sexta-feira, outubro 30, 2009

no hospital do Mindelo

Em Cabo Verde estive 15 dias internada no hospital. Foi uma experiência reveladora, longe de casa mas tão em casa. O ritmo do hospital é fabuloso, está tudo bem encadeado, os turnos, os antibióticos, as canjas insípidas, os soros, os ruídos e silêncios. A luz branca que acendem violentamente a meio do sono (uma vez uma enfermeira acordou-me à 1 da manhã para cravar um telefonema). É impressionante a importância do pormenor para que tudo funcione ou se aproxime do conforto. Ir compondo a mesa-de-cabeceira com os objectos devidamente necessários, tais como coisas várias de higiene, roupa, toalha, garrafas de água, livros, discos, os fones que não funcionavam, telemóvel, sumo, iogurtes, lençol. E é tudo. Tudo muito dependente do exterior e de teres alguém que cuide de ti e te vá trazendo as coisas numa reciclagem diária. Como fazem os solitários que não têm ninguém, entregues aos serviços do Estado indiferente? 

Ocupava o tempo com livros e pensamentos para que nada fosse desperdício, com a nossa velha amiga ansiedade, a tentativa de nunca perder tempo. Revolvia as memórias mais longínquas e ínfimas para me entreter, fazia cronologias e atribuía ligações aos factos e tentativas de justificação para tudo. Sentia-me quase preparada para morrer se fosse preciso. Olhava para as três crioulas do quarto que dormem o dia todo e se aborrecem sem nunca se queixarem. O arrastar dos seus rabos protuberantes. Filhas do tédio, lidam bem com a espera, o silêncio e a inacção. Que horizontes serão possíveis para elas, que nunca saíram nem vão sair da sua ilha e dos seus rituais de pobreza? Não sei bem o que é dizer do mundo senão uma coisa tão privada. 

1 comentário:

Ausente disse...

E quando é que voltas a Luanda??