Quarta-feira, Maio 20, 2009


Namibe, fotografia de Kiluanji Kia Henda

Terça-feira, Maio 19, 2009

reconhecimento

Apesar de andar distraída com a felicidade, reconheço a incapacidade de ser plena.
E também a imbecilidade das mulheres, sempre insatisfeitas com o que lhes faz bem.

duas praias do coração

Deitada na praia da Costa, sinto-me estranha: esta não é a minha praia!
Apesar de não ser lá uma grande praia, estou habituada à ilha de Luanda. É uma praia-casa-escritório ou libertação-do-stress-da-cidade-nervosa. Uma praia de passar quase todos os dias um bocadinho.
Gosto da sensação de estar lá longe noutro continente a pensar Lisboa e as pessoas de Lisboa. E também de esquecer que este mundo do lado de cá existe.
Naquela praia não há estas ondas nem surfistas nem prédios feios atrás. É estranha a familiaridade de quando pisei as areias da Costa me sentir quase lá, de caipirinha e sandes de frango com maionese na mão, com a musicalidade do sotaque angolano e os corpos viçosos em redor. Lembro-me nitidamente de certas vozes e das conversas com gargalhadas pois ir à praia é como ir ao café, pode-se sempre surgir.
Nesta praia da Costa, em vez dos africanos, tugas, chineses, brasileiros, russos, vendedores de panos e colares, estão uns senhores barrigudos com ar de que a frequentam há muitos muitos anos e que se calhar até estiveram em África 'noutras circunstâncias'. Se calhar também nostálgicos disso, como eu, mas das 'outras circunstâncias'.
Não reconheço esta praia a não ser pelo que me transporta para a outra de Luanda. Leva-me ao calor da areia, e à água-caldo-morno, imagem do azul, sempre a nostalgia de uma costa atlântica de onde apetece partir, a solidão muitas vezes, o livro que conseguia absorver melhor, a pele que “emorenece” amante.

rituais

Gostava de ser uma pessoa mais ritualística. Sou em poucas coisas, mas bem precisas: momentos de solidão necessários, escrever no caderninho, tomar café sozinha, cozinhar alguns pratos, trabalhar muito, gostar de estórias secretas, ter pés em vários mundos.
Lembro-me daqueles prazeres simples que tinham os meus avôs quando ia lá almoçar: espremer o sumo de laranja, fazer um bolo de chocolate, bater as natas para os morangos. Durante a manhã cozinhavam os pratos do costume: empadão de carne com esparguete ou frango assado com arroz gratinado com rodelas de chouriço. Depois, se não repetisse no mínimo cinco vezes, ficavam ofendidos e achavam que eu não tinha gostado do repasto. Depois ofereciam-me uma nota (ainda em escudos), descia o elevador e cá de fora virava-me sempre para o alto daquele prédio de Benfica pois o ritual de acenar era indesculpável dispensar. A minha avó morreu, e o avô continuou a fazer isso. A falar menos, mas o prazer simples era o de me ter presente a partilhar / assistir aos seus rituais de solidão.

Quinta-feira, Maio 14, 2009

voar dentro da China

Aviões enormes cheios de chineses com óculos e os seus laptops. Jornal em chinês, grande, com as notícias da crise financeira, que ainda era só da América. Sabem bem que o mundo está a mudar e eles são agentes dessa mudança. De repente o avião para Guangzhou onde houvera um grande tufão, começa a dançar em assustadoras turbulências. Por momentos todos pensamos que vamos morrer. Sobretudo quando o rosto das hospedeiras está, cada vez menos disfarçadamente, alarmado, e o chá e a coca-cola caem no corredor do avião. A visão da morte atravessa-nos todos, brancos e horrorizados. Só queria dar as mãos suadas. A única coisa que me podia reconfortar: morrermos juntos.

“espera lá pá, tenho de escrever isto”

Coleccionar momentos. Passear por uma cidade qualquer:
uma mulher espera o autocarro e angustia-se como vai pagar as despesas escolares do filho;
um rapaz de i-pod lembra-se do campismo do verão;
uma rapariga tem um casaco vermelho e mãos nervosas, vai amanhã ser operada.
Mas eu não sou o anjo das asas do desejo!
Ouvir uma pessoa a falar e querer anotar a situação em que ela está a falar. É a situação, os gestos, não o que está a dizer, que me interessa.
O sabor da maçã é melhor do que a descrição do sabor da maçã?
Memórias adoráveis, cultivadas, para manter vivas as pessoas e os momentos. Lembrar o tempo para trás, amarrar os gestos, para que estes não sejam só acidentes de percurso e nos façam crescer. Dói-me às vezes recordar de forma tão preciosista e acumular, não deitar nada fora do que se viveu.
“A verdadeira substância de um diário não são os acontecimentos exteriores mas a evolução moral da pessoa que escreve” diz o Villa-Matas no Mal de Montano.
Posso escrever todas as banalidades, até as rachas do tecto que observo, o que interessa e depois fica é um estado momentâneo que reflecte mais do que está ali, mais do que espuma dos dias que fica grudada de uma página para a outra.
Gostava mais de coleccionar insólitos.

Quarta-feira, Maio 06, 2009

sms matinal

O Império está fechado vou para o Astro que é perto do Pão de Açúcar.

só nos resta


fotografia de Kiluanji Kia Henda

Só nos resta ser dos mais obstinados, manter a imaginação durante mais tempo, viver segundo os nossos próprios termos, tratar a realidade como um horizonte de expectativas incertas e contingentes, crescer com obstinação e resistência. Pois é da capacidade de nos recriarmos, de escrever com uma nova linguagem, abrir os braços ao presente e à curiosidade que mexe, que nasce o poeta forte.

iman

Uma declaração de guerra é como uma declaração de amor. Estamos em pé de igualdade com o inimigo, quando nos elevamos ou rebaixamos fazemo-lo em função do outro.

também podia ser ao contrário

A tua alegria é o reduto de uma triste desarticulação com a vida, é um estado constante e não um estado de graça. Preferia ver-te chorar, irritavas-me menos.

chatices

Deve ser muito constrangedor viver com um mau poeta, saber isso e não lhe poder dizer.

1973

Ano da morte de combatentes idealistas políticos. Em Portugal nesse ano os jornais diziam que a PIDE era uma invenção e a política ultramarina era um exemplo de respeito pelos direitos humanos.
Que vaidade de pensar que compreedemos as obras do tempo: ele enterra os seus mortos e guarda as chaves. Só nos sonhos e na poesia, nos jogos - acender uma vela e andar com ela pelo corredor - é que por vezes nos aproximamos daquilo que fomos, antes de ser isto que não sabemos se somos.

Julio Cortazar, O Jogo do Mundo

Observação Directa

Ama-se aquilo com que se cruza, mulher, paisagem, caminho, ou porque evoca emoções sabidas ou porque é novo e vem casar com a busca, com o que se adivinha, e é pressentido a sós, e só talvez assim.

Ruy Duarte de Carvalho

Sábado, Maio 02, 2009

jocosidade à portuguesa

Na tasca às 11h da manhã os homens trabalhadores cantarolam e pedem o primeiro favaios do dia enquanto se metem com o homem do café:
- Então Zé, sentes-te bem?
Resposta: - Só me vou sentir bem quando tiver cem anos!
- Já falta pouco Zé.
- Já não falta metade.

grandes poemas do Auto-ajuda

Sabia demais.
Mataram-no.
Sabia tudo.
Suicidou-se.


** *** **

O poeta puramente imagético
disse como se fosse um funcionário da EPAL
justificando a sua visita:
vim para contar a água.


Tiago Gomes