Sábado, Julho 18, 2009

lei do ruído

Já não há vida nos bairros burgueses por causa dos vizinhos. Estórias dos vizinhos, toda a gente tem uma, e há aquela hora da noite em que se começa a contá-las, cada uma mais sinistra que a anterior. Técnicas cada vez mais apuradas de controlar a nossa vida e nos roubar a liberdade: medem os decibeis para ter um comprovativo de que se pode passar multa. É foda! 

Nos países onde ainda existe algo que se parece com uma forma descontraída de se viver, ninguém ousa meter-se nesse assunto. A lógica é bastante simples: umas vezes tu outras vezes eu. E somos felizes!


por onde começar? lição de escrita nº 1

Se uma imagem dispara ideias uma ideia dispara imagens. Deve-se trabalhar a ideia até descobrir as forças contrapostas que lá estão contidas, e cada pessoa é expressão disso. As duas pessoas devem estar em confronto mas também unidas por agum tipo de laço, forte, significativo. 

Quarta-feira, Julho 15, 2009

ainda há

Gente que faz o que pode para sobreviver sem que disponha nem das ferramentas, nem dos materiais, nem das lógicas, instituições, gramáticas, falácias que são as da ocidentalidade de quem manda, domina e dispõe.
RDC, A Terceira Metade

aqui inverno

Gosto do Verão, quando as vespas se fazem ouvir na cidade e a brisa do mar vem pelos intervalos dos prédios. As saias leves das raparigas, as peles douradas e as cabeças aéreas. Quando começa aquele borburinho nas cervejarias ao fim da tarde, entre imperiais, tremoços e chamuças, o prenúncio da bebedeira... Era quando tinhas as melhores tiradas.

Quinta-feira, Julho 09, 2009

culpa

Os pais e professores são sempre culpados de pecados terríveis apenas porque são pais e professores, diz o Mishima.

metafísicas

Enquanto fazia cócó a criança confessa-me: “estou desconfiado que o mundo não existe e estamos todos no céu, somos todos imaginação.”

a atracção dos opostos

 O rapaz falava com excitação de política americana pós-Obama. A rapariga ouvia-o embevecida sem comentar, com aquele ar orgulhoso de aprender muitas coisas com o seu namorado. Depois é a vez dela falar com excitação do seu trabalho de actriz  - a dificuldade de “deitar cá para fora aquele texto” e de entrar nas personagens com convicção. O tom psicanalítico não deixa de aflorar. Porém, além dele não saber o que dizer sobre o que ela conta, fica encabulado com os seus gestos alargados e expressões intimistas.

Domingo, Julho 05, 2009

africanistas...

Os ocidentais sempre alcançaram o continente africano para o devolverem como linguagem, no processo de revelar mais sobre si próprios do que propriamente do lugar onde estão. O discurso africanista (termo de Christopher Miller, na esteira de Foucault e Said) projecta os desejos ocidentais na apreensão ilusória de uma "ardósia em branco" de África.

formação de uma consciência

Aimé Césaire explica que começou pela mesma interrogação de sempre. “Éramos atormentados pelas mesmas angústias e, acima de tudo, ficávamos deprimidos pelos mesmos problemas… a nossa juventude não era banal… Era marcada pela lancinante questão, quem sou eu? Para nós, não era uma questão de metafísica, mas de vida a viver, de uma ética a criar, e de comunidades a salvar. Tentávamos responder a esta questão. No final, a nossa resposta foi a Negritude.”