domingo, março 29, 2009

a vida-paródia do Mindelo

Na festa de Carnaval as perucas, cuecas com gabardina, cristas cor-de-rosa e azuis, olhos com sombra prateada, brasileirada alternada com zouk, tinham um mundo próprio. Invadimos o terraço perante a perplexidade de quem acaba de chegar, largando a dançar depois de observar. Na nossa mira pessoas bonitas, crianças, adolescentes sensuais, mulheres de trinta na fúria de viver com aquela amargura canalizada para outra coisa. Ali estávamos em harmonia, numa ilha de corpo humano, longe dos mecanismos das cidades, das capitais, de onde circula o poder e a alta cultura. À nossa medida, a vida desenrolava-se apenas nas voltinhas à praça nova e ao coreto. A namorada nova do estrangeiro, os desatinos de casais com que nos envolvíamos involuntariamente, as intrigas dos meios pequenos, eram um reflexo da imensa atenção que dávamos uns aos outros. O mundo chegava-nos apenas dos filmes de Domingo no cinema Éden e de um ou outro viajante que ali estacionava mas rapidamente passava a percepcionar a sua vida naquela dimensão de ilha para e com aquelas pessoas, nada mais interessava.

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