Segunda-feira, Novembro 30, 2009
pergunta a jovens moçambicanos
pq são poucos africanos a passar férias em países africanos?
Resposta: para ver misérias basta-nos as nossas.
este filme é-me familiar no presente
Catembe de Faria de Almeida foi o filme que sofreu mais cortes por um organismo de censura na história do cinema. Era a primeira interpretação crítica da realidade colonial, não propriamente uma crítica ao colonialismo. Mostrava um quotidiano de Lourenço Marques desconhecido. Ninguém sabia como as pessoas aqui viviam, que pessoas, como pensavam, como se divirtiam e quais os seus problemas. O essencial é que mostrava o contraste entre a vida de prazer dos brancos e de trabalho dos negros.
Quarta-feira, Novembro 25, 2009
as linhas que cosem a vida
Ajuntamentos de mulheres com ar cansado e farnel bem preparado, aguardam à porta do Hospital Central pela hora de visita aos maridos e filhos. Mais à frente da av. eduardo mondlane, na cervejaria Goa, grupos só de homens conversam e bebem alegremente. No espaço destes homens não há preocupação com os outros no imediato, para aquelas mulheres os outros ocupam-lhes todo o espaço e tempo.
Sábado, Novembro 21, 2009
everybody talks about the weather
antónio de xai xai
pedra sobre pedra
Será que os homens incumbidos de povoar e reconstruir mundos à sua imagem tinham noção, na hora de erguer a primeira pedra, do processo que desencadeavam, da possibilidade de estarem a construir ou destruir civilizações fortíssimas e cidades imensas?
Quinta-feira, Novembro 19, 2009
riso como combate
Manifestações na Índia onde as pessoas se juntam em grandes multidões para largarem em uníssono uma valente gargalhada. Desatam a rir para mostrar o descontentamento por determinada figura ou medida social. Nas manifestações antiglobalização há que ser o mais original e criativo possível.
Em África também se dança e ri tanto que só pode ser uma forma de protesto.
estranhos anglo-saxónicos de passagem
Na fila central do avião fico no meio de uma senhora de Detroit, muito simpática e com dentes artificiais ou, pelo menos, com aquela brancura suspeita dos dentes americanos e de uma mulher e um velho escocês com aquela saia de xadrez, o kilt. Os dois bebem gin tónico e, a cada palavra do velho, a miss replica: Sorry? além de não atinar com o menu do ecrã do avião, indo o tempo todo a olhar para o mapa de África a ver as terras que sobrevoamos.
A americana mostra-me fotografias de leões in the bush. Oh! It’s amazing! Very interested!
Mais à frente um casal de ingleses com caras de ratinhos falam como se tivessem a politness entranhada em cada palavra.
Os filmes do avião: acção, drama, mulheres-objecto, de certeza que não passam aquele que aborda a questão da troca de órgãos por passaportes em Londres.
dejectos do colonialismo

Num desses lugares frequentados por gente bem, onde os negros são serviçais, a advogada portuguesa conta:
"O meu avô descobriu o Tofo, iniciou o empreendedorismo turístico ao fazer caça submarina, percebeu o potencial daquilo, percebes?
Estou a tentar recuperar o património da família. A lei moçambicana não dá direito à terra, só podes recuperar o que não foi nacionalizado e ocupado.
Descobri que queria voltar à terra natal quando fui ao nordeste brasileiro com os meus pais, parámos a olhar e pensei: isto é África sem pretos!"
Depois voltou com um salário e contrato chorudos e até acaba por reconhecer: “pois é, eles são pobres e nós contribuímos para a pobreza deles. É isso que torna África interessante.”
não me parece
graças à dominância da internet neste século os regimes totalitários perdem impunidade.
para a estação Joanesburgo, 4 da manhã e o sueco
Partilhamos taxi com um miúdo sueco de 20 anos que esteve seis meses a passear por Moçambique à conta do Estado socialista do seu país que acha que os jovens antes de irem para a faculdade devem viajar, pensar na vida, ganhar experiência, pesquisar, ajudar África. Fala de tudo o que viu com uma ingenuidade irritante: Quelimane, Niassa, Ilha, andou à boleia, dormiu numa Igreja, esteve em escolinhas a dar lanche às criancinhas e tão malandras não faziam nada sem receber o lanche e depois adradeciam muito. Ai que giro! Assustadora falta de espírito crítico. A mim já me está a irritar profundamente esta pequena viagem de táxi até ao aeroporto num carro desconjuntado com um motorista do Soweto, simpático mas que mal fala inglês, com um cheiro a gasolina que quase sufoca. Não dá para parar no meio da pista e o sueco às 4 da manhã não se cala com o seu deslumbramento por África.
no machimbombo maputo-joanesburgo
Na camioneta nocturna que atravessa vários musseques e casinhas pela estrada, duas mulheres falam doce e riem muito. É indecifrável o que dizem, só reconheço o estalo de língua da língua Xhosa. Nas vidraças chove e vê-se alguns sinais vermelhos. Na fronteira os moçambicanos pagam para sair do seu país, nós pagamos para entrar.
Lembro as imagens de há uns anos dos milhares de moçambicanos clandestinos deste mesmo percurso, abarrotados nos comboios a tentar entrar na África do Sul. Recambiados tentam de novo, vítimas de xenofobia recambiados, vão de novo.
Terça-feira, Novembro 17, 2009
Segunda-feira, Novembro 16, 2009
o peso da família
falávamos dos sudacas em Espanha
“És da Colômbia? Quanto trouxeste de coca?”
Quarta-feira, Novembro 11, 2009
hoje comemora-se a independência de Angola!
A Terceira Metade, Ruy Duarte de Carvalho
desabafo do escritor com duas amigas numa casa de montanha em Springbok sobre a sensibilidade masculina e feminina
O que está inscrito primeiro, o modelo ou o programa do corpo? devemos aceitar que o biológico e cultural acabam por ser uma e a mesma coisa.
Só vos invejo essa coisa de criar filhos na barriga, de resto gosto de ser homem porque é mais fácil.
Segunda-feira, Novembro 09, 2009
todas as perspectivas
Lisboa, Paris, Luanda, Moscovo, Berna, Maputo, Faro, Edimburgo 2000 e mais coisa menos coisa
Quando me vou embora, e estou sempre a ir embora, inaugura-se outra comunicação mais perene com as pessoas. Afasta-se o ruído como que por magia. As partidas permanentes fazem-me ver pelos outros ou, pelos meus olhos, ver o mar de muitos outros.
A vida anuncia-se por correspondência já que não se encontra o lugar certo para estar, afinal encontrado sempre mas sem capacidade para decidir ficar.
Nem que sejam só umas palavras, curtas e poucas, gostava de escrever uma carta uma vez por mês, para o coração saber como viver. Pode ser a continuação de um poema, garrafas cheias de dor, ciúmes, gritos e sofrimento, com música, inferno e segredo. Uma espécie de crimes contra mulheres que no entanto recusam ser vítimas. Cadelas cor-de-rosa à procura de um mapa interior.
Para onde vão as palavras quando as deixamos? Lançam-se como flores negras.
(folha de sala para porque na noite terrena sou mais fiel que um cão do Teatro do Vestido)
Sexta-feira, Novembro 06, 2009
receptáculos usados para transportar droga
Forro das malas, instrumentos musicais (guitarras, jambés), fruta (por ex. ananás), chouriço, pasta de dentes, barriga.
Quarta-feira, Novembro 04, 2009
cartaz na fronteira moçambique - áfrica do sul
Lá porque uma pessoa se acostuma a um problema nao quer dizer que ele deixe de existir.
Terça-feira, Novembro 03, 2009
quem vê tv
Grande parte da humanidade vive fora da influência dos media e não tem qualquer razão para preocupar-se com as manipulações mediáticas ou a má influência dos meios de comunicação de massas.
Na América Latina e em África, a principal e quase única função da televisão é divertir, por isso não esperam uma interpretação séria do mundo, o que equivaleria a esperá-la de um circo.
Há televisores em quase todos os bares, restaurantes e hotéis. As pessoas têm o costume de ir ao bar para tomar um copo e ver televisão. E a ninguém ocorre a ideia de que esse meio seja sério ou que tenha uma função educativa e informativa.
Richard Kapushinski
Segunda-feira, Novembro 02, 2009
exposicão assexuada
a cópia original
Já no século XVIII ouvíamos a voz indignada do estrangeirado Cavaleiro de Oliveira contra o marasmo cultural em Portugal: “nada de novo lá entra que não tenha já envelhecido em outros países”. Que cansadas e velhas me soam as vozes desmoralizadas de hoje que se deixaram afectar até à medula pela contagiosa melancolia e sempre se queixam “este pais é uma merda”.Somos receptivos e interessados no mundo dos outros porque achamos condição necessária para que alguma opinião venha a vingar em Portugal. Esta, por sua vez, deve ser aprovada na constatação da sua eficácia anterior e assim se pode encaixá-la, com algum ruído. O processo é simples e eficaz, não se tem muito trabalho em inovar porque o que há a fazer é uma adaptação, duvidosa, à nossa realidade.
Tento encontrar o mérito da circulação de influências que tem origens históricas, sendo uma das nossas peculiaridades a facilidade de recebermos e assimilarmos as dos outros. Gosto sobretudo da maneira como as podemos conjugar, como crianças que montam as peças do lego e brincam aos achados arqueológicos do que já é demasiado vulgar para ser raridade. Gosto do facto de nos movimentarmos (ainda que às vezes apenas virtualmente) e de não nos fecharmos nas nossas certezas, orgulhosos na ignorância e sós na limitação.
a exaltacão das pequenas coisas
José Cardoso Pires



