sexta-feira, outubro 16, 2009

cidade-monstro

Duzentas mil pessoas por dia deslocam-se para as cidades à procura de melhores condições de vida. Entram naquele estado meio alucinado que há nas grandes cidades, uma mistura de exaustão com conquista de liberdade, que consome as energias do indivíduo, com laivos de alienação e hipertrofia. Lutar todos os dias por um dever cumprido, adormecer muitas vezes em transportes, não ter dinheiro nem tempo para o lazer, viver em favelas ou musseques ou bairros sociais, mas pertencer à família anónima das grandes cidades. À família dos 30 milhões de Tóquio, Cidade do México, Seul, Nova Iorque e São Paulo, triste família sem destino que ostenta, no entanto, aquele ar ousado, seguro e descomprometido que há nas cidades. 

Os japoneses assalariados das empresas, guerreiros de fatos escuros que trabalham e trabalham e trabalham longas horas sem parar, e ainda vão aos bares com clientes e ao karaoke fingindo-se divertidos. Que chegam a casa tarde demais e as suas esposas angustiadas e sonhadoras olham para eles como perfeitos estranhos de quem nem conhecem o cheiro. 

Há uns anos deambulava por Paris e não gostava da sensação de viver ali. Sentia-me sempre à deriva mas não uma deriva política e literariamente interessante. Era uma deriva de perder tempo, de fugir de mim própria. A arrastar-me pelo metro, residências, idas ao cinema, a preguiça de ir para a faculdade no subúrbio e ouvir falar de flics e das turbulências da noite passada no metro logo às 8 da manhã. A odiar os operários, os turistas e umas almas penadas que andam pela rua das cidades europeias a animar a burguesia entediada. Os cantores de fanfarra, os homens-estátua, dançarinos de tango, pintores de calçada, os flautistas punks, os bonés, as barbas, as roupas coloridas, os cães e as maracas. 

Há qualquer coisa de gasto na Europa, sobretudo na ideia de conforto e no descuido com que se almeja a alegria, muito cenário, avenidas rectas e coisas que se intrometem nos gestos, supostamente para facilitar a vida. 

Os habitantes das cidades andam nostálgicos mas bem apetrechados com um telemóvel, um cartão multibanco, às vezes mochila e ténis. Parecem saber muito bem para onde vão e de onde vêm. Andam em círculos nos seus afazeres, apanha metro, muda a linha, desce escadas, pega outro transporte, ver aquilo, no fim-de-semana aqueloutro, sentar no café a ler os jornais e as opiniões alheias que farão conversa amanhã. Tudo faz parte do jogo de existir cheio de regras para cada singularidade e suas imensas vestes que camuflam esse ser solitário.  


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