Segunda-feira, Novembro 30, 2009

pergunta a jovens moçambicanos

Se pudessem, o que mudariam no mundo? 
Duas respostas surpreendentes: acabava com o assédio dos professores às alunas; aumentava o salário dos polícias e dos médicos que têm a nossa vida nas suas mãos.

pq são poucos africanos a passar férias em países africanos?

Resposta: para ver misérias basta-nos as nossas.

piada machista

- Conheces a Raimunda? feia de cara e boa de bunda...

este filme é-me familiar no presente

Catembe de Faria de Almeida foi o filme que sofreu mais cortes por um organismo de censura na história do cinema. Era a primeira interpretação crítica da realidade colonial, não propriamente uma crítica ao colonialismo. Mostrava um quotidiano de Lourenço Marques desconhecido. Ninguém sabia como as pessoas aqui viviam, que pessoas, como pensavam, como se divirtiam e quais os seus problemas. O essencial é que mostrava o contraste entre a vida de prazer dos brancos e de trabalho dos negros.


Quarta-feira, Novembro 25, 2009

as linhas que cosem a vida

Ajuntamentos de mulheres com ar cansado e farnel bem preparado, aguardam à porta do Hospital Central pela hora de visita aos maridos e filhos. Mais à frente da av. eduardo mondlane, na cervejaria Goa, grupos só de homens conversam e bebem alegremente. No espaço destes homens não há preocupação com os outros no imediato, para aquelas mulheres os outros ocupam-lhes todo o espaço e tempo. 

Sábado, Novembro 21, 2009

everybody talks about the weather

Porque é que as diferenças nos fascinam tanto? E o facto de nos adaptarmos a elas é um motivo de orgulho. Dizemos como uma espécie de provocação, com naturalidade: “ai sim? aí está frio? bom, por cá faz uma chuva tropical… gotas grossas e muito calor!”

antónio de xai xai

António tem 12 anos e vende na praia de Xai Xai, litoral moçambicano. Enquanto tira da sacola o que o avô esculpiu em pau preto e sândalo conta que vai à escola da parte da tarde, já sabe falar inglês e corrige o professor, também sabe português e arranha um pouco do afrikaans. O pai morreu, a mãe e irmão estão na África do Sul, o avô em Inhambane. Em Xai Xai vive com uma tia que ganha na venda numa barraca. Ele fala dos boers obsessivamente como se lhes devesse tudo, não gosta muito deles mas um ofereceu-lhe uma bicicleta e já o levou a passear noutras terras. António uma vez conquistou o coração de uma branca chamada Marta. O pai dela foi refilar mas ele tinha a seu favor o facto de ajudá-la muito na escola - a arma do conhecimento. Na praia arrasta-se com um ligeiro coxear da perna direita. Repete várias vezes: “mas eu ainda sou novo. Tudo pode mudar.”

pedra sobre pedra

A raça é uma invenção humana para dar consistência científica ao racismo, servindo o projecto colonial de dominação de uns povos por outros. Mesmo assim, percebendo a origem do preconceito de raça e tratando-se de uma estratégia tão maquiavelicamente bem montada, não o entendo. Tal como por muito que a gente estude e saiba as razões que antecederam e estão na base do colonialismo continua a ser uma perplexidade pensar num homem branco a vir por aí afora munido da ignóbil missão de ocupar tão vasta terra e mandar em gentes já tão afirmadas. E mais absurdo ainda é a arrogância actual de achar que sabe mais e vive melhor ao continuar a impor os seus códigos para serem assimilados.
Será que os homens incumbidos de povoar e reconstruir mundos à sua imagem tinham noção, na hora de erguer a primeira pedra, do processo que desencadeavam, da possibilidade de estarem a construir ou destruir civilizações fortíssimas e cidades imensas?

Quinta-feira, Novembro 19, 2009

riso como combate

Manifestações na Índia onde as pessoas se juntam em grandes multidões para largarem em uníssono uma valente gargalhada. Desatam a rir para mostrar o descontentamento por determinada figura ou medida social. Nas manifestações antiglobalização há que ser o mais original e criativo possível.

Em África também se dança e ri tanto que só pode ser uma forma de protesto.

estranhos anglo-saxónicos de passagem

Na fila central do avião fico no meio de uma senhora de Detroit, muito simpática e com dentes artificiais ou, pelo menos, com aquela brancura suspeita dos dentes americanos e de uma mulher e um velho escocês com aquela saia de xadrez, o kilt. Os dois bebem gin tónico e, a cada palavra do velho, a miss replica: Sorry? além de não atinar com o menu do ecrã do avião, indo o tempo todo a olhar para o mapa de África a ver as terras que sobrevoamos.

A americana mostra-me fotografias de leões in the bush. Oh! It’s amazing! Very interested!

Mais à frente um casal de ingleses com caras de ratinhos falam como se tivessem a politness entranhada em cada palavra.

Os filmes do avião: acção, drama, mulheres-objecto, de certeza que não passam aquele que aborda a questão da troca de órgãos por passaportes em Londres.


dejectos do colonialismo

ilustração de Margarida Girão

Num desses lugares frequentados por gente bem, onde os negros são serviçais, a advogada portuguesa conta:

"O meu avô descobriu o Tofo, iniciou o empreendedorismo turístico ao fazer caça submarina, percebeu o potencial daquilo, percebes?

Estou a tentar recuperar o património da família. A lei moçambicana não dá direito à terra, só podes recuperar o que não foi nacionalizado e ocupado.

Descobri que queria voltar à terra natal quando fui ao nordeste brasileiro com os meus pais, parámos a olhar e pensei: isto é África sem pretos!"


Depois voltou com um salário e contrato chorudos e até acaba por reconhecer: “pois é, eles são pobres e nós contribuímos para a pobreza deles. É isso que torna África interessante.”


não me parece

graças à dominância da internet neste século os regimes totalitários perdem impunidade.

para a estação Joanesburgo, 4 da manhã e o sueco

Partilhamos taxi com um miúdo sueco de 20 anos que esteve seis meses a passear por Moçambique à conta do Estado socialista do seu país que acha que os jovens antes de irem para a faculdade devem viajar, pensar na vida, ganhar experiência, pesquisar, ajudar África. Fala de tudo o que viu com uma ingenuidade irritante: Quelimane, Niassa, Ilha, andou à boleia, dormiu numa Igreja, esteve em escolinhas a dar lanche às criancinhas e tão malandras não faziam nada sem receber o lanche e depois adradeciam muito. Ai que giro! Assustadora falta de espírito crítico. A mim já me está a irritar profundamente esta pequena viagem de táxi até ao aeroporto num carro desconjuntado com um motorista do Soweto, simpático mas que mal fala inglês, com um cheiro a gasolina que quase sufoca. Não dá para parar no meio da pista e o sueco às 4 da manhã não se cala com o seu deslumbramento por África. 

no machimbombo maputo-joanesburgo

Na camioneta nocturna que atravessa vários musseques e casinhas pela estrada, duas mulheres falam doce e riem muito. É indecifrável o que dizem, só reconheço o estalo de língua da língua Xhosa. Nas vidraças chove e vê-se alguns sinais vermelhos. Na fronteira os moçambicanos pagam para sair do seu país, nós pagamos para entrar. 

Lembro as imagens de há uns anos dos milhares de moçambicanos clandestinos deste mesmo percurso, abarrotados nos comboios a tentar entrar na África do Sul. Recambiados tentam de novo, vítimas de xenofobia recambiados, vão de novo.

Terça-feira, Novembro 17, 2009


Gallantry and Criminal Conversation, Yinka Shonibare, 2002 

Segunda-feira, Novembro 16, 2009

o peso da família

- Hoje não posso. Sabes como é a família africana, tenho parentes que nunca mais acabam e passo a vida a cumprir obrigações familiares.

falávamos dos sudacas em Espanha

Não, nunca senti qualquer espécie de descriminação em Espanha, a não ser as habituais bocas:
“És da Colômbia? Quanto trouxeste de coca?”

Quarta-feira, Novembro 11, 2009

hoje comemora-se a independência de Angola!

era a própria presença decadente daquela tropa de ocupação alheia até ao próprio núcleo colonial português e ao seu próprio produto humano, com tanto mulato que ela incluía e branco também já nascido ali, que traduzia a insustentável situação colonial em que o governo dos portugueses, contra o interesse dos próprios portugueses, mesmo daqueles que eram ali colonos, insistia em manter encalhadas as colónias a que se aplicava, para enganar os próprios portugueses, a designação eufemística bacoca de províncias...

A Terceira Metade, Ruy Duarte de Carvalho

desabafo do escritor com duas amigas numa casa de montanha em Springbok sobre a sensibilidade masculina e feminina

A minha poesia tem uma grande componente feminina, estou grávida de ideias.
O que está inscrito primeiro, o modelo ou o programa do corpo? devemos aceitar que o biológico e cultural acabam por ser uma e a mesma coisa.
Só vos invejo essa coisa de criar filhos na barriga, de resto gosto de ser homem porque é mais fácil.

Segunda-feira, Novembro 09, 2009

todas as perspectivas

Fumo um cigarro à varanda, a observar Maputo de um 19º andar e de como a cidade se combina de tantas perspectivas. A dificuldade de escolher uma faz-me pensar na pintura chinesa. Para nós, ocidentais, a perspectiva é das coisas mais importantes, para os chineses não interessa muito: se a maneira chinesa de ver o mundo inclui a perspectiva de todos porque se há-de escolher apenas uma? Na China a pintura não tem um objectivo de fruição estética mas serve para criar vazio, meditação.

Lisboa, Paris, Luanda, Moscovo, Berna, Maputo, Faro, Edimburgo 2000 e mais coisa menos coisa

ilustração de Margarida Girão
É o primeiro dia do mês e tenho uma caneta nova. Não sinto qualquer desejo de novidades, não quero saber dos afazeres, são demasiado ruidosos e estão sempre a mudar. Ou da felicidade, que fica imediatamente esquecida mal se sai de dentro dela, como quando se sai do mar ou do sexo - não chega para ser memória.
Quando me vou embora, e estou sempre a ir embora, inaugura-se outra comunicação mais perene com as pessoas. Afasta-se o ruído como que por magia. As partidas permanentes fazem-me ver pelos outros ou, pelos meus olhos, ver o mar de muitos outros.
A vida anuncia-se por correspondência já que não se encontra o lugar certo para estar, afinal encontrado sempre mas sem capacidade para decidir ficar.
Nem que sejam só umas palavras, curtas e poucas, gostava de escrever uma carta uma vez por mês, para o coração saber como viver. Pode ser a continuação de um poema, garrafas cheias de dor, ciúmes, gritos e sofrimento, com música, inferno e segredo. Uma espécie de crimes contra mulheres que no entanto recusam ser vítimas. Cadelas cor-de-rosa à procura de um mapa interior.

Para onde vão as palavras quando as deixamos? Lançam-se como flores negras.
(folha de sala para porque na noite terrena sou mais fiel que um cão do Teatro do Vestido)

Sexta-feira, Novembro 06, 2009

receptáculos usados para transportar droga

Forro das malas, instrumentos musicais (guitarras, jambés), fruta (por ex. ananás), chouriço, pasta de dentes, barriga.

Quarta-feira, Novembro 04, 2009

cartaz na fronteira moçambique - áfrica do sul

 Lá porque uma pessoa se acostuma a um problema nao quer dizer que ele deixe de existir.


Terça-feira, Novembro 03, 2009

quem vê tv

Grande parte da humanidade vive fora da influência dos media e não tem qualquer razão para preocupar-se com as manipulações mediáticas ou a má influência dos meios de comunicação de massas.

Na América Latina e em África, a principal e quase única função da televisão é divertir, por isso não esperam uma interpretação séria do mundo, o que equivaleria a esperá-la de um circo.

Há televisores em quase todos os bares, restaurantes e hotéis. As pessoas têm o costume de ir ao bar para tomar um copo e ver televisão. E a ninguém ocorre a ideia de que esse meio seja sério ou que tenha uma função educativa e informativa.

Richard Kapushinski

Segunda-feira, Novembro 02, 2009

exposicão assexuada

Quem financia os videoclips da MTV só pode ser o Vaticano, não há nada mais assexuado do que aquilo. - disse o Alberto Pimenta há uns anos na RTP 2

o que doi mais?

Estou indecisa entre as expressões: “repressão" ou "violência musculada”.

a cópia original

Já no século XVIII ouvíamos a voz indignada do estrangeirado Cavaleiro de Oliveira contra o marasmo cultural em Portugal: “nada de novo lá entra que não tenha já envelhecido em outros países”. Que cansadas e velhas me soam as vozes desmoralizadas de hoje que se deixaram afectar até à medula pela contagiosa melancolia e sempre se queixam “este pais é uma merda”.
Os modelos políticos, arquitectónicos, educacionais e as próprias opiniões têm sempre um sabor a cópia sem interessar indagar de onde vem o original. Com a globalização e tão fácil reprodução de modelos, retraímo-nos cada vez mais na vontade de “fazer disparates”, ou seja, tentar inventar do nada. Retiramo-nos da jogada porque outros fazem sempre melhor que nós.
Somos receptivos e interessados no mundo dos outros porque achamos condição necessária para que alguma opinião venha a vingar em Portugal. Esta, por sua vez, deve ser aprovada na constatação da sua eficácia anterior e assim se pode encaixá-la, com algum ruído. O processo é simples e eficaz, não se tem muito trabalho em inovar porque o que há a fazer é uma adaptação, duvidosa, à nossa realidade.
Tento encontrar o mérito da circulação de influências que tem origens históricas, sendo uma das nossas peculiaridades a facilidade de recebermos e assimilarmos as dos outros. Gosto sobretudo da maneira como as podemos conjugar, como crianças que montam as peças do lego e brincam aos achados arqueológicos do que já é demasiado vulgar para ser raridade. Gosto do facto de nos movimentarmos (ainda que às vezes apenas virtualmente) e de não nos fecharmos nas nossas certezas, orgulhosos na ignorância e sós na limitação.
Para não haver uma sobreposição de modelos culturais sem cumplicidade com a nossa cultura, devíamos perceber o que vale a pena, cultivar uma sensibilidade para avaliar o que tem qualidade e recusar o que é simples lixo disfarçado de tendência e, portanto, de consumo obrigatório. Devíamos perder essa vulnerabilidade de aceitar tudo que nos dizem que é bom. E de ficarmos muito excitados com a mínima diferença cultural, o que nos permite abeirarmo-nos apenas de clichés sem fundo. Não gosto do argumento de que as coisas no estrangeiro são melhores à partida ou à chegada. Não gosto de quem vai estudar, trabalhar ou de férias lá fora e volta escandalizado a reparar em todos os pormenores de um Portugal atrasado e, com uma arrogância verdadeiramente pimba, despreza uma série de coisas interessantes pondo tudo no mesmo saco. Como se de repente tivesse acordado só por efeito da comparação. É bem certo, sei-o tão bem, que muito está por fazer a nível da seriedade e competência, a nível da formação, serviços, das imensas mentalidades que ainda sofrem de graves preconceitos, mesquinhez, pequenez e recalcamentos. Por isso mesmo é que custa que se desvie o caminho com essas mesmas insuficiências importadas sob outros rótulos. Por isso mesmo é que acho disparatado perder-se energia a divulgar e a impregnar referências culturais de tão baixo nível e desadequadas em vez de se tentar alcançar uma exigência à nossa medida, com alguma autenticidade, coisa que existe precisamente na combinação inteligente entre culturas.

a exaltacão das pequenas coisas

É preciso não desconfiar, de acordo com o desajuste dos antecedentes, de tudo o que nos deslumbrará para a frente, tocando os frágeis fios do encantamento.
Como o suave adormecer de um gato, as mãos na terra vermelha, o intenso sabor das provocações, a luz que atravessa a paisagem.
A busca de identidade é uma procura de segurança através de integração. Faz-se por sobreposição de imagens da comunidade e dos seus participantes. Mas a gente passa a vida a pretender criar uma identificação com a imagem que pretendemos de nós próprios. É por isso que a maternidade é uma forma de auto-identificação, uma busca da imagem ou de identidade com todo o sentimento de segurança que ela facilita. Não é por acaso que a maternidade e a pátria são imagens tão correspondentes.
José Cardoso Pires