua condição de vida, mas representam o melhor que sabem. Todos p'rali à volta de uma mesa, belo repasto na casa de umas simpáticas raparigas que me convidaram a um fraterno encontro de expatriados.
Com o meu mau jeito característico, pergunto o que fazem os presentes, pergunta-bengala para pôr as pessoas a falar. O rapaz bem gordo trabalha na luta contra a fome, o moreno na luta contra a sida, a rapariga alemã na luta contra a pobreza, o espanhol nos médicos sem fronteiras, o tuga no banco, a francesa pelas crianças órfãs, o cooperante italiano na alfabetização, o inglês numa empresa de desminagem, a sul-africana apoia o intercâmbio na arte contemporânea, o sueco desenvolve sistemas de distribuição de água, o arquitecto desenha o realojamento do musseque para bem longe do centro da cidade e os observadores de eleições observam eleições que vão sendo continuamente adiadas.
Depois dessas elucidadas e aborrecidas referências sobre aquelas pessoas, já bastante incrédula, ainda tive de ouvir a voluntária alemã que tomou o meu tempo com um longo e enfastiante relato sobre como se sentia bem em "ajudar as pessoas". Para terminar aquela sessão de confidências assistencialistas, pergunto-lhe afinal como era a sua vida no seu país, ao que ela automaticamente responde:
- boring!
e logo anuncia o seu fascínio por África e por países como o Brasil:
- É lá que está a vida!
Aquela formulação deu-me assim um aperto no coração. Não queria comungar do desespero dos jovens europeus. A falta de identificação para com a Europa, um Ocidente diferenciado do resto do mundo com ressentimentos exaltados por esse paraíso artificial que outros tanto desejam. Sobretudo estes jovens viciados em deslumbramentos alheios ao seu mundo, porém bem aliados a uma posição de poder que sempre cultivam, exactamente para que a sua vida ali não passe de um deslumbramento fátuo e uma conta bancária a crescer proporcionalmente aos pretextos humanitários que evocam para justificar toda a sua miséria humana.

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