terça-feira, maio 19, 2009

rituais

Gostava de ser uma pessoa mais ritualística. Sou em poucas coisas, mas bem precisas: momentos de solidão necessários, escrever no caderninho, tomar café sozinha, cozinhar alguns pratos, trabalhar muito, gostar de estórias secretas, ter pés em vários mundos.
Lembro-me daqueles prazeres simples que tinham os meus avôs quando ia lá almoçar: espremer o sumo de laranja, fazer um bolo de chocolate, bater as natas para os morangos. Durante a manhã cozinhavam os pratos do costume: empadão de carne com esparguete ou frango assado com arroz gratinado com rodelas de chouriço. Depois, se não repetisse no mínimo cinco vezes, ficavam ofendidos e achavam que eu não tinha gostado do repasto. Depois ofereciam-me uma nota (ainda em escudos), descia o elevador e cá de fora virava-me sempre para o alto daquele prédio de Benfica pois o ritual de acenar era indesculpável dispensar. A minha avó morreu, e o avô continuou a fazer isso. A falar menos, mas o prazer simples era o de me ter presente a partilhar / assistir aos seus rituais de solidão.

1 comentário:

t disse...

tenho saudades de acenar cá de baixo. e ver as cabeças brancas lá no topo a encolher com a distância.